sexta-feira, agosto 05, 2011

DO CONFORTO DA CENA MAINSTREAM ÀS TRINCHEIRAS MUSICAIS DA AMÉRICA (por Chico Marques)

A cada ano que passa, a crise da Indústria Fonográfica "promove" mais e mais artistas da cena mainstream para a cena musical independente.

Para quem não é do meio musical, isso equivale a ser rebaixado para a Segunda Divisão em um Campeonato de Futebol.

Artistas com maior jogo de cintura preferem encarar essa mudança como um rito de passagem. Como uma chance ficar mais próximos do seu público. Mas muitos deles se sentem abandonados e perdem o rumo de suas carreiras. Às vezes até mudam de ramo.

No entanto, não é justo pintar a Indústria Fonográfica como única vilã dessa história. Ela apenas esqueceu de se preparar para tempos bicudos como os atuais, canibalizou as "medias" físicas de que dispunha e sucumbiu pouco a pouco depois que os arquivos musicais começaram a passear livres, leves e soltos pela internet.

Bem ou mal, a Indústria sempre ofereceu a seus artistas um padrão de trabalho invejável, com adiantamentos sobre vendas futuras, financiamentos para produções, etc, etc, etc. Um disco que eventualmente vendesse pouco podia ser compensado com um outro disco, mais acessível ao grande público, no ano seguinte. E daí por diante.

Ou seja: a Indústria Fonográfica sempre tentou ser parceira do artista, tanto no sucesso quanto no fiasco.

Algumas vezes, até conseguiu.

O problema é que ser independente é muito trabalhoso. Exige, entre outras coisas, que o artista se estruture de forma minuciosa antes de colocar seu disco no mercado por conta própria. Ele não tem mais a opção de não ligar muito para os negócios, nem de errar o timing do lançamento do disco, e muito menos de se atrapalhar ao longo do processo. Qualquer pequeno erro de cálculo pode desencadear um desastre de proporções terríveis.

Que o digam John Hiatt e Matthew Sweet, que sempre pertenceram à cena mainstream, mas agora gravam para selos pequenos por contingências de mercado, mantendo o controle criativo e orçamentário de seus trabalhos.

Que o digam também Randall Bramblett e Richard Buckner, que sempre viveram inseridos na cena mainstream indiretamente, por envolvimento com outros artistas. Eles agora gravam para selos independentes por opção, apostando sempre no “menos é mais” e no "não se meta no que estou fazendo".

Além desses quatro grandes artistas -- que não desistem jamais, e chegam agora com novos discos vigorosos --, temos também no cardápio dessa semana de Alto&Claro o ator hollywoodiano Jeff Bridges, que acaba de se reinventar artisticamente como cantor, guitarrista e compositor num disco alt country surpreendente, para a Blue Note Records.

Vamos a eles:


















JOHN HIATT

DIRTY JEANS & MUDSLIDE HYMNS
(New West Records)
John Hiatt é um dos grandes compositores americanos vivos. Bob Dylan, Neil Young, Paul Simon, Randy Newman e ele mereciam estar esculpidos numa espécie de Monte Rushmore. Este é seu vigésimo álbum em 37 anos como artista solo. Hiatt é dono de uma carreira riquíssima, que passou por inúmeros altos e baixos até que ele encontrasse o Norte no hoje clássico LP “Bring The Family”, de 1987 -- onde dividiu a cena com seus amigos Ry Cooder, Nick Lowe e Jim Keltner pela primeira vez. De lá para cá, vem gravando discos impecáveis, tanto para gravadoras grandes quanto para selos menores. “Dirty Jeans & Mudlide Hymns”, que acaba de sair do forno, não foge à regra. É mais uma bela coleção de canções, que alterna rocks fulminantes (“Damn This Town”, “Detroit Made”), baladas country delicadíssimas (“Til I Get My Lovin' Back”, “Adios To Califórnia”) e números com um leve toque soul (“I Love That Girl”, “I Don´t Wanna Leave You Now”). Alguns críticos torceram o nariz para a produção de Kevin Shirley, alegando que essas canções, por serem muito intensas, mereciam um approach mais contundente da parte dele. Eu, pessoalmente, não vejo nada de inadequado no tom sereno do disco. Para alguém que já cometeu muitas ousadias ao longo de sua carreira, John Hiatt tem todo o direito de apostar agora num público mais amplo para seu trabalho, até porque seu conjunto de obra é vigoroso demais para ser privilégio apenas de alguns iniciados. E por falar em vigor, o número de encerramento do disco, “When New York Had Her Heart Broke”, sobre o 11 de Setembro, é uma pequena obra prima do folk urbano, que reafirma John Hiatt como um compositor de primeira grandeza. “Dirty Jeans & Mudslide Hymns” serve para atestar isso mais uma vez.


















MATTHEW SWEET
MODERN ART
(Missing Piece Records)
Há exatos 20 anos, Matthew Sweet sacodia a cena musical com “Girlfriend”, um LP brilhante onde mesclava o power pop clássico do Badfinger e do Big Star com as guitarras dissonantes dos discípulos do Velvet Underground Richard Hell e Richard Quine. O resultado foi tão expressivo que, além de fazer de “Girlfriend” um dos 10 discos mais influentes da década de 1990, virou um “hard act to follow” para Matthew Sweet. Seus discos seguintes, por melhores que fossem, acabavam sempre ofuscados quando comparados à excelência de “Girlfriend”. É pouco provável que “Modern Art” consiga reverter esse quadro, apesar de ser, na minha opinião, seu melhor disco desde “In Reverse”, de 1999. Aqui, Matthew passeia por diversas sonoridades familiares em uma ótima coleção de canções novas – algumas bem grudentas, outras mais climáticas. Tem um pouco de tudo or aqui: blues (“Ladyfingers”), harmonias vocais à moda dos Byrds (“She Walks The Night”) e até uma homenagem muito inspirada, com um belíssimo trabalho de guitarra, a seu mentor Alex Chilton, falecido dois anos atrás (“A Little Death”). É um disco extremamente coeso e consistente, que ressalta mais uma vez o amadurecimento musical de Matthew Sweet como compositor, performer e band leader. “Modern Art” pode não tem o frescor quase juvenil de “Girlfriend”, mas vale por uma balzaquiana bem sarada. Um disco apetitoso e sem contra indicações.




















