quarta-feira, julho 29, 2015

O WILCO FAZ UMA ESPÉCIE DE AÇÃO DE GRAÇAS COM "STAR WARS", DISTRIBUÍDO GRATUITAMENTE PELA WEB.

por Chico Marques


Existem artistas que, quando esboçam carreiras solo paralelas ao trabalho das bandas de que fazem parte, fazem questão de seguir rotas diametralmente opostas, para evitar que seus trabalhos solo se confundam com os discos de carreira de suas bandas.

Mas também tem aqueles artistas que usam suas carreiras solo para mostrar que podem passar muito bem sem suas bandas.

Jeff Tweedy não se enquadra em nenhuma dessas duas categorias.

Quase todos os álbuns solo que gravou até agora foram tão idiossincráticos que nem chegam a configurar uma carreira solo.

O último deles, "Sukierae", gravado ano passado com seu filho Spencer, de 16 anos, foi o mais próximo que ele chegou de um verdadeiro álbum solo -- e mesmo assim, parecia mais um desfile de ótimas canções em demos bem despojadas e bem sucintas para um eventual novo disco do Wilco.

E foi, sem dúvida, um dos melhores e mais inusitados discos de 2014.
Pois bem: o novo álbum do Wilco, "Star Wars", parece uma consequência direta de "Sukierae".

Pela primeira vez, a maioria das canções de um disco do Wilco  tem como ponto de partida a vida familiar de Jeff Tweedy -- lembrando que "Sukierae" foi gravado enquanto sua mulher lutava contra um tipo raro de cancer, e agora, finalmente curada, ela serve de musa para a produção mais recente de canções de Jeff para a banda.

E também, pela primeira vez, o Wilco -- que em outras épocas teve problemas sérios com gravadoras que conspiraram abertamente para evitar o lançamento alguns de seus discos, como o hoje clássico "Yankee Hotel Foxtrot" -- resolveu não submeter seu novo trabalho a uma gravadora e preferiu lançá-lo gratuitamente na web através do website da banda. 

O motivo disso? 

Segundo Jeff Tweedy, "achamos que seria mais divertido assim". 

O que não impede do disco eventualmente aparecer à venda em breve nas lojas em edições para colecionadores.  
Na verdade, "Star Wars" foi lançado gratuitamente para celebrar os 20 anos da banda e, de quebra, promover a atual tournée americana do Wilco.

Mas também para agradecer a todos pela corrente positiva formada entre os fãs da banda durante a batalha contra o cancer travada pela mulher de Jeff Tweedy. 

Isso explica o nome do disco -- lembram de "Que a Força Esteja com Você"? -- e também a capa bem feminina, com uma pintura de um gatinho branco bem peludo e simpático.

"Star Wars" é um disco surpreendente pela brevidade. 

Tem apenas 33 minutos de duração, e nenhuma das canções avança além de 4 minutos. 

Além do mais, reúne um pouco de cada um dos 9 discos da banda, todos muito diferentes entre si. 

E, mesmo assim, mostra a banda tocando solto, buscando climas musicais inusitados e soando mais palatável ao gosto do grande público do que jamais soou antes. 

É tão coeso que fica até difícil escolher entre as canções que o compoem -- estão todas tão integradas e bem encadeadas que nem faz sentido destacá-las do conjunto.
O mais curioso de tudo é que, comercialmente falando, "Star Wars" poderia ter uma carreira interessante nas lojas. 

O que prova que, definitivamente, o Wilco não está nessa brincadeira pelo dinheiro. 

Aliás, nunca esteve. O Wilco é "fominha" no palco, adora fazer shows longos, e não nega fogo em tournées. Sentem-se perfeitamente bem na estrada.

Além do mais, o Wilco encara sua produção fonográfica como "souvenirs" para os frequentadores de seus shows. 

Até por isso, seus integrantes exigem liberdade criativa total na produção de seus discos e não aceitam qualquer tipo de interferência de qualquer gravadora em seu processo artístico.
O Wilco existe há vinte anos. 

Surgiu de uma desavença entre os guitarristas Jay Farrar e Jeff Tweedy, ambos do grupo alt-country Uncle Tupelo. 

