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sexta-feira, outubro 30, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "CROSSEYED HEART", NOVO LP SOLO DO SOUL SURVIVOR KEITH RICHARDS

por Chico Marques


Depois de um mês escutando quase diariamente o novo disco de Keith Richards, "Crosseyed Heart", e já sabendo de antemão que seria impossível para mim escrever uma resenha empírica sobre ele, decidi partir para a louvação mesmo. 

A verdade é que eu adorei "Crosseyed Heart". Presumo que todos os que conheçam bem o trabalho de Keith tenham adorado o disco também. Tudo é completamente familiar da primeira à última faixa. O surpreendente aqui não é o conteúdo do disco. E sim a atitude na hora de executar as canções. 

É uma pena que os Rolling Stones não tenham mais saco nem para gravar novos discos de estúdio -- o último, "A Bigger Bang", já tem onze anos de idade --, nem para trabalhar de forma tão francamente descomplicada quanto a escolhida por Keith nesse disco.



Quando Keith Richards brigou feio com Mick Jagger 30 anos atrás, na ocasião da gravação do LP "Dirty Work", alegando que os Stones precisavam urgentemente cair na estrada para continuar sendo relevantes como banda -- e Mick bateu o pé e discordou --, não havia mais futuro possível para os Rolling Stones naquele momento. 

Havia uma clara situação de rompimento entre os dois. Tanto que gravaram suas partes em "Dirty Work" em horários alternados, sem olhar na cara um do outro. Só não se separaram porque a banda é, antes de mais nada, uma empresa muito rentável, e desmontá-la naquele momento seria uma operação muito complicada. 

Foi quando Keith decidiu dar um tapa na cara com luvas de pelica em Mick, reunindo um grupo de artistas que admirava e montando uma banda com eles, The X-Pensive Winos, para em seguida cair na estrada e -- heresia das heresias! -- gravar dois discos -- "Talk Is Cheap" (1988) e "Main Offender" (1992) -- que, apesar de serem tecnicamente discos solo, eram nitidamente discos de banda.

E essa banda não era The Rolling Stones.



Mick Jagger já tinha três discos solo até então. 

Todos eles meio frios, orientados por produtores, e gravados com o apoio de músicos de estúdio altamente profissionais, mas que em momento algum suam a camisa. 

Não havia nesses discos o menor vestígio daquele vigor que só o trabalho de uma banda de verdade pode proporcionar, e Jagger sabia bem disso, tanto que morreu de ciúmes da atitude de Keith. 

No final das contas, teve que dar o braço a torcer. 

E então, os Rolling Stones voltaram com um disco sensacional em 1989 -- "Steel Wheels" -- e uma tournée espetacular a reboque do disco. 

Foi a última com Bill Wyman no baixo, que deixou a banda por ter desenvolvido pânico de aviões, mas preferiu alegar não suportar mais o estilo de vida de seus velhos parceiros.



Apesar de Keith Richards contar com o apoio de vários X-Pensive Winos -- Steve Jordan, Waddy Wachtel, Ivan Neville, Sarah Dash -- na maioria da faixas de "Crosseyed Heart", não estamos diante de um disco de banda como nas duas vezes anteriores. 

De certa forma, esse talvez seja o primeiro disco solo de verdade de Keith. 

Ao invés de uma banda, dessa vez ele está cercado de músicos amigos. 

Os sopros derradeiros de seu velho comparsa Bobby Keys, por exemplo, estão registrados aqui, em "Crosseyed Heart".

A sempre adorável Norah Jones também faz uma participação muito delicada nessas sessões de gravação.



O momento atual é completamente diferente do vivido por Keith Richards nos Anos 80. 

O futuro dos Stones não parece ser mais uma preocupação em sua vida. 

As tournées que antes promoviam discos novos agora promovem o programa de relançamento da discografia original dos Stones, repletas de bonus tracks e com remasterização supervisionada por Keith e Mick. 

Dizem as boas e as más línguas que vários supostos leftovers da banda da década de 1970 incluídos nestes relançamentos foram na verdade compostos recentemente e fajutados como canções clássicas.

Mick e Keith não dizem que sim, nem que não.



Enfim, "Crosseyed Heart" é um disco com a cara de Keith Richards. 

