O cantor, compositor e guitarrista Wayne Kramer surgiu na cena musical de Detroit na segunda metade dos Anos 60, como integrante do incendiário grupo Motor City 5 (MC5). Tocava no Grand Ballroom, que era gerenciado por John Sinclair, um escritor radical de esquerda. que havia fundado o Movimento Panteras Brancas. O mote principal das performances da banda era “Kick Out The Jams” -– em bom português, Bota Pra Fudê --, que acabou servindo como título ao primeiro LP deles pela Elektra. Mas muitos lojistas se negaram a comercializar um disco com um nome desses, daí a gravadora optou por deixar na capa do LP apenas o logo da banda -– que, inconformada, mandou confeccionar adesivos com as palavras FUCK YOU usando a mesma tipologia do logo da banda e os afixou nas vitrines das lojas que criaram este impasse. Isso levou, naturalmente, a um rompimento com a Elektra. Mas logo em seguida conseguiram um novo empresário -– o crítico musical Jon Landau -– que conseguiu para eles um contrato com a ATCO, onde gravaram dois ótimos discos: “Back In The USA” e “High Time”. Pena que a banda fosse tão autodestrutiva, e todos os integrantes usuários de drogas pesadas e também traficantes eventuais. Wayne foi um dos integrantes da banda que não morreu de OD, mas acabou em cana onde permaneceu por boa parte dos Anos 70. Retomou sua carreira nos anos 80 como artista solo, gravou bons discos pela Epitaph Records, e, mais recentemente, assumiu a liderança de uma nova encarnação do MC5, bem menos turbulenta que a original. Não tem lançado discos nos últimos 10 anos, mas vira e mexe reaparece em tournée à frente do MC5. Esteve com a banda em São Paulo alguns anos atrás, estranhamente acompanhado do cantor e guitarrista power-pop Marshall Crenshaw -– uma combinação estranha, que não deu liga, mas que foi divertida mesmo assim. (Chico Marques)
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segunda-feira, abril 30, 2018
terça-feira, fevereiro 13, 2018
terça-feira, abril 23, 2013
A VOLTA TRIUNFAL DOS STOOGES, SOB O COMANDO DO HOMEM-BOMBA IGGY POP
Iggy Pop é, sempre foi, e sempre será uma força da natureza. Para o bem ou para o mal.
Seu nome verdadeiro é James Newell Osterberg. Acaba de completar 66 anos de idade em excelente forma. O apelido Iggy vem de sua primeira banda de rhythm & blues, The Iguanas, onde cantava e tocava bateria, arrepiando a noite de Detroit em meados dos anos 60. Levava tão a sério sua vocação de baterista que caiu fora de Detroit por uns dois anos para se escolar com os mestres do blues em Chicago. Mas acabou voltando a Detroit. Foi quando criou essa persona hiperativa, completamente ensandecida, que resiste bravamente nos palcos do mundo inteiro até hoje: Iggy Stooge, mais tarde Iggy Pop..
(uma curiosidade que revela muito sobre ele: em 1968, a Elektra Records enviou a Detroit um A&R Man encarregado de contratar o MC-5 e mais alguma outra banda interessante que calhasse de ver por lá – e foi aí que Iggy descobriu que não só havia espaço para outsiders como ele e os Stooges na Indústria Fonográfica como ainda receberiam dinheiro para gravar um disco, algo que jamais haviam imaginado.)
Em apenas 3 LPs – ‘The Stooges” (1969), “Funhouse” (1970) e “Raw Power” (1972) – os Stooges viraram lenda, e por muito pouco não naufragaram num coquetel de autodestruição que envolvia drogas pesadíssimas, automutilação e explosões de demência -- que culminaram num salto mortal que Iggy deu de um palco com 7 metros de altura em direção à platéia, condenando-o a uma temporada longa num hospital e sua banda ao completo colapso.
Iggy, obviamente, teve que rever sua postura artística daí em diante.
Graças a seu amigo David Bowie, que o orientou nesse processo, ele conseguiu se reinventar de forma inusitada no disco “The Idiot” (1976), produzido e composto em parceria com Bowie, onde olhava para o passado com um distanciamento carinhoso que foi vital para ele naquele momento.
Basta dizer que, na Bolsa de Apostas de Londres, Iggy era então o artista de rock and roll mais cotado como o próximo a fazer companhia para Jim Morrison, Jimi Hendrix e Janis Joplin.