Farrar queria que a banda tivesse uma identidade mais country-rock, seguindo a cartilha dos Byrds e dos Flying Burrito Brothers. 

Já Jeff Tweedy queria que a banda tivesse uma atitude mais experimental e não assumisse posições muito definidas, para ficar livre para experimentar à vontade e se renovar artisticamente com frequência.

Não houve acordo entre eles. 

E então, o Uncle Tupelo partiu em dois: Jay Farrar montou o Son Volt e Jeff Tweedy o Wilco. 

Deixou de ser uma grande banda indie para gerar duas das bandas mais influentes e vitais das duas últimas décadas. 

No caso específico do Wilco, virou uma banda que flerta abertamente com o mainstream sem jamais perder de vista suas raízes indie, nem se render ao classic rock adulto contemporâneo.

Com 20 anos nas costas, o Wilco se recusa a "amadurecer" em seus discos, com medo de firar previsível e perder sua identidade musical.

Daí, prefere circular em torno dos mesmos temas indefinidamente, repetindo -- com um approach bem original, diga-se de passagem -- um truque estilístico que aprenderam com outras bandas como o Grateful Dead e o Phish.

Sabem o que fazem. 

E fazem muito bem. 

São 10 álbuns de estúdio em 20 anos de carreira até agora, mais sabe-se lá quantos gravados ao vivo. 

Todos brilhantes. Todos impecáveis. Todos exuberantes. Como o gatinho da capa de "Star Wars"

 Que a Força esteja com Jeff Tweedy e seus comparsas!


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quinta-feira, julho 23, 2015

RICKIE LEE JONES ACERTA AS CONTAS COM O PASSADO EM "THE OTHER SIDE OF DESIRE"


Quando Rickie Lee Jones surgiu, bem no finalzinho do Segundo Tempo da década de 70, foi um acontecimento e tanto no meio musical americano. 

A Indústria Fonográfica anunciava o ocaso da Era dos Cantores-Compositores -- que Elvis Costello maldosamente chamava de "The Fuck-Me-I'm-So-Sensitive School Of Songwriting" -- em que artistas homens como Jackson Browne, James Taylor, John-David Souther, Gram Parsons, Eric Kaz e Jack Tempchin, entre outros, brilharam intensamente na Cena de Los Angeles, ofuscando Carole King, Carly Simon, Karla Bonoff, Wendy Waldman, Valerie Carter...

Foi uma época estranha, em que surgia uma nova cantora a cada semana no mercado musical. Essas cantoras, curiosamente, preferiam se abastecer de canções de compositores do que de compositoras. Uma olhada rápida nos "fornecedores" de Linda Ronstadt, Bonnie Raitt e Emmylou Harris já deixa isso bem claro. O tom era o do "bittersweet", que acabou virando nomenclatura para a música produzida na época, como se fosse uma espécie de ressaca do Sunshine Pop da segunda metade dos Anos 60.
Rickie Lee Jones chegou atropelando tudo isso. E chegou forte, abençoada pela então dupla de produtores Lenny Waronker e Russ Titelman, que davam as cartas no Departamento Artístico da Warner Bros Records, e que não mediram esforços para rechear seu disco de estréia com a nata da nata da cena musical americana sob contrato com a gravadora. 

Suas credenciais pareciam meio duvidosas, já que ela era namorada de Tom Waits na época -- e ninguém jamais namora com Tom Waits impunemente. Mas bastou seu disco chegar às lojas em 1979 e as pessoas começarem a prestar atenção no que havia naqueles sulcos para ficar claro que desde Joni Mitchell e Laura Nyro não se via uma cantora-compositora tão talentosa e tão original.

