segunda-feira, maio 01, 2017

ENCAIXOTANDO EM 5 CDS 50 ANOS DE CARREIRA DO NRBQ, A MAIOR BANDA DE BEIRA DE ESTRADA DO PLANETA TERRA

por Chico Marques


Em 1967, enquanto quase toda a comunidade roqueira do Planeta Terra celebrava o Verão do Amor embalada por Paz, Amor Livre e muito LSD, dois jovens músicos de Louisville, Kentucky uniam forças num projeto musical completamente desalinhado e inusitado.

Combinavam rock, pop, country, folk, blues, jazz, valsinhas e polkas num conceito musical aventuresco e extremamente agradável aos ouvidos, mas enganosamente despretensioso.

Os dois jovens de Kentucky eram eles o pianista Terry Adams e o guitarrista Steve Ferguson, criaturas extremamente criativas e absolutamente ecléticas, que decidiram montar uma banda em homenagem ao grupo Modern Jazz Quartet -- que assinava MJQ.

Foi assim que nasceu o NRBQ, sigla que designa New Rhythm & Blues Quartet.



Logo no primeiro disco para a Epic, o NRBQ já deixava claro no repertório de covers escolhidos -- com números de artistas tão díspares quanto Eddie Cochran, Carla Bley, Sony Terry & Brownie McGhee e Sun Ra -- que não só faziam questão de levar seu ecletismo musical às últimas inconsequências, como também estariam sempre abertos a qualquer brincadeira musical que surgisse pelo caminho da banda.

Esse espírito criativo e brincalhão, somado às performances fulminantes que promoviam em pequenas casas noturnas por todos os cantos dos EUA e do Canadá, acabaram  rendendo ao NRBQ um "cult status" invejável e um público cativo fidelíssimo.

Isso apesar de seus discos jamais terem tido vendagens expressivas.


Segundo Terry Adams, o motivo pelo qual o NRBQ nunca emplacou com o grande público é que eles sempre estiveram no momento certo, mas no lugar errado.

Cita o fato deles terem tocado num clube de cadetes na cidade de Woodstock no mesmo final de semana de 1969 em que, alguns quilômetros adiante, rolava o emblemático Festival.

E assim, sempre zombando das regras do mercado e sempre abusando do diletantismo, o NRBQ passou toda a década de 70 pulando de galho em galho -- da Columbia Records para a Mercury, e depois para a Bearsville --, até que, já nos Anos 1980, mudaram de mala e cuia para a cena independente, onde ficaram muito à vontade, e de onde nunca mais saíram.

(na verdade, saíram sim, uma única vez, em 1989, e gravaram um belo disco para a Virgin Records, 'Wild Weekend", que vendeu muito pouco e deve ter gerado a demissão de todos os executivos da gravadora responsáveis pela contratação deles -- mas o importante é que o NRBQ sobreviveu bem a tudo isso, danem-se os executivos...)


Depois do décimo aniversário da NRBQ, vários dos integrantes da banda cansaram de tanto diletantismo e caíram fora para experimentar outras saídas musicais.

O primeiro foi o guitarrista Steve Ferguson, que deixou a banda em meados dos 70.

E o segundo foi seu substituto, Big Al Anderson, que alegou estar bebendo sem controle e daí pulou fora em meados dos 90 para seguir carreira como produtor e compositor em Nashville.

Um pouco adiante, foi a vez do baixista Joey Spampinato pedir para sair depois de uma temporada emprestado para os X-Pensive Winos de Keith Richards, quando tomou coragem e montou os Spampinato Brothers com seu irmão Johnny.

Mesmo com essas mudanças no line-up, o NRBQ seguiu em frente com o mesmo espírito eclético do início, gravando discos e expandindo seu público em shows ao vivo pela America, Europa e Japão.


Mas então, depois de uma série de shows comemorativos de 35 anos de carreira, a brincadeira cansou, e Terry Adams anunciou que o NRBQ estava encerrando atividades.

Só que isso não durou muito tempo.

O caso é que a banda que Terry Adams montou para dar suporte a sua carreira solo tinha uma sonoridade tão parecida com a do NRBQ que não fazia o menor sentido deixar de usar um nome tão consagrado.

E então, depois de um hiato de 7 anos, o NRBQ voltou, com o suporte de músicos jovens e muito espirituosos como o guitarrista Scott Ligon, o baixista Casey McDonough e o baterista Conrad Chouchon.