Que revela um artista multifacetado em toda a sua plenitude, mas que sempre usou -- e, pelo visto, sempre vai usar --  o blues como via de acesso a todas as linguagens musicais que lhe interessam. 

Melhor indicativo disso do que o repertório absolutamente eclético desse disco, impossível. 

Tem desde uma releitura linda de "Goodnight Irene" de Leadbelly até uma curiosa gravação do reggae "Love Overdue" de Gregory Isaacs, passando por baladas magníficas -- “Suspicious”, “Just a Gift”, “Illusion” -- e por rocks impecáveis -- “Trouble”, “Amnesia”, “Something for Nothing”, “Substantial Damage”, “Heartstopper” --, além de alguns blues e outros números que, de tão híbridos, chegam a ser difíceis de classificar. 

Rola de tudo nas 15 faixas de "Crosseyed Heart". E é tudo um imenso prazer. E não poderia ser diferente em se tratando de um soul survivor como Keith Richards. 

Acreditem: ninguém ostenta um coração vesgo assim, à toa.



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quarta-feira, abril 08, 2015

BOZ SCAGGS ESTÁ DE VOLTA, ABRAÇANDO A SOUL MUSIC COM CARINHO E COM FORÇA.

Ninguém canta como Boz Scaggs.

Desde seu excelente disco de estréia, gravado na virada dos anos 60 para os 70 com o pessoal da Muscle Schoals Rhythm Section, sua voz deliciosamente maleável e sua postura “laid-back” vem intrigando a Indústria Fonográfica, que sempre tentou, mas nunca conseguiu, rotulá-lo para o mercado, mesmo depois dele ter emplacado alguns singles muito bem sucedidos nas paradas.

Aliás, uma pequena correção. Tem alguém que canta parecido com Boz Scaggs, sim: o soulman de Memphis Al Green -- ou vice-versa, já que os dois são compenheiros de geração e surgiram na cena musical mais ou menos ao mesmo tempo, só que em lugares diferentes. Na medida em que Scaggs nunca se definiu claramente como um artista de rock, de pop ou de R&B, parecia uma boa idéia tomar emprestado um pouco daquela levada pedestre dos singles soul de Memphis produzidos por Willie Mitchell para Al Green em seus discos gravados na motorizada e frenética Los Angeles.

Em “Slow Dancer”, seu grande LP de 1974, produzido pelo craque Johnny Bristol, Scaggs chegou muito próximo de assumir em definitivo essa sua persona soul. Só não foi adiante porque David Foster o desviou dessa rota no disco seguinte, “Silk Degrees”, emplacando “Lowdown”, clássico absoluto da era disco, que catapultou Boz Scaggs ao estrelato do dia para a noite, depois de dez anos de trabalho árduo tentando sair da periferia do big business musical.

Apesar de nunca ter conseguido, nem de longe, igualar o sucesso de “Silk Degrees”, Boz Scaggs vem mantendo uma regularidade muito peculiar em seu trabalho nesses 35 anos, apostando suas fichas em discos com um sotaque R&B bastante acentuado, e sempre acompanhado de músicos de primeira em suas tournées.

Tudo bem que os tempos mudaram, e o gosto do público também mudou, mas seu estilo inconfudível e seu padrão de qualidade permaneceram intactos em discos excelentes como "Some Change" (1994) e "Come On Home" (1998).



Dois anos atrás, Boz Scaggs ressurgiu com um disco inesperado, chamado “Memphis”, uma homenagem à cidade que ele tanto admira musicalmente.

Inesperado porque, apesar de trazer apenas duas canções inéditas de sua autoria para abrir e fechar essa coleção de clássicos – nada óbvios, diga-se de passagem -- da soul music, elas são as primeiras que ele grava desde “Dig”, de 2001. 

Inesperado também porque escancou algo que Scaggs sempre sugeriu: que gostaria de ter sido um artista de Hi Records. 

Não foi nada acidental a escolha do velho e lendário estúdio de Willie Mitchell, o Royal Recordings Studio, como base para as sessões de gravação de "Memphis". Era lá mesmo que ele "tinha" que ser gravado.



Pois "Memphis" foi tão bem recebido por crítica e público, e tão bem sucedido comercialmente, que agora, dois anos mais tarde, Scaggs voltou ao Tennessee para gravar este 'A Fool To Care" (lançamento 429 Records).

