terça-feira, abril 23, 2013

A VOLTA TRIUNFAL DOS STOOGES, SOB O COMANDO DO HOMEM-BOMBA IGGY POP


Iggy Pop é, sempre foi, e sempre será uma força da natureza. Para o bem ou para o mal.

Seu nome verdadeiro é James Newell Osterberg. Acaba de completar 66 anos de idade em excelente forma. O apelido Iggy vem de sua primeira banda de rhythm & blues, The Iguanas, onde cantava e tocava bateria, arrepiando a noite de Detroit em meados dos anos 60. Levava tão a sério sua vocação de baterista que caiu fora de Detroit por uns dois anos para se escolar com os mestres do blues em Chicago. Mas acabou voltando a Detroit. Foi quando criou essa persona hiperativa, completamente ensandecida, que resiste bravamente nos palcos do mundo inteiro até hoje: Iggy Stooge, mais tarde Iggy Pop..

(uma curiosidade que revela muito sobre ele: em 1968, a Elektra Records enviou a Detroit um A&R Man encarregado de contratar o MC-5 e mais alguma outra banda interessante que calhasse de ver por lá – e foi aí que Iggy descobriu que não só havia espaço para outsiders como ele e os Stooges na Indústria Fonográfica como ainda receberiam dinheiro para gravar um disco, algo que jamais haviam imaginado.)

Em apenas 3 LPs – ‘The Stooges” (1969), “Funhouse” (1970) e “Raw Power” (1972) – os Stooges viraram lenda, e por muito pouco não naufragaram num coquetel de autodestruição que envolvia drogas pesadíssimas, automutilação e explosões de demência -- que culminaram num salto mortal que Iggy deu de um palco com 7 metros de altura em direção à platéia, condenando-o a uma temporada longa num hospital e sua banda ao completo colapso.



Iggy, obviamente, teve que rever sua postura artística daí em diante.

Graças a seu amigo David Bowie, que o orientou nesse processo, ele conseguiu se reinventar de forma inusitada no disco “The Idiot” (1976), produzido e composto em parceria com Bowie, onde olhava para o passado com um distanciamento carinhoso que foi vital para ele naquele momento.

Basta dizer que, na Bolsa de Apostas de Londres, Iggy era então o artista de rock and roll mais cotado como o próximo a fazer companhia para Jim Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin.

Pois bem: Iggy sobreviveu e, depois de uma temporada debaixo das asas de Bowie, voltou ao rock and roll rasgado em uma seqüência de discos fulminantes e perigosos. Só que agora sem drogas, sem sacrifício humano nos palcos, e com sua persona hiperativa completamente sobre controle.

Lembro de vê-lo ao vivo em meados dos anos 80 num show no saudoso Teatro Bandeirantes, em São Paulo, em que simulava situações de auto-mutilação no palco, mas sem jamais perder o controle sobre a teatralidade de sua performance.

E então, com o passar do tempo, Iggy foi-se transformando numa figura que desafiava os modismos mercadológicos propostos pelas gravadoras por onde passou. Fazia o que bem entendesse em seus discos, desde flertes abertos com o jazz até incursões pelo hip-hop, claro que sem jamais perder de vista seu indômito espírito roqueiro.

Até que, em 2003, para surpresa geral, recrutou dois de seus velhos parceiros nos Stooges -- os irmãos Ron e Scott Asheton – para reviver a velha banda em duas ou três tournées vigorosas, como nos velhos tempos, e gravando juntos o disco de estúdio “The Weirdness” em 2007. A recepção foi calorosa, tanto de crítica quanto de público.

Mas infelizmente, nesse meio tempo, em 2009, o baixista e guitarrista Scott Asheton foi encontrado morto em sua casa, e, diante disso, Iggy and the Stooges caíram numa encruzilhada. Que só se resolveu dois anos atrás, quando finalmente conseguiu convencer o guitarrista original da banda, James Williamson -- que desde os anos 80 não queria mais saber de fazer tournées -- a reassumir seu velho posto.


E agora, eis que temos os velhos Stooges de volta, em um novo LP bem debochado entitulado “Ready To Die”, que Iggy afirma ser -- e é mesmo! -- uma seqüência natural de “Raw Power”, repleto de números tão básicos e truculentos quanto os que compunham aquele clássico bolachão de 1972.

