segunda-feira, junho 06, 2011

MANZAREK-ROGERS E TEDESCHI-TRUCKS: CAMARADAGENS MUSICAIS A TODA PROVA (por Chico Marques)


Uma teoria pessoal minha: o rock and roll só conseguiu sobreviver ao egocentrismo megalomaníaco que quase matou o gênero nos anos 1970 graças ao espírito de camaradagem herdado do pessoal do blues.

Ego de roqueiro é complicado. Sempre inflado demais e de difícil trato. O extremo oposto do ego do bluesman, que não está nem aí se alguém vai tentar roubar a cena dele no palco. Bluesman que é bluesman só quer saber de tocar, beber, se divertir, arrastar para casa alguma gostosona da platéia e, com um pouco de sorte, conseguir receber seu cachê depois do show.

Todos os grandes artistas de blues nunca negaram fogo para jovens músicos brancos. Muddy Waters, por exemplo, sempre deu acesso ao palco em seus shows aos então jovens e curiosos Paul Butterfield, Mike Bloomfield e Nick Gravenites. Existem fotos muito reveladoras -- e muito engraçadas -- de B B King chamando para o palco os então muito jovens guitarristas Eric Clapton e Jimi Hendrix -- ambos visivelmente acanhados com a honraria. É assim mesmo: músicos de rock and roll se assustam na hora de subir num palco de blues. Conhecem o poder de fogo musical dos negões e a facilidade com que improvisam em jams que podem durar 10, 15 minutos.

(cá entre nós: é altamente improvável que uma estrela de rock com o ego nas alturas e milhões no banco se disponha a correr o risco de fazer papel de bobo num palco onde jamais será figura principal, apenas um convidado)

Mas, mesmo assim, aos poucos o vírus do espírito colaborativo começou a se espalhar pela cena musical roqueira. Primeiro com as visitas à Inglaterra dos grandes mestres do blues americano, que adoravam contracenar com os músicos ingleses aficcionados no gênero, lá pelo final dos anos 1960. Depois, com o surgimento das primeiras jam bands americanas, como a Allman Brothers Band e o Grateful Dead. De repente, o medo de dividir o palco com músicos convidados em situações improvisadas se dissipou. Dos anos 1990 para cá, a camaradagem musical radicalizou, virando uma tendência irreversível -- quase uma regra -- na cena do rock and roll angloamericano.

A Allman Brothers Band, por exemplo, faz todo ano uma série de concertos no Beacon Theater, em Nova York, sempre no início de Maio, e tradicionalmente recebe todas as noites convidados especiais no palco. O Grateful Dead – agora simplesmente The Dead – é outro que vive constantemente em tournées sempre abrilhantadas por músicos de outras bandas que não resistem à tentação de passar bons momentos musicais ao lado deles. E tem ainda o Phish, a Dave Matthews Band, o My Morning Jacket, o Gov't Mule e dezenas de jam bands que nunca perdem uma oportunidade de encher seus palcos de amigos talentosos. Virou mania nacional.

Este é um momento curioso na cena musical americana, em que artistas antes avessos a jam sessions embarcam em projetos de colaboração meio que empurrados por uma tendência de mercado, e assim descobrem o prazer de improvisar em boa companhia.


É o caso de Ray Manzarek. Organista, pianista, compositor, arranjador e comandante dos Doors entre 1966 e 1973, ele esboçou um estilo musical calcado no blues e na música barroca que fornecia o tom de elevação que a poesia do frontman Jim Morrison pedia. Foi um sucesso estrondoso, como todos sabem. Quando Morrison morreu, Manzarek tentou seguir adiante com trabalhos solo muito autocentrados, que infelizmente não deram muito certo -- tanto que ele acabou optando por trabalhar apenas como produtor e arranjador.

Daí em diante, passou a separar seu trabalho como compositor -- fornecendo molduras musicais para poetas como Michael McGlure -- de seu trabalho como instrumentista -- sempre arrojado e dinâmico, mas invariavelmente vinculado a seu passado com os Doors. Convidado pelo exímio guitarrista (também) californiano Roy Rogers para se juntar à sua banda, Manzarek viu alí sua chance de fugir de uma armadilha – muito rentável, diga-se passagem -- que amordaçou sua carreira durante anos: a de ser o curador do espólio musical dos Doors. Não pensou duas vezes. Jogou os Doors para escanteio por uns tempos, desceu do pedestal e topou a brincadeira.