O NRBQ é hoje, assumidamente, a banda de apoio de Terry Adams.

Ele incorpora o espírito original da banda com suas composições divertidas, muitas vezes surreais, sempre pontuadas por sua voz amalucada e seu piano elétrico estridente, que simula a sonoridade daquelas pianolas de crianças.

Terry não cansa de seguir atrás daquelas mesmas combinações sonoras inusitadas que a banda persegue desde o início, e que estranhamente nunca se repetem.

Sua missão de vida parece ser desdenhar o mainstream, que nunca soube acolhê-los devidamente, debochando abertamente de tudo e de todos da maneira mais positiva e dançante possível.

Nada mais saudável e divertido do que isso.


Para celebrar seus 50 anos de carreira, o NRBQ decidiu comemorar em grande estilo: com uma caixa de 5 cds que promove uma panorâmica generosíssima em cinco décadas de extravagâncias musicais.

"High Noon -- Highlights & Rarities From 50 Years" inclui praticamente tudo o que já havia sido coletado na antologia dupla da Rhino "Peek-a-Boo", de 1989, somado a um monte de faixas adicionais produzidas nesses últimos 28 anos, além de números ao vivo inéditos e raridades sempre preciosas.

Foi lançado oficialmente no Record Store Day deste ano, e as peças (todas numeradas) que não foram vendidas naquele dia estarão à venda pelo website da Rough Trade a partir de 29 de Abril de 2017.

Quando acabar, acabou: não haverá uma segunda edição.


Desnecessário dizer que o disco é uma festa, e é recomendado até mesmo para quem possui tudo o que o NRBQ gravou ao longo desses anos todos.

Ao contrário da imensa maioria das caixas retrospectivas, "High Noon -- Highlights & Rarities From 50 Years" começa pelos últimos 12 anos, quando o NRBQ voltou à ativa, e só depois desse panorama recente dá início ao mergulho no passado da banda.

Todas as fases da banda estão bem representadas em "High Noon", exceto os álbuns "Wild Weekend" (Virgin, 1989) e "Message From the Mess Age" (Rhino, 1994) -- que, apesar de excelentes, estranhamente contribuem para esta caixa com apenas uma canção cada um.

Não espere de "High Noon" a concisão retrospectiva de "Peek-a-Boo", que se dispunha a apresentar o NRBQ a um público que desconhecia a banda.

"High Noon" é, isso sim, uma colcha de retalhos emocional, que revela através da atitude exagerada de seus compiladores a grandeza indiscutível dessa banda originalíssima, que escreveu sozinha um capítulo brilhante da história do rock independente anglo americano.

 Resumindo: "High Noon -- Highlights & Rarities From 50 Years" é o sonho dourado de qualquer fã de carteirinha do NRBQ.

Recomendamos a todos ouví-la comendo pipoca, bebendo cuba libre e dançando até cair.


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CHICO MARQUES
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ALTO & CLARO 



quarta-feira, abril 26, 2017

PACOTEIRA MUSICAL DE FIM DE SEMANA: GRANT-LEE PHILLIPS, PETE YORN, BOB MOULD, DWIGHT YOAKAM & THE FABULOUS THUNDERBIRDS

por Chico Marques


Dando a largada na nova fase de ALTO&CLARO, que pede desculpas a seus leitores por ter andado meio adormecido nesses últimos meses -- mas agora está de volta, repaginado e revigorado, com postagens às segundas, quartas e sextas.

Às segundas, comentaremos sempre novos relançamentos, antologias, discos tributo e(ou) boxed-sets.

Às quartas, teremos sempre um lançamento importante que esteja chegando -- ou que tenha acabado de chegar -- às lojas de discos, comentado em todos os seus detalhes.

E às sextas traremos nossa Pacoteira Musical de Fim de Semana, que estreia hoje, sempre com 5 novos cds comentados de forma uma pouco mais concisa e ligeira.

Nessa primeira Pacoteira, reunimos 5 trabalhos lançados no final do ano passado que não haviam sido comentados ainda por aqui, e que -- apesar de nossa lerdeza indesculpável -- não merecem de forma alguma passar em branco.

Sejam bem-vindos.