Basta olhar os nomes dos rocks que abrem o disco novo para sentir a pegada forte dos rapazes: “Gun”, “Burn”, “Sex & Money” e “Job”. Um mais intenso e vigoroso que o outro.

Mas “Ready To Die” vai muito além de uma sequência de rocks violentos e debochados. Traz também baladas como “Beat That Guy”, com certeza uma das melhores composições de Iggy em toda a sua carreira, e a delicadíssima “Unfriendly World”, que poderiam perfeitamente fazer parte dos últimos dois álbuns solo do “chansonier” Iggy Pop.

Iggy, sempre muito bem humorado, andou dizendo por aí que a volta dos Stooges não é motivada exclusivamente por dinheiro, e sim pelo prazer em reunir velhos comparsas que ainda tem muito som e muita fúria para proporcionar não só a seus velhos fãs quanto a toda essa molecada que está descobrindo o rock viceral que a banda esboçou mais de 40 anos atrás só agora.

Bom, nem precisava.

As 10 faixas de “Ready To Die” falam por si próprias.

Dificilmente algum outro artista (ou grupo) veterano conseguirá aparecer com um disco tão urgente e tão implacável quanto este em 2013.

Já quanto à foto da capa, com Iggy vestido de homem-bomba sob a mira de uma arma pesada, pode até ser considerada de mau gosto por alguns -- mas, para mim, é a melhor capa de um disco de rock and roll em muitos e muitos anos.


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quarta-feira, abril 17, 2013

BETTYE LAVETTE COMEMORA 50 ANOS DE CARREIRA E BRILHA ABSOLUTA, FINALMENTE.


A cena do Northern Soul -- a soul music produzida em Detroit, Philadelphia e Nova York -- sempre foi particularmente cruel com seus cantores e cantoras.

A maioria desses artistas surgia em compactos sob a tutela de algum produtor linha dura, também compositor, ou ligado a alguma editora musical que provia seus associados com canções de encomenda providenciadas por compositores de aluguel.

Não era fácil conseguir crescer neste meio selvagem.

Nenhum produtor fazia apostas de médio e longo prazo.

Um único compacto que não emplacasse nas paradas já dava motivo para que devolvessem ao anonimato um cantor ou cantora recém-anunciado como "the next best thing in showbiz".

Capitalismo selvagem, mesmo.

Uma situação diametralmente diferente da que acontecia com a soul music produzida no Sul dos Estados Unidos, em Memphis e New Orleans, onde artistas não eram tratados de forma descartável, não eram tão subjulgados a produtores quanto no Norte, e até podiam eventualmente participar do processo criativo de seus próprios discos -- o que sempre resultava num produto final mais autêntico e menos empacotado de acordo com as regras das Paradas de Sucesso.



Pois bem: Bettye LaVette surgiu com sua voz ríspida e encorpada na área de Detroit no início dos anos 60.

Curiosamente, foi descartada logo de cara por Berry Gordy, da Motown, que era praticamente dono da cena musical soul da cidade.

Mas -- ora, ora, vejam só! -- chamou a atenção dos irmãos Nesuhi e Ahmet Ertegun, da Atlantic Records em Nova York, que viram nela uma possível sucessora para Ruth Gordon e um futuro promissor.

Só que Bettye, no entanto, não se entusiasmou muito com a possibilidade de se perder em meio ao extenso elenco de rhythm and blues da Atlantic, e achou por bem não ficar muito tempo por lá, seguindo em frente e testando outras possibilidades em selos independentes como Scepter, Calla, Roulette e Silver Fox -- que, infelizmente, só proporcionaram a ela sucessos efêmeros com compactos de sucesso regional.

Assim, ela viu os anos 60 passarem, e nada de muito substancial acontecer em sua carreira, enquanto Aretha Franklin, Tina Turner e Dionne Warwick reinavam quase absolutas na cena soul nacional.

Saiu atrás do prejuízo nos início dos anos 70, e aceitou um convite de Arif Mardin para retornar à Atlantic Records. Era uma empreitada que tinha tudo para dar certo: contaria com o apoio de um produtor brilhante, condições de trabalho perfeitas, e alguma liberdade na escolha de repertório. Mas depois de dois compactos mal sucedidos comercialmente, que deveriam servir de escada para um LP que já estava pronto para ser lançado, a Atlantic declinou, não lançou o Lp e a dispensou de seu contrato.