Não podia ter tomado uma decisão melhor. “Translucent Blues”, segundo LP que os dois gravam juntos, é tão bom e tão vigoroso que faz com que a colaboração anterior gravada 3 anos atrás pareça um simples aperitivo. Não é um disco de blues, como o título sugere, e sim um passeio musical por diversas vertentes do rock californiano, onde o passado de Manzarek nos Doors e a experiência de Rogers como comandante da banda de John Lee Hooker por quase 20 anos se unem numa alquimia musical perfeita. Não se assustem se “Game Of Skill” e “New Dodge City Blues” lembrarem números clássicos dos Doors, ou se “Hurricane” lembrar certas investidas de John Lee Hooker em “The Healer”. É tudo intencional mesmo. Mas o contexto é totalmente brincalhão e inusitado.

O espírito aventuresco impera em “Translucent Blues”. É no mínimo curioso ver os dois imitando George Benson e Brother Jack McDuff na faixa instrumental “Na Organ, a Guitar And A Chicken Wing”, ou reinventando padrões musicais que Lowell George e Bill Payne desenvolveram para o Little Feat em números funky como “Tension” e “Those Hits Just Keep On Coming”. Agora, que está desobrigado de comandar uma banda, Manzarek, aos 72 anos de idade, se diverte conspirando contra a seriedade e a sisudez de Rogers, que, aos 61 anos, tenta colocar um pouco de método na loucura musical de Manzarek. E os dois se divertem um bocado fazendo isso. E quem está escutando, também!


Já a associação musical entre Derek Trucks e Susan Tedeschi não é novidade para quem acompanha há alguns anos as carreiras desses dois craques da guitarra. Casados na vida real, era apenas uma questão de tempo até que decidissem unir também suas carreiras e bandas numa coisa só, já que um vinha integrando a banda do outro há algumas tournées.

Pois foi assim que surgiu a enorme Tedeschi Trucks Band, com nada menos que 11 integrantes, dentro do espírito de camaradagem musical da lendária banda americana Delaney & Bonnie & Friends -- uma empreitada que já estava em gestação nos últimos LPs solos de Derek Trucks, e que agora se consolida definitivamente.


Confinar Derek Trucks em um segmento musical sempre foi uma tarefa árdua. Dono de um estilo que desafia definições, esse jovem guitarrista de Jacksonville, Florida, com apenas 32 anos de idade já é responsável por uma discografia bastante sólida, com nove discos impressionantes lançados de 1997 para cá, além de dividir a cena com o veterano guitarrista Warren Haynes na linha de frente da lendária Allman Brothers Band -- banda da qual seu tio, Butch Trucks, fez parte na década de 1970.

Sua música é uma combinação demolidora de fogo, improvisação e delicadeza num blend musical único de rock, blues e jazz. E o que é mais impressionante -- para mim, pelo menos -- é que, em seus LPs solo, Derek parece estar sempre fugindo de fórmulas que tornem sua música mais simples de ser absorvida pelos fãs de seu trabalho na Allman Brothers Band -- que, diga-se de passagem, não reclamam dele jamais.

Susan Tedeschi é um caso tão interessante quanto o dele. Exímia guitarrista e compositora, essa bostoniana de 41 anos de idade foi, por muito tempo, prejudicada por possuir um timbre vocal muito semelhante ao de Bonnie Raitt. Só recentemente, quando gravou “Angel From Montgomery”, de autoria de John Prine, que havia sido um grande sucesso na voz de Bonnie Raitt, é que essa má impressão começou a se dissipar, e suas habilidades passaram a ser consideradas com menos ranhetice pela crítica.

E então, de LP em LP, e de tournée em tournée, Susan foi conseguindo forjar um público só seu, deixando claro que não está na cena musical a passeio. Em 1995, gravou seu primeiro trabalho para um selo não-independente – no caso, a Verve Records --, e desde então segue em alta tanto na cena do blues quanto na cena roqueira – eclipsando inclusive sua própria mentora, Bonnie Raitt.


“Revelator”, esse primeiro trabalho da Tedeschi Trucks Band, funciona como um mix entre o Soul de Memphis e o Blues do Delta do Mississipi, mas é também uma prova de fogo para esse casal de jovens músicos, que iniciaram suas carreiras bem cedo, aos 13 anos de idade. Cantar diante de uma banda tão grande, e com tantos metais, é novidade para Susan -- e ela se sai muito bem nessa empreitada. Conseguir encaixar seus dramáticos solos de guitarra slide em arranjos feitos para uma banda tão grande também é novidade para Derek -- e ele tira isso de letra com uma destreza comparável à de seu “tio” Duane Allman nas guitarradas hoje clássicas que promovia nos estúdios Muscle Schoals, sempre que era requisitado por artistas de soul music nos anos 1960.