RICHARD BUCKNER
OUR BLOOD
(Merge Records)
Sejam bem vindos à primeira coleção de canções de Richard Buckner em seis anos. Aconteceu de tudo ao longo da gravação desse disco: primeiro um problema grave com o equipamento analógico em que Buckner gravou as bases, depois o roubo do laptop com as canções ainda não masterizadas, e, para completar, um indiciamento por suspeita de assassinato (que acabou dando em nada) pela polícia da cidadezinha onde mora, perto de Buffalo, NY. As encrencas parecem perseguir Richard Buckner. Seu universo sombrio resiste bravamente ao passar dos anos, sempre em flerte aberto com o trágico e o sublime. Os títulos das canções são curtos e grossos: “Traitor”, “Confession”, “Thief”, “Escape”, ‘Witness”. Como de hábito, Buckner toca todos os instrumentos, exceto o pedal steel (a cargo de Buddy Cage) e as maracas (por Steve Shelley, do Sonic Youth). Não há muito mais o que dizer, a não ser que “Our Blood” é um trabalho muito intenso e consistente, mas não deve conseguir ampliar o espectro de público de Richard Buckner. Seus velhos admiradores, no entanto, devem estar muito satisfeitos com seu retorno. Mas não felizes. Felicidade, definitivamente, é um tema inimaginável para o soturno Richard Buckner -- o Raymond Carver do rock and roll.




















RANDALL BRAMBLETT

THE MEANTIME
(New West Records)
Randall Bramblett é um dos artistas americanos mais completos dos últimos 35 anos. Músico de estúdio disputadíssimo, guitarrista, tecladista, saxofonista, compositor de mão cheia, dono de uma bela voz... são tantos os seus atributos que fica difícil entender o porquê de sua carreira solo ainda não ter decolado. O caso é que Randall não aparenta estar muito disposto a fazer concessões ao mercado -- apesar de seu trabalho estar longe de ser considerado “difícil”. Seus dois belos LPs solo gravados em meados dos anos 70 foram fiascos de vendas, mas forneceram as credenciais necessárias para que, entre uma sessão de estúdio e outra, ele fosse convidado para integrar bandas do porte do Sea Level e do Traffic, além de participar de jams com os Allman Brothers e o Grateful Dead. Sua carreira solo hibernou quase vinte anos, mas foi retomada em 2001 numa série impecável de discos para a New West Records, onde desfila seu blend de jazz, blues e pop classudo em canções delicadas, porém intensas, que fazem bonito no repertório de qualquer cantor ou cantora da cena atual. Nesse novo trabalho ele optou por comandar tudo no piano com o suporte do baixista Chris Englauser e do baterista Gerry Hansen, mais Amy Carlson no violino e na viola clássica. O resultado é extremamente climático, num padrão semelhante ao do trabalho atual de Ronnie Robertson, ex-The Band, que ganha uma dimensão de grande arte em números como “The Great Scheme Of Things” e “Disconnected”, ambos magníficos. Quer conhecer um grande artista, do mesmo porte de Donald Fagen e Bruce Hornsby? Anote aí, o nome dele é Randall Bramblett.




















JEFF BRIDGES
JEFF BRIDGES
(Blue Note Records)
Quem viu (e aprovou) Jeff Bridges interpretando o cantor country texano Bad Blake no filme “Crazy Heart”, e cantando canções de seu amigo e produtor T-Bone Burnett, com certeza vai vibrar com isso aqui. Apesar da Imprensa Musical estar saudando esse LP como o trabalho de estréia de Jeff Bridges, é na verdade seu terceiro disco – existe um outro gravado em 2000, não tão bom quanto este, que passou despercebido na época, além, é claro, da trilha sonora de “Crazy Heart”. A orientação musical desse álbum, no entanto, não segue a cartilha musical de cantores-compositores como Townes Van Zandt e Kris Kristofferson, como em “Crazy Heart”. Aqui as referências são mais roqueiras, e as canções mais encorpadas e sombrias. Jeff Bridges viaja bem num repertório parte autoral, parte escolhido por T-Bone Burnett, que chuta para vários lados, e tanto nos remete aos Everly Brothers (“What A Little Bit Of Love Can Do”) quanto ao Eric Clapton mais baladeiro (“Nothing Yet”) e ao country rasgado de Hank Williams Jr. (“How I Missed The Point”). É um disco admirável e muito envolvente, onde a voz pequena de Bridges passeia com segurança por uma paisagem musical esboçada sob medida para ele. É comum atores enveredarem por carreiras musicais por mera vaidade, ou então apenas para faturar uns trocados a mais. Não é o caso de Jeff Bridges. Sua carreira musical não só funciona, como é de uma dignidade artística à toda prova.

DISCOGRAFIAS

LPs JOHN HIATT
Hangin’ Around the Observatory (1974)
Overcoats (1975)
Slug Line (1979)
Tow Bit Monsters (1980)
All Of A Sudden (1982)
Riding With The King (1983)
Warming Up The Ice Age (1985)
Bring The Family (1987)
Slow Turning (1988)
Stolen Moments (1990)
Perfectly Good Guitar (1993)
Live At Budokan (1994)
Walk On (1995)
Little Head (1997)
Crossing Muddy Waters (2000)
The Tiki Bar Is Open (2001)
Beneath This Gruff Exterior (2003)
Master Of Disaster (2005)
Live From Austin TX (2006)
Same Old Man (2008)
The Open Road (2010)
Dirty Jeans & Mudslide Hymns (2011)

LPs MATTHEW SWEET
Inside (1986)
Earth (1989)
Girlfriend (1991)
Altered Beast (1993)
100% Fun (1995)
Blue Sky On Mars (1997)
In Reverse (1999)
Kimi Ga Suki (2001)
The Thorns (2003)
Living Things (2004)
Under The Covers Vol.1 (2006)
Sunshine Lies (2008)
Under The Covers Vol.2 (2009)
Modern Art (2011)

LPs RICHARD BUCKNER
Bloomed (1994)
Unreleased (1995)
Devotion + Doubt (1997)
Since (1998)
Richard Buckner (2000)
The Hill (2000)
Impasse (2002)
Dents & Shells (2004)
Sir Dark Invader vs The Fanglord (2005)
Meadow (2006)
Our Blood (2011)

LPs RANDALL BRAMBLETT
That Other Mile (1975)
Light Of The Night (1976)
See Through Me (1998)
Thin Places (2004)
Rich Someday (2006)
Now It's Tomorrow (2008)
The Meantime (2011)

LPs JEFF BRIDGES
Be Here Soon (2000)
Crazy Heart OST (2009)
Jeff Bridges (2011)


PORTA-RETRATOS

“Normalmente, não costumo compor quando estou na estrada. Fico muito tenso, são muitas preocupações para que nada dê errado, e é complicado ser criativo em momentos assim. Gosto mesmo é de compor relaxado em casa. Mas, de vez em quando, o songwriting angel me visita durante uma tournée e aí não tem jeito.” (John Hiatt)

