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quinta-feira, julho 14, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "WE'RE ALL SOMEBODY FROM SOMEWHERE", LP DE ESTREIA DE STEVEN TYLER

por Chico Marques


Antes de mais nada, queria deixar claro que sou um velho admirador do trabalho do Aerosmith.

Comprei os LPs Toys In the Attic (1975), Rocks (1976) e Draw The Line (1977) na época do lançamento, e ouvi até os sulcos gastarem.

Mais adiante, vibrei prá valer ao ver a banda sair de um buraco sem fundo e conseguir dar a volta por cima em LPs potentes como Pump (1989), Get A Grip (1994) e Nine Lives (1997).

Posto tudo isso, vou ser muito franco aqui:

Odiei profundamente os dois últimos LPs de estúdio do Aerosmith: Just Push Play (2001) e Music From Another Dimension (2012).

Just Push Play tinha cara de disco solo de Steven Tyler, tamanho o distanciamento que os outros membros da banda mantiveram do projeto, repleto de canções nada memoráveis e performances duronas, com baticums eletrônicos demais e rock and roll de menos. (e põe menos nisso). Desnecessário dizer que foi um fiasco retumbante de vendas e acabou virando uma espécie de elefante branco na carreira da banda. Tanto que, de todas as canções do disco, a única que acabou entrando para o setlist dos shows da banda foi "Jaded". E olhe lá...

Music From Another Dimension consegue ser um equívoco ainda maior, por motivos bem diferentes dos que vitimaram Just Push Play. Pressionados pelos fãs e pela gravadora para retomar a trilha dos LPs de sucesso dos Anos 90, Tyler e Perry convencersam a Columbia Records a queimar uma pequena fortuna na produção das sessões de gravação do disco. Só que esqueceram que sem um ou dois singles poderosos, o disco simplesmente não decolaria. E não decolou. Se bem que o que havia de mais errado no disco é que todas as canções do disco são voltadas demais ao público adolescente, só que o novo público adolescente -- que na época de Wayne's World idolatrava a banda -- já não tinha mais nenhuma afinidade com eles. Para piorar, os fãs tradicionais do Aerosmith acharam o conceito do disco bobo e juvenilóide.


Para mim, não chegou a ser uma surpresa quando, depois de algumas temporadas no programa de TV American Idol, Mr. Tyler decidiu aproveitar o novo público que acabara de conquistar e repaginar sua carreira musical, escorregando estrategicamente para fora da cena roqueira onde o Aerosmith militou por 45 anos para se afirmar na altamente rentável cena country-crossover de Nashville, que de uns anos para cá abriga artistas dos mais diversos gêneros musicais vindos de todos os cantos do país.

Nesta sexta, dia 15 de Julho de 2016, sai do forno o aguardado We're All Somebody From Somewhere, (um lançamento DOT-Big Machine Records), primeiro album solo de Steven Tyler. É um disco surpreendente, repleto de canções que poderiam perfeitamente constar de um álbum do Aerosmith, mas que apresentam molduras musicais mais suaves e coloridas, repletas de harmonicas e pedal-steel guitars, que jamais combinariam com o DNA "arena rock" da banda.

Eu confesso que fiquei arrepiado com a faixa de abertura My Own Worst Enemy: uma balada meio enganadora, que começa perigosa só nos versos, e pouco a pouco vai ganhando peso e densidade emocional até explodir num gospel heavy-metal, ou coisa que o valha. Impressionante!

A faixa título vem logo a seguir, e pega mais leve. Tem um refrão bem pegajoso e ganha o ouvinte pela simpatia. Vai ser o primeiro single do disco. tem grandes chances de emplacar.

Mas então, logo a seguir, somos atropelados por um número bem truculento chamado Hold On (Can't Let Go) e por um country blues delicioso chamado It Ain't Easy, que não fariam feio num show do Aerosmith.

É pena que o perfeito encadeamento inicial se perca lá pela 6ª faixa, e o disco se transforme numa colcha de retalhos para conseguir acomodar as 15 músicas escolhidas por Mr. Tyler -- que assina a produção de We're All Somebody From Somewhere em dobradinha com vários produtores craques da cena country como T-Bone Burnett, Dann Huff, Marti Frederiksen e Jaren Johnston.


Francamente, não dá para entender a troco do que Mr. Tyler resolveu gravar (mal) Piece Of My Heart (imortalizada por Janis Joplin e por Etta James) e regravar (pior ainda) Janie's Got A Gun, numa versão acústica totalmente irrelevante e desnecessária.

Idiossincrasias de superstar à parte, não dá para negar os vários méritos de We're All Somebody From Somewhere. Eles garantem a dignidade dessa empreitada meio atrapalhada, que só não é melhor porque peca pelo excesso. Mas mesmo assim, é sem dúvida o melhor disco vindo do Aerosmith nos últimos 19 anos.

Claro que se Mr. Tyler tivesse optado por 10 canções ao invés de 15, teria conseguido realizar um disco mais intenso e mais coeso, e deixado no final da audição um gostinho de quero mais no ouvinte.

Mas ele -- exagerado, hiperativo e louco de pedra como sempre -- preferiu levar o ouvinte à exaustão.

Convenhamos: é a cara dele.




AMOSTRAS GRÁTIS




terça-feira, fevereiro 10, 2015

AEROSMITH PASSA O PASSADO A SUJO, E MOSTRA O QUANTO FORAM GRANDES NOS ANOS 1970

É consenso que o Aerosmith foi nos anos 70 o equivalente americano aos Rolling Stones.

Apesar dos dois grupos serem muito diferentes musicalmente, é inegável que nenhuma outra banda americana conseguiu combinar o ataque de dois guitarristas e de um vocalista de forma tão intensa e tão bem resolvida quanto esses rapazes de Boston.