Quanto à banda... bem, a banda é simplesmente impecável. Todos brilham por igual na enorme Tedeschi Trucks Band, o que é surprendente. E as canções são perfeitas. Enquanto "Don't Let Me Slide", "Simple Things" e "Shelter" passeiam com certa ternura pela vida cotidiana do casal, números mais perigosos como "Midnight In Harlem" e "Ball & Chain" revelam a barra pesada de se viver na estrada dois terços de cada ano. Se bem que, no final das contas, o que predomina são as canções de amor, como "Until You Remember", "Love Has Something To Say" e "Learn How To Love", todas com a delicadeza que é marca registrada do trabalho de Susan Tedeschi.

Acreditem, "Revelator" é um trabalho de colaboração precioso, que resgata em grande estilo o som atemporal da clássica banda do casal Delaney & Bonnie Bramlett. Definitivamente, um time de músicos que vale o quanto pesa.

Diante de todos os argumentos apresentados, eu diria que temos aqui dois perfis bem distintos de camaradagem musical.

A dobradinha de Ray Manzarek com Roy Rogers funciona como uma provovação musical entre dois músicos de backgrounds extremamente diferentes, que se divertem tentando achar um meio termo possível entre eles.

Já a dobradinha de Susan Tedeschi e Derek Trucks é um "labor of love" genuíno -- algo muito difícil de definir em palavras, mas com uma grandeza musical indiscutível.

Se camaradagem é sinônimo de troca, e troca sempre soma, o que podemos concluir é que todos os envolvidos -- Ray Manzarek, Roy Rogers, Susan Tedeschi e Derek Trucks, e nós também -- saem no lucro com esses dois LPs superlativos, muito inspirados, extremamente bem resolvidos, que deitam e rolam no espírito alegre e sempre colaborativo do blues.

Benvindos à festa.



PORTA-RETRATOS


“Um dos chaves para a música dos Doors ser tão boa é que nós tocávamos muito bem juntos, e ouvíamos uns aos outros extremamente bem. Nunca funcionamos na base do 'Cada um por si, aumente o volume, 1, 2 , 3, já!' Não, nós ouvíamos carinhosamente o que o outro estava tocando.” (Ray Manzarek)


"Quando estou tocando, a última coisa que passa na minha cabeça é se estou satisfazendo o público ou não. É um lance totalmente egoísta. E quanto mais perto você chega de se satisfazer plenamente com o que está tocando, mais universal é a sua maneira que você encontrou de se comunicar através da música.” (Roy Rogers)


“Nesses dois últimos anos, devo ter tocado perto de 300 noites – algumas com os Allmans, outras com Phil Lesh e muitas com a Tedeschi Trucks Band. A banda estava tinindo quando estávamos chegando a Chicago para uma série de shows. Daí, conseguimos reservar um bom estúdio e gravamos todo esse disco praticamente ao vivo no estúdio em poucos dias. Odeio quando a gravadora chega com um estúdio agendado e diz que temos que começar a gravar daqui a 10 dias. Nunca funciona direito. O certo é gravar quando a banda está realmente pronta para isso. Como fizemos nesse disco.” (Derek Trucks)


“Esse disco é como se fosse a aventura recente de nossas vidas. As canções foram quase todas compostas na estrada e falam de amor, proteção, esperança e até de descanso. Aliás, esse disco parece para mim uma seqüência de canções com temas correlacionados. É como se estivéssemos contando uma longa história em pequenos episódios aconchegantes de 4 ou 5 minutos cada. É assim que vejo esse disco, Revelator. Estou muito feliz por ter participado dele.” (Susan Tedeschi)


Paul Rothchild gostava de me irritar dizendo que o órgão de Riders On The Storm parecia cocktail jazz. Hoje, muitos anos mais tarde, trabalhando com Roy Rogers, penso naquilo e acho que ele até estava certo. Curiosamente, foi justamente essa levada cocktail lounge de alguns números dos Doors que ajudaram a banda a não ficar datada, e permanecer sempre atual.” (Ray Manzarek)