GRANT-LEE PHILLIPS
The Narrows
(Yep Roc US)

O Grant-Lee Buffalo foi uma das bandas mais importantes e influentes do início dos Anos 90. Sob o comando do talentosíssimo Grant-Lee Phillips, a banda emplacou na cena alternativa emergente da época e em menos de 3 anos alcançou as paradas mainstream. Poderia ter ido muito mais além, mas optou por encerrar as atividades no auge. Daí para a frente, Mr. Phillips embarcou numa carreira solo perfil baixo, trabalhando molduras musicais predominante acústicas para suas belas canções. Agora, 21 anos depois de sua estreia solo, ele decide deixar sua California natal e seguir para Nashville, que há muito deixou de ser a Mecca da country music para se transformar um dos redutos musicais mais ecléticos da América. Para surpresa geral, ele ressurge à frente de um quinteto poderoso, totalmente reciclado e repaginado em termos artísticos, nesse “The Narrows”, certamente seu disco solo mais intenso e relevante até agora, que abre perspectivas muito interessantes para sua carreira daqui nos próximos anos. Acreditem: não existe nada mais satisfatório para um comentarista musical (como eu) do que ver e ouvir um grande artista como Grant-Lee Phillips se reinventando e, de quebra, reencontrando sua essência. Um lindo disco.

PETE YORN
Arranging Time
(Capitol US)

A crítica andou torcendo o nariz para o sétimo disco deste simpático e talentoso cantor, compositor e guitarrista de 42 anos, que há sete anos não lançava disco algum. Talvez esperassem que ele fosse voltar à cena com um daqueles discos “divisores de águas”, e se decepcionaram ao vê-lo novamente ao lado do produtor R. Walt Vincent num projeto muito semelhante aos que ele gravava 15 anos atrás. “Arranging Time”, sua estreia na Capitol, é um disco nostálgico e low profile, repleto de ótimas canções que são pequenas obras-primas pop, mas que talvez não sejam suficientemente eloquentes para pegar seus fãs mais ardorosos pelo cangote. Eu, pessoalmente, gostei bastante de “Arranging Time”, acho ótimo Mr. Yorn estar de volta em tão boa forma depois desse sumiço prolongado e não compactuo com a ranhetice dos que malharam o disco. Mais do que isso: acho “Arranging Time” perfeito para apresentar a obra de Pete Yorn aos que ainda não a conhecem.

BOB MOULD
Patch The Sky
(Merge US)

Poucos guitarristas foram mais influentes para os jovens músicos surgidos nos Anos 80 e 90 do que Bob Mould. Suas guitarradas secas, barulhentas e com tonalidades saturadas marcaram a ferro e fogo as consciências dos fãs de suas lendárias bandas Husker Du e Sugar. Desde quando deu o pontapé inicial em sua carreira solo 21 anos atrás, Mr. Mould vem alternando discos eloquentes com outros nem tanto. “Patch The Sky”, seu último trabalho, não se situa em nenhum desses dois extremos. Por mais que suas novas canções sejam todas ótimas, ele peca por adotar arranjos e produção amadores demais, muito aquém da qualidade de seu repertório. Mesmo assim, “Patch The Sky” está longe de ser um fiasco artístico, e não deve desagradar seus admiradores. Só vai irritar um pouco aos que, assim como eu, não entendem essa mania de ser lo-fi sem necessidade aparente.

DWIGHT YOAKAM
Swimmin’ Pools Movie Stars
(Sugar Hill US)

Quando surgiu nos anos 80 ao lado de artistas como Lyle Lovett e K D Lang, Dwight Yoakam resgatou o espírito rebelde de Hank Williams e o situou no universo roqueiro, alternando uma postura revisionista com uma atitude modernoso impecável, que ajudou a forjar o termo Americana e a situar a country music dentro do universo musical pop pós-moderno. Natural de Bakersfield, California, Mr. Yoakam emplacou internacionalmente já em seus 3 primeiros LPs, em composições fantásticas como “Guitars, Cadillacs, etc” e “A Thousand Miles From Nowhere. Agora, 30 anos mais tarde e para surpresa geral, ele dá um giro de 180 graus em sua trajetória musical e apresenta nesse ótimo “Swimmin’ Pools Movie Stars” deliciosas releituras bluegrass para seu repertório mais clássico. O resultado da empreitada é surpreendente. Primeiro, por aproximá-lo ainda mais de seus heróis musicais Hank Williams e Bob Willis. E, em segundo lugar, por mostrar aos fãs mais tradicionalistas do gênero que, depois de 30 anos de excelentes serviços prestados à country music, Mr. Yoakam merece figurar entre os grandes ícones do gênero em todos os tempos. Detalhe: sua releitura bluegrass para "Purple Rain" é certamente a mais original de todas as homenagens feitas a este grande artista pop que nos deixou no ano passado.