“As canções do meu disco anterior foram compostas muito rapidamente. Levei mais tempo para gravá-las do que para compô-las. Já nesse disco novo aconteceu o oposto. Cada disco que fiz tem uma história própria. São padrões que nunca se repetem. (Matthew Sweet)

“Steve Earle, Kelly Willis e eu tivemos momentos terríveis na MCA Records. Aquilo lá é um verdadeiro depósito de idiotas com funções executivas. Que ironia: foi a única gravadora grande que me quis, e é a última no mundo com a qual desejo trabalhar no futuro.” (Richard Buckner)

“Às vezes dou Graças a Deus por não vender muitos discos. Assim, a gravadora não se mete no processo criativo e me deixa fazer o que quero. Quando trabalhava ao lado de Steve Winwood, eu via a pressão em torno dele para repetir o sucesso do disco anterior. Nunca quis passar por aquele sufoco. É muito desagradável. (Randall Bramblett)

“Estou com 61 anos. Não consigo imaginar uma idade melhor do que essa para iniciar uma nova carreira” (Jeff Bridges)

“Dois caras que me agradam muito na cena atual?
Ron Sexsmith e Jay Farrar (do grupo Son Volt).
Duas mulheres? P J Harvey e Liz Phair.
(John Hiatt)


“Essa coisa de ser um artista totalmente independente ainda me assusta um pouco. Dá uma sensação de desamparo. Fico com medo de não conseguir faturar o suficiente para conseguir bancar a hipoteca da minha casa, em Los Angeles, ou de arcar sozinho com um disco que venha a ser fiasco de vendas. Mas, apesar de todas essas pequenas fobias, até que estou me saindo bem, não posso reclamar. (Matthew Sweet)

“Meus álbuns quase sempre atraem confusões, e demoram para ficar prontos. Verdade seja dita: eu não sou uma pessoa fácil de se lidar. Mas sempre sei onde quero chegar. Só me atrapalho um pouco no como chegar” (Richard Buckner)

“Gosto de trabalhar na Geórgia, onde morei quase minha vida inteira. Já tentei viver em Los Angeles e em Nova York. Não me acertei nesses lugares. Tentei morar em Nashville e quase enlouqueci. Meu lugar é em Atlanta, mesmo. (Randall Bramblett)

“Se alguma idéia maluca fica parada na minha cabeça por algum tempo, não tem jeito: tenho que colocá-la em prática de alguma maneira. Foi assim com esse disco. Por sorte, tive o apoio integral de T-Bone Burnett nessa empreitada.” (Jeff Bridges)


AMOSTRAS GRÁTIS
JOHN HIATT


AMOSTRAS GRÁTIS
MATTHEW SWEET




AMOSTRAS GRÁTIS
RICHARD BUCKNER



AMOSTRAS GRÁTIS
RANDALL BRAMBLETT



AMOSTRAS GRÁTIS
JEFF BRIDGES


'WHAT´S GOING ON", DE MARVIN GAYE, COMPLETA 40 ANOS (Videocrônica para o Jornal da Orla - Julho 27, 2011)

quinta-feira, julho 28, 2011

A VOLTA DE CINCO BANDAS VETERANAS QUE ESTAVAM SUMIDAS HÁ TEMPO DEMAIS (por Chico Marques)

Houve um tempo em que a crítica torcia o nariz sempre que uma banda veterana resolvia voltar à cena musical, depois de seus integrantes quebrarem a cara em carreiras solo mal sucedidas.

Essas bandas eram eram acusadas de ser oportunistas, de estarem caçando níqueis, e de insistirem em se manter artificialmente num mercado do qual não mais faziam parte.

Claro que, com o passar do tempo, esse radicalismo talibã da crítica foi dando lugar a uma atitude mais ponderada e criteriosa em relação a bandas retornadas após longos hiatos.

Muitas delas voltavam para fazer caixa e ganhar fôlego financeiro para insistir mais alguns anos em carreiras solo que custavam a engrenar, enquanto outras simplesmente retomavam suas atividades mais ou menos do ponto em que pararam.

Tanto num caso quanto no outro, fica a pergunta: o que pode haver de tão desonesto nisso?

Do ano passado para cá, várias bandas veteranas que estavam sumidas do mapa há muito tempo voltaram à cena.

Algumas com trabalhos pouco ou nada expressivos – caso do Blondie, dos Cars e dos New York Dolls.

E outras com trabalhos brilhantes, urgentes, contundentes -- como essas cinco escolhidas para a pauta desta semana em Alto&Claro.

Há vinte anos os novaiorquinos The Feelies não gravam um disco. Há oito anos, The Jayhawks (de Minneapolis, Minnesota) estão afastados dos estúdios. E há seis anos não se ouve falar de trabalhos novos dos Pernice Brothers (de Boston, Massachussets), do Teenage Fanclub (de Glasgow, Escócia) e do Cake (de Sacramento, Califórnia).

Toda essa gente estava afastada da cena principal, mas todos ainda tem muito o que dizer.

E se a única maneira deles conseguirem viabilizar isso for através do revival de suas velhas bandas, que seja assim então.

Benvindas de volta The Jayhawks, The Feelies, Cake, Pernice Brothers e Teenage Fanclub.

















THE JAYHAWKS

MOCKINGBIRD TIME
Este é o primeiro álbum dos Jayhawks desde “Rainy Day Music”, de 2003, e marca o retorno à banda do cantor e guitarrista Mark Olson, depois de uma série de discos solo relativamente bem sucedidos. Acreditem, não é pouca coisa. Mark Olson e Gary Louris formam uma das melhores duplas de compositores que a cena do alt country já conheceu. Os dois brilharam nos anos 80 e 90, daí brigaram feio e só voltaram a se falar 6 anos atrás, meio na moita, sendo que só de dois anos para cá assumiram publicamente que a velha parceria musical estava reativada. A expectativa em torno dessas novas composições da dupla era grande nos últimos meses. Mas agora a expectativa acabou. “Mockingbird Time”, o novo disco da banda, resgata a sonoridade country-rock dos primeiros discos dos Jayhawks e os coloca a banda num contexto mais acelerado que o habitual, fugindo dos excessos pop de discos como “Smile”. Em tournée desde o ano passado, eles tiveram a chance de testar o novo material da estrada, e os fãs da banda aprovaram. Como 2011 é o ano em que a banda comemora 25 anos de carreira, e muitos de seus discos originais estão relançados em edições remasterizadas e expandidas, a chegada de “Mockingbird Time” é mais que oportuna. Traz os bons e velhos Jayhawks rejuvenecidos e totalmente pilhados, mesclando alt country com rock e pop como só eles sabem fazer, e como há muito tempo não se via por aí. Nada mal para uma banda que sempre foi considerada, ao lado do Wilco e do Son Volt, como uma das grandes forças da cena independente americana.
