Em suas canções, Rickie Lee Jones alternava um jeitão bem moleque de rua com uma femininidade cheia de atitude, uma combinação que nenhuma compositora havia tentado antes. Em números suingados como "Chuck E's In Love", "Weasel and The White Boys Cool", "Danny's All-Star Joint", "Easy Money" e "Coolsville", ela sempre se coloca como "um dos rapazes", em aventuras com apelo literário beat fortíssimo. Já nas baladas ela alterna uma melancolia intensa -- "Company", "On Saturday Afternoons in 1963" -- com um instinto de fêmea avassalador na road-song feminina definitiva "The Last Chance Texaco" -- com metáforas sexuais tão truculentas que Emmylou Harris adorou mas não teve coragem de gravar na época -- ou na intensa "Night Train".
Então, em 1981, no lançamento do segundo disco, "Pirates", quando todos imaginavam que Rickie Lee não iria ter fôlego artístico para repetir a dose do disco de estréia, eis que ela surpreende com um disco melhor e mais intenso ainda que o primeiro: mais focado nas relações amorosas, menos moleque, além de musicalmente mais coeso, já que conta com uma mesma banda, comandada por seu marido, o guitarrista Sal Bernardi, em todas as faixas. 

As duas canções que abrem o disco -- "We Belong Together" e "Living It Up" -- são crônicas bem dramáticas de amores boêmios, e mesclam elementos de toda a tradição literária, cinematográfica e musical das artes americanas, com resultados magníficos. A seguir, vem 'Skeletons", uma pequena obra-prima pop que conta a história trágica de Bird, um cara do bem que é morto acidentalmente pela polícia enquanto leva a mulher grávida para o Hospital em alta velocidade. Uma canção lindíssima. Triste ao extremo. Tudo isso remete ao mesmo universo temático de Tom Waits. Mas, visto pela ótica de uma mulher, esse universo temático fica ainda maior e mais interessante.

E então, no terceiro disco, "Magazine" (1984), Rickie Lee volta com uma musicalidade mais "slick", sem a dramaticidade de "Pirates", e surpreende mais uma vez com uma nova sequência de grandes canções. Para então, em seu quarto disco, "Flying Cowboys", embarcar numa aventura musical bem mais complexa, com o suporte do amigo Walter Becker, do Steely Dan. 

Desde então, seus discos com material próprio começaram a ficar mais e mais experimentais, com flertes abertos com música eletrônica e temas pouco comuns a seu universo musical. Ficaram mais cerebrais, e perderam o frescor moleque que Rickie Lee ostentava em seu início de carreira. Para manter o interesse das gravadoras por onde passou, ela tratou de alternar seus discos de inéditas com discos de covers que tinham apelo mais imediato perante seu público. 

Só que cinco anos atrás, ele teve que enfrentar a dura realidade: estava diante de um beco sem saída artístico. 

Não conseguia mais compor. 

Não sabia que rumo dar a sua carreira. 

E, pior de tudo, não sabia como voltar ao que era antes..  
"The Other Side Of Desire" (um lançamento Thirty Tigers) é seu primeiro disco de inéditas em seis anos, e o primeiro desde que mudou de mala e cuia para New Orleans em 2012. Essa mudança foi providencial, pois, na tentativa de absorver um pouco da musicalidade e da herança cultural da cidade, Rickie Lee reencontrou consigo própria, num repertório novo repleto de canções delicadas e extremamente melodiosas inspiradas em sua filha, que já é uma mulher, e em seu falecido pai, com quem ela tinha uma relação meio atrapalhada. 

Não são canções confessionais. Longe disso. São exercícios de imaginação livre, sem as pretenções literárias de seu trabalho anterior, "Balm Of Gilead", mas nem por isso menos densos. Sua aparente leveza é mais um disfarce que qualquer outra coisa.

Um detalhe interessante em "The Other Side of Desire" é que ela voltou a trabalhar com uma banda de verdade, deixando samplers e drum loops um pouco de lado. Muito da leveza musical do disco é consequência direta disso. Com Doug Belote na bateria e Lenny Castro na percussão, mais o baixo acústico de James Singleton, tanto o Hammond B3 de Jon Cleary quanto o piano Wurlitzer de David Torkanowsky ganham relevo todo especial nos arranjos, promovendo molduras adequadíssimas para essas canções. 

Não deixa de ser curioso Rickie Lee Jones conseguir reaver todo o frescor musical que marcou seu início de carreira, devidamente amadurecido pelo tempo, justo agora que acaba de comemorar 60 anos de idade. 