Para Bettye foi o inferno. Ela ficou tão decepcionada com esse malogro que praticamente desistiu de sua carreira fonográfica. mudou de mala e cuia para a Broadway, e tratou de ficar quietinha por lá, trabalhando como cantora em musicais e tocando a vida em frente, sem decepções, durante quase 30 anos.

Perto da virada do século, Bettye decidiu retomar sua carreira de cantora, e conseguiu algumas datas pela Europa. Uma gravadora alemã se interessou em lançar um disco dela gravado ao vivo por lá, "Let Me Down Easy", que acabou sendo lançado também nos Estados Unidos por um selo independente.

Foi aí que os americanos finalmente a "descobriram".

Não eram poucos seus predicados artísticos seus predicados. Ela lembrava Mavis Staples na escolha de repertório, se aproximava de Etta James e Tina Turner no timbre vocal, e tinha um domínio de cena que lembrava Marlena Shaw e Cissy Houston. Só faltava cair nas mãos do produtor certo.

Foi quando conheceu Joe Henry, iniciando uma parceria que começou brilhantemente em "I've Got My Own Hell To Raise", presença em praticamente todas as listas de melhores discos do ano de 2005.

De lá para cá, ela não parou mais de gravar, surgindo a cada dois anos com mais uma pequena obra-prima, sempre mais marcante que a anterior.



'Thankful n'Thoughtful" é seu mais recente trabalho.

Saiu no finalzinho do ano passado, foi incluído na minha lista de Melhores de 2012 para o Jornal da Orla, mas não chegou a ser comentado aqui, por escrito. Uma falha imperdoável da minha parte, da qual tento me redimir agora, por conta das comemorações de 50 anos de carreira desta cantora magnífica.

'Thankful n'Thoughtful" é um disco bem mais orgânico e menos temático que seus trabalhos anteriores. Aqui não há mais nenhuma preocupação em criar um projeto de alto gabarito para servir de veículo para o talento de Bettye. O talento e o bom senso artístico de Bettye é que comandam o show. E tudo funciona às mil maravilhas.

Não há muito mais o que dizer sobre ela e o disco a título de apresentação -- e não vou ficar comentando canção por canção, até porque todas as escolhas que ela fez são perfeitas, e os arranjos providenciados por Joe Henry e os músicos envolvidos no projeto estão impecáveis, sempre privilegiando um toque de country-soul sulista que é deliciosamente atemporal.

Ainda assim, não vou resistir à tentação de destacar a releitura soul que ela fez para "Everybody Knows This Is Nowhere", de Neil Young.

É uma pequena obra-prima.

E dá a dimensão exata da grandeza artística de Bettye Lavette.

Vai entender porque deixaram que uma artista do porte dela sumisse do mapa por tanto tempo.

Por sorte, de agora em diante, isso não vai mais acontecer.




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domingo, abril 14, 2013

A SELVAGERIA DOS REPLACEMENTS ESTÁ DE VOLTA. POR UMA CAUSA NOBRE.


Assim como nunca houve uma mulher como Gilda, nunca houve uma banda como os Replacements.

Nunca, antes deles, uma banda teve a cara de pau de tentar combinar o punch infernal dos Sex Pistols, do Damned e dos Tuff Darts com as harmonias vocais dos Byrds.

Nunca, antes deles, uma banda punk ousou incluir no repertório de seus shows números tão duvidosos quanto bem humorados, como “She‘s A Lady”, de Tom Jones, e “Tie A Yellow Ribbon Round The Ole Oak Tree”, de Tony Orlando.

O que para muitos parecia inviável e até inconcebível, para esses rapazes desaforados de Minneapolis era algo perfeitamente natural.

Que outra banda teria a desfaçatez de estrear com um disco entitulado “Desculpa, mãe, esqueci de por o lixo para fora”?

Só eles, The Replacements, banda seminal comandada pelo excelente compositor, guitarrista e cantor Paul Westerberg, e que contava com o suporte tenso e truculento do baixista Tommy Stinson, do baterista Chris Mars e do guitarrista solo Slim Dunlap.

