segunda-feira, fevereiro 09, 2015

A ESTRÉIA TARDIA DE UMA CAIPIRINHA DE NASHVILLE MUITO TALENTOSA: BRANDY CLARK


A cada ano que passa, Nashville, a outrora capital conservadora da country music, fica mais e mais progressista e plural em termos musicais.

A cidade se empenhou para valer nos últimos 15 ou 20 anos não só para incorporar todas as "novidades" mescladas ao gênero nos Anos 1960 e 1970 como também para se afirmar novamente como a "Capital Musical do Coração da América".

E conseguiu.

Claro que, para viabilizar isso, as divisões das grandes gravadoras instaladas na cidade começaram a contratar compositores, músicos de estúdio e produtores jovens vindos de todos os cantos do país, se possível com experiência nas cenas Indie e Americana.

E então, de uma hora para outra, uma legião de jovens talentos ajudou Nashville a deixar o ranço e a mesmice de lado para preparar a música da cidade para a Século 21.

Os resultados está aí, para quem quiser ver. A Cena Country de lá é atualmente um dos filões mais prósperos da Indústria Fonográfica americana. Não é à toa que a revista Rolling Stone passou a ter cobertura intensiva na cena da cidade do ano passado para cá.

Se antes todo jovem artista pop rumava para Austin, Los Angeles ou Nova York para tentar a sorte, hoje ele sabe que terá em Nashville um destino bem mais acolhedor.


Brandy Clark, por exemplo, começou sua carreira em Seattle e seguiu para Nashville em 1997 para tentar se profissionalizar como cantora e compositora. 

Foi bem recebida pela cidade, mas foi rejeitada como cantira, conseguindo trabalho apenas como compositora.

Suas canções logo chamaram a atenção, e começaram a ser requisitadas por artistas de primeiro time como LeAnn Rimes, Reba McIntire, Keith Urban, Miranda Lambert e Sheryl Crow.

Em não muito tempo, Brandy já estava integrada à nata dos compositores que trabalham na cidade, e as encomendas não paravam de chegar.

Mas ela queria mais do que isso: queria poder cantar suas próprias canções, gravar seus próprios discos, deixar de ser apenas um nome nos créditos para virar a atração principal.

Demorou um bom tempo para alcançar isso. Uma demo com várias canções circulou por mais de dois anos por várias mesas de executivos da cidade, sem sucesso.

Até que ano passado, com o apoio de vários artistas amigos que são parceiros eventuais em canções -- como Miranda Lambert, Ashley Monroe, Shane McAnnaly e Kacey Musgraves --, Brandy recebeu o empurrão que faltava, e finalmente conseguiu um contrato para gravar um LP só dela.
"12 Songs" é o seu trabalho de estréia, aos 37 anos de idade.

É uma coleção de canções estranhas, com um senso de humor muito peculiar e ironias às vezes implacáveis, que possivelmente não encontrariam lugar nos repertórios da maioria dos artistas da cidade.

Em suas próprias palavras: "O tom dessas doze canções é o de uma comédia sombria, porque a realidade é ao mesmo tempo dura e engraçada, e é importante saber rir de tudo isso. Minha inspiração vem de pessoas que conseguem diariamente sobreviver a seus próprios cotidianos. Parece brincadeira, mas não é nada fácil".

"12 Songs" contrapõe canções sobre mulheres completamente destrambelhadas ("Crazy Women", "The Day She Got Divorced"), famílias disfuncionais ("Pray To Jesus", "Just Like Him") e excessos químicos ("Hungover", "Get High") com outras canções que são de uma delicadeza ímpar -- como a balada "Hold My Hand", em que ela divide os vocais com Vince Gill.

Como sempre acontece quando algum compositor vira artista solo, muitos artistas com quem ela já trabalhou fizeram questão de aparecer no estúdio para contribuir com participações especiais, e com isso dar um status all-star para a estreante.

Mas, para que essa alquimia funcione direito, é preciso que os convidados se sintam em casa.

Felizmente, aqui em "12 Songs", todos estão em casa.


Brandy Clark concorreu nas categorias "Artista Revelação do Ano" e "Melhor Album Country" na última edição do Grammy dia 8 de Fevereiro.