Sintomaticamente, ela parece hoje mais jovial do que nos últimos 25 anos.
O título do disco "The Other Side Of Desire" remete diretamente a "Christmas In New Orleans", uma das canções do disco, em que Rickie Lee convoca, à moda de Charles Dickens, os fantasmas de sua vida para que se reúnam ao redor de uma lareira para esquentar as mãos e usufruir do calor que emana "do outro lado do desejo".

Desnecessário lembrar que Desire é também o nome de um bairro de New Orleans, onde se passa a famosa peça de Tennessee Williams, cuja personagem principal, Blanche Dubois, parece passear por várias faixas desse novo disco de Rickie Lee Jones.

Sendo assim, sejam bem-vindos ao outro lado do desejo em companhia dessa anfitriã adorável que, aos sessenta anos de idade, continua com a mesma cara de menina levada.

Rickie Lee, voce é irresistível.
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terça-feira, junho 16, 2015

THE JAYHAWKS COMEMORAM 30 ANOS DE CARREIRA COM UM ÁLBUM AO VIVO PERFEITO.

por Chico Marques


Era uma vez, 30 anos atrás, numa galáxia distante e gelada chamada Minnesota, um grupo de bandas pós-punk de altíssimo gabarito, absolutamente desconectadas umas das outras, que brigavam por um lugar ao sol em meio a todo aquele frio e todo aquele gelo de Minneapolis e Saint Paul -- conhecidas por "the twin cities". 

Rolava de tudo na cena musical das Cidades Gêmeas. Tinha desde o punk melódico descabelado dos Replacements e do Husker Du até o rock and roll rasgado do Soul Asylum, passando pela soul music roqueira moderníssima de Prince e várias outras manifestações no mínimo curiosas. 

Em meio a tanta pluralidade musical, não podia faltar uma banda country-rock clássica, à moda do Poco e dos Flying Burrito Brothers, que viria a se tornar um dos tesouros mais preciosos da música americana dos últimos 30 anos.
The Jayhawks começou em 1985 com uma proposta musical que combinava uma postura revisionista com uma atitude extremamente moderna. 

Seus dois primeiros discos, gravado para selos locais de Minneapolis, são pequenos clássicos, e trazem excelentes composições, mostrando logo de cara como o time de compositores composto por Mark Olson e Gary Louris podia render maravilhas, se bem orientado. 

A partir do terceiro disco, "Hollywood Town Hall", produzido por George Drakoulias para a American Recordings, The Jayhawks já começa a deixar de lado o revisionismo country-rock para flertar abertamente com saídas musicais inusitadas, com resultados aplaudidíssimos.

E então, no quinto disco, "Smile", produzido por Bob Ezrin, The Jayhawks assume de vez sua porção roqueira e chuta para o alto seu passado country -- mas alguma coisa sai errado, os membros da banda se desentendem, e cada um vai para um lado diferente, em trabalhos solos bons, bem focados, mas independentes, e com pouca projeção.
Daí em diante, por uma questão de sobrevivência, o jeito foi alternar essas carreiras solo com retornos eventuais de The Jayhawks, para apresentar suas novas canções, mescladas com seus grandes sucessos, aos fãs da banda que não acompanhavam suas carreiras solo.

 Podiam ficar apenas nas tournées, mas não. De tempos em tempos, tomavam coragem e gravavam discos novos como banda -- caso do delicioso "Rainy Day Music", de 2003, e do elogiadíssimo "Mockingbird Time", de 2011.

Pois bem: The Jayhawks está comemorando 30 anos de carreira, com pompa e circunstância, neste ano. 

Todos os seus discos estão sendo reeditados em edições especiais, com faixas adicionais, aquela coisa toda...

Daí, decidiram reunir todas os músicos das fomações clássicas da banda para uma tournée comemorativa. 

E um show dessa tournée, no dia 16 de Janeiro deste ano, no Belly Up Club em Solana Beach, California, acabou virando um disco ao vivo.

 E que disco!
"Live at the Belly Up" é um souvenir precioso dessa tournée, e o disco ao vivo que faltava na discografia da banda, já que o anterior "Live From The Women's Club" era totalmente acústico e fora dos padrões sonoros habituais da banda.

