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sábado, junho 20, 2020

CHICO MARQUES COMENTA TRÊS LPS QUE CHEGARAM ÀS PRATELEIRAS VIRTUAIS DAS LOJAS IDEM POR ESSES DIAS




ROUGH AND ROWDY WAYS
BOB DYLAN
(Columbia Records)

Antigamente, nos Anos 1960 e 1970, quando uma gravadora lançava no mercado um novo LP de um determinado artista, o processo funcionava assim: primeiro saía um single (compacto), para tocar nas rádios e estender o tapete para a chegada (um ou dois meses mais tarde) do novo LP. Com o lançamento no mercado deste novo LP, saía também um segundo single, que serviria para manter o artista exposto nas programações das rádios por algumas semanas e puxar a vendagem do LP em questão. E então, dependendo da carreira comercial do LP no primeiro mês, surgiam no mercado (e também nas rádios) mais um ou dois singles, visando manter o disco em voga e as vendas constantes, na medida do possível. Tudo isso era medido pela parada semanal da Billboard Magazine, que determinava se a carreira de um determinado LP ainda tinha chão pela frente, ou se já estava encerrada. Com a chegada dos CDs na segunda metade dos Anos 1980, pouca coisa mudou nesse processo. Mas de uns anos para cá, com a chegada dos downloads digitais e das plataformas de streaming, todo esse tradicional aparato promocional ficou pulverizado, e teve que ser completamente repensado. Vejam o caso curioso do novo LP de Bob Dylan, “Rough & Rowdy Ways”, o primeiro desde “Tempest” (2012), e também seu primeiro disco de inéditas pós-Nobel. A carreira dele começou 3 meses antes dele ser lançado, em 27 de Março deste ano, com o lançamento na web do “single” de 17 minutos de duração “Murder Must Foul”, um épico caleidoscópio multifacetado que funciona como um big picture da vida americana moderna pós-assassinato de John F Kennedy. Vinte dias mais tarde, um segundo single chega à web: “I Contain Multitudes”, um número intenso e contundente que funciona como um flerte aberto com a morte – o que certamente não surpreendeu aos que tem acompanhado seus discos neste novo século, como “Time Out Of Mind” e “Love & Theft”. Vinte dias mais tarde, surge na web um terceiro single, ‘False Prophet”, um blues meio hipnótico que fala sobre ética e abdução mental. E então, nesta última sexta feira, dia 19 de Junho de 2020, finalmente “Rough & Rowdy Ways” vê a luz do dia, nos formatos CD, LP e download digital. Comecei a ouvir as canções do disco que ainda não conhecia na manhã deste sábado, poucas horas atrás, e estou confesso estar muito impressionado com a pegada forte das canções. A maioria delas fala sobre a morte. Às vezes de forma jocosa, como em “My Own Version Of You”. Outras vezes de forma asustadora, como em “Black Rider”. Às vezes com alguma ternura, como em “I’ve Made Up My Mind To Give Myself To You”. Ou ainda com altivez e gratidão, como no blues “Goodbye Jimmy Reed”. Talvez eu não devesse estar escrevendo sobre “Rough and Rowdy Ways” depois de apenas duas audições. Talvez seja muito cedo para isso. Talvez seja leviano da minha parte avaliar assim um trabalho que levou 8 anos para ser realizado. Mas, francamente, apesar de serem discos bem diferentes, eu diria que vale para esse soturno “Rough & Rowdy Ways” a mesma coisa que eu escrevi oito anos atrás sobre o catártico “Tempest” aqui mesmo em ALTO&CLARO: “Algumas dessas canções são extremamente emocionantes. Outras, de uma truculência ímpar. Impossível ficar indiferente a qualquer uma delas. Enquanto está na estrada, Dylan sabe exatamente qual o seu lugar no mundo como cidadão. Já quando se recolhe, ele solta a imaginação e se transforma numa versão vintage rocker de Próspero, da peça derradeira de William Shakespeare. É inevitável: todo grande artista vira Próspero depois dos 70 anos. Não perdendo a generosidade, está tudo certo...”. É isso por enquanto. Mergulhem de cabeça nesse belo disco de maturidade desse grande artista. Vale a pena.