De 1979 a 1991, eles praticamente redefiniram a cena do rock independente americano, buscando saídas estilísticas nada fáceis, e muito menos óbvias, para suas propostas musicais e, de quebra, abrindo alas para o surgimento da cena grunge que iria dominar toda a década de 90 nos EUA.


O legado musical dos Replacements está espalhado por apenas sete albuns – entre eles, dois (“Let It Be” e “Tim”) que viraram referência obrigatória para toda uma geração, e outros dois (“Don’t Tell A Soul” e “All Shook Down”) que praticamente redefiniram o rock-pop praticado na época, revelando o dom melódico de Paul Westerberg e o afirmando como um grande artesão pop.

De lá para cá já se passaram 22 anos, e os Replacements nunca mais se reuniram. Receberam inúmeras propostas para discos e tournées de retorno, mas nunca cogitaram olhar para trás e ceder ao apelo do dinheiro fácil. Westerberg estabeleceu uma sólida carreira solo, mas está muito longe de ser um homem rico. Slim Dunlap partiu para um trabalho solo bem interessante, mas que nunca conseguiu o reconhecimento merecido fora dos limites das cidades gêmeas Minneapolis e Saint Paul. E Tommy Stinson e Chris Mars participaram de inúmeras bandas, todas com pouca projeção.



Até que, ano passado, Slim Dunlap sofreu um derrame, ficou seriamente debilitado e sem condições financeiras para bancar sua recuperação. Diante disso, Westerberg, Stinson & Mars não pensaram duas vezes e reuniram finalmente os Replacements para gravar um disco juntos, e assim levantar uma grana para ajudar seu velho companheiro de banda.

Esse disco é um EP, com apenas cinco canções – nenhuma de autoria deles --, se chama simplesmente “Songs For Slim” e acaba de chegar às lojas através da New West Records.

Mas havia um problema a ser resolvido. Por conta de velhas picuinhas mal resolvidas, Mars se negou a dividir a cena com seus dois ex-parceiros e só aceitou participar da empreitada com um número solo, de autoria de Slim Dunlap, chamado “Radio Hook Word Hit”, acompanhado de um grupo de músicos de seu círculo.

Westerberg não só aceitou as condições como ainda incorporou os mesmos músicos usados por Mars aos outros quatro números em que divide a cena com Stinson.

E o resultado dessa empreitada é extremamente satisfatório, apesar da coisa toda não poder ser considerada uma reunião plena dos Replacements.


Os velhos fãs da banda talvez estranhem o número de abertura, “Busted Up”, um rock suingado à moda de Bo Diddley, só que sem guitarras, com Westerberg martelando um piano e contando uma história de azar extremamente bem humorada, composta justamente pelo homenageado Slim Dunlap.

O número seguinte já é a cara dos Replacements: uma genial versão upbeat para “I’m Not Sayin’”, balada folk de Gordon Lightfoot, que ganhou um tratamento power-pop deliciosamente truculento e a urgência clássica das gravações dos Replacements.

Na seqüência, vem uma versão bem roqueira (e igualmente truculenta) para “Lost Highway”, de Hank Williams, que acaba lembrando mais bandas como Jason and The Scorchers do que propriamente os Replacements. Mas funciona muito bem.

E por fim, uma surpresa extremamente inusitada: “Everything’s Coming Up Roses”, clássico da Broadway, do grande Stephen Sondheim, numa versão roqueira surpreendentemente bem resolvida, sem guitarras distorcidas demais, só para variar.

Ao final de “Songs For Slim”, fica a constatação de que, para os Replacements, só fazia sentido voltar a tocar juntos resgatando esse espírito selvagem e palhaço da banda. Nada de resgatar o passado glorioso, nem de buscar alternativas para o futuro. A idéia aqui, além de ajudar Slim Dunlap, é apesar brincar novamente com o repertório alheio, algo que eles sempre fizeram tão bem, só que não da maneira autodestrutiva de antes.

Sendo assim, considerem "Songs For Slim" não um retorno, mas um posfácio para a história turbulenta e visceral dos quatro rapazes de Minneapolis.

Os Replacements estão mortos. Vida longa aos Replacements.