FABULOUS THUNDERBIRDS
Strong Like That
(Severn US)

Não se iludam, The Fabulous Thunderbirds não existe mais como banda há muitos anos. Composta por músicos contratados, permanece ativo porque interessa a Kim Wilson: cantor e gaitista extraordinário e frontman dos T-Birds desde o início dos Anos 70. Quando grava um disco de blues, ele assina Kim Wilson. Já quando grava um disco mais híbrido em termos musicais, ele assina The Fabulous Thunderbirds. Em “Strong Like That”, Mr. Wilson alterna uns poucos originais assinados por ele com clássicos da Motown e da Stax, e atinge resultados que, se por um lado não chegam a ser superlativos, também não comprometem em nada sua reputação. Eu, pessoalmente, fiquei chapado com as releituras sensacionais que ele fez para “I’ve Never Found A Girl (To Love Me Like You Do)” de Eddie Floyd e “Drowning On Dry Land” de Al Jackson. Já se você for mais purista e estiver procurando pela sonoridade dos velhos discos da banda com Jimmie Vaughan -- e não for muito chegado em soul music -- prepare-se para uma possível decepção. Ou não.




CHICO MARQUES
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DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE "FILLMORE: LAST 3 NITES", UMA CAIXA COM 4 CDS DELICIOSA E FUNDAMENTAL

por Chico Marques


No início do Século 20, mais precisamente a partir de 1912, o Fillmore foi inaugurado com o nome Majestic Hall na esquina das ruas Fillmore e Geary, em San Francisco, California.

Era um dos salões de dança mais frequentados da cidade, com bailes acontecendo praticamente todas as noites.

No segundo e no terceiro andares do edifício funcionava a Majestic Academy of Dancing, muito requisitada pelos dançarinos menos habilidosos que queriam poder frequentar o salão de danças do 1° andar sem fazer papelão.

Lembrem-se que, na primeira metade do Século XX, uma pessoa que não soubesse dançar estava condenada a ser um pária social, e ainda corria o risco de até não conseguir arrumar um parceiro (ou uma parceira) e jamais se casar.


Dos Anos 30 até os Anos 50, o Fillmore mudou de dono, de nome e de vocação diversas vezes.

Foi chamado Society e, Ambassador Dance Hall nos Anos 30.

Nos Anos 40, virou pista de patinação.

Mas a partir de 1952, quando o bairro ao redor se transformou no Harlem de San Francisco, alguns empresários se uniram e transformaram o Fillmore numa casa de shows para receber confortavelmente os artistas de blues e rhythm & blues de passagem pela cidade.

Gente como James Brown, 'Blue' Bobby Bland e Ike & Tina Turner fizeram grandes performances na casa, que, além do público afroamericano de praxe, atraiu os boêmios e e turma da beat generation, transformando a cidade pouco a pouco na "Comunidade Boemia #1 da América".


E então, nos Anos 60, San Francisco se transformou na Mecca da Contracultura, virando o refúgio da turma da beat generation e o berço do movimento hippie e também do movimento yippie.

E o Fillmore, claro, seguiu em frente se adequando a todas essas mudanças.


É quando entre em cena o promotor de eventos Bill Graham, um judeu berlinense naturalizado americano com um tino comercial aguçado e um talento inegável para criar ambientes culturais diferenciados.

O que tornava Graham tão diferrente dos outros empreendedores do meio é que para ele as energias criativas que faziam seus projetos funcionar eram sempre sua prioridade número um.

A grana decorrente de seus acertos era apenas consequência de um trabalho extremamente humano e bem realizado.


Ao fundar o Fillmore Auditorium, Bill reformou o velho prédio por completo e montou um dream team de colaboradores que aos poucos se transformou numa família, tamanho o alto astral do local.