Não levou, mas perdeu para sua parceira Miranda Lambert -- o que pode ser considerado quase uma vitória.

Mas tudo bem, a temporada de prêmios da Indústria Fonográfica está apenas começando, e alguma coisa muito boa certamente está guardada para "12 Songs".

O importante, na verdade, é que graças a artistas desalinhados como Brandy Clark, Miranda Lambert, Ashley Monroe, Shane McAnnaly e Kacey Musgraves, a música de Nashville perdeu a palidez e rejuvenesceu, voltando a ser "a cara da America".

Para quem tiver interesse em se iniciar nesse território musical, "12 Songs" é uma excelente porta de entrada, e Brandy uma ótima anfitriã.

WEBSITE OFICIAL
http://www.brandyclarkmusic.com/

AMOSTRAS GRÁTIS

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

JEFF TWEEDY ADIA MAIS UMA VEZ SUA ESTRÉIA SOLO NUM BELO ÁLBUM EM DUO COM SEU FILHO


Jeff Tweedy é o Rei da Melancolia na cena alternativa americana.

Seu trabalho à frente do Uncle Tupelo e do Wilco é impecável, tanto como compositor, cantor e guitarrista quanto como produtor e band-leader.

Tanto que, apesar dele gostar de se envolver em projetos paralelos de tempos em tempos -- como os grupos all-star Golden Smog, Minus 5 e Loose Fur --  nunca passou por sua cabeça embarcar numa carreira solo.

Mas então, ano passado, enquanto o Wilco celebrava seu aniversário de 20 anos com uma tournée para promover uma série de discos de material inédito de estúdio que estava arquivado, Jeff teve uma notícia triste: sua mulher, Susan Miller Tweedy, foi diagnosticada com um linfoma. 

Assim que a tournée terminou, Jeff se recolheu em casa para cuidar dela, e começou a trabalhar em seu estúdio caseiro uma série de demos com seu filho mais velho, Spencer Tweedy, de 18 anos de idade, e a maioria das canções nessas demos trata de vida familiar deles e da iminência dela ser golpeada com a saída de cena se sua mulher.




Como não eram canções adequadas para o Wilco, Jeff decidiu lançá-las naquele formato mesmo, com apenas dois musicos -- Spencer e ele -- participando, num álbum duplo de produção despojada, e assinado por Tweedy.

E então nasceu "Sukierae" (lançamento Anti/dBpm Records), um belo álbum duplo com 20 canções que desfilam uma musicalidade meio opaca se comparada ao Wilco, que nos convida para participar da intimidade artística de um núcleo familiar unido num esforço de tentar desfrutar do que podem ser seus últimos momentos.

Eu confesso que relutei um pouco a ouvir esse álbum, lançado em Outubro do ano passado, pois estava evitando trabalhos movidos por motivações assim. Mas então assisti "Boyhood", filme de Richard Linklater que ganhou vários Golden Globes, e fiquei encantado com a canção tema, "Summer Noon", que faz parte desse álbum, e daí em diante foi impossível não ser arrebatado pelo trabalho dos dois.



Nenhuma das canções de "Sukiarae" lida diretamente com os assuntos morte e crise familiar, mas algumas delas passam a limpo anos e anos de vida em comum de uma maneira reflexiva e eventualmente melancólica. Já outras tentam tirar leite de pedra, falando sobre as alegrias da vida cotidiana sem conseguir esboçar um sorriso.

A névoa que cerca "Sukiarae" é proposital, e funciona como uma defesa para Jeff e Spencer Tweedy. 

Por outros lado, o jeito aventuresco e meio amalucado de Spencer tocar bateria acabou permitindo a Jeff ser mais inventivo e audacioso como solista na guitarra -- algo que, no Wilco, ele normalmente evita fazer, preferindo sempre ser o maestro da banda e não o solista.




"Sukiarae" é um belo trabalho, uma comunhão de pai e filho muito delicada e preciosa em termos musicais.

Se eu tiver que escolher minhas canções favoritas, ficaria com a faixa de abertura "Don't Let Me Be So Understood", "New Moon" e "Wait For Love" -- além de "Summer Noon", claro.