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sábado, abril 13, 2013

BILLY BRAGG CHEGA À MATURIDADE AINDA MAIS INCONFORMADO EM "TOOTH & NAIL"


Um dos maiores desafios para qualquer artista popular é, e sempre será, permanecer relevante depois de se estabelecer no mercado.

Neil Young abordou esse dilema em canções como “Thrasher”, talvez a mais contundente delas, falando de amigos perdidos em canyons de cristal, absorvidos pela vaidade e encastelados no estrelato, incapazes de perceber que seu métier só faz sentido enquanto eles conseguirem se reinventar a cada nova estação.

Billy Bragg sabe disso melhor do que ninguém.

Desde que surgiu, 30 anos atrás, em meio à efervecência pós-punk, em discos contundentes como “Talking With The Taxman About Poetry” e “Workers Playtime” ele personifica uma versão pós-moderna de Woody Guthrie. Isso em plena Era Margareth Thatcher, No início, foi acusado de ser apenas um "poser" curioso. Mas, com os anos, foi-se revelando um ótimo compositor, extremamente hábil tanto com letras quanto com melodias, e um artista muito peculiar.

De lá para cá já se reinventou algumas vezes, unindo forças aos americanos do Wilco e, mais recentemente, integrando a banda The Blokes, sempre alternando seu discurso político com um discurso amoroso denso e intenso, trafegando pelos mais diversos gêneros musicais com sua guitarra na mão e uma atitude nunca menos que contundente.


E não é que em seu mais novo trabalho, “Tooth & Nail”, ele se reinventa mais uma vez?

Gravado em Santa Mônica, Califórnia, com o suporte precioso do produtor Joe Henry e dos amigos The Blokes, Bragg deixa seus temas politizados um pouco de lado e investe numa mensagem mais universal, expandindo sua retórica -- sempre incisiva, diga-se de passagem -- a assuntos ainda não devidamente explorados em seu trabalho -- às vezes num tom de crônica, outras vezes num tom mais confessional..

O resultado disso são canções desconcertantes como “Your Name On My Tongue”, ‘Swallow My Pride” e “No One Knows Nothing Anymore”. Ou então canções delicadas e assováveis, como “January Song” e “Tomorrow’s Gonna Be A Better Day”, que abrem e fecham o disco, respectivamente.

Em meio a tudo isso, temos como termômetro do "estado de coisas atual de Billy Bragg" uma bela e sintomática releitura de “I Ain’t Got No Home Anymore”, de Woody Guthrie. Que, de certa forma, indica que nosso herói está nos dias de hoje mais propenso a conjugar seu ativismo político com sua condição de cidadão do mundo do que ficar restrito à cena trabalhista inglesa que sempre defendeu.

(não vou me espantar se, a essa altura do campeonato, já tiver alguns velhos colegas folkies esquerdofrênicos acusando Bragg de seu um traidor da causa. Bob "Judas" Dylan conhece bem os métodos dessa gente.)



Enfim, Billy Bragg esá comemorando 30 anos de carreira questionando se seu trabalho ainda faz sentido no mundo de hoje.

30 anos que não pesam na bagagem, e que, de quebra, fornecem um diferencial artístico que poucos artistas mais jovens conseguem ostentar.

Além, é claro, de mais perplexidade do que conforto, mais angústia que alívio, e as habituais doses cavalares de som e fúria -- como ele demonstra em “No One Knows Nothing Anymore”, a canção mais truculenta deste disco:

"Let's stop pretending / We can manage our way out of here / Let's stop defending the indefensible / Let's stop relying on / The lecturing of the experts / Whose spin just makes our plight incomprehensible/ High up on a mountain top, somebody with a skinhead crop / Is thinking deep thoughts for us all / Serenity is all around, but if you listen /You can hear the sound / Of one head being banged against the wall"




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BOZ SCAGGS VOLTA PARA CASA EM "MEMPHIS"

Ninguém canta como Boz Scaggs.

Desde seu excelente disco de estréia, gravado na virada dos anos 60 para os 70 com o pessoal da Muscle Schoals Rhythm Section, sua voz estranhamente maleável e sua postura “laid-back” vem intrigando a Indústria Fonográfica, que sempre tentou, mas nunca conseguiu, rotulá-lo para o mercado, mesmo depois dele ter emplacado alguns singles muito bem sucedidos nas paradas.