Aqui, temos a alma de The Jayhawks por inteiro, em 20 números escolhidos a dedo nos 8 LPs de estúdio da banda, cobrindo por completo os 80 minutos regulamentares permitidos pelo CD.

Não há o que destacar. Quase todas as canções são velhas conhecidas dos fãs da banda, e as versões ao vivo são inspiradíssimas. 

Esses velhos rapazes podem brigar o quanto quiserem, mas jamais conseguirão disfarçar que tem um prazer enorme em tocar juntos. 

Até por isso um disco ao vivo de The Jayhawks fazia tanta falta -- e agora não faz mais.


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quarta-feira, junho 03, 2015

MICK HUCKNALL FAZ UM NÚMERO SÍLVIO CALDAS E REVIVE O SIMPLY RED NUM DISCO NOVO BEM BACANA CHAMADO "BIG LOVE"

por Chico Marques


Não é fácil ser um ídolo pop e lutar diariamente para se livrar de estigmas que assombram sua carreira. 

Mick Hucknall é um caso assim.

Bem que ele tentou se desvencilhar do Simply Red, sua banda desde 1985, que fez enorme sucesso em seus primeiros 10 anos de vida, com mais de 50 milhões de discos vendidos, mas que, por volta do quinto disco, "Life", perdeu o status de "integrante do primeiro time pop" e também seu frescor musical.

Até aí, tudo bem: as histórias de sucesso são assim mesmo. 

Mas o caso é que Mick Hucknall seguiu insistindo na mesma fórmula por mais 5 discos, levando o Simply Red a um desgaste artístico difícil de contornar. Por pouco, a banda não ingressou no circuito nada seleto das atrações nostálgicas. 

Cansado disso tudo, Mick teria dito ao final do show derradeiro do Simply Red na Arena O2 em Londres cinco anos atrás: "Chega: Simply Red, nunca mais!"

Mas disse isso cedo demais.

Depois de dois discos solo muito interessantes, mas que não decolaram comercialmente e que falharam ao não conseguir arrebanhar o público da banda, Mick Hucknall concluiu o que muita gente já sabia: poucos associam seu nome, Mick Hucknall, ao Simply Red.

Daí, não teve jeito. Mick teve que engolir o que disse na O2 Arena e retomou o Simply Red a pretexto de uma tournée comemorativa de 30 anos de lançamento de seu álbum de estréia, "Picture Book". 
Por insistência de seu empresário e de sua gravadora, o terceiro álbum solo, que já estava com todas as canções compostas e em fase de pré-produção, deixou de ser um disco solo para virar o 11° disco do Simply Red.

BIG LOVE (um lançamento EastWest/Warner) não é, nem de longe, um disco de ruptura -- pelo contrário, traz Mick em busca da essência musical "mezzo Philly, mezzo Motown" do Simply Red que havia se perdido no meio do caminho.

Mas existem ao menos duas diferenças que saltam aos ouvidos nessas novas canções.

A primeira diferença está no tom doméstico de quase metade do novo repertório, em canções nitidamente inspiradas na vida familiar de Mick com sua mulher e sua filha de 8 anos de idade, como "Love Gave Me More" e "Big Love".

E a segunda está na insistência de Mick em apostar numa postura de crooner em números como "The Old Man And The Beer" e "Each Day", que encerram o disco, quebrando um pouco com o que os fãs do Simply Red esperam dele, e dando sequência ao que andou experimentando em seus discos solo.

Como não podia deixar de ser, BIG LOVE tem alguns números em uptempo, como "Tight Tone", "Woru" e "Shine On", que deixam o disco um pouco mais mundano com seu espírito "nightclubbing".

Mas, no geral, o que predomina é a delicadeza romântica habitual, tanto em dedicações de amor como a de "Daydreaming" quanto nas reminiscências de "The Ghost Of Love".
Goste ou não do Simply Red, Mick Hucknall é um tremendo cantor.

Que tentou ao máximo expandir seu espectro musical nos últimos cinco anos, forjando uma persona roqueira ao lado de Ronnie Wood como vocalista convidado do lendário The Faces numa tournée comemorativa.