É um disco perfeito para se ouvir sozinho num dia de chuva, ou num dia frio.

Ao final, vem a constatação de que a vida é muito melhor sempre que estamos repartindo a mesma órbita de quem a gente ama.


WEBSITES OFICIAIS
http://spencertweedy.com/
http://wilcoworld.net/#!/

AMOSTRAS GRÁTIS

terça-feira, fevereiro 03, 2015

30 ANOS DEPOIS DE "BOYS AND GIRLS", BRYAN FERRY DESAFIA O TEMPO E GANHA A PARADA.



De todos os herdeiros musicais do pop impressionista de Scott Walker nos anos 60, Bryan Ferry é disparado o melhor e o mais original.

Desde seu início de carreira à frente do Roxy Music, sua presença sempre foi intensa e marcante, e se destacava em meio àqueles músicos tarimbadíssimos com uma postura andrógina e trajando decadentistas.

Era uma banda complicada. A orientação musical de Brian Eno e Phil Manzanera nos arranjos e nas composições deixou marcas muito fortes nos primeiros álbuns deles. Bryan, ao invés de confrontá-los para conquistar mais espaço no processo criativo da banda, optou por guardar a maioria das idéias que tinha para usar em seus trabalhos solo. Trabalhos que pareciam mais apêndices aos discos do Roxy, já que eram compostos por covers de suas canções preferidas. Só que, na verdade, não eram apenas covers, e sim ensaios para um projeto artístico que ainda estava em gestação, aguardando o momento certo para vir à público.  

Mas então, em meio a muita tensão, o Roxy Music fez uma pausa de quase 4 anos depois do LP "Siren", e quase todos os integrantes da banda embarcaram em carreiras solo ou projetos paralelos. 

Foi quando Bryan sentiu que estava na hora de dar um tempo com os LPs de covers -- já tinha gravado 3 até então -- para apostar num projeto mais consistente, todo autoral. 

E surpreendeu a todos -- crítica e público -- com dois álbuns solo muito fortes, "In Your Mind" e "The Bride Stripped Bare", onde aqueles estranhamento musical cultivado pelo Roxy Music era trocado por texturas eletrônicas mescladas a guitarras e teclados modernosos e de um bom gosto implacável.




O sucesso desses dois discos solo trouxe a Bryan Ferry um status diferenciado assim que o Roxy Music voltou em 1979 -- até porque foi o único integrante da banda que se deu bem nas suas empreitadas solo. 

E Bryan começou a ganhar cada vez mais espaço dentro do Roxy. 

Nas sessões de gravação de "Flesh + Blood", sua liderança ficou tão evidente que o guitarrista Phil Manzarena não hesitou em entregar os pontos e permitir que a banda se transformasse numa espécie de veículo para as -- ótimas -- idéias musicais de Bryan Ferry. 

Até que em "Avalon" (1982), Bryan finalmente engoliu o Roxy. 

E fez isso num padrão de excelência tão inquestionável que levou os integrantes da banda à terrível conclusão de que a banda não tinha mais onde ir dali em diante -- e encerrou atividades, voltando aos palcos apenas para tournées comemorativas.

É nesse momento que a carreira solo de Bryan Ferry começa pra valer.

E ele passa a apostar em discos caríssimos e extremamente bem produzidos como "Boys And Girls" (1985), " La Bète Noire" (1987), "Mamouna" (1994) e "Olympia" (2010), todos com composições próprias e arranjos altamente sofisticados, envolvendo dezenas de músicos de primeiro time em contrapontos de guitarras com bases eletrônicas que quase sempre resultavam em pequenas peças pop de uma sensualidade à toda prova.


Agora, aos 69 anos de idade, logo depois de gravar um disco instrumental onde, para surpresa geral, rege uma orquestra à moda dos Anos 30, Bryan Ferry surpreende com um novo álbum de inéditas chamado "Avonmore" (um lançamento BMG), onde propõe um resgate pleno daquela sonoridade atemporal do Roxy Music em "Avalon".

"Loop De Li", faixa que abre o disco, é linda, dramática, dançante, absolutamente envolvente, um clássico instantâneo. 