PICK ME UP OFF THE FLOOR
NORAH JONES
(Blue Note Records)

Parece que foi ontem, mas já faz 18 anos que Norah Jones surgiu na cena musical como a artista pop-jazz crossover definitiva no já lendário LP “Come Away With me”, uma combinação musical exuberante que deixou crítica e público absolutamente rendidos diante da beleza musical da filha americana do mestre musical indiano Ravi Shankar. Desde então, Ms. Jones vem testando os limites de seu talento, gravando LPs sob várias orientações musicais muito distintas, fazendo shows pelo mundo inteiro e até atuando em filmes de tempos em tempos. Em 2016, no entanto, ao lançar seu 6º LP, “Day Breaks”, ela decidiu voltar ao ponto de partida e repetir (mais ou menos) a fórmula de seu vitorioso LP de estreia, para tomar fôlego antes de alçar novos vôos musicais. E agora, quatro anos mais tarde, ela retorna com um LP menos coeso que o anterior, mas com uma atitude multifocal em termos musicais. “Pick Me Up Off The Floor” é uma colcha de retalhos deliciosa que mostra todas as experiências musicais que Norah vem testando desde 2016, devidamente intercaladas com números musicais que soam familiares a seu admiradores (entre os quais eu me incluo). É um disco inquieto, meio bipolar, mas sempre brilhante. Quem mais, além de Norah, seria capaz de mesclar violinos celtas com percussão hip-hop, como ela faz em “Were You Watching”? Suas duas colaborações com Jeff “Wilco” Tweedy neste disco são duas aulas de delicadeza musical. “I’m Alive” é quase um gospel, e funciona como uma saudação a todas as mulheres vítimas de maus tratos pelo mundo afora. E ”Heaven Above” fecha o disco como se fosse um lullaby cósmico, saudando o Universo a partir de uma ótica profundamente feminina. Portanto, nunca esperem “mais do mesmo” quando estiverem diante de um novo trabalho de Norah Jones. Melhor esperar sempre pelo inesperado. É o que ela sabe fazer de melhor.


IN A ROOMFUL OF BLUES
ROOMFUL OF BLUES
(Alligator Records)

Quando o Roomful Of Blues lançou seu primeiro LP na Island Records, com produção do lendário Doc Pomus, em 1977, ninguém entendeu nada. O que fazia aquela banda poderosa de Jump Blues, Kansas City Jazz e Chicago Blues numa gravadora especializada em artistas de reggae e de rock¿ Pior: como é que uma banda desse quilate foi aparecer justamente em Rhode Island, um dos Estados mais inexpressivos da União em termos musicais¿ Era bastante intrigante. Mas bastava alguém botar o disco deles para tocar e desistir imediatamente de tentar dar relevância a esses detalhes geográficos. Roomful Of Blues era uma banda vigorosíssima, comandada (então) pelo grande guitarrista Duke Robillard, com um naipe de metais arrebatador, e que servia de “banda cavalo” para grandes artistas de jazz e de blues que viessem a trabalho (sem banda) pela região da Nova Inglaterra. Quando gravaram esse primeiro disco mencionado há pouco, já tinham 10 anos de carreira, eram muito conhecidos entre os artistas e sempre recomendados como banda de apoio – caso semelhante ao de duas outras “bandas cavalo” muito conhecidas: os texanos The Fabulous Thunderbirds e os californianos The Blasters. Roomful of Blues gravou discos sensacionais, ganhou prêmios aos montes, correu o mundo inteiro com seu blend musical único, e só não foi mais longe porque nunca teve menos de 8 integrantes, o que tornava o show deles um tanto quanto caro. “In A Roomful Of Blues” é seu 19º álbum, o sexto na Alligator Records, e é tão suingado e tão relevante quanto aquele longínquo disco de estreia de 43 anos atrás, só que alternando os sotaques musicais clássicos que notabilizaram a banda com incursões por sonoridades mais modernosas -- atitude que Mr. Vachon vem tomando desde que assumiu o comando da banda 22 anos atrás, para que o Roomful Of Blues jamais corresse o risco de virar um Nostalgia Act e pudesse seguir conquistando novos admiradores a cada show que faz, e a cada disco que grava. Esse aqui é, certamente, o disco com menos covers de toda a longa discografia da banda -- temos apenas 3 covers, contra 10 originais da banda. Na medida em que não gravavam há quase 10 anos, com certeza deviam ter canções de sobra para este e sabe-se lá para mais quantos novos discos. Se eu tivesse que destacar alguns números em especial, escolheria a divertidíssima “Phone Zombies”, a tétrica (e também divertidíssima) “Carcinoma Blues” e a contundente faixa título, todas de autoria de Chris Vachon, compositor de mão cheia. Graças a ele, o Roomful Of Blues permanece com sua essência intacta, renovado o suficiente para poder encarar novas aventuras musicais sempre muito divertidas, como esta aqui. Eu, que sou admirador da banda de longa data, confesso que estava morrendo de saudades. Bem vindos de volta, rapazes.