Ray Manzarek acha engraçado eu tê-lo chamado para trabalhar comigo sem nunca ter sido admirador do trabalho dos Doors, mas é a pura verdade. Nos anos 1960, eu estava completamente focado no blues, só ouvia Howlin' Wolf, Muddy Waters, John Lee Hooker, Bobby Blue Bland... Mas hoje eu ouço a música dos Doors com muita atenção e muito carinho.” (Roy Rogers)


“Cair na estrada dividindo a mesma banda com Susan Tedeschi é perfeito. Ia ser muito difícil para nós, individualmente, conseguir programar nossas tournées a ponto de conseguir fazer com que as paradas para descansar coincidissem. Agora isso está resolvido, e da melhor maneira possível. Ela é uma artista magnífica. É um privilégio estar ao lado dela em mais essa empreitada.” (Derek Trucks)


“Sinto que estou cantando cada vez melhor, até porque estou menos pressionada a desempenhar na guitarra agora que tenho na minha banda meu marido, Derek Trucks, que é simplesmente o melhor guitarrista deste mundo. Aliás, é uma honra fazer parte dessa banda maravilhosa.” (Susan Tedeschi)


DISCOGRAFIAS


















LPS RAY MANZAREK


The Doors (com The Doors 1967)
Strange Days (com The Doors 1968)
Waiting For The Sun (com The Doors 1968)
The Soft Parade (com The Doors 1969)
Morrison Hotel (com The Doors 1970)
L A Woman (com The Doors 1971)
Absolutely Live (com The Doors 1972)
Other Voices (com The Doors 1972)
Full Circle (com The Doors 1973)
The Golden Scarab (1974)
The Whole Thing Started With Rock & Roll (1975)
Nite City (com Nite City 1977)
An American Prayer (com The Doors 1978)
Alive She Cried (com The Doors 1979)
Carmina Burana (1983)
Love Lion (com Michael McClure 1993)
Atonal Head (2006)
Love Her Madly (OST 2006)
Ballads Before The Rain (com Roy Rogers 2008)
Live In Vancouver, 1970 (com The Doors 2010)
Translucent Blues (com Roy Rogers 2011)
http://www.raymanzarek.us/


















LPS ROY ROGERS


Chops Not Chaps (1986)
Slidewinder (1988)
Blues On The Range (1989)
Roy Rogers & Norton Buffalo (com Norton Buffalo 1991)
Traveling Tracks (com Norton Buffalo 1992)
Slide Of Hand (1993)
Slide Zone (1994)
Rhythm & Groove (1996)
Pleasure + Pain (1998)
Everybody´s Angel (1999)
Roy Rogers & Shana Morrison (2001)
Slideways (2002)
Roots Of Our Nature (com Norton Buffalo 2002)
Live At The Sierra Nevada Big Room (2004)
Ballads Before The Rain (com Ray Manzarek 2008)
Split Decision (2009)
Translucent Blues (com Ray Manzarek 2011)
http://www.roy-rogers.com/


















LPS DEREK TRUCKS


The Derek Trucks Band (1997)
Out Of The Madness (1998)
Peakin´ At The Beacon (com Allman Bros. 2000)
Joyful Noise (2002)
Hittin´ The Note (com Allman Bros. 2003)
Soul Serenade (2003)
Live At Georgia Theatre (2004)
One Way Out (com Allman Bros. 2004)
Songlines (2006)
Already Free (2009)
Roadsongs (2010)
Revelator (com Tedeschi Trucks Band 2011)
http://www.derektrucks.com/


















LPS SUSAN TEDESCHI


Just Won't Burn (1998)
Better Days (1998)
Wait For Me (2002)
Live From Austin TX (2004)
Hope & Desire (2005)
Back To The River (2008)
Revelator (com Tedeschi Trucks Band 2011)
http://www.susantedeschi.com/





AMOSTRAS GRÁTIS













quarta-feira, junho 01, 2011

BENVINDOS DE VOLTA À INVASÃO BRITÂNICA, COM SEUS ANFITRIÕES: THE KINKS E THE ZOMBIES (por Chico Marques)


A tournée mundial de Paul McCartney, que passou recentemente por São Paulo e pelo Rio de Janeiro, serviu para revelar uma faceta bastante irritante no comportamento de seus admiradores mais fervorosos.

Ao longo dessas quatro décadas que nos separam do momento fatídico em que os Beatles anunciaram que iriam pendurar as chuteiras, a beatlemania vem-se transformando pouco a pouco numa modalidade de idolatria muito semelhante ao lulismo, na medida em que, segundo seus adeptos mais fundamentalistas, ela inicia e encerra em si mesma, desprezando um fenômeno musical muito maior no qual está historicamente inserida: a British Invasion.