Vem seguida de "Midnight Train", uma canção de amor perdido completamente arrebatadora, composta há mais de 20 anos, e que, estranhamente havia ficado de fora de seus álbuns anteriores.

E então, "Soldier Of Fortune", outra canção intensa, composta em parceria com Johnny Marr, vem emoldurada por um trabalho de guitarra delicadíssimo, simplesmente magnífico.

E por aí vai. Bryan não deixa o ritmo de "Avonmore" cair em momento algum nos cinco números autorais que seguem -- todos de altíssimo gabarito.

Eu só lamento pelos dois covers que encerram o disco. 

Confesso que me pareceu um equívoco o tratamento blasé que ele deu para "Send In The Clowns", de Stephen Sondheim. Por mais audacioso que possa parecer despir uma canção dessas de toda a sua dramaticidade para fazer dela algo pedestre e climático, o caso é que não funcionou.

Já a releitura intimista que ele fez para "Johnny and Mary", de Robert Palmer, sem a urgência obsessiva da versão original, até pode soar simpática à primeira audição, mas infelizmente acentua todas as fragilidades estruturais da canção.

"Avonmore" seria um disco excelente se esses dois covers tivessem sido
eliminados do final cut, mas a empreitada é vitoriosa, apesar desses pequenos deslizes.

E que time de músicos ele reuniu dessa vez: Nile Rodgers, Mark Knopfler, Fonzi Thornton, Marcus Miller, Neil Hubbard, Chris Spedding, Flea, Guy Pratt, Andy Newmark, James Moody e muitos, muitos outros.

A produção, sempre perfeita, é de Bryan com seu velho parceiro Rhett Davies.


Aos 69 anos de idade, Bryan Ferry continua com sua voz intacta e sua presença de palco tão marcante quanto era nos anos 1980.

"Avonmore" tenta vender a idéia de o tempo passou mas nada mudou.

A delicadeza e o refinamento musical de outras décadas podem perdurar indefinidamente, e que não há nada mais moderno do que um projeto artístico atemporal.

A começar pela foto da capa do disco, com nosso galante crooner pop aos 30 e poucos anos de idade.

Se algum de vocês um dia precisar definir em uma imagem a palavra "chic", garanto que uma foto 3x4 de Bryan Ferry resolve a parada.




WEBSITE OFICIAL
http://www.bryanferry.com/

DISCOGRAFIA
http://www.allmusic.com/artist/bryan-ferry-mn0000524050/discography

AMOSTRAS GRÁTIS 

domingo, fevereiro 01, 2015

O NEO-CINQUENTÃO CHUCK PROPHET CONTINUA UM ICONOCLASTA DEPOIS DE TODOS ESSES ANOS


Chuck Prophet é um velho conhecido. 

Como líder do Green On Red, uma das bandas mais importantes da cena "paisley underground" dos anos 80, Chuck foi responsável por forjar a partir de um mix curioso de influências sonoras -- Doors, John Cale, Warren Zevon, Ian Hunter, etc. -- uma das identidades musicais mais marcantes daqueles tempos. 

Sempre ao lado do cantor Dan Stewart, do tecladista Chris Cacavas e do baixista Jack Waterson, seus companheiros no Green On Red, Chuck Prophet estabeleceu uma ponte entre o Sunshine Pop californiano e uma levada roqueira mais sombria. 

Mas depois de 10 anos com a banda, Prophet sentiu necessidade de correr novos riscos e embarcou numa carreira solo brilhante e idiossincrática, revelando em suas canções um desconforto existencial que oscila entre o cômico e o trágico que vai muito além do que a extensa legião de fãs do Green On Red estava habituada a suportar dele.

Mas para Chuck Prophet, os velhos fãs que conseguissem suportar as inquietações de suas canções bastariam para viabilizar os primeiros passos de sua carreira solo.

Que, diga-se de passagem, está completamento 25 anos de idade este ano, e já gerou 13 discos interessantíssimos.


"Night Surfer" (um lançamento Yep Roc Records) é o mais recente deles, lançado no final de 2014.

Dá sequência a seu LP anterior, "Temple Beautiful", dedicado à cidade de San Francisco, Califórnia, -- que o acolheu muito bem há cinco anos, e onde vive desde então --, e é tão imprevisível quanto ele. 