Chico Marques é um iconoclasta
desde a mais tenra idade.
Nascido em Santos em 1960,
estudou Literatura Inglesa
na Universidade de Brasília,
atuou como publicitário
e foi produtor musical
em emissoras de rádio e TV.
Vive na Polinésia Francesa,
onde trabalha como editor
de THE BORA BORA REVIEW
e de ALTO&CLARO.



sexta-feira, outubro 30, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "CROSSEYED HEART", NOVO LP SOLO DO SOUL SURVIVOR KEITH RICHARDS

por Chico Marques


Depois de um mês escutando quase diariamente o novo disco de Keith Richards, "Crosseyed Heart", e já sabendo de antemão que seria impossível para mim escrever uma resenha empírica sobre ele, decidi partir para a louvação mesmo. 

A verdade é que eu adorei "Crosseyed Heart". Presumo que todos os que conheçam bem o trabalho de Keith tenham adorado o disco também. Tudo é completamente familiar da primeira à última faixa. O surpreendente aqui não é o conteúdo do disco. E sim a atitude na hora de executar as canções. 

É uma pena que os Rolling Stones não tenham mais saco nem para gravar novos discos de estúdio -- o último, "A Bigger Bang", já tem onze anos de idade --, nem para trabalhar de forma tão francamente descomplicada quanto a escolhida por Keith nesse disco.



Quando Keith Richards brigou feio com Mick Jagger 30 anos atrás, na ocasião da gravação do LP "Dirty Work", alegando que os Stones precisavam urgentemente cair na estrada para continuar sendo relevantes como banda -- e Mick bateu o pé e discordou --, não havia mais futuro possível para os Rolling Stones naquele momento. 

Havia uma clara situação de rompimento entre os dois. Tanto que gravaram suas partes em "Dirty Work" em horários alternados, sem olhar na cara um do outro. Só não se separaram porque a banda é, antes de mais nada, uma empresa muito rentável, e desmontá-la naquele momento seria uma operação muito complicada. 

Foi quando Keith decidiu dar um tapa na cara com luvas de pelica em Mick, reunindo um grupo de artistas que admirava e montando uma banda com eles, The X-Pensive Winos, para em seguida cair na estrada e -- heresia das heresias! -- gravar dois discos -- "Talk Is Cheap" (1988) e "Main Offender" (1992) -- que, apesar de serem tecnicamente discos solo, eram nitidamente discos de banda.

E essa banda não era The Rolling Stones.



Mick Jagger já tinha três discos solo até então. 

Todos eles meio frios, orientados por produtores, e gravados com o apoio de músicos de estúdio altamente profissionais, mas que em momento algum suam a camisa. 

Não havia nesses discos o menor vestígio daquele vigor que só o trabalho de uma banda de verdade pode proporcionar, e Jagger sabia bem disso, tanto que morreu de ciúmes da atitude de Keith. 

No final das contas, teve que dar o braço a torcer. 

E então, os Rolling Stones voltaram com um disco sensacional em 1989 -- "Steel Wheels" -- e uma tournée espetacular a reboque do disco. 

Foi a última com Bill Wyman no baixo, que deixou a banda por ter desenvolvido pânico de aviões, mas preferiu alegar não suportar mais o estilo de vida de seus velhos parceiros.



Apesar de Keith Richards contar com o apoio de vários X-Pensive Winos -- Steve Jordan, Waddy Wachtel, Ivan Neville, Sarah Dash -- na maioria da faixas de "Crosseyed Heart", não estamos diante de um disco de banda como nas duas vezes anteriores. 

De certa forma, esse talvez seja o primeiro disco solo de verdade de Keith. 

Ao invés de uma banda, dessa vez ele está cercado de músicos amigos. 

Os sopros derradeiros de seu velho comparsa Bobby Keys, por exemplo, estão registrados aqui, em "Crosseyed Heart".

A sempre adorável Norah Jones também faz uma participação muito delicada nessas sessões de gravação.



O momento atual é completamente diferente do vivido por Keith Richards nos Anos 80. 

O futuro dos Stones não parece ser mais uma preocupação em sua vida. 

As tournées que antes promoviam discos novos agora promovem o programa de relançamento da discografia original dos Stones, repletas de bonus tracks e com remasterização supervisionada por Keith e Mick. 

