Há pelo menos 25 anos, o banjo de Béla Fleck vem desafiando gêneros
musicais, e tirando o sono de qualquer um que tente classificá-lo.
Bela já gravou discos de bluegrass, de música erudita, de rock e de jazz, e
nunca escondeu que sente tanto prazer tocando com seus mestres Chick Corea e
Stanley Clarke quanto com jam bands como o Grateful Dead, Allman Brothers e a
Dave Matthews Band.
Nascido na cidade de Nova York, Béla Fleck descobriu o banjo ainda bem
criança ouvindo temas de Lester Flatt e Earl Scruggs que tocavam na série de TV
“A Família Buscapé (The Beverly Hillbillies)”.
Daí para a frente, foi atrás dos LPs da
lendária dupla country e descobriu, pouco a pouco, que ainda havia um universo muito extenso a ser
explorado naquele instrumento tão menosprezado.

Aliás, “explorar” é a palavra chave no universo musical de Bela Fleck.
Ele é, antes de tudo, um explorador musical.
Aos 15 anos de idade, já imaginava maneiras de tocar bebop no banjo,
incitado por seu professor de música Tony Trichska -- outro que nunca se
conformou com o uso restrito do banjo nas formações de bluegrass.
Muitos anos e várias bandas se passaram desde então.
Ao longo de todo esse tempo, Béla vem se dividindo entre o tradicionalismo
do New Grass Festival e o experimentalismo dos Flecktones, além de brilhar em discos
solo espetaculares e muitas vezes surpreendentes, ao lado de craques como David
Grisman, Mark O´Connor e Jerry Douglas -- inaugurando um gênero que o pessoal do
A&R da Warner passou a chamar de “blubop”, um mix de bluegrass e bebop.
"Across The Imaginary Divide”, seu novo disco, é mais uma dessas aventuras
musicais inusitadas.
Depois de embarcar numa jam com o sisudo Marcus Roberts Trio no Festival de Jazz de
Savannah, Louisiana, rolou uma afinidade musical forte entre
eles, apesar de seus estilos extremamente díspares.
Fleck sempre viajou por todas as sonoridades disponíveis na América, sem distinção.
Já Roberts sempre procurou manter a cidade de New Orleans impregnada na música
de seus grupos – o tamanho deles sempre variou muito, sendo o Trio sua formação
mais básica, com Jason Marsalis na bateria e Rodney Jordan no
contrabaixo.
A sintonia musical com a música de New Orleans foi abraçado por Fleck logo de cara, e Roberts aproveitou a deixa para providenciar que essa viagem musical abrangesse toda a história musical da cidade.
Com isso, despertou o espírito explorador de Béla Fleck, e o resultado prático disso foi uma série de números lindíssimos e performances magníficas.
“Across The Imaginary Divide” foi composto e gravado rapidamente, e tudo nele flui de
forma muito expontânea e natural.
É uma colaboração no melhor sentido do termo -- extremamente bem sucedida, diga-se de passagem.
“Across The Imaginary Divide” funciona como uma brincadeira muito espirituosa entre músicos que ninguém jamais
imaginaria atuando juntos, e que -- de tão ecumênica -- vem surpreendendo o público por todos os lugares onde vem passando.
Aliás, vem surpreendendo também a todos os que achavam Béla Fleck hiperativo e impetuoso demais em termos musicais, e também aos que viam em Marcus Roberts um neotradicionalista sisudo como muitos de seus colegas de geração na cena de New Orleans.
Trocando em miúdos: “Across The Imaginary Divide” é um disco espetacular e tem tudo para agradar tanto aos fãs mais heterodoxos de Fleck
quanto aos fãs mais ortodoxos de Roberts.
Afinal, o Jazz não foi inventado para quebrar regras e desrespeitar fronteiras?
BIO-DISCOGRAFIAS
http://www.allmusic.com/artist/b%C3%A9la-fleck-mn0000151290
http://www.allmusic.com/artist/marcus-roberts-mn0000673082
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