Dessa vez, ao invés do Royal Recordings Studio, em Memphis, Boz Scaggs e seus parceiros neste projeto optaram por gravar nos requisitadíssimos Blackbird Studios, do casal John & Martina McBride, em Nashville. 

Em apenas quatro dias de gravação, o produtor e baterista Steve Jordan recrutou veteranos como o baixista Willie Weeks e o guitarrista Ray Parker Jr. para compor a banda e dar o arremate final nos arranjos das 12 canções que compõem o disco. Encomendou uns poucos arranjos de cordas, convocou o suporte luxuoso de grandes guitarristas da cidade como Reggie Young e Al Anderson, além do mestre do pedal-steel guitar Paul Franklin, e finalizou o projeto em frente com relativa rapidez. 

Os resultados, mais uma vez, são magníficos. Aos 71 anos de idade, Boz continua cantando absurdamente bem, levando a musicalidade de "A Fool To Care" muito além do soul pedestre de Memphis -- "Full Of Soul", clássico de Al Green, e "Rich Woman", de Lil' Millet & His Creoles --, enveredando pelo caldeirão musical de New Orleans -- "A Fool To Care", "Small Town Talk" --, pelo soul de Chicago -- "I'm So Proud", de Curtis Mayfield, numa versão espetacular --, pelo soul da Philadelphia -- "Love Don't Love Nobody", dos Spinners --, e ainda pelas sonoridades country de Nashville -- "There's A Storm A Coming" --, culminando num número inclassificável chamado "Last Tango On 16th Street", que mescla tango e salsa de uma maneira tão inusitada que só ouvindo mesmo para acreditar.

Para completar, "A Fool To Care" traz ainda um dueto sensacional com Bonnie Raitt num bluesaço chamado "Hell To Pay" e "Whispering Pines", uma balada lindíssima cantada por ele e Lucianda Williams. Haja coração!


Boz Scaggs e Steve Jordan podiam perfeitamente ter optado por não correr riscos e simplesmente repetido a receita de sucesso de "Memphis".

Mas não fizeram isso: preferiram ousar e, ao invés de abraçar a musicalidade de apenas uma cidade, abraçar a soul music do país inteiro nesse novo álbum.

De certa forma, "A Fool To Care" lembra um pouco "Come On Home", o excelente disco que Boz gravou para a Virgin Records em 1997.

Lembra também "My Time", sua pequena obra prima de 1972.

É um daqueles trabalhos que já nascem devidamente instalados no coração da gente, como se estivessem por lá desde sempre.

Quem não ouviu ainda "A Fool To Care", não sabe o que está perdendo.





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segunda-feira, novembro 11, 2013

O UNIVERSO MUSICAL DE GARLAND JEFFREYS SEGUE VIVO E BEM NAS RUAS DO BROOKLYN

A primeira vez que se ouviu falar no nome Garland Jeffreys foi em 1969, quando John Cale, recém-saído do Velvet Underground, gravou seu primeiro LP solo pela Columbia Records.

O disco se chamava "Vintage Violence", e Garland fazia uma participação em uma das faixas.

Como era de praxe naqueles tempos, Garland foi contratado por uma gravadora -- Atlantic Records -- muito interessada em suas habilidades como compositor, mas que não sabia ao certo o que fazer com ele como artista solo.

Em meio a essa indefinição, três anos se passaram sem que Garland pudesse dar o pontapé inicial em sua carreira. Só em 1973, ele finalmente estreou solo. Num disco muito bom, diga-se de passagem. Mas que, infelizmente, tinha mais a cara musical do produtor Dr. John do que a sua, e passou totalmente despercebido por crítica e público.

Tudo bem, a música de Garland Jeffreys é meio difícil de definir, e ele nunca facilitou as coisas para achar mais rapidamente o seu público..

Mulato nascido no Brooklyn, NYC, há 69 anos, ele sempre trafegou por todas as sonoridades do bairro, indo desde o doo-wop e o rock and roll, passando pela soul music e pelas sonoridades latinas, e seguindo em direção ao reggae e ao blues.

Mesmo com um disco na bagagem, Garland Jeffreys continuou um ilustre desconhecido em meados dos anos 70.