THE FEELIES
HERE BEFORE

Não deixa de ser curioso os Feelies terem surgido com seu rock and roll melódico e contagiante justo na cena punk novaiorquina dos anos 70, em meio a outros peixes fora d´água como Robert Gordon e Jonathan Richman & The Modern Lovers. Não foi à toa que os primeiros passos da banda tenham sido tão incertos. Seus primeiros LPs gravados para selos independentes ingleses como Stiff e Rough Trade foram solenemente ignorados, até que finalmente foram contratados pela A&M Records e apadrinhados por Peter Buck, do REM, que conseguiu abrir algumas portas para a banda. E que banda! Os guitarristas Glenn Mercer e Bill Million revelaram-se especialistas em estabelecer pontes musicais curiosas entre o rock pedestre do Velvet Underground e soluções melódicas emprestadas do power pop, enquanto a baixista Brenda Sauter e os percussionistas Stanley Demeski e Dave Weckerman forneciam a base segura, mas sempre criativa, para as aventuras musicais da banda. Os Feelies nos brindaram com 4 LPs espetaculares entre 1980 e 1991, seguidos por uma série de tournées de retorno da banda e discos individuais sem foco. Até que, no ano passado, eles assinaram com o selo independente Bar None e gravaram este que é o primeiro disco da banda em 20 anos. O resultado é surpreendente: o frescor musical dos Feelies permanece intacto, as canções estão ainda mais envolventes, e a quantidade de números mais acelerados mostra que a banda está voltando com vigor redobrado, pronta para cair na estrada e conquistar novos admiradores. “Here Before” é um dos melhores discos lançados este ano, e, certamente, o mais ensolarado de todos já gravados por essa banda que um dia foi classificada pelo Village Voice como “a melhor banda underground de Nova York”, e que tem entre seus fãs mais ardorosos gente tão diversa quanto o diretor de cinema Jonathan Demme e o romancista Rick Moody.















CAKE

SHOWROOM OF COMPASSION

Cake surgiu há exatos 20 anos como uma resposta geek à infinidade de bandas grunge que pipocavam de Seattle e infectavam a música de todos os cantos da América. Na época, todo mundo achou muito estranho uma banda de rock ter um trumpetista em sua formação e utilizar instrumentos de percussão tão exóticos, mas, como a música deles era intrigante o suficiente para que ninguém fizesse muitas perguntas, o jeito era tentar entender o conceito musical esboçado por eles. Foi assim que todo mundo percebeu que o Cake era totalmente acessível ao grande público. Com isso, seus 3 primeiros discos fizeram carreiras internacionais bastante satisfatórias. Mas de 2000 para cá, o Cake passou a ser visto como uma “curiosidade engraçadinha dos anos 90”, e isso estigmatizou a banda, fechando algumas portas e levando inclusive a férias prolongadas de quase 3 anos para toda a banda. Felizmente, em 2010, com todos os integrantes vivendo novamente em Sacramento e trabalhando com outras coisas, o Cake decidiu voltar. Como nenhuma gravadora demonstrou interesse neles, decidiram bancar eles próprios esse “Showroom Of Compassion” -- o disco mais arrojado, mais maduro, e menos engraçadinho da banda até agora. O resultado é muito positivo. As canções de John McCrea estão mais intensas que antes e seus vocais menos entediado. Além disso, a banda está tocando de uma maneira mais envolvente e vibrante, e o trumpete de Vincent DiFiore, que antes servia para dar um tom de estranhamento nos arranjos da banda, agora dá um colorido mariachi perfeitamente integrado ao novo repertório. Existe aqui uma coesão que, com certeza, não existia antes, apesar de, aparentemente, o som da banda não ter mudado quase nada do último disco para cá. Resta torcer para que essas sutilezas saltem aos ouvidos dos fãs do Cake espalhados pelo mundo, e que eles saibam receber de volta essa banda totalmente ímpar depois desse sumiço prolongado. Tom Zé – grande amigo da banda -- já ouviu, e aprovou.















THE PERNICE BROTHERS
GOODBYE, KILLER
Joe Pernice é, desde meados dos anos 90, uma das figuras mais inusitadas e brilhantes – para não dizer geniais – da cena independente angloamericana. Comandante de bandas memoráveis como Scud Mountain Boys e Chapaquiddick Skyline -- que mesclavam alt country com power pop e letras de alto gabarito literário --, Joe só foi conseguir reconhecimento quando, ao lado de seu irmão Bob e alguns amigos, gravou para o selo SubPop um LP repleto de baladas pop com arranjos orquestrais densos e criativos chamado “Overcome By Happiness” e assinado por The Pernice Brothers. Como já era de se esperar, o disco passou meio batido nos EUA. Mas foi saudado pelos ingleses como “the next best thing”, o que facilitou e muito os próximos passos da banda. Vários discos brilhantes se seguiram, ano após ano, até que Joe deu uma parada em 2007 e 2008 para escrever um romance e trabalhar em outros projetos, voltando com a banda em 2010, numa tournée que culminou com o lançamento deste “Goodbye, Killer”, um disco que começa com canções fulminantes e atípicas como “Bechamel” e “Jacqueline Susann”. Mas que, já na terceira faixa, nos devolve ao território musical onde os Pernice Brothers viajam melhor. E aí eles brilham intensamente, e mostram que, além de serem a melhor banda de pop barroco da cenas americana atual, são também uma grande banda power pop quando optam por trabalhar com uma instrumentação mais básica, como nesse “Goodbye, Killer”. Imaginem a sagacidade de Elvis Costello com a carga dramática de Morrisey e a non-chalance de Graham Parker. É meio por aí.
