A faixa de abertura, "Countrified Inner City Technological Man", já dá o tom do que vem pela frente, com Prophet saudando a "start-up city" número um da América com o olhar meio cínico, meio deslumbrado de um cinquentão sonhador.

E daí em diante, Chuck e sua banda começam a desfilar road songs deliciosas -- "Lonely Desolation", "Ford Econoline" --, baladas desconcertantes sobre as indefinições do amor -- "Guilty As A Saint", "Truth Will Out" -- e rocks melódicos às vezes debochados -- "Love Is The Only Thing" --, outras vezes desconcertantes -- "Laughing On The Inside".

Chuck Prophet talvez seja o único artista de rock no momento que consiga reunir em seus discos músicos completamente díspares como Peter Buck, do REM, Prairie Prince, dos Tubes, e Bill Reiflin, do Ministry -- e isso faz dele um iconoclasta incorrigível, comprometido apenas com seus ideais artísticos e seu público cativo.



O surfista noturno que Chuck Prophet incorpora na maioria das canções desse seu novo LP funciona como uma de metáfora para todos os que estão chegando à meia idade ainda movidos pelas inquietações da juventude, mas que sabem que, mais cedo ou mais tarde, serão descartados nesse admirável mundo novo canibalístico em que vivemos.

É no mínimo engraçado constatar que, não muitos anos atrás, ser um artista de rock and roll na meia idade parecia algo impraticável. Hoje, não é mais assim. Hoje, rock and roll na meia idade virou um mergulho no escuro, uma aposta desesperada no incerto, uma prova de fogo constante em nome de uma relevância artística que nem sempre é reconhecida.

"Night Surfer" chegou tarde demais para entrar nas listas de Melhores de 2014.

Mas é uma trilha sonora extremamente oportuna para iniciar este ano com o bom humor, as ironias e o espírito sonhador em dia.  







WEBSITES OFICIAL
http://chuckprophet.com/

DISCOGRAFIA
http://www.allmusic.com/artist/chuck-prophet-mn0000125088/discography

AMOSTRAS GRÁTIS

quarta-feira, dezembro 03, 2014

T-BONE BURNETT FAZ COM QUE BOB DYLAN TENHA 26 ANOS DE IDADE NOVAMENTE EM 2014


T-Bone Burnett é um cara admirável.

Desde os tempos da Alpha Band nos anos 70, passando por sua carreira solo brilhante a partir dos anos 80, ele sempre gostou de encarar desafios complicados -- fosse como cantor-compositor-arranjador-guitarrista, ou apenas como produtor.

Parceiro musical de Bob Dylan desde os tempos da Rolling Thunder Revue, Burnett recebeu ano passado um desses desafios complicados, e adorou..

Dylan entregou a ele um pacote com cerca de 50 letras escritas -- mas não musicadas -- quando tinha 26 anos de idade, na ocasião de seu retiro na Casa de Woodstock com The Band, que gerou os festejados "Basement Tapes" em 1967.

Missão: montar uma espécie de banda de ocasião com artistas de relevo que topassem pegar aquelas letras escritas 47 anos atrás e não apenas transformá-las em canções, mas envolvê-las num projeto que pudesse soar sereno e grandioso, como uma versão revista e atualizada dos seus 'Basement Tapes".

Burnett gostou da idéia e encampou o projeto, mas não quis se envolver nele como músico -- ao menos, não diretamente.

Assumiu a cadeira de produtor.

Escolheu a dedo vários artistas amigos.

E os convidou para uma aventura musical sem precedentes na história do rock and roll.



O time de compositores convocado por T-Bone Burnett é composto por sua alma gêmea Elvis Costello, mais Jim James (do My Morning Jacket), Marcus Mumford (do Mumford & Sons), Rhiannon Giddens (Carolina Chocolate Drops) e Taylor Goldsmith (The Dawes).

Todos seguiram não para o velho estúdio improvisado no porão da Casa Rosa de Woodstock, onde os "Basement Tapes' originais foram gravados, mas para o Studio One da Capitol em Los Angeles, California -- provavelmente, o melhor estúdio de áudio de todo o Planeta Terra.