Pois bem: Iggy sobreviveu e, depois de uma temporada debaixo das asas de Bowie, voltou ao rock and roll rasgado em uma seqüência de discos fulminantes e perigosos. Só que agora sem drogas, sem sacrifício humano nos palcos, e com sua persona hiperativa completamente sobre controle.
Lembro de vê-lo ao vivo em meados dos anos 80 num show no saudoso Teatro Bandeirantes, em São Paulo, em que simulava situações de auto-mutilação no palco, mas sem jamais perder o controle sobre a teatralidade de sua performance.
E então, com o passar do tempo, Iggy foi-se transformando numa figura que desafiava os modismos mercadológicos propostos pelas gravadoras por onde passou. Fazia o que bem entendesse em seus discos, desde flertes abertos com o jazz até incursões pelo hip-hop, claro que sem jamais perder de vista seu indômito espírito roqueiro.
Até que, em 2003, para surpresa geral, recrutou dois de seus velhos parceiros nos Stooges -- os irmãos Ron e Scott Asheton – para reviver a velha banda em duas ou três tournées vigorosas, como nos velhos tempos, e gravando juntos o disco de estúdio “The Weirdness” em 2007. A recepção foi calorosa, tanto de crítica quanto de público.
Mas infelizmente, nesse meio tempo, em 2009, o baixista e guitarrista Scott Asheton foi encontrado morto em sua casa, e, diante disso, Iggy and the Stooges caíram numa encruzilhada. Que só se resolveu dois anos atrás, quando finalmente conseguiu convencer o guitarrista original da banda, James Williamson -- que desde os anos 80 não queria mais saber de fazer tournées -- a reassumir seu velho posto.
E agora, eis que temos os velhos Stooges de volta, em um novo LP bem debochado entitulado “Ready To Die”, que Iggy afirma ser -- e é mesmo! -- uma seqüência natural de “Raw Power”, repleto de números tão básicos e truculentos quanto os que compunham aquele clássico bolachão de 1972.
Basta olhar os nomes dos rocks que abrem o disco novo para sentir a pegada forte dos rapazes: “Gun”, “Burn”, “Sex & Money” e “Job”. Um mais intenso e vigoroso que o outro.
Mas “Ready To Die” vai muito além de uma sequência de rocks violentos e debochados. Traz também baladas como “Beat That Guy”, com certeza uma das melhores composições de Iggy em toda a sua carreira, e a delicadíssima “Unfriendly World”, que poderiam perfeitamente fazer parte dos últimos dois álbuns solo do “chansonier” Iggy Pop.
Iggy, sempre muito bem humorado, andou dizendo por aí que a volta dos Stooges não é motivada exclusivamente por dinheiro, e sim pelo prazer em reunir velhos comparsas que ainda tem muito som e muita fúria para proporcionar não só a seus velhos fãs quanto a toda essa molecada que está descobrindo o rock viceral que a banda esboçou mais de 40 anos atrás só agora.
Bom, nem precisava.
As 10 faixas de “Ready To Die” falam por si próprias.
Dificilmente algum outro artista (ou grupo) veterano conseguirá aparecer com um disco tão urgente e tão implacável quanto este em 2013.
Já quanto à foto da capa, com Iggy vestido de homem-bomba sob a mira de uma arma pesada, pode até ser considerada de mau gosto por alguns -- mas, para mim, é a melhor capa de um disco de rock and roll em muitos e muitos anos.
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quinta-feira, maio 31, 2012
MELANCOLIA, QUEM DIRIA, TEU NOME É IGGY POP
Tem muita gente que não consegue
entender a lógica que rege a carreira de Iggy Pop.
Eu consigo.
Na minha cabeça, faz todo o
sentido do mundo ele ter reatado sete anos atrás com seus velhos companheiros
dos Stooges, com quem brilhara em três LPs armados e extremamente perigosos gravados entre 1969 e 1973 – o último deles, “Raw Power”, produzido por seu amigo David
Bowie, que mais adiante iria guiá-lo num flerte musical sombrio com a música
eletrônica em dois discos solo magníficos gravados na Alemanha: “The Idiot” e
“Lust For Life”.