TEENAGE FANCLUB
SHADOWS
Deveriam existir mais bandas como o Teenage Fanclub para mostrar tanto aos que sonham com o estrelato quanto aos que ainda desfrutam de certas regalias das gravadoras que, em nome da longevidade de suas bandas, é sempre bom ter um Plano B para suas carreiras na cena independente, para não ser pego de surpresa pelas idiossincrasias do Indústria Fonográfica. Em 1993, quando emplacaram seu segundo LP, “Bandwagonesque”, nas paradas americanas, esses roqueiros pop escoceses vislumbraram a possibilidade de seus trabalhos seguintes não venderem tão bem. Daí, trataram de não perder o chão de vista, para evitar tombos. Tudo bem que maturidade e rock and roll não costumam combinar bem, mas, no caso do Teenage Fanclub, a coisa foi providencial. Há mais de 10 anos gravando independente e lançando um LP a cada 5 anos -- mas nunca deixando de excursionar --, eles seguem firmes e fortes como ícones da cena power pop e herdeiros diretos de bandas clássicas como Big Star e Badfinger. Nesse mais recente trabalho da banda, “Shadows”, lançado há alguns meses, todas as virtudes principais deles estão muito bem expostas. As composições de Norman Blake, Gerard Love e Raymond McGinley seguem mais reflexivas que o habitual, mas seus refrões continuam grudentos como sempre. Os arranjos e o instrumental da banda são impecáveis, não tem uma única canção no LP que não possa ser tocada ao vivo no mesmo formato em que foi gravada – o que é típico de artistas habituados a amadurecer o repertório testando-o primeiro na estrada. Enfim... aos 25 anos de carreira, nossos bravos highlanders pop seguem firmes e fortes fazendo uma música tão jovial e tão descomplicada quanto a que marcou seus primeiros discos.

DISCOGRAFIAS

LPs THE JAYHAWKS
The Jayhawks (1986)
Blue Earth (1989)
Hollywood Town Hall (1992)
Tomorrow The Green Grass (1995)
Sound Of Lies (1997)
Smile (2000)
Live From Women´s Club (2002)
Rainy Day Music (2003)
Mockingbird Time (2011)

LPs THE FEELIES
Crazy Rhythms (1980)
The Good Earth (1986)
Only Life (1988)
Time For Witness (1991)
Here Before (2011)

LPs CAKE
Motorcade Of Generosity (1994)
Fashion Nugget (1996)
Prolonging The Magic (1998)
Comfort Eagle (2001)
Pressure Chief (2004)
Showroom Of Compassion (2011)

LPs THE PERNICE BROTHERS
Dance The Night Away (com Scud Mountain Boys 1995)
Pine Box (com Scud Mountain Boys 1996)
Massachussets (com Scud Mountain Boys 1996)
Overcome By Happiness (1998)
Chapaquiddick Skyline (com Chapaquiddick Skyline 2000)
Big Tobacco (solo 2001)
The World Won´t End (2001)
Yours, Mine & Ours (2003)
Nobody´s Watching, Nobody´s Listening (2004)
Discover A Lovelier You (2005)
Live A Little (2006)
It Feels So Good When I Stop (2009)
Goodbye, Killer (2011)

LPs TEENAGE FANCLUB
A Catholic Education (1990)
Bandwagonesque (1991)
Thirteen (1993)
Grand Prix (1995)
Songs From Northers Britain (1997)
Howdy! (2000)
Words Of Wisdom And Hope (2002)
Man-Made (1995)
Shadows (2011)


PORTA-RETRATOS

“Mark e eu compomos canções de maneiras muito diferentes. Quando nos juntamos para compor, nossos modos de trabalho entram em conflito, e o resultado disso são canções sempre estranhamente desconjuntadas. Talvez seja isso o que faz do repertório dos Jayhawks tão diferente das outras bandas da cena alt country.” (Gary Louris, Jayhawks)

“Desde os primeiros ensaios até a volta efetiva dos Feelies, todos os passos da banda foram pensados e digeridos lentamente por todos os envolvidos. Felizmente, estamos muito mais maduros emocionalmente hoje. Quando a banda encerrou atividades em 1991, estávamos numa encruzilhada: podíamos seguír para o mainstream, como queriam 50% das pessoas que trabalhavam conosco, ou então voltar para a cena aindependente. Não consequimos chegar a um consenso e a banda acabou.” (Glenn Mercer, Feelies)

“Eu vejo a música como um belo hobby para a maioria das pessoas nos próximos 10 anos. Vejo muitos conhecidos – alguns deles, artistas de muito prestígio – estudando para poder trabalhar com outras coisas num futuro próximo.” (John McCrea, Cake)

“Se os discos dos Pernice Brothers são considerados tão bons, isso com certeza tem a ver com o fato de eu adorar o que faço. Posso garantir que se algum dia eu experimentar alguma coisa que seja tão prazeirosa quanto compor e cantar, sou capaz de largar tudo o que faço hoje e me dedicar exclusivamente a ela.” (Joe Pernice, Pernice Brothers)

“Esse nosso último disco foi gravado em pouco mais de uma semana em 2008. Os dois anos seguintes nós passamos fazendo acertos no disco e aguardando a hora certa de lançá-lo. Quando se é independente, o jeito é planejar todos os passos da possível carreira do disco.” (Ray McGinley, Teenage Fanclub)

“É um prazer estar trabalhando com Gary Louris novamente. Nos discos solo que fiz nos anos em que estive afastado dos Jayhawks senti minha música ficando doméstica demais, previsível demais, ao menos para mim. Senti muita falta de um parceiro que bagunçasse meu meio de campo e puxasse as canções para um lado diametralmente oposto ao almejado por mim. Agora está tudo em casa novamente”. (Mark Olson, Jayhawks)

“Esse disco foi feito de uma maneira totalmente diferente dos outros que fizemos antes. Como estávamos todos com outras atividades e sem muito tempo para trabalhar juntos, trocávamos arquivos musicais com idéias para canções para canções por email. Isso, de certa forma, nos obrigou a ser mais eficientes e objetivos.” (Glenn Mercer, Feelies)

“Tivemos que, de certa forma, reavaliar todo o aspecto business no lançamento desse novo disco. Sabíamos de antemão que não valeria a pena estar vinculado a uma grande gravadora nesse momento específico da Indústria Fonográfica, mas, por outro lado, corríamos o risco de sermos esmagados com insetos ao lançar o disco por nosso próprio selo. Por sorte, está dando certo, mas confesso que nunca tivemos grandes espectativas quanto à vendagem do disco. É tudo muito estranho: chegamos ao primeiro posto do Top 200 da Billboard na semana de lançamento do disco, mas vendemos apenas 45 mil discos.” (John McCrea, Cake)

“Meu irmão Bob participa quase sempre das gravações dos discos dos Pernice Brothers. Só que ele não gosta de sair em tournée. Eu o respeito por isso. Ele é um cientista brilhante e gosta de ser um músico diletante. Nunca pretendeu ser músico profissional 100% do tempo.” (Joe Pernice, Pernice Brothers)