Dizem as boas e as más línguas que vários supostos leftovers da banda da década de 1970 incluídos nestes relançamentos foram na verdade compostos recentemente e fajutados como canções clássicas.

Mick e Keith não dizem que sim, nem que não.



Enfim, "Crosseyed Heart" é um disco com a cara de Keith Richards. 

Que revela um artista multifacetado em toda a sua plenitude, mas que sempre usou -- e, pelo visto, sempre vai usar --  o blues como via de acesso a todas as linguagens musicais que lhe interessam. 

Melhor indicativo disso do que o repertório absolutamente eclético desse disco, impossível. 

Tem desde uma releitura linda de "Goodnight Irene" de Leadbelly até uma curiosa gravação do reggae "Love Overdue" de Gregory Isaacs, passando por baladas magníficas -- “Suspicious”, “Just a Gift”, “Illusion” -- e por rocks impecáveis -- “Trouble”, “Amnesia”, “Something for Nothing”, “Substantial Damage”, “Heartstopper” --, além de alguns blues e outros números que, de tão híbridos, chegam a ser difíceis de classificar. 

Rola de tudo nas 15 faixas de "Crosseyed Heart". E é tudo um imenso prazer. E não poderia ser diferente em se tratando de um soul survivor como Keith Richards. 

Acreditem: ninguém ostenta um coração vesgo assim, à toa.



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segunda-feira, dezembro 02, 2013

PEARL JAM, ELTON JOHN, NORAH JONES E BILLIE JOE ARMSTRONG EM 3 LPs MUITO INUSITADOS


Responda rápido: o que Norah Jones, Billie Joe Armstrong, Pearl Jam e Elton John tem em comum?

Em princípio, nada.

No entanto, todos esses artistas lançaram discos mais ou menos na mesma época -- meados do Outono no Hemisfério Norte --, provavelmente torcendo para que virem presentes de Natal -- e isso, com certeza, indica que são artistas com públicos assemelhados.

O caso é que, após toda a crise que assolou a Indústria Fonográfica nos últimos 10 ou 15 anos, algumas lições os executivos da música aprenderam. Por exemplo: nunca menosprezar o poder de fogo de um artista com público cativo, mesmo que esse artista insista muito em lançar um "produto" meio fora dos padrões da Indústria.

É (mais ou menos) o caso de todos os mencionados acima.

Um disco de Norah Jones voltado para os fãs dos Everly Brothers não é uma aposta fácil, nem mesmo para os ecléticos admiradores dela -- e menos ainda para os fãs do Green Day de Billie Joe Armstrong.

O mesmo vale para um cd de Elton John com vários temas instrumentais e sem um single grudento tocando o dia inteiro nas emissoras de rádio para puxar as vendas.

E quem conhece o Pearl Jam sabe que há muitos anos a banda exige de sua gravadora liberdade criativa total, e não aceita fazer concessões nesse sentido, grava o que quer e pronto..

Quinze anos atrás, talvez esses artistas tivessem "projetos fora do padrão" -- como esses que acabam de lançar no mercado -- arquivados por suas gravadoras, sob a alegação de que seriam investimentos muito arriscados e que provavelmente não dariam retorno.

Mas hoje, depois dessas mesmas gravadoras terem finalmente sentido a água bater em suas nádegas, elas não fazem mais isso.

Ao contrário: hoje elas agradecem aos céus por esses artistas veteranos -- que dispensam apresentações e maiores esforços de divulgação -- existirem, e ainda seguirem gravando e abastecendo o mercado com seus novos "produtos".



NORAH JONES E BILLIE LEE ARMSTRONG
FOREVERLY
Reprise (Warner Brasil)

Discos tributo a LPs clássicos raramente resultam em projetos bem resolvidos. Na maioria das vezes, acabam virando homenagens duvidosas envolvendo vários artistas -- vide o que aconteceu com os tributos a "Tapestry" de Carole King e "Rumours" do Fleetwood Mac, para citar apenas dois exemplos. Até por isso, quando a graciosa Norah Jones e o áspero Billie Joe Armstrong decidiram refazer faixa a faixa o clássico LP dos Everly Brothers "Songs Our Daddy Taught Us", de 1958, não chamaram ninguém para dividir a cena com eles, com receio de que o espírito da homenagem se diluísse numa super produção. Fizeram tudo sozinhos, em poucos dias, bem "low profile", para tentar resgatar o mesmo clima intimista que os irmãos Phil e Don Everly conseguiram imprimir na gravação do disco original. Claro que os dois cometem algumas ousadias aqui e acolá, até porque a idéia por trás de "Foreverly", o nome do disco, é não permitir que a homenagem seja reverente demais. São 12 canções tradicionais americanas que Norah e Billie Joe cantam em uníssono à moda dos Everlys. Os arranjos são discretos e delicados, e não seguem o mesmo padrão de instrumentação do LP original, como pode-se perceber em "Oh So Many Years" e "I’m Just Here to Get My Baby Out of Jail". Mas o mais legal de tudo é que tanto Phil Everly quanto Don Everly estão bem vivos -- ainda que meio aposentados, com 75 anos de idade. E homenagem legal é aquela que se recebe em vida.