Da mesma forma, não consigo ver
nada de muito estranho no fato dele ter insistido por tanto tempo numa atitude roqueira que exigia
demais dele em termos físicos -- para então agora,
aos 65 anos de idade, aparentemente de uma hora para outra, começar a posar de chansonier e passar a gravar discos com velhas canções românticas.
Na verdade, essa "trip de
chansonier" começou quando convidaram Iggy para participar de um projeto de releituras de
canções dos filmes de James Bond, e entregaram a ele a tarefa difícil de regravar “We
Have All The Time In The World”, originalmente defendida por Louis Armstrong –
que ele tirou de letra, soltando sua voz cavernosa com delicadeza e com o peso existencial que a canção exigia.
O passo seguinte foi participar de um dueto em
princípio improvável com sua musa Françoise Hardy em “I'll
Be Seeing You”, com resultados absolutamente divinos.
Foi daí em diante que Iggy começou a vislumbrar a possibilidade de seguir gravando discos em inglês ou em francês sem precisar se entregar mais a tournées tão fisicamente desgastantes quanto as que fazia antes.
Foi daí em diante que Iggy começou a vislumbrar a possibilidade de seguir gravando discos em inglês ou em francês sem precisar se entregar mais a tournées tão fisicamente desgastantes quanto as que fazia antes.
Começou em 2009, quando surpreendeu a todos com “Préliminaires”,
uma climática coleção de canções baladas de Leonard Cohen, de Serge Gainsbourg e dele próprio..
E agora está de volta com este “Après”, seu primeiro disco apenas como intérprete, reunindo um repertório
composto quase que exclusivamente por canções românticas clássicas – a maioria em
francês, e algumas poucas em inglês, com todas com um tom bem europeu nos arranjos.
É muito engraçado ouvir Iggy
cantando coisas como “Et si tu n'existais pas”, de Joe Dassin, ou “La Javanaise”, de Serge Gainsbourg, alternando sopros e cordas com uma bateria dura,
típica de bateristas de rock, o que provoca um estranhamento bastante interessante.
Sua interpretação de “La Vie Em Rose” é quase um remake da versão de Louis Armstrong, e surpreende pela passionalidade com que Iggy passeia pelos versos belíssimos de Jacques Brel. Que contrasta com a leveza de “Syracuse” e de “Les Passantes”, ambas lindíssimas, dois triunfos artísticos indiscutíveis.
Sua interpretação de “La Vie Em Rose” é quase um remake da versão de Louis Armstrong, e surpreende pela passionalidade com que Iggy passeia pelos versos belíssimos de Jacques Brel. Que contrasta com a leveza de “Syracuse” e de “Les Passantes”, ambas lindíssimas, dois triunfos artísticos indiscutíveis.
Já os números em inglês deixam um pouco a desejar.
Não que Iggy não tenha se esmerado neles.
É que vários dos arranjos são certinhos demais para ele. Parecem até base de karaokê. "Michelle", de Lennon & McCartney, e "Everybody´s Talkin´", de Fred Neil, padecem desse mal.
Não que Iggy não tenha se esmerado neles.
É que vários dos arranjos são certinhos demais para ele. Parecem até base de karaokê. "Michelle", de Lennon & McCartney, e "Everybody´s Talkin´", de Fred Neil, padecem desse mal.
A única exceção à regra é a releitura de
“Only The Lonely”, cantada de um jeito meio engasgado e esbanjando uma
melancolia de meia idade que não combina, em princípio, com a notória hiperatividade de Iggy Pop.
Pesando prós
e contras, essa empreitada de Iggy como chansonier é bem positiva, e muito mais honesta que
qualquer um dos 4 volumes do "Great American Songbook" que Rod Stewart andou gravando de dez anos para cá.
O que nos discos de Rod soa cafageste, no de Iggy soa autêntico até o talo, revelando uma faceta absolutamente surpreendente de seu talento.
Reforça mais uma vez a tese de que Iggy Pop é a criatura mais louca e improvável que o rock and roll já produziu.
Torço para que, em sua próxima empreitada no gênero, ele escolha canções mais com cara de dancehalls e menos com cara de cabarets.
Não é por nada -- é que vê-lo posando de crooner de orquestra e cantando de smoking vai ser simplesmente o máximo!
BIO-DISCOGRAFIA:
http://www.allmusic.com/artist/iggy-pop-mn0000926548
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WEBSITE OFICIAL:
http://www.iggypop.com/
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