“Nós fomos uma das primeiras bandas a insistir nessa coisa de tocar álbuns inteiros ao vivo, na seqüência original das faixas. É uma maneira da gente conviver com aquelas canções que a gente não gosta mais, e sempre acaba deixando de lado dos shows. É importante aprender a conviver com essas canções. Até porque alguém certamente gosta delas, e vez ou outra vai pedir que as toquemos nos shows.” (Ray McGinley, Teenage Fanclub)


AMOSTRAS GRÁTIS
THE JAYHAWKS





AMOSTRAS GRÁTIS
THE FEELIES





AMOSTRAS GRÁTIS
CAKE





AMOSTRAS GRÁTIS
THE PERNICE BROTHERS





AMOSTRAS GRÁTIS
TEENAGE FANCLUB


COM VOCÊS... O MEU AMIGO... ERASMO CARLOS (Videocrônica para o Jornal da Orla - Julho 27, 2011)

segunda-feira, julho 18, 2011

CINCO ERRANTES ROQUEIROS NAVEGANTES (por Chico Marques)

Nos cinco anos que antecederam “Thriller”, o clássico de Michael Jackson e Quincy Jones, reinava uma pluralidade musical notável nas cenas musicais pop do mundo inteiro. Podia qualquer coisa nas cenas pós-punk e no wave. Bastava ter talento e a bênção de algum produtor musical, e pronto: todos os caminhos estavam abertos.

Mas então veio 'Thriller", o LP que instituiu uma espécie de Idade Média na Indústria Fonográfica americana. E então, a partir dele, a própria Indústria começou a escantear qualquer manifestação artística que não fosse 100% integrada ao que então se considerava “mainstream”.

Hoje, temos uma cena musical bastante semelhante à que havia antes de "Thriller". Só que com uma variedade muito maior de manifestações, uma cena independente que não pára de crescer cada vez, facilidades antes inpensáveis para gravar e mixar um disco e novas “medias” que conseguem entregar o “produto” certo ao cliente certo.

Pouco a pouco, o ideal de mercado musical que existia naquela época – “um mar que não rejeita rio algum”, imagem forjada por Pete Townshend, do The Who, nos anos 1980 – virou realidade.

Sendo assim, nada mais justo que artistas que deram os primeiros passos em suas carreiras naquela momento já meio distante, possam desfrutar de uma situação confortável hoje.

É o caso dos nossos cinco errantes roqueiros navegantes desta semana:

Garland Jeffreys – mulato do Brooklyn apaixonado por blues e soul music, que descobriu o reggae acidentalmente numa academia de ginástica do bairro em 1969.

Willy DeVille – criatura bastante estranha dos subúrbios de Nova York, falecido recentemente, que mesclava a urgência do punk rock com serenatas soul com sotaque latino.

Alejandro Escovedo – punk rocker e poeta das ruas de San Francisco, Califórnia, que aos poucos se tornou um dos compositores mais contundentes da América.

Raul Malo – country-rocker de Miami, Florida, filho de cubanos e um dos artistas mais multifacetados que a cena musical americana já teve o prazer de conhecer.

Luka Bloom – folk singer irlandês nada ortodoxo, que ficou famoso por pegar um número do rapper L L Cool J. e transformá-lo numa bela balada folk.

Todos eles tem em comum o mesmo espírito aventureiro e a mesma atitude desalinhada

Pois estes são os mais novos trabalhos desses bravos desbravadores musicais.

Vamos a eles:



















GARLAND JEFFREYS

THE KING OF IN BETWEEN
A primeira vez que o mundo tomou conhecimento da existência de Garland Jeffreys foi no disco “Vintage Violence”, que John Cale gravou logo que saiu do Velvet Underground, em 1969. Jeffreys estava lá, cantando ao lado dele, e logo foi saudado como “the best next thing” e um dos tesouros musicais escondidos mais preciosos da Costa Leste americana. Demorou a ser contratado, pela Atlantic. E então, gravou um belo disco em 1972 com uma banda que trazia Dr. John e outros grande músicos, onde mapeava musicalmente a região do Brooklyn e do Queens, mesclando soul, rock and roll, reggae, canções hispânicas e outras sonoridades trazidas pelos novos habitantes desses bairros, que vinham de todos os cantos do mundo. Podia ter sido um triunfo. Mas, infelizmente, ninguém tomou o menor conhecimento, e o LP foi um fiasco de vendas. Jeffreys passou quatro anos no estaleiro tentando avaliar o que saiu errado, e então voltou à carga com um segundo disco certeiro, excelente, chamado “Ghost Writer”, onde retomava o mesmo projeto musical anterior, mas agora com o suporte jazzy da banda do guitarrista David Spinozza e alguns singles em potencial escondidos na cartola e nas mangas. Aí sim, funcionou. E o sucesso finalemente chegou. Mas infelizmente não durou muito -- apenas 3 ou 4 anos. Em meados dos anos 1980 – sem dúvida o períodos menos tenebroso da história da música pop -- , Jeffreys cansou de correr atrás de contratos e passou a gravar discos independentes, que vendiam muito pouco, e, por conta disso, ficaram cada vez mais espaçados. Para se ter uma idéia, “The King Of In Between” é seu primeiro trabalho em nada menos que 13 anos, e é excelente, vigoroso, repleto de composições que grudam no ouvido logo após a primeira audição e perfeito em todos os sentidos. Tem um dos boogies mais deliciosos que ouvi nos últimos anos – “Til John Lee Hooker Calls Me” --, a melhor homenagem à cidade de Nova York que ouvi neste novo Século – “Roller Coaster Town” – e também seqüências temáticas a seus números clássicos dos anos 70 ‘Wild In the Streets” -- “Streetwise”, malandra até dizer chega – e “”Ghost Writer” -- “The Contortionist”, quase uma autobiografia dos últimos 30 anos --, ambas magníficas. A não ser que Mr. Jeffreys seja um compositor muito pouco prolífico, não há justificativa para gravar assim tão pouco, e tão espaçado. Garland Jeffreys: por favor, não suma novamente. E agora chega, pois meus adjetivos acabaram.




