Aliás, uma pequena correção. Tem alguém que canta parecido com Boz Scaggs, sim: o soulman de Memphis Al Green -- ou vice-versa, já que os dois são compenheiros de geração e surgiram na cena musical mais ou menos ao mesmo tempo, só que em lugares diferentes. Na medida em que Scaggs nunca se definiu claramente como um artista de rock, de pop ou de R&B, parecia uma boa idéia tomar emprestado um pouco daquela levada pedestre dos singles soul de Memphis produzidos por Willie Mitchell para Al Green em seus discos gravados na motorizada e frenética Los Angeles.

Em “Slow Dancer”, seu grande LP de 1974, produzido pelo craque Johnny Bristol, Scaggs chegou muito próximo de assumir em definitivo essa sua persona soul. Só não foi adiante porque David Foster o desviou dessa rota no disco seguinte, “Silk Degrees”, emplacando “Lowdown”, clássico absoluto da era disco, que catapultou Boz Scaggs ao estrelato do dia para a noite, depois de dez anos de trabalho árduo tentando sair da periferia do big business musical.

Apesar de nunca ter conseguido, nem de longe, igualar o sucesso de “Silk Degrees”, Boz Scaggs vem mantendo uma regularidade muito peculiar em seu trabalho nesses 35 anos, apostando suas fichas em discos com um sotaque R&B bastante acentuado, e sempre acompanhado de músicos de primeira em suas tournées.

Tudo bem que os tempos mudaram, e o gosto do público também mudou, mas seu estilo inconfudível e seu padrão de qualidade permaneceram intactos em discos excelentes como "Some Change" (1994) e "Come On Home" (1998).



E então, eis que aos 69 anos de idade, Boz Scaggs ressurge com esse inesperado “Memphis”, uma homenagem à cidade que ele tanto admira musicalmente.

Inesperado porque, apesar de trazer apenas duas canções inéditas de sua autoria para abrir e fechar essa coleção de clássicos – nada óbvios, diga-se de passagem -- da soul music, elas são as primeiras que ele grava desde “Dig”, de 2001. Inesperado também porque "Memphis” escancara algo que Scaggs sempre sugeriu: que gostaria de ter sido um artista de Hi Records. Não foi nada acidental a escolha do velho e lendário estúdio de Willie Mitchell, o Royal Recordings Studio, como base para as sessões de gravação de "Memphis". Era lá mesmo que ele "tinha" que ser gravado.

O produtor (e baterista) Steve Jordan fez de tudo para resgatar o clima das velhas gravações. Chamou o tecladista Spooner Oldham, o baixista Willie Weeks e o guitarrista Ray Parker Jr. para compor a banda e trabalhar os arranjos. Só faltou mesmo fazer uma sessão de mesa branca para invocar a presença da alma do velho e genial produtor no estúdio. O resto eles fizeram.

E os resultados são estupendos. Na segunda faixa, “So Good To Be Here”, de Al Green, Scaggs já está completamente em casa, soltando seu falsete inconfundível nos momentos chave da canção e dando um toque ainda mais suave à gravação original. O mesmo acontece em “Rainy Night In Geórgia”, de Tony Joe White, e em “Can I Change My Mind”, grande sucesso de Tyrone Davis, ambas impecáveis e precisas ao extremo.

Outro dado curioso em “Memphis” é a sutil homenagem prestada por Scaggs ao grande artista novaiorquino Willy DeVille, que brilhou na cena pós-punk americana no grupo Mink DeVille. Duas das canções de seu álbum de estréia, “Cabretta”, de 1979, estão aqui, em releituras um tanto quanto surpreendentes. “Mixed Up Shook Up Girl”, por exemplo, perdeu seu jeitão latin-soul e subiu aos céus graças a um coro negro delicadíssimo. Já “Cadillac Walk” ficou menos urgente e mais perigosa. Coisa de quem tem bagagem de sobra para usar como bem entender.



“Memphis” tem muito mais que isso para mostrar, mas eu paro por aqui e deixo o resto por conta de Boz Scaggs e sua banda magnífica, e por conta de vocês, claro!.

Acreditem, “Memphis” é um disco que tem aquele gostinho de chegar em casa depois de um bom tempo distante.