Conforme os ensaios e as sessões quase coletivas de composição corriam, todos iam achando o tom certo para suas participações no projeto.

E, sem perceber, começaram a interagir uns com os outros de uma maneira quase fraternal, com um envolvimento bem semelhante ao que rolou entre Bob Dylan e The Band em 1967..

Elvis Costello explica que todos procuraram tratar o parceiro Bob Dylan como um integrante da banda com 26 anos de idade que, por motivo de doença, não estava presente ao estúdio naquele dia.

A partir daí, saíram buscando maneiras de interagir com ele através de seus escritos -- sem reverências de espécie alguma, apenas como um talentoso companheiro de trabalho.

E foi assim que conseguiriam desenvolver um projeto sem ranço nostálgico e sem a preocupação de ter que correr atrás daquele mesmo tom dos "Basement Tapes" originais, preservando a personalidade musical de cada um dos integrantes.

Uma das preocupações principais deles todos foi tentar não compor melodias usando os fraseados musicais que Dylan adota habitualmente nas suas canções.

Não foi muito fácil a princípio.

Mas, depois que acharam o Norte, a coisa toda seguiu às mil maravilhas.



Das 50 canções que Dylan enviou, 20 ganharam melodia e foram finalizadas para este belíssimo "Lost In The River - The New Basement Tapes"

A primeira audição já impressiona, e muito, tanto pela beleza e pela densidade das canções quanto pela grandeza artística do projeto.

É nesses momentos que fica clara a enorme diferença que faz ter alguém como T-Bone Burnett no comando.

Serenamente, ele facilitou para cada um dos integrantes da "banda" achasse mais rapidamente o seu papel no projeto, e permaneceu a maior parte do tempo do outro lado do vidro, acompanhando as coisas da mesa de gravação.

Não se preocupou em imprimir seu toque pessoal acima das contribuições dos participantes, e buscou como produtor aquela mesma organicidade musical que faz do seu trabalho como artista solo algo tão intenso.

É impressionante como "Lost In The River" cresce a cada audição, combinando talentos jamais combinados antes de forma genial.


É sempre bom lembrar que, antes dos "Basement Tapes", Dylan era um compositor solitário, que interagia com suas bandas apenas nos palcos, na hora de tocar.

Nos "Basement Tapes" ele, pela primeira vez, teve a chance de ter parceiros nas suas canções -- vide "This Wheel's On Fire", composta com Rick Danko, e "Tears Of Rage", composta com Richard Manuel, ambos de sua banda na ocasião -- e os resultados foram notáveis.

Há diversas canções em "Lost In The River" em que essa mesma simbiose artística acontece -- e isso, por si só, já revela o quanto essa aventura musical é preciosa.

Essas canções vem encadeadas de forma delicada e envolvente, o que ajuda a fazer de "Lost In The Flood" um sério candidato a maior e mais bem resolvida empreitada musical do ano.

Como eu disse no início do texto, T-Bone Burnett é um cara admirável.

É o único produtor de discos que Bob Dylan nunca conseguiu levar à loucura.

Acreditem: não é pouca coisa..



WEBSITE OFICIAL
http://www.thenewbasementtapes.com/

AMOSTRAS GRÁTIS

terça-feira, dezembro 02, 2014

NEIL YOUNG ESTÁ LOUCAMENTE APAIXONADO. DURMA-SE COM UM BARULHO DESSES...



Nenhum artista de rock and roll -- nem mesmo Bob Dylan -- coleciona tantas idiossincrasias quanto Neil Young.

São esquisitices que sempre existiram no trabalho dele, mas que ganharam uma força adicional na virada dos anos 1970 para os 1980, em pleno período pós-punk, com um álbum estranho e disforme chamado "Re.act.or", que deixou a Reprise Records bastante irritada na ocasião.

De lá para cá, excentricidades as mais variadas ressurgem pontualmente em seus discos de tempos em tempos.

Neil Young já pagou caro por essas idiossincrasias, mas não adianta: ele não aprende.