Só que um ilustre desconhecido com amigos influentes, como Lou Reed e James Taylor, que não se conformavam com o fato dele ter estreado de forma tão torta, e não sossegaram enquanto não conseguiram para ele um novo contrato com garantia de liberdade artística e direito a escolher seu produtor.

E então nasceu "Ghost Writer" (1976), produzido por David Spinozza para a A&M Records, um dos discos mais emblemáticos da cena novaiorquina pré-CBGB's, que estava em grande evidência com o sucesso internacional de "Born To Run" de Bruce Springsteen e de "Horses" de Patti Smith.

Garland Jeffreys chegou e não perdeu tempo, emplacando logo de cara nas paradas o single "Wild In The Streets", que rapidamente virou uma espécie de hino das ruas nos subúrbios de Nova York.

Daí em diante, sua carreira finalmente engatou dos dois lados do Oceano Atlântico, seguindo de vento em popa por 5 ou 6 anos de tournées constantes, muita exposição na Imprensa Musical e discos anuais sempre bem recebidos.

Infelizmente, depois de outros 2 LPs para a A&M -- "One-Eyed Jack" e "American Boy And Girl" -- e outros 2 para a Columbia -- "Escape Artist" e "Rock & Roll Adult", ambos com a banda The Rumour, de Graham Parker, emprestada --, Garland começou a perder o foco de sua carreira.

Um flerte desastrado com o mainstream no LP "Guts For Love", produzido pelo inadequadíssimo Bob Clearmountain, o levou a um fiasco retumbante de vendas.

Daí em diante, nenhuma grande gravadora quis saber de comprar seu passe, e o jeito foi seguir de mala e cuia para a cena alternativa, onde acabou se dando bem, gravando discos mais esporádicos, mas sempre escapando com frequência para a Europa e Japão, onde nunca deixou de ter uma excelente acolhida de público.

Pois Garland está de volta com "Truth Serum", seu disco mais urgente e menos conceitual em muitos anos.

Como não podia deixar de ser, ele continua flertando com os mais diversos gêneros musicais -- para o desespero da Billboard, que há 40 anos tenta classificá-lo em algum segmento, em vão.

O disco abre com a faixa título, um bluesaço à moda de John Lee Hooker, com harmonica e guitarras distorcidas seguindo num mesmo tom, onde ele fala de excessos com o alcool e da proximidade dos 70 anos.

Mas antes que esses temas comecem a tomar conta do disco inteiro, Garland segue firme em direção a outras direções nas faixas seguintes -- seja falando de amor, de dificuldades do dia a dia, de "generation gaps", ou até mesmo de questões políticas e raciais que sempre fizeram parte do universo de suas canções.

Sua banda, comandada pelo baterista e produtor Steve Jordan, proporciona performances coesas e muito intensas. Garland acertou em cheio na escolha de seus bandmates. Nada melhor do que trabalhar com músicos que sabem exatamente como proporcionar a melhor moldura musical para as canções que vão compor um disco.

Graças a essa integração temática e musical que flui às mil maravilhas nas 10 faixas de "Truth Serum", não é nenhum exagero afirmar que esse novo disco de Garland Jeffreys não só deve agradar em cheio aos velhos fãs que, por um motivo ou outro, o perderam de vista nesses últimos 30 anos, quanto pode cativar novos admiradores que talvez descubram o quanto artistas mais jovens como Ben Harper foram influenciados por ele.

Está mais do que na hora de Garland voltar a ter um público mais extenso.

Ele merece.


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sábado, abril 13, 2013

BOZ SCAGGS VOLTA PARA CASA EM "MEMPHIS"

Ninguém canta como Boz Scaggs.

Desde seu excelente disco de estréia, gravado na virada dos anos 60 para os 70 com o pessoal da Muscle Schoals Rhythm Section, sua voz estranhamente maleável e sua postura “laid-back” vem intrigando a Indústria Fonográfica, que sempre tentou, mas nunca conseguiu, rotulá-lo para o mercado, mesmo depois dele ter emplacado alguns singles muito bem sucedidos nas paradas.