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PEARL JAM
LIGHTNING BOLT
Monkeywrench-Virgin (Universal Brasil)

Recentemente, uma reportagem da BBC apresentava o Pearl Jam como um novo Grateful Dead, por ter conseguido em 22 anos de carreira imprimir uma marca musical muito forte num repertório extremamente variado em performances ao vivo nunca menos que espetaculares. Realmente, é meio difícil reconhecer no Pearl Jam de hoje aquela banda truculenta de Seattle que virou ícone da cena grunge em seus dois primeiros discos, do início dos anos 1990, e que lutou arduamente para que seus discos seguintes conseguissem sobreviver àquele modismo. Tanto que depois de dois discos quase experimentais -- "Vitalogy" e "No Code" -- o Pearl Jam deixou tanto a fúria quanto a latargia um pouco de lado e mergulhou de cabeça no Mainstream do Rock Americano -- só que com uma atitude bem aventuresca, em que toda e qualquer proposta musical se justifica contanto que não sirva apenas aos discos, mas principalmente aos palcos. Prova disso é que, de "Yield" (1998) para cá, a música do Pearl Jam ganhou uma organicidade que não tinha antes. Maturidade musical? Tesão de Palco? Sintonia fina entre companheiros de banda? Todos esses fatores certaamente contribuíram para a sedimentação do estilo musical da banda. "Lightning Bolt" é o 10º disco de estúdio deles, e quem se der ao trabalho de ouvir vai descobrir um Pearl Jam cada vez mais plural em termos musicais, em composições sempre grudentas e arranjos vigorosos. E fiquem tranquilos quanto ao ukelele de Eddie Vedder: dessa vez ele ficou em casa. Eddie comparece apenas tocando guitarra, piano e soltando a voz. E que voz....! E que banda....!

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ELTON JOHN 
THE DIVING BOARD 
Capitol (Universal Brasil) 

Desde "Songs From The West Coast" (2002), Elton John e Bernie Taupin parecem determinados a resgatar uma atitude que eles cultivavam em seus primeiros trabalhos juntos, quando gravavam álbuns magníficos como "Tumbleweed Connection" e 'Madman Across The Water" sem se preocupar com as paradas de sucessos, que eram supridas por singles desconectados desses LPs. 'Peachtree Road" (2004) e "The Captain & The Kid" (2006), seus discos seguintes, deram sequência a essa tendência vitoriosa em termos artísticos, mas decepcionante (para Elton) em termos comerciais. E então, depois de um projeto em colaboração com Leon Russell, 'The Union", produzido por T-Bone Burnett 3 anos atrás, Elton concluiu que só iria conseguir resgatar o frescor de seu trabalho nos anos 70 de forma plena se resgatasse também a urgência de seu modus operandi de compor e gravar na época, fazendo tudo rapidamente, utilizando poucos músicos, e sem se preocupar em deixar que as canções maturassem antes. "The Diving Board" é o resultado dessa experiência guiada por T-Bone Burnett. São 19 canções, sendo três delas interlúdios instrumentais, metade delas composta ou finalizada em 3 dias em 2012 e a outra metade em outros dois dias no início deste ano. São canções delicadas, vez ou outra auto-confessionais, sempre "no osso", que trazem saídas musicais bem distintas e parecem ter sido criadas para compor um mesmo contexto. Apesar disso, não dá para dizer que "The Diving Board" seja um disco conceitual. É, isso sim, uma espécie de prova de fogo pessoal. Elton John precisa, a essa altura da vida, achar razões para continuar produzindo discos novos -- até porque ele poderia viver tranquilamente fazendo tournées só com seu repertório clássico. Quer fazer isso da maneira menos complicada possível. Sob esse aspecto, "The Diving Board" é um triunfo. Mas eu, pessoalmente, acho que fica um pouco aquém dos 3 belos álbuns que ele compôs com seu parceiro Bernie na primeira década desse novo século.