Que tentou também inaugurar uma persona bluesy num belo disco em homenagem a seu herói musical Bobby Blue Bland, que ainda era vivo quando Mick o lançou.

 E que tentou, antes de mais nada e acima de tudo, manter sua ótima reputação de "blue-eyed soulman" de voz aveludada e sensual.

Foi mais bem sucedido em todos esses quesitos, menos no comercial, daí a volta do Simply Red -- mas manda avisar que ano que vem retoma sua carreira solo.

Quem sabe dessa vez, o velho público do Simply Red o acompanha?



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quarta-feira, maio 27, 2015

PAUL WELLER SE REINVENTA MAIS UMA VEZ EM "SATURN'S PATTERN", UM LP FABULOSO. DESSA VEZ, A AMÉRICA NÃO TEM COMO ESCAPAR DELE.

por Chico Marques


Paul Weller não sossega jamais. Depois de brilhar 15 anos à frente de grupos como The Jam e Style Council, e de passar boa parte da década de 1990 apostando numa carreira solo visando agradar ao público americano -- em vão, pois os americanos apanham para entendê-lo --, Weller desistiu de facilitar as coisas e passou a investir num trabalho independente cada vez mais pessoal. Desde então, não pára de ganhar prêmios e de ser reconhecido como a artista mais importante e influente da cena inglesa desde David Bowie.

Depois de algumas aventuras diletantes, que culminaram com "Sonic Kicks" (2012) -- um disco modernoso, onde enveredou pelo terreno às vezes pantanoso da música eletrônica -- Paul Weller parou por 3 anos para rever uma série de posicionamentos de carreira. Primeiro, encerrou sua longa parceria com o produtor Simon Dine, e se livrou do cárcere musical que a roupagem eletrônica que ele criou impunha a suas canções e performances musicais. Segundo, convocou Jan "Stan" Kybert para assumir a co-produção de seu novo trabalho, e optaram por expandir a sonoridade da banda e a musicalidade das novas canções, embarcando numa levada musical retrô neo-psicodélica com uma atitude meio revisionista e meio modernosa. 

Oportunismo mercadológico? Talvez. Weller acaba de mudar de gravadora, após encerrar um período meio turbulento com a Island Records, que prometeu promovê-lo nos EUA e não cumpriu o combinado.


Mas conhecendo Paul Weller, é bobagem duvidar de sua capacidade de se reinventar de tempos em tempos. Desde "22 Songs" (2008) ele vem experimentando uma espécie de renascimento artístico em sua carreira, com aplausos tanto da crítica quanto do público inglês. Mesmo assim, o público americano permanece um sonho ainda inacessível a ele. O que mais assusta Weller é que ele já tem 57 anos de idade, idade complicada para emplacar por lá. e seu tempo de carreira em breve o qualificará apenas a refém de seu próprio passado glorioso nas mãos de algum Gerente de Projetos Especiais de alguma gravadora -- ou seja: justamente o que ele não quer para si próprio. 

Se almejasse esse tipo de tranquilidade, bastaria reformar o The Jam e o Style Council, alternando tournées com as duas bandas, e viver em sobressaltos os anos que ainda tem pela frente. 

Não adianta: Paul Weller é inquieto por natureza.


Pois bem: o nome do novo disco de Paul Weller é “Saturn's Pattern" (WEA Parlophone, sem previsão de lançamento no Brasil). É um reflexo curioso desses dilemas que ele vive atualmente. Aqui, os sintetizadores modernosos do disco anterior deram lugar a Mini-Moogs e o tapete musical eletrônico deu lugar a reverbs de guitarras e muitas tonalidades psicodélicas, tanto nos vocais quanto na base musical. 

Mas tirando isso, estamos diante do mesmo Paul Weller iconoclasta musical de sempre, trafegando entre o soul melodioso e comportado da Motown e os grooves selvagens de Curtis Mayfield, entre o rock rasgado do Humble Pie e toda a herança pop britânica, da qual é um dos maiores expoentes há quase 40 anos. Weller é tão íntegro que, até na hora de flertar oportunisticamente com o público americano, ele acha um jeito de manter sua dignidade artística intacta.