WILLY DEVILLE

COME A LITTLE BIT CLOSER – LIVE!
Por mais questionável que tenha sido o legado musical do punk rock nos Estados Unidos, não se pode negar que foi graças à efervescência da cena pós-punk que muitos artistas inclassificáveis ou difíceis de classificar conseguiram um merecido lugar ao sol na Indústria Fonográfica. Willy DeVille era uma deles. No comando do grupo Mink DeVille nos anos 1970 e 1980, ele mesclou um rock and roll pedestre e urgente com a soul music com sotaques latinos dos subúrbios de Nova York e Newark numa combinação que lembrava tanto Phil Spector quanto os emergentes conterrâneos Bruce Springsteen & The E Street Band e Southside Johnny & The Asbury Jukes. Mas Willy DeVille tinha um projeto de carreira bem mais complexo que isso. Depois de 10 anos à frente do Mink deVille, dissolveu a banda e seguiu para New Orleans para fazer investigações musicais no rhythm & blues do Deep South, em discos magníficos como “Loup Garou” -- que foram extremamente bem recebidos na Europa mas solenemente ignorados nos EUA. Mas isso não o desanimou. Mudou-se para Paris, passou a administrar sua carreira de lá, e tocou seu trabalho em frente, fazendo tournées memoráveis e gravando discos estranhos, difíceis, mas sempre inusitados e de altíssimo gabarito artístico. Desde sua morte ano retrasado, circulam rumores de que um grande número de gravações inéditas estaria sendo organizada para lançamento em discos futuros. Esse aqui, pelo visto, é o primeiro deles. É quase um The Best Of Willy DeVille gravado ao vivo, com releituras magníficas tanto para canções de todas as fases de sua carreira, como ‘Venus Of Avenue D”, ‘Spanish Stroll”, “Mixed Up Shook Up Girl” e “Just To Walk That Little Girl Home”. De surpreendente, uma releitura à moda de Phil Spector para “Slave To Love”, de Brian Ferry, e outra, estranhíssima -- em tom de salsa, simplesmente genial --, para a imortal “Hey Joe”. Quem não conhece Willy deVille, temem “Come A Little Bit Closer – Live!” um excelente ponto de partida para uma das figuras mais loucas e idiossincráticas da cena musical pop americana em todos os tempos. Para quem o conhece de longa data, é uma excelente oportunidade para matar a saudade. Da minha parte, não é pouca.




















ALEJANDRO ESCOVEDO

STREET SONGS OF LOVE
Há mais de 35 anos na cena musical da Costa Oeste americana à frente de bandas ótimas que nunca emplacaram direito -- Rank & File, True Belivers – ou apostando numa carreira solo que nunca decolou como merecia, tudo indica que Alejandro Escovedo finalmente achou seu Norte. “Street Songs Of Love” é seu segundo LP produzido pelo lendário Tony Visconti, ex-parceiro de David Bowie nos anos 1970, e mixado por Bob Clearmountain -- que souberam adequar aquela urgência roqueira “glam” dos discos clássicos de Bowie ao trabalho intenso e multifacetado de Escovedo, O resultado é vigoroso, sem dúvida um dos discos mais contundentes deste ano. O isso é surpreendente vindo de Escovedo, já que ele esteve à beira da morte dez anos atrás, por conta de uma hepatite C dignosticada e não tratada ao longo de 4 anos. Escovedo teve um colapso em pleno palco, em Phoenix, e teve sua carreira interrompida por um tratamento demorado, que foi totalmente bancado pelos amigos e admiradores, e que durou mais de dois anos – mas, felizmente, teve bons resultados. Desde que voltou à ativa, a temática habitual das canções de Escovedo ficou mais serena -- como “After The Meteor Showers” e “Shelling Rain” –, apesar de sua musicalidade estar mais turbulenta e agressiva do que jamais esteve – como comprovam “This Bed Is Getting Crowded” e “Anchor”. Enfim, Alejandro Escovedo é um grande talento. Está no melhor momento de sua carreira. Só nos resta torcer para que essa sua lua de mel com Tony Visconti e Bob Clearmountain emplaque outros discos tão superlativos quanto estes recentes “Real Animal” e “Street Songs Of Love”.




















RAUL MALO

SINNERS AND SAINTS
Se tem alguém hoje em dia na cena musical americana capaz de aglutinar gêneros musicais tão conflitantes quanto rockabilly, honky tonk, surf music, polka, tex-mex, salsa e country... esse alguém é Raul Malo. Ex-líder dos Mavericks, dono de um timbre vocal que lembra eventualmente Roy Orbison, e herdeiro do legado musical do “maestro” Doug Sahm – conhecido como o Count Basie do Tex-Mex --. Raul Malo nasceu em Miami, Florida, filho de pais cubanos, e tocou em tantas bandas de tantos gêneros diferentes que aprendeu a ver a música popular por uma ótica plural e totalmente pessoal. Esse seu sexto LP solo começou a ser gravado dois anos atrás em um estúdio caseiro em Nashville, Conforme as canções foram evoluindo, Malo sentiu que aquelas novas canções estavam brotando na cidade errada, e mudou de mala e cuia para Austin, Texas, onde uniu forças a craques como o lendário organista Augie Myers, o guitarrista Shawn Sahm (filho de Doug) e o grupo vocal feminino The Trishas. Foi aí que “Sinners and Saints” ganhou esse sotaque fronteiriço delicioso e esse colorido musical que ostenta. Não é exagero algum dizer que este é o melhor de todos os discos de Malo, incluindo os que fez com os Mavericks. E não há muito mais o que dizer. Escutem esse novo trabalho de Raul Malo e entendam porque não existem fronteiras musicais entre Estados Unidos, México e as sonoridades caribenhas. “Sinners and Saints” é tão bem resolvido que merecia tocar o dia inteiro como música ambiente na ONU. Quem sabe aquela gente aprende alguma coisa com esses músicos eternamente sorridentes.















LUKA BLOOM

2 METER SESSIONS
Luka Bloom nasceu na Irlanda e começou sua carreira em meados dos anos 1970 com seu nome verdadeiro, Barry Moore -- incentivado pelo irmão Christy Moore, que já era na ocasião um dos artistas folk mais respeitados da cena irlandesa. Mas, por algum motivo que nada tinha a ver com seu talento como cantor e compositor – provavelmente a sombra protetora e, ao mesmo tempo, incômoda de seu irmão mais famoso – sua carreira nunca sensibilizou muito os irlandeses. Então, a reboque do sucesso internacional do U2, ele deixou a Irlanda em 1987 e mudou seu nome artístico para Luka Bloom, para tentar a sorte na América. Gravou 3 discos para a Reprise Records que o projetaram como artista folk, mas acabou prisioneiro de um contrato leonino que o deixou 5 anos sem poder gravar. Curiosamente, do início dos anos 1990 em diante sua carreira finalmente decolou. Seus últimos discos -- “Tribe”, ‘Eleven Songs” e “Lost In America” – são triunfos artísticos inquestionáveis, bem recebidos por crítica e público no mundo inteiro. Esse novo “2 Meter Sessions” é um EP com 8 de suas canções gravadas ao vivo, sem banda, para um projeto da TV Dinamarquesa , que acaba de ser lançado somente para o mercado europeu. Para quem ainda não conhece o trabalho de Luka Bloom, serve como uma bela introdução aos múltiplos talentos desse eloqüente folk Singer irlandês. Para quem já conhece, vale como aperitivo até que ele nos brinde com seu próximo disco, quem sabe até o final deste ano.