Aliás, uma pequena correção. Tem alguém que canta parecido com Boz Scaggs, sim: o soulman de Memphis Al Green -- ou vice-versa, já que os dois são compenheiros de geração e surgiram na cena musical mais ou menos ao mesmo tempo, só que em lugares diferentes. Na medida em que Scaggs nunca se definiu claramente como um artista de rock, de pop ou de R&B, parecia uma boa idéia tomar emprestado um pouco daquela levada pedestre dos singles soul de Memphis produzidos por Willie Mitchell para Al Green em seus discos gravados na motorizada e frenética Los Angeles.

Em “Slow Dancer”, seu grande LP de 1974, produzido pelo craque Johnny Bristol, Scaggs chegou muito próximo de assumir em definitivo essa sua persona soul. Só não foi adiante porque David Foster o desviou dessa rota no disco seguinte, “Silk Degrees”, emplacando “Lowdown”, clássico absoluto da era disco, que catapultou Boz Scaggs ao estrelato do dia para a noite, depois de dez anos de trabalho árduo tentando sair da periferia do big business musical.

Apesar de nunca ter conseguido, nem de longe, igualar o sucesso de “Silk Degrees”, Boz Scaggs vem mantendo uma regularidade muito peculiar em seu trabalho nesses 35 anos, apostando suas fichas em discos com um sotaque R&B bastante acentuado, e sempre acompanhado de músicos de primeira em suas tournées.

Tudo bem que os tempos mudaram, e o gosto do público também mudou, mas seu estilo inconfudível e seu padrão de qualidade permaneceram intactos em discos excelentes como "Some Change" (1994) e "Come On Home" (1998).



E então, eis que aos 69 anos de idade, Boz Scaggs ressurge com esse inesperado “Memphis”, uma homenagem à cidade que ele tanto admira musicalmente.

Inesperado porque, apesar de trazer apenas duas canções inéditas de sua autoria para abrir e fechar essa coleção de clássicos – nada óbvios, diga-se de passagem -- da soul music, elas são as primeiras que ele grava desde “Dig”, de 2001. Inesperado também porque "Memphis” escancara algo que Scaggs sempre sugeriu: que gostaria de ter sido um artista de Hi Records. Não foi nada acidental a escolha do velho e lendário estúdio de Willie Mitchell, o Royal Recordings Studio, como base para as sessões de gravação de "Memphis". Era lá mesmo que ele "tinha" que ser gravado.

O produtor (e baterista) Steve Jordan fez de tudo para resgatar o clima das velhas gravações. Chamou o tecladista Spooner Oldham, o baixista Willie Weeks e o guitarrista Ray Parker Jr. para compor a banda e trabalhar os arranjos. Só faltou mesmo fazer uma sessão de mesa branca para invocar a presença da alma do velho e genial produtor no estúdio. O resto eles fizeram.

E os resultados são estupendos. Na segunda faixa, “So Good To Be Here”, de Al Green, Scaggs já está completamente em casa, soltando seu falsete inconfundível nos momentos chave da canção e dando um toque ainda mais suave à gravação original. O mesmo acontece em “Rainy Night In Geórgia”, de Tony Joe White, e em “Can I Change My Mind”, grande sucesso de Tyrone Davis, ambas impecáveis e precisas ao extremo.

Outro dado curioso em “Memphis” é a sutil homenagem prestada por Scaggs ao grande artista novaiorquino Willy DeVille, que brilhou na cena pós-punk americana no grupo Mink DeVille. Duas das canções de seu álbum de estréia, “Cabretta”, de 1979, estão aqui, em releituras um tanto quanto surpreendentes. “Mixed Up Shook Up Girl”, por exemplo, perdeu seu jeitão latin-soul e subiu aos céus graças a um coro negro delicadíssimo. Já “Cadillac Walk” ficou menos urgente e mais perigosa. Coisa de quem tem bagagem de sobra para usar como bem entender.



“Memphis” tem muito mais que isso para mostrar, mas eu paro por aqui e deixo o resto por conta de Boz Scaggs e sua banda magnífica, e por conta de vocês, claro!.

Acreditem, “Memphis” é um disco que tem aquele gostinho de chegar em casa depois de um bom tempo distante.

Não tem contra-indicações. É, provavelmente, o melhor disco de covers que vocês irão ouvir em 2013. Não é pouca coisa.



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