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sexta-feira, maio 11, 2012

ATÉ QUANDO É AGRESSIVA E DESAGRADÁVEL, NORAH JONES SOA DOCE E MAGNÍFICA



Eu tenho um caso sério com Norah Jones.

Desde o momento em que ouvi, dez anos atrás, “Come Away With Me”, seu primeiro disco solo -- onde ela mesclava jazz e pop com uma levada meio bluesy, e às vezes meio folk, mas sempre de extremo bom gosto – fiquei perdidamente enfeitiçado.

Confesso que, na ocasião, não achei original seu approach musical. 

Toda aquela salada que ela prepara alí já havia sido testada antes – mais precisamente no início dos anos 70 -- por artistas como Maria Muldaur, Wendy Waldman e Valerie Carter, que continuam por aí até hoje, mesmo não tendo sido tão bem sucedidas comercialmente quanto ela.
O caso é que havia algo de estranhamente cativante no trabalho de estréia de Norah Jones, do tipo “decifra-me ou te devoro” – que eu confesso que não consegui decifrar, e que me devorou.

Não era apenas a produção do especialista Arif Mardin. Nem a doçura e o alto gabarito dela como cantora e compositora. Era algo mais. Um equilíbrio muito delicado, e verdadeiramente arrebatador. E um mistério: como explicar que uma estreante como ela pudesse chegar à cena mainstream de forma tão determinada e incondicional?

Dez anos e seis discos se passaram e eu continuo sem entender que magia é aquela que vem de “Come Away With Me”, e de todos os outros álbuns solo dessa adorável cantora e pianista, filha de mãe texana e pai indiano – ninguém menos que o genial Ravi Shankar.

Seja lá o que for que emane de Norah Jones, permanece no ar, imagino que encantando a todos. E essa regra vale até mesmo para discos um pouco estranhos, como esse que ela acaba de lançar. 


“Little Broken Hearts” é o sexto trabalho solo de Norah Jones, e o mais aventuresco que ela gravou até agora.
                                                                                                              
Justo quando todos esperavam que -- por conta de seu tumultuado divórcio, muito noticiado pela Imprensa -- Norah fosse reaparecer em cena se rasgando toda e cantando “torch songs” no melhor estilo “Carly Simon vivendo sem James Taylor”, eis que ela surpreende a todos com o disco mais “up” de sua carreira.

"Little Broken Hearts" é dissimulado e envolvente. Nele, a doçura habitual de Norah Jones se esconde por trás de letras truculentas e até meio malcriadas, e suas canções ganham uma moldura sonora pop noir bem modernosa, providenciada pelo craque Danger Mouse, do Gnals Barkley.
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Quase tudo é espinho nos números aparentemente alegrinhos que compoem “Little Broken Hearts”. Na desconcertante “She´s 22”, por exemplo, ela pergunta candidamente a seu ex-amante se sua nova namorada, de apenas 22 anos, consegue fazê-lo feliz? Em “Say Goodbye”, em meio a um riff oriental, ela desdenha seu ex-amante e diz na cara dele, serenamente, que mentirosos como ele só merecem uma coisa: adeus. Mais da metade das canções do disco segue nesse tom.

Só lá pelas tantas, em “Traveling On”, Norah deixa a raiva um pouco de lado e assume sua atitude escapista. É quando as canções passam a ostentar novamente aquela doce melancolia que todos nós conhecemos muito bem de seus discos anteriores. Até chegar em “All A Dream”, faixa de encerramento do disco, em que ela reduz a zero, sem piedade e com uma delicadeza ímpar, o cidadão que inspirou todas as canções desse “Little Broken Hearts”.

É um álbum com a duração de um LP: 45 minutos de duação.

Extremamente climático já a partir da capa, que traz a sempre adorável Norah mais linda do que nunca, fazendo um tipo fatal bem inusitado.

Com certeza não vai agradar aos que encaram Norah Jones como uma artista de pop adulto com um estilo cristalizado. Mas revela uma faceta adorável de sua personalidade musical, que deve introduzí-la a uma nova faixa de público que aprecia as sonoridades muito envolventes de Danger Mouse e o Gnals Barkley.

Enfim, "Little Broken Hearts" é sob medida para fazer novos amigos e também para deixar velhos fãs babões como eu completamente extasiados.

Quer um conselho? Antes de descartar o disco por ser diferente demais, dê a ele uma segunda chance. E uma terceira, se necessário.

Essa menina merece, ela é demais...

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