A British Invasion foi, na verdade, a mais eloqüente resposta dos ingleses aos americanos desde que foram postos para correr de volta ao Velho Continente durante a Revolução Americana de 1776. Obviamente, não ficou restrita aos Beatles. Junto com eles, vieram os Rolling Stones, o Who, os Yardbirds, os Small Faces, o Them, os Animals, e – entre muitos outros – os Kinks e os Zombies. Uma explosão de talentos que ajudou a mudar a cara da música popular e da Indústria Fonográfica – e que, sintomaticamente, inexistem no imaginário e nos iPods de mais de noventa por cento dos beatlemaníacos mais febris.
Cá entre nós: qualquer um que vá a um show de Paul McCartney nos dias de hoje segurando uma plaquinha com a sílaba NA -- isso quase 50 anos após a explosão da British Invasion nos Estados Unidos --, com certeza não faz a menor idéia do cataclisma que aquilo tudo causou no início dos anos 1960. Havia então uma cena musical dominada por produtores-compositores, como Burt Bacharach e Phil Spector, que moldavam os artistas que lançavam ao material e às tendências que criavam para o mercado. Tanto que, para conseguir ter acesso a ele, tanto os Beatles quanto os Rolling Stones, malandramente, aportaram na América em 1964 para suas primeiras tournées jogando pelas regras dele – ou seja: apresentando repertórios de covers com sotaque britânico de composições americanas bem conhecidas. Enquanto os Beatles passeavam pelo repertórios de Buddy Holly, Carl Perkins e de girl bands como as Shirelles e as Ronettes, os Stones preferiam rever sucessos de artistas de rhythm & blues como Solomon Burke, Marvin Gaye, Chuck Berry e Muddy Waters, dando a eles roupagens musicais inusitadas.

A princípio, a Indústria Fonográfica Americana não se assustou muito com a chegada dos ingleses. Acharam que seria uma moda passageira, como tantas outras. Mas, na segunda tournée dos Beatles e dos Rolling Stones pelos Estados Unidos no ano seguinte, as duplas de compositores Lennon & McCartney e Jagger & Richards já estavam devidamente estabelecidas no mercado, com vários singles nos primeiros postos das paradas. Chegava ao fim a era dos produtores-compositores e começava a era dos cantores-compositores. De uma hora para outra, toda a estrutura da produção musical estava de ponta cabeça, e nada mais foi como era antes.
Claro que os Beatles e os Rolling Stones tinham a vantagem de ser mais universais que as outras bandas que vieram no tsunami da British Invasion. O Who e os Small Faces, por exemplo, faziam a apologia do estilo de vida mod, um fenômeno tipicamente inglês que o resto do mundo não compreendia bem. Os Animals e o Them imprimiam no rhythm & blues deles toda a fúria e o inconformismo das classes operárias inglesas e irlandesas. Já os Zombies se pautavam por melodias pop envolventes que incorporavam elementos jazzísticos e música erudita, antecipando tendências que seriam melhor digeridas anos adiante, com o surgimento do rock psicodélico. E os Kinks... bem, os Kinks se divertiam muito satirizando os costumes ingleses e esculhambando com a Família Real Britânica – assuntos em princípio pouco atraentes para quem não vivia no Reino Unido.


O motivo de estarmos falando disso é que não é só Paul McCartney que continua com tudo em cima, com essa vitalidade invejável que demonstrou no Morumbi e no Engenhão. Os Rolling Stones também estão muito bem, vão sair em tournée mundial novamente no ano que vem comemorando 50 anos de carreira com direito a disco novo e tudo mais. O Who é outro que se prepara para uma tournée ano que vem – talvez com disco novo, mas, certamente, com a tão aguardada autobiografia que Pete Townshend finalmente nas vitrines das livrarias. Já os Kinks estão entrando em estúdio nos próximos meses para gravar seu primeiro LP com material inédito desde “To The Boné”, de 1994. E, para completar o quadro, os Zombies acabam de sair do estúdio, e estão lançando “Breathe Out Breathe In”, o primeiro disco de inéditas da banda desde “Odessey & Oracle”, seu épico pop de 1968.