Além do mais, o cantor Steven Tyler e seu parceiro Joe Perry formavam no início uma dupla de compositores implacável, e combinavam tão bem que um parecia ser a extensão do outro -- e é inegável que boa parte da magia que explode na do Aerosmith em seus melhores momentos vem justamente dessa simbiose.

Com o passar do tempo, e com o desgaste natural depois de seis anos de exposição constante ao público. muito dessa magia foi-se perdendo.

Depois de uma série de 5 LPs extremamente bons -- "Aerosmith", "Draw The Line", "Toys In The Attic", "Rocks" e "Draw The Line" --, o Aerosmith naufragou em meio a várias modalidades de excessos: de drogas, de bebidas, de estrelismo, de má administração em geral e de péssimo empresariamento.    


Faliram nos 80, se separaram, perderam todo o patrimônio e chegaram ao ponto de, depois de venderem iates e mansões, acabarem morando em hotéis duvidosos da Oitava Avenida, em Nova York, junto com boa parte dos traficantes da área. Foram ao fundo do poço.



Mas, graças ao sempre extremamente paciente David Geffen, da geffen Records, que não só os contratou como também supervisionou o rehab deles todos, o Aerosmith ressurgiu nas cinzas em meados dos Anos 1980 e alcançou novamente o estrelato na ddécada seguinte, conquistando uma nova legião de fãs ardorosos com LPs mais AOR como "Pump", "Get A Grip" e "Nine Lives".

Da virada do Século 21 para cá, no entanto, o Aerosmith perdeu a relevância em discos medonhos como "Just Push Play" e "Music From Another Dimension!". 

Seguem excursionando incessantemente e mantém sua legião de fãs graças a um "stage act" fortíssimo, mas estão correndo o sério risco de virar uma atração nostálgica, já que não conseguem mais conquistar novas fatias de público.

Ainda assim, seguem na esperança de um "third time around" que provavelmente não virá.


Daí, para manter a dignidade e a auto-estima da banda em dia, o jeito é recorrer a material de arquivo -- e por sorte, o Aerosmith tem material de arquivo de sobra guardado desde os Anos 70 nas geladeiras da Columbia Records.



Esse novo álbum duplo "Up In Smoke" (um lançamento Columbia Records) resgata duas performances bem intensas da banda, gravadas para emissoras de rádio e que por muitos anos circularam por aí em bootlegs de péssima qualidade sonora.

A primeira performance foi gravada no Estúdio de uma Emissora de Ohio em 1973, quando o Aerosmith promovia seu primeiro álbum, lutava por exposição ao público e mal conseguia disfarçar o prazer de estar levado sua música a um público que ainda não os conhecia.

São dez números no total: cinco do primeiro LP, "Aerosmith", e outros cinco do segundo, "Get Your Wings", que já estava gravado mais ainda aguardava lançamento.  

Já a segunda performance é de um show ao vivo na Philadelphia em 1978, com 18 canções, que foi transmitido ao vivo por uma Emissora de Rádio da cidade.

Aqui já temos os rapazes do Aerosmith em pleno estrelato e em plena maturidade musical, desfilando um repertório dos três discos seguintes em performances fulminantes -- melhores inclusive do que as do álbum duplo clássico "Live Bootleg", gravado na mesma torunée de 1978.

Não é, de forma alguma, um disco fundamental na discografia da banda.

Mas são performances excelentes, despojadas, sem frescuras, cujo resgate não só é extremamente bem-vindo como certamente irá proporcionar momentos muito agradáveis aos fãs clássicos da banda, podendo eventualmente, quem sabe, abduzir um ou outro novo adepto.

Pode acreditar: elas são vigorosas o suficiente para isso.




Segue abaixo o tracklist deste álbum duplo indispensável para os fãs incondicionais dos primeiros 5 discos do Aerosmith:

01. Make it (Radio Broadcast Studio Session Ohio 1973) (4:19)
02. Somebody (Radio Broadcast Studio Session Ohio 1973) (4:29)
03. Write Me (Radio Broadcast Studio Session Ohio 1973) (4:43)
04. Dream On (Radio Broadcast Studio Session Ohio 1973) (4:45)
05. One Way Street (Radio Broadcast Studio Session Ohio 1973) (7:28)
06. Walkin' The Dog (Radio Broadcast Studio Session Ohio 1973) (4:14)
07. Pandora's Box (Radio Broadcast Studio Session Ohio 1973) (8:10)
08. Rattlesnake Shake (Radio Broadcast Studio Session Ohio 1973) (0:58)
09. Train Kept A Rollin' (Radio Broadcast Studio Session Ohio 1973) (5:50)
10. Mama Kin (Radio Broadcast Studio Session Ohio 1973) (4:43)
11. Intro (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (1:31)
12. Rats In The Cellar (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (3:41)
13. I Wanna Know Why (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (3:00)
14. Big Ten Inch Record (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (3:37)
15. Walk This Way (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (4:05)
16. Sight For Sore Eyes (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (3:41)
17. Seasons Of Wither (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (5:24)
18. Sweet Emotion (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (5:03)
19. Lord Of The Thighs (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (7:21)
20. Kings And Queens (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (5:15)
21. Chip Away The Stone (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (4:05)
22. Get The Lead Out (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (3:18)
23. Get It Up (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (4:01)
24. Draw The Line (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (4:37)
25. Same Old Song And Dance (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (5:00)
26. Toys In The Attic (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (5:14)
27. Milk Cow Blues (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (5:30)
28. Train Kept A' Rollin' (Radio Broadcast Live Philadelphia 1978) (4:22)





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