Não tem contra-indicações. É, provavelmente, o melhor disco de covers que vocês irão ouvir em 2013. Não é pouca coisa.



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sexta-feira, abril 12, 2013

RAPIDINHAS: Duke Robillard, Ronnie Earl, 4 Jacks, Bobby Rush, Big Bill Morganfield


Tem muita gente por aí que ainda vê o Blues nos dias de hoje como “aquele idioma musical restrito tocado por negros pobres que não tiveram a chance de aprender a tocar jazz”.

Assim como muita gente insiste em afirmar que Blues é “música de gente sofrida, válvula de escape para os dramas diários de gente triste.

Sim, e tem ainda aqueles tradicionalistas die-hard que bradam de boca cheia que “só os negros são capazes de entender o verdadeiro sentimento do Blues”.:

Pois bem: os três primeiros discos comentados aqui são de brancos e dois últimos de negros -- todos artistas de primeiro time, bem sucedidos comercialmente e nada ortodoxos em termos musicais.

Ou seja: cinco pesadelos para esses pobres equivocados que adoram cultivar frases prontas e lugares comuns.

Com vocês, a alma do blues moderno.

Divirtam-se


DUKE ROBILLARD BAND
Independently Blue 
(Stony Plain) 

O veterano guitarrista e produtor Duke Robillard é um dos músicos mais completos da cena americana dos últimos 45 anos, desde que iniciou sua carreira à frente do grupo Roomful of Blues. Trafega pelo blues e pelo rhythm and blues com a mesma destreza com que investiga o jazz e o rock and roll, e é um band-leader de mão cheia. Durante muito tempo, apostou suas fichas em discos temáticos que, se por um lado, mostravam que ele era capaz de mergulhar fundo em diversos idiomas musicais sem perder sua identidade musical, por outro empacotavam a ele e sua banda de forma um tanto quanto incômoda. Aqui, no entanto, nesse novo disco, “Independently Blue”, Duke e sua banda chutam na direção oposta e apostam todas as fichas na diversidade das composições e na versatilidade das abordagens musicais. E o resultado disso é surpreendentemente positivo. São doze faixas, em que o rhythm and blues e o blues rasgado dão o tom a maior parte do tempo. Mas sempre permitindo ousadias, como a deliciosa balada jazzy “You Won’t Ever” e uma homenagem a Cab Calloway na colorida “Patrol Wagon Blues”, de autoria do convidado especial Monster Mike Welch, que veio para fazer uma participação especial e acabou se integrando à banda e tocando no disco inteiro. Vocês sabem, o blues tem dessas coisas...


RONNIE EARL & THE BROADCASTERS
Just For Today
(Stony Plain) 

Ronnie Earl surgiu na cena musical em 1979, substituindo Duke Robillard como guitarrista do Roomful Of Blues. Ficou apenas 5 anos por lá – tempo suficiente para perceber que não iria conseguir crescer muito musicalmente numa banda dominada por uma sessão de metais, e também que tinha fôlego para alçar um vôo solo. Foi quando se auto-promoveu a band-leader e -- sempre à frente de sua banda, The Broadcasters -- iniciou uma das carreiras mais espetaculares que um guitarrista de blues já ousou fazer, trafegando por diversos gêneros musicais e sempre mesclando blues e jazz de forma intensa e apaixonada. “Just For Today”, seu novo álbum ao vivo, é mais um desses deliciosos showcases musicais, com doze números instrumentais gravados em sua última tournée, onde há espaço tanto para uma releitura intrincadísima de “Equinox”, de John Coltrane, quanto para homenagens a seus heróis musicais Otis Rush (“Rush Hour”), Hubert Sumlin (“Blues For H.S.”) e Robert Nighthawk (“R. H. Stomp”). A grande surpresa fica por conta da cantora (extraordinária) Diane Blue, que faz uma releitura precisa de “I’d Rather Go Blind” que acaba servindo como um tributo à inesquecível Etta James. É a 13ª e única faixa não-instrumental nos exatos 80 minutos de duração de “Just For Today”, um disco ao vivo exemplar.