DISCOGRAFIAS

LPs GARLAND JEFFREYS
Garland Jeffreys & Grinders Switch (1970)
Garland Jeffreys (1973)
Ghost Writer (1977)
American Boy & Girl (1978)
Escape Artist (1980)
Rock & Roll Adult (1981)
Guts For Love (1983)
Don´t Call me Buckwheat (1992)
Wildlife Dictionary (1997)
The King Of In Between (2011)

LPs WILLY DEVILLE
Cabretta (com Mink DeVille 1977)
Return To Magenta (com Mink DeVille 1978)
Le Chat Bleu (com Mink DeVille 1980)
Coup De Grace (com Mink DeVille 1981)
Where Angels Feat To Tread (com Mink DeVille 1983)
Sportin´ Life (com Mink DeVille 1985)
Miracle (com Mink DeVille 1987)
Victory Mixture (1990)
Willy DeVille Live (1993)
Backstreets Of Desire (1994)
Loup Garou (1996)
Live (1991)
Horse Of A Different Color (1991)
Acoustic Trio In Berlin (1993)
Crow Jane Alley (1994)
Pistola (2008)
Come A Little Bit Closer – Live! (2011)

LPs ALEJANDRO ESCOVEDO
Sundown (com Rank & File 1982)
Long Gone Dead (com Rank & File 1984)
Rank & File (com Rank & File 1985)
True Believers (com True Believers 1987)
Hard Road (com True Believers 1989)
Gravity (1992)
The End-Losing Your Touch (1994)
Thirteen Years (1994)
With These Hands (1996)
More Miles Than Money-Live! (1998)
Bourbonitis Blues (1999)
A Man Under The Influence (2001)
By The Hand Of the Father (2002)
Por Vida: A Tribute to Alejandro Escovedo (2004)
Room Of Songs (2005)
The Boxing Mirror (2006)
Real Animal (2008)
An Introduction To Alejandro Escovedo (2009)
Street Songs Of Love (2011)

LPs RAUL MALO
Mavericks (com Mavericks 1991)
From Hell To Paradise (com Mavericks 1992)
Cryin´ Shame (com Mavericks 1994)
Music For All Occasions (com Mavericks 1995)
Trampoline (com Mavericks 1998)
It´s Now! It´s Live! (com Mavericks 1998)
Live In Austin Texas (com Mavericks 2000)
Today (2001)
The Nashville Acoustic Sessions (2004)
You´re Only Lonely (2006)
After Hours (2007)
Marshmallow World & Holiday Favorites (2007)
Lucky One (2009)
Sinner & Saints (2011)

LPs LUKA BLOOM
The Barry Moore Years (1987)
Luka Bloom (1988)
Riverside (1990)
The Acoustic Motorbike (1992)
Turf (1994)
Salty Heaven (1999)
Keeper Of The Flame (2000)
Between The Mountain & The Moon (2002)
Amsterdam Live! (2003)
Before Sleep Comes (2004)
Innocence (2006)
Tribe (2007)
Eleven Songs (2008)
Dreams In America (2010)
2 Meter Sessions (2011)


PORTA-RETRATOS

“Não sou o tipo de compositor que escreva canções sobre garotas e carros. Meu tema é sempre como e onde eu fui criado, e como vivo hoje. Meu desafio é sempre achar uma maneira nova de traduzir isso em canções.” (Garland Jeffreys)

“O grande segredo na hora de gravar é saber a hora de parar. Tem momentos em que, se você entra na cabine novamente para refazer alguma passagem, ou para acrescentar alguma coisa, você mata a canção. Daí, é importante ter segurança e acreditar no que você fez. E tomar coragem para dar o assunto por encerrado.” (Willy DeVille)

“Bruce Springsteen sempre foi um grande amigo e um grande incentivador do meu trabalho. Há já uns bons anos, enquanto seu show não começa, ele sempre manda colocar meus cds para tocar para o público dele. Esse tipo de camaradagem é a cara dele.” (Alejandro Escovedo)

“Ouço de tudo desde pequeno. Adoro Elvis e Johnny Cash. Gosto muito de Luciano Pavarotti. Sempre ouço Etta James e James Brown. É muito raro eu calhar de não gostar de algum tipo de música.” (Raul Malo)

“É um grande privilégio poder compor canções e cantá-las para as pessoas. Tenho uma gratidão imensa por qualquer um que compre meus discos ou vá a meus shows. Nunca achei que merecesse receber mais crédito do público do que os que já tenho. O desafio agora é zelar pelos admiradores que já conquistei, e mantê-los interessados no que faço.” (Luka Bloom)

“Fico feliz quando acerto na mosca com minhas composições. Tempos atrás, conversando com meu amigo Graham Parker, ele disse: Puxa, Garland, aquela sua canção, “Matador”, é demais, simplesmente perfeita, talhada para o sucesso. Como eu queria ter escrito uma canção poderosa como essa. O diabo é que tem gente como Paul Simon que tem umas vinte dessas em seu curriculum.” (Garland Jeffreys)

“Adoro a música que faço e adoro sair em tournée. Quando sinto que consegui entrar na mesma sintonia da platéia, o prazer que sinto é indescritível. Eu me considero um cara de sorte. Faço só o que gosto. Pouca gente no mundo inteiro conta com esse privilégio.” (Willy DeVille)

“Meus pais contribuiram bastante para a cena musical americana. Meus irmãos Coke e Pete são muito conhecidos por terem participado das melhores formações da banda de Carlos Santana. Eu, que sou o mais novo, já estou na cena há 35 anos. Somos quase um clã musical. Para mim, é motivo de muito orgulho carregar o nome Escovedo.” (Alejandro Escovedo)

“Música é um negócio muito incerto. É preciso gostar muito de fazer música para poder encarar o meio musical. Ou você ama muito o que você está fazendo, e confia no seu taco -- torcendo para que dê tudo certo no final e o público responda positivamente ao que você realizou --, ou então é melhor mudar de ramo.” (Raul Malo)

“Luka eu tirei da canção de minha amiga Suzanne Vega. Bloom, eu tirei do personagem de James Joyce. Como eu estava vindo de Dublin para Nova York para recomeçar minha carreira, achei que seria boa idéia adotar um novo nome artístico que fizesse a ponte entre essas duas cidades.” (Luka Bloom)


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