Nos Anos 80, foi processado por David Geffen -- seu patrão na Geffen Records, que, ingenuamente, havia concedido a ele liberdade criativa total na elaboração de seus projetos -- sob a alegação de que, de um contrato de cinco álbuns, sua gravadora recebeu de Neil Young quatro LPs estranhíssimos e de difícil comercialização.


De volta à Reprise Records no final dos Anos 80, ainda meio assustado com o processo que perdeu para David Geffen, Neil sossegou por uns tempos, e brindou seu público e sua gravadora com discos às vezes elétricos, às vezes acústicos, sem excentricidades exageradas e sempre com um alto gabarito artístico.

Mas com a virada do milênio, alguma coisa estranha aconteceu.

Provavelmente, alguns parafusos de Neil afrouxaram, e ele pouco a pouco foi retomando sua velha rotina idiossincrática de produzir discos conceituais e experimentais cada vez mais estranhos e voltados para um público cada vez mais dirigido.

A sorte dele é que, a essa altura da vida, sua gravadora não nutria mais grandes expectativas nele, seus projetos passaram a ter um custo relativamente baixo e seu público permaneceu grande e fiel o suficiente para garantir vendagens expressivas para os padrões minguados da Indústria Fonográfica nos dias de hoje.



Pois bem: a nova idiossincrasia musical de Neil Young se chama "Storytone".

É um disco bastante incômodo e pouco satisfatório.

São dez canções novas com o tom minimalista habitual, sempre muito delicadas -- metade delas composta para sua atual namorada, a ex-sereia (e ex-Senhora Jackson Browne) Daryl Hannah --, gravadas ao vivo diante de uma orquestra de cordas arranjada e regida por Michael Bearden, ou de uma Big Band comandada por Chris Walden, parceiro musical de Michael Bublé.

Até aí, nada demais.

O problema é que as baladas dessa sua nova lavra são muito frágeis melodicamente, simples e despojadas demais, e os arranjos de cordas encomendados caem feito bigornas em cima delas, inviabilizando qualquer interação entre Neil -- o crooner mais improvável do mundo -- e o tsunami de cordas que afoga, sufoca e ridiculariza essas canções.

Lembra um pouco aqueles arranjos exagerados que Neil encomendou para a London Symphony Orchestra 42 anos atrás, em canções como "Words" e "A Man Needs A Maid", na época duramente criticados.

Verdade seja dita: o que 42 anos atrás era apenas inadequado, agora chega a ser embaraçoso.

Nas faixas em que Neil vem acompanhado pela Big Band de Rhythm & Blues, o resultado final é bem melhor -- até lembra um pouco "This Note's For You" (1989) --, mas peca vez ou outra por imprimir às canções um registro de swing jazzístico sofisticado demais para o jeitão gauche meio bronco de Neil Young.

"Storytone" não chega a ser uma decepção, mas irrita, e muito.

É um grande equívoco artístico -- bem intencionado, claro, mas um grande equívoco artístico sem sombra de dúvida.



Okay (1), sejamos tolerantes: Neil Young está apaixonado, e todo ser apaixonado perde o senso do ridículo, o que é perfeitamente natural.

Okay (2), Daryl Hannah é bem melhor apessoada do que Pegi Young, com quem ele foi casado por mais de 35 anos.

Okay (3), é inegável que o cd bonus que acompanha "Storytone", com as mesmas canções tocadas "no osso" -- sem esses arranjos estapafúrdios, e na sequência original das canções -- não só é bastante satisfatório, como mostra que ele continua um mestre em compor canções curtas e emocionantes.

O que realmente chateia nessa nova empreitada amalucada de Neil Young é que, dessa vez, ele chegou bem perto de produzir um daqueles "pequenos grandes álbums" que antes pontuavam sua carreira a cada cinco anos -- e que, desde "Silver And Gold", de 2000, simplesmente deixaram de chegar.

Quem sabe no próximo disco -- isso se esse romance durar, ou se conseguir sobreviver a esse "late bloom" fulminante  --, Neil acerta a mão novamente.



WEBSITE OFICIAL
http://www.neilyoung.com/index2.html

DISCOGRAFIA
http://www.allmusic.com/artist/neil-young-mn0000379125/discography

AMOSTRAS GRÁTIS