4 JACKS
Deal With It 
(EllerSoul) 

Desde a morte de seu velho parceiro musical, o blues shouter Sam Myers, em 2006, o grande guitarrista texano Anson Funderburgh andava meio sem rumo. Sua banda, The Rockets, foi temporariamente desativada, e ele passou a vagar pelas bandas de amigos em busca de algum sentido para sua carreira. Choveram convites para gravar discos solo. Anson descartou todos eles, e seguiu participando de gigs com praticamente todo mundo na cena do blues. Numa dessas brincadeiras, ele encontrou um irmão musical no ótimo pianista Kevin McKendrea, e os dois tomaram emprestado a cozinha da banda de Delbert McClinton -- o baixista Steve MacKey e o baterista Big Joe Maher -- para tentar esboçar um projeto em grupo. Daí nasceram os 4 Jacks, a superbanda instrumental mais low-profile do blues atual, batizada em homenagem ao saudoso trio The Aces – dos lendários irmãos guitarristas Louie e Dave Myers, mais o baterista Fred Below. O som dos 4 Jacks, no entanto, não tem nada a ver com o Chicago Blues classudo dos Aces. A música deles é, na verdade, a cara do Texas: suingada e seca, colorida e ríspida, urgente e atemporal, tudo ao mesmo tempo agora. “Deal With It” mescla de forma notável todas as vertentes musicais que formam a música do sul dos Estados Unidos, e marca a volta triunfal desse guitarrista fabuloso, Anson Funderburgh, ao que sabe fazer de melhor: romper fronteiras e estabelecer novos parâmetros musicais.


BOBBY RUSH
Down In Louisiana
(Deep Rush) 

Aos 77 anos de idade, eis que Bobby Rush decide se reinventar em seu 22º LP solo: “Down In Louisiana”, que marca o retorno triunfal desse grande cantor e multinstrumentista conhecido no mundo inteiro a suas raízes musicais nos pântanos da Louisiana. Não que ele tenha abandonado o conceito musical do “folkfunk”, seu grande difencial musical, desenvolvido ao longo de toda a sua carreira. A diferença é que aqui, em “Down In Louisiana”, Rush está trabalhando com uma banda menor, e com acordeons onde antes haviam sessões de metais. E o resultado é vigoroso, um passeio musical pela alma da música da Louisiana. Não é nenhum exagero afirmar que Bobby Rush rejuveneceu 20 anos nesse disco, o danado está com a corda toda. Os destaques ficam para as desbocadas “You Look Like A Dresser” e “Bowlegged Woman”, que devem ficar ainda mais divertidas em suas performances ao vivo.


BIG BILL MORGANFIELD
Blues With A Mood 
(Black Shack) 

Muddy Waters deixou uma quantidade enorme de filhos pelo mundo, e vários tentaram seguir seus passos como artista de blues. De todos eles, só Big Bill Morganfield demonstrou ter talento para tanto. Big Bill tem um timbre vocal semelhante ao de seu pai, ainda que um pouco mais suave, e não se importa de vez ou outra passear pelo repertório clássico dele. Mas faz questão de desenvolver um trabalho extremamente pessoal, tanto como compositor e intérprete quanto como instrumentista. Esse é seu sexto disco, talvez o melhor até agora. Em “Blues With A Mood”, Big Bill recebe grandes artistas formados pelo seu pai participando como sidemen, e o resultado musical disso é sempre caloroso e acolhedor. Os destaques vão para 3 ótimas composições de Big Bill: as divertidas “No Butter For My Grits” e “Money’s Getting Cheaper”, e a autobiográfica “Son Of The Blues”, que fala francamente sobre a bênção e a maldição de ser filho do maior artista de blues de todos os tempos. Mas Big Bill Morganfield nem sonha em jogar a toalha e largar essa vida. Pelo contrário, faz dessas adversidades matéria prima para sua música. Que melhora a cada disco.


AMOSTRAS GRÁTIS

DUKE ROBILLARD BAND
http://www.dukerobillard.com/

RONNIE EARL AND HIS BROADCASTERS WITH DIANE BLUE
 http://www.ronnieearl.com/

ANSON FUNDERBURGH AND THE ROCKETS WITH KIM WILSON
http://www.myspace.com/ansonfunderburghandtherockets

BOBBY RUSH 
http://www.songkick.com/artists/408475-bobby-rush
BIG BILL MORGANFIELD 
http://bigbillmorganfield.net/