"Saturn's Pattern" abre com uma brincadeira neo-psicodélica pesadona em colaboração com o grupo Amorphous Androgynous, que, segundo o espirituoso jornalista inglês Neil Dowden, soa como "Led Zeppelin sendo abduzido por alienígenas". 

Logo a seguir, na faixa título, o flerte sempre inevitável de Weller com seus heróis de infância The Small Faces ressurge forte -- em parte por conta do cinquentenário da banda, mas principalmente em homenagem a Ian McLagan, tecladista do grupo, falecido este ano. 

E então, temos "Goin' My Way", uma balada belíssima, que evoca tanto os Beach Boys quanto os Zombies, cuja letra funciona como uma espécie de carta de intenções de um artista incansável, cuja musa nunca o abandonou. 

E se a curtíssima faixa seguinte "Long Time" parecer com alguma antiga canção dos Kinks reinventada pelo David Bowie da fase Ziggy Stardust, ou com alguma maluquice de Iggy Pop da fase "Raw Power", não se assuste: todas essas personas roqueiras com suas obsessões sonoras convivem pacificamente dentro do Universo Musical e da psiqué de Paul Weller.

Todas as 9 composições de "Saturn's Pattern" são muito divertidas e inusitadas, sem exceção. E na edição deluxe do álbum, tem ainda 3 bonus tracks deliciosas -- entre elas a melhor releitura da clássica 'I'm A Road Runner" que já ouvi. Sem nenhum exagero, podem acreditar.  


Assim como no longínquo primeiro álbum solo de Weller, gravado 24 anos atrás logo após o fim do Style Council, "Saturn's Pattern" tem um pouco de tudo para satisfazer a todos os gostos.  

Paul Weller pensa mais ou menos como Mick Jagger & Keith Richards sempre que estão preparando um disco novo: se todo o trabalho não servir para se manter em sintonia com a cena atual, sempre renovado(s) musicalmente, então a empreitada terá sido um fracasso, com direito a uma passagem só de ida para o Reino da Nostalgia -- o último lugar no mundo em que Jagger, Richards e Weller querem estar.

Se você é fã dos Black Keys, adora o Alabama Shakes, vibra com The Vaccines e ainda não conhece o trabalho de Paul Weller, aproveite a oportunidade: "Saturn's Pattern" vai surpreender você. 

Não negue fogo.

(PS: mais um que segue direto para a minha lista de Melhores de 2015 desde já, para fazer companhia a "Mystery Glue" de Graham Parker and The Rumour, comentado aqui dias atrás)




AMOSTRAS GRÁTIS




segunda-feira, maio 25, 2015

UM NOVO DISCO DE GRAHAM PARKER AND THE RUMOUR É SEMPRE MOTIVO DE FESTA, MAS "MYSTERY GLUE" É FESTA DO COMEÇO AO FIM.


Quem viveu a cena pós-punk, com certeza lembra com carinho de Graham Parker e seus comparsas do grupo The Rumour.

Assim como Elvis Costello, que buscou abrigo em seu início de carreira numa persona que combinava visualmente Woody Allen com Buddy Holly para defender suas canções irônicas e, às vezes, raivosas, Graham Parker tentou adequar suas canções meio debochadas, meio irreverentes -- e sempre urgentes e contundentes -- a uma persona de soulman punk que inventou para si próprio, e que deu muito certo a princípio.

Mas o caso é que, entre 1975 e 1982, enquanto esteve com o Rumour a tiracolo -- uma banda que reunia a nata do pub rock londrino, com ex-membros dos grupos Brinsley Schwartz, Ducks DeLuxe e Bontemps Roulez --, setores da crítica, muito comprometidos com a cena punk, não entenderam que Parker era mais uma figura dylaniana, nos moldes de Ian Hunter, do que qualquer outra coisa, e insistiram em vendê-lo como um "angry young man", que ele, na verdade, nunca foi. 
Bastou Graham Parker começar a gravar canções não tão urgentes e tentar aproximar seu trabalho do gosto americano, que sua carreira começou a perder altitude. The Rumour o deixou para gravar discos próprios e boa parte do público sumiu -- o que foi uma pena, pois seu primeiros álbuns solo, como "Mona Lisa's Sister", estão entre seus melhores trabalhos até hoje.