Comecemos pelos Kinks. Logo que surgiram em 1964, emplacaram uma série de singles vitoriosos na Pye Records, como “You Really Got Me” (1965), que forneceu o aval para que a Reprise Records adquirisse a exclusividade de seus LPs e singles para lançar nos Estados Unidos. Infelizmwnte, num golpe de azar deflagrado por uma confusão até hoje mal explicada nos vistos de trabalho dos integrantes da banda em sua primeira tournée americana, os Kinks ficaram impedidos de pisar em solo americano por quatro anos. Isso afetou o desempenho de vendas dos LPs da banda na América, levando os irmãos Ray e Dave Davies a focar seu trabalho no público europeu, ainda que a contragosto. Mas mesmo sem tournées, álbuns como “The Village Green Preservation Society” e “Arthur” tiveram uma acolhida calorosa na América, e Ray Davies passou a ser visto como um gênio pop, uma espécie de Noel Coward da Era Psicodélica. Howard Kaylan e Mark Volman, do grupo californiano The Turtles, por exemplo, não sossegaram enquanto não gravaram um de seus discos em Londres, pois faziam questão que fosse produzido por Ray Davies.

Os Kinks voltaram a fazer tournées pelos Estados Unidos só em 1970, a reboque do sucesso internacional de “Lola” -- sobre um inglês insuspeito que se sente muito melhor vestido como mulher, mais ou menos como o cartunista Laerte --, e finalmente emplacaram nos primeiros postos das paradas de lá. Viraram fregueses, e passaram a voltar por lá todo ano, enquanto seguiam pelos anos 1970 produzindo LPs conceituais sempre muito bem humorados para a RCA, e depois, já na Era Punk, apostando em projetos mais urgentes e pesados para a Arista Records. Foram apagando aos poucos ao longo dos anos 1980, até decidirem encerrar atividades como banda em 1996. Mas Ray Davies continuou em frente. Dirigiu e escreveu para o cinema, casou-se com Chryssie Hynde e ajudou o produtor musical Bill Flanagan a esboçar a série de TV “VH1 Storytellers”, sendo o primeiro a se apresentar por lá. Recentemente, lançou dois LPs solo muito festejados com material inédito de primeira, mantendo seu prestígio criativo intacto.




Enquanto prepara novas novas canções para o tão aguardado LP de retorno dos Kinks, Ray Davies dedicou-se a dois projetos de ocasião extremamente simpáticos, onde recicla com muita dignidade o velho repertório dos Kinks. O primeiro deles é espetacular: “The Kinks Choral Collection”, onde regrava clássicos da banda com coral, banda e uma orquestra de câmara. Já o segundo projeto pretende ser, antes de mais nada, simpático e divertiodo: “See My Friends” também resgata o repertório clássico nos Kinks, mas em outro contexto -- vem repleto de duetos com amigos como Bruce Springsteen, Jackson Browne, Alex Chilton, Billy Corgan, Lucinda Williams e vários outros. Esses dois songbooks dos Kinks servem como introduções ao trabalho brilhante de uma banda que demorou a cair no gosto do grande público porque nunca facilitou as coisas além do limite do artisticamente aceitável.


Quanto aos Zombies, dizer que a música deles sempre esteve muito além do seu tempo equivale a chover no molhado. Quando o grupo surgiu num subúrbio londrino em 1961, não havia nada remotamente semelhante a eles em toda a Inglaterra. O piano e o órgão Hammond B-3 bem jazzísticos de Rod Argent pareciam ter sido feitos sob medida para emoldurar a voz delicada e cristalina de Colin Blunstone. E a alquimia resultante disso gerou logo de cara singles curiosos como “She´s Not There” e “Tell Her No” – que, por mais estranhos que fossem para a época, conseguiram pegar carona na British Invasion e acabaram emplacando nas paradas americanas, mesmo tendo passado quase despercebidos nas paradas inglesas. A maldição dos Zombies é que eles não conseguiam ser uma banda de singles. Eram arrojados demais para o hit parade britânico. Deram o azar de surgir numa época em que havia a obrigação de emplacar singles nas paradas para poder realizar um LP.

Depois de uma série de singles que infelizmente não emplacaram nas paradas, os Zombies foram descartados pela Decca Records. gravadora. Rod Argent e Colin Blunstone, desanimados, reuniram os membros da banda e decidiram que gravariam só mais um LP. Assinaram um contrato bem xinfrim com a Columbia, que repassou para eles uma verba quase ridícula, que os impedia até de contratar músicos adicionais para o projeto -- tanto que Argent teve que emular os arranjos da orquestra num mellotron, algo inédito na época. O descaso da Columbia para com eles era tamanho que ninguém se preocupou em enviar alguém para supervisionar o trabalho dos rapazes. Resultado: sem qualquer compromisso em emplacar um LP de sucesso, os Zombies produziram “Odessey & Oracle” (1967), uma pequena obra prima pop psicodélica, que acabou lançada sem publicidade na Inglaterra e por pouco não teve uma edição americana. Se Al Kooper, fã de banda e também contratado da Columbia, insistindo tanto, "Odessey & Oracle" nunca teria cruzado o Atlântico.