Resultado: virou o cidadão de San Francisco que melhor representava para o resto do país a força emergente da cidade nos meios artísticos e comportamentais.


O Fillmore Auditorium abriu as portas no dia 10 de dezembro de 1965, com shows de novas bandas como Jefferson Airplane, Great Society (que tinha como cantora Grace Slick) e The Warlocks (que mais adiante mudaria seu nome para The Grateful Dead), deu início ao show.

Recebeu em seu palco artistas das mais diversas vertentes, que eram recebidos calorosamente pelos frequentadores habituais da casa.

Heróis locais como Santana, Quicksilver Messenger Service, Big Brother and the Holding Company, Moby Grape e Butterfield Blues Band eram tão bem recebidos na casa quanto artistas de fora de San Francisco.

E olha que o Fillmore recebeu forasteiros do naipe de Jimi Hendrix, Otis Redding, Cream, Howlin' Wolf, Captain Beefheart, Muddy Waters e até The Who...


Em 04 de julho de 1968, logo após a explosão do Summer Of Love, Bill Graham concluiu que o velho Fillmore havia ficado pequeno demais para acomodar o público que seus shows atraíam.

Daí, decidiu reabrir o Fillmore num local maior e melhor localizado, The Caroussel Ballroom, que passou a se chamar Fillmore West.

Sim, porque, paralelo a essa expansão negocial, Graham decidiu abrir também uma casa no mesmo formato na Costa Leste, em Nova York, que ganhou o nome Fillmore East.


Entre 1968 e 1971, o Fillmore East foi a casa de shows mais emblemática de Nova York, e seu astral era tão alto que passou a ser comum qualquer artista ou banda tocar lá e imediatamente querer lançar um disco ao vivo com a gravação do show, tamanha a qualidade das performances que rolavam por lá.

Na semana em que fechou as portas em definitivo, passaram pelo palco da casa nada menos toda a nata da música anglo-americana -- o bluesman Albert King, o folkie psicodélico Country Joe McDonald, o multinstrumentista Edgar Winter, o power trio Mountain e as eletrizantes e americaníssimas Allman Brothers Band e J Geils Band.

Pois os registros desses shows históricos -- levados ao ar ao vivo na época pela WNFW-FM --permaneciam inéditos em disco até há pouco, e agora finalmente vem à tona numa caixinha espectacular com 4 cds intitulada "Fillmore - Last 3 Nites"


Desnecessário dizer que todas as performances contidas nessa caixa honram a tradição do Fillmore East de favorecer performances inesquecíveis para quaisquer bandas ou artistas que subissem em seu palco.

Desnecessário dizer também que, apesar da gravação não ser lá uma maravilha em termos técnicos -- lembrem-se que estamos falando de gravações ao vivo realizadas 45 anos atrás --, dá para sentir claramente que a banda que está no palco está se divertindo tanto quanto, ou ainda mais de quem está na platéia.

Desnecessário dizer ainda que basta fechar os olhos ao ouvir "Fillmore - Last 3 Nites" para conseguir se imaginar naquele lugar mítico na Second Avenue em Nova York naquelas 3 noites históricas.

Encerrando: a caixa de 4 cds "Fillmore - Last 3 Nites" é fundamental.

Tente viver sem ela em sua discoteca se for capaz.



Confiram um pouco do belo legado
que Bill Graham deixou
para a música popular anglo-americana
no documentário FILLMORE,
lançado nos cinemas em 1973
e disponível na íntegra logo abaixo.











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sábado, dezembro 31, 2016

ALTOeCLARO ESCOLHE OS DEZ MELHORES DISCOS DE 2016 (por Chico Marques)

1. BLACK STAR (David Bowie)
Em seu disco de despedida, David Bowie convida o ouvinte para um mergulho na noite da alma. Nele, tudo soa estranhamente confortável e familiar. Ecos dos anos 70 saltam aos ouvidos o tempo todo. Tudo é de uma urgência impressionante. Nesse sentido, lembra um pouco "Station to Station", que foi gravado numa época em que ele vivia no limite, num flerte aberto com a morte -- que ele reverteu de forma brilhante ao longo da série incomparável de álbuns "Low", "Heroes", "Lodger" e "Scary Monsters". Apesar das muitas semelhanças musicais com alguns momentos mais densos de seu disco anterior, "The Next Day" (2013), que abria janelas