Nesses últimos 30 anos, Graham Parker vem tocando sua carreira em frente por selos independentes e mantendo por perto velhos admiradores que nunca deixaram de aplaudir suas composições e seu timbre vocal admirável -- cada vez mais rouco e semelhante ao de Bob Dylan, só que afinado.

E então, quatro anos atrás, sem grande alarde, aconteceu uma reunião de Parker com os integrantes originais do The Rumour -- os guitarristas Brinsley Schartz e Martin Belmont, o tecladista Bob Andrews, o baixista Andrew Bodnar e o baterista Steve Goulding.

Poderia ser apenas mais uma tournée oportunista, visando reforçar o caixa dos envolvidos no projeto. Mas não. Decidiram gravar um disco de retorno, "Three Chords Good", que, para surpresa geral, tinha pouco a ver com a sonoridade urgente que a banda trabalhava nos Anos 1970 e 1980, e soava como uma consequência natural do trabalho solo de Parker nas últimas décadas, com o apoio luxuoso do The Rumour nos arranjos e nas performances -- mais mansas, mas também muito suingadas que as de 35 anos atrás, um diferencial curioso e saudável. 

Na essência, nada mudou aos longo desses 40 anos de associação. A personalidade musical de Parker já estava pronta naquela época, e agora está maturada. E a identidade musical do The Rumour sempre foi elástica o suficiente para conseguir se adequar a novas situações, sem se descaracterizar musicalmente.
Eis que eles estão de volta com "Mystery Glue" (um lançamento Cadet/Universal, sem previsão de lançamento no Brasil), que marca o segundo retorno de Graham Parker & The Rumour.

É um disco mais pedestre e mais casual -- e até mais urgente -- do que o anterior "Three Chords Good", revelando que The Rumour voltou a um nível de entrosamento musical do tipo que só se alcança depois de alguns meses de tournée juntos e muita camaradagem e respeito mútuo entre os integrantes da banda.

Tudo funciona às mil maraviilhas em "Mystery Glue", desde o repertório ligeiro às performances sem exageros, em canções que evocam todos os temas clássicos da banda -- mulheres, carros, vida noturna, amores confusos -- e mais alguns, como envelhecimento, amadurecimento e como conseguir continuar se divertindo apesar disso tudo.

Eu, se tiver que escolher meus números favoritos, fico com "Long Shot", uma ode à longevidade, "Flying Into London", sobre o prazer de voltar ao velho lar depois de uma longa temporada americana de mais de 30 anos, e "Transit Of Venus", uma pequena obra-prima, repleta de ironias, sobre masculinidade e maturidade. Se bem que "Going There", com ecos de Bob Dylan e Van Morrison, chega bem perto da perfeição. 

Pensando melhor, melhor não escolher coisa alguma. Escolher é perder. E "Mystery Glue" é ótimo da primeira à última faixa, "My Life In Movieland", um belo e inusitado número nostálgico, diferente de tudo o que a banda já fez. 
Graham Parker é um artista de primeira grandeza no rock angloamericano. Nunca deixou de crescer musicalmente nesses mais de 30 anos em carreira solo, sem The Rumour. Mas é inegável que "Mystery Glue" -- mais ainda que o anterior "Three Chords Good" -- tem um sabor forte de resgate.

Não o resgate de um estrelato que passou rápido demais, pois isso não dá para alcançar mais, aos 65 anos de idade. Mas o resgate de um espírito jovial que se perdeu um pouco a partir do momento em que o trabalho de Graham Parker começou a ficar solitário demais.

Parker é o tipo do cara que desabrocha à frente de uma banda como The Rumour -- que, por razões geracionais e afetivas, sabe melhor que ninguém não só onde ele quer chegar como sabe exatamente como facilitar o acesso.

É um disco sensacional, que eu não canso de ouvir há uma semana, e sobre o qual estava até hesitando em escrever para não ter que pular para o próximo disco a ser comentado.

"Mystery Glue" já está na minha lista de melhores discos de 2015. 

Não sai dela até Dezembro, mas nem a pau.

AMOSTRAS GRÁTIS