Então, o inusitado ACONTECE: quase dois anos após o lançamento do LP, com todos os membros da banda já trabalhando em outros projetos, alguém na Columbia americana decide lançar “Time Of The Season”, uma das canções de “Odessey & Oracle”, no formato single, e a música explode misteriosamente nas paradas do mundo todo. A saia justa dos integrantes dos Zombies foi terrível, pois nenhuma dos integrantes originais dos Zombies pretendia voltar atrás na decisão de aposentar a banda. Rod Argent já tinha montado o Argent, banda progressiva de muito sucesso nos anos 70, e Colin Blunstone estava gravando seu primeiro disco solo. Pela primeira vez na história da música popular, uma banda chegava ao seu apogeu dois anos depois de ter saído de cena.

Nos anos 1980 e 1990, Rod Argent e Colin Blunstone voltaram a contracenar em diversas ocasiões. Argent firmou-se como produtor de sucesso, ajudando a viabilizar as carreiras de vários artistas ascendentes, como Tanita Tikaram e Jules Shear, enquanto Blunstone seguiu com LPs solo sempre muito bem recebidos por crítica e público. Até que, em 2000, inventaram de gravar um disco juntos. E esse disco fluiu tão bem que os dois, saudosos dos velhos tempos, decidiram ressucitar os Zombies para uma pequena tournée de 6 datas. Que acabou durando mais de 10 anos, num sinal claro de que a velha sintonia entre os dois velhos parceiros permanecera inabalada depois de tantos anos.


Só agora Rod Argent e Colin Blunstone tomaram coragem para lançar um LP repleto de canções inéditas. “Breathe Out, Breath In” é impecável, composto inteiramente de canções deliciosas que eles andaram testando ao vivo nos shows. Não pretende em momento algum atualizar a sonoridade dos Zombies e muito menos recomeçar de onde “Odessey & Oracle” parou. Na verdade, funciona como um registro de como Argent e Blumstone pensam e agem musicalmente nos dias de hoje. “Breathe Out, Breath In” traz baladas pop lindíssimas, como a homenagem aos Beach Boys “Shine On Sunshine” e a barroca “Let It Go”, àmoda do Procol Harum. Que se contrapõem a números mais suingados como “Play It For Real” e “Any Other Way”, além da faixa título, simplesmente magnífica. Não é nenhum exagero afirmar que desde “Before We Were So Rudely Interrupted” (1977), dos Animals, não se via um LP de retorno de uma banda clássica tão honesto e íntegro quanto este. “Breathe Out, Breath In” é tudo isso, podem ter certeza. Isso para não dizer que é um prazer ver uma banda tão vital quanto os Zombies – que influenciou bandas seminais como The Doors e Steely Dan – voltando à cena com tamanha leveza e galhardia.


Diante de toda a vitalidade e criatividade demonstrada nesses novos trabalhos desses veteranos da cena inglesa dos anos 1960, é totalmente inaceitável que a beatlemania queira agora se afirmar através dos fan-clubs como um fenômeno isolado e desconectado dos diversos outros fenômenos artísticos da British Invasion.

Verdade seja dita: bandas como os Zombies e os Kinks só não tiveram o mesmo apelo de público dos Beatles porque uma série de circunstâncias adversas não permitiram.

Queiram ou não, gostem ou não, os Beatles pertencem a um contexto histórico e artístico muito bem definido, histórica e artisticamente. E nunca estiveram sozinhos. Sempre estiveram em ótima companhia.

Querer negar isso é tão inócuo e tão ridículo quanto ir a um show de Paul McCartney segurando uma placa com a sílaba NA para participar de uma coreografia idiota para “Hey Jude” digna de um desenho do Gasparzinho. Pronto, falei.





HIGHLIGHTS - Ray Davies
The Kinks Choral Collection - See My Friends






HIGHLIGHTS - The Zombies
Breathe Out, Breathe In




SENHORAS E SENHORES... THE ZOMBIES


“Um negócio que me agrada muito nesse novo álbum é justamente o fato dele ser totalmente descomplicado e poder ser tocado ao vivo em nossas tournées sem o menor problema.” (Rod Argent)


“Recentemente, num show na América, um dos promotores apareceu no nosso camarim com alguns amigos achando que estaríamos no maior embalo antes do show. Para a surpresa deles todos, três de nós estávamos lendo e os outros três descansando.” (Colin Blunstone)


“Nos reunimos em 2000 para o que deveria ser uma pequena tournée de apenas seis apresentações. Não conseguimos encerrar essa tournée até hoje.” (Rod Argent)


“É meio assustador lembrar que nossos primeiros ensaios aconteceram em 1961, há exatos 50 anos, e mesmo assim ter um disco novo sendo lançado.” (Colin Blunstone)


“Poucos meses atrás, estávamos tocando num clube francês para uma platéia de garotos de 25 anos de idade. No intervalo, comentei com a banda: Acreditem ou não, estamos repetindo basicamente o mesmo setlist de shows que fizemos aqui mesmo, na França, 40 anos atrás para um público dessa mesma faixa etária... (Rod Argent)



LPS THE ZOMBIES
She´s Not There-Tell Her No (1964)
The Zombies Begin Here (1965)
Bunny Lake Is Missing (OST 1966)
I Love You (1966)
Odessey & Oracle (1968)
New World (2001)
Live At The BBC (2003)
As Far As I Can See (2004)
Odessey & Oracle: 40th Anniversary Live Concert (2008)
Live At The Bloomsbury Theatre (2009)
Breathe In, Breathe Out (2011)

WEBSITE OFICIAL
http://thezombies.net/

SENHORAS E SENHORES... THE KINKS


“Eu gosto de contar histórias. Se não gostasse, não teria virado compositor. É o que sei fazer melhor na vida.” (Ray Davies)


“Eu adoro quando gravam minhas canções e dão a elas um toque que eu não soube ou não pude dar quando as gravei frente dos Kinks. Eu fico arrepiado sempre que escuto Tom Jones cantando “Sunny Afternoon”, por exemplo. Aquilo é simplesmente estupendo.” (Ray Davies)



“É complicado gravar um LP como See My Friends. Você vira uma espécie de Buda e todo mundo envolvido no projeto quer saber como você acha que deve ser isso ou aquilo. Demora até relaxar. Mas quando isso finalmente acontece, o prazer de contracenar com grandes artistas como esses é indescritível.” (Ray Davies)


“Minha parceria com meu irmão Dave Davies sempre fluiu perfeitamente bem. É engraçado, sempre que eu vejo um filme muito bom, como esses últimos dos Irmãos Coen, eu penso: Puxa, que pena que Dave não está aqui! Quando ouço alguma coisa surpreendente, e ele não está por perto, ligo imediatamente e aviso para que ele também ouça. É assim que nós funcionamos.” (Ray Davies)


“É engraçado como minhas primeiras canções tinham letras curtas e grossas e as canções dos meus dois discos solo são extensas. Quem diria que, com a idade, o texto das minhas canções iria ficar novelístico.” (Ray Davies)


LPS THE KINKS
Kinks (1964)
Kinda Kinks (1965)
The Kink Kontroversy (1965)
Kinkdom (1965)
Kinks-Size (1965)
You Really Got Me (1965)
United Kinksdom (1966)
Face To Face (1966)
Something Else By The Kinks (1967)
Live At Kelvin Hall (1968)
The Village Green Preservation Society (1968)
Arthur (1969)
Lola Vs The Powerman & The Money-Go-Around (1970)
Muswell Hillbillies (1971)
Percy (1971)
Everybody´s In Showbiz (1972)
The Great Lost Kinks Album (1973)
Preservation Act #1 (1973)
Preservation Act #2 (1974)
A Soap Opera (1975)
Schooboys In Disgrace (1975)
Sleepwalker (1977)
Misfits (1978)
Low Budget (1979)
One For The Road (1980)
Give The People What They Want (1981)
State Of Confusion (1983)
Word Of Mouth (1984)
Think Visual (1986)
Road (1988)
UK Jive (1989)
Phobia (1993)
To The Bone (1994)

LPS RAY DAVIES SOLO
Return To Waterloo (1985)
The Storyteller (1998)
Opther People´s Lives (2006)
Working Man´s Café (2007)
The Kinks Choral Collection (2010)
See My Friends (2011)
WEBSITE OFICIAL
http://www.raydavies.info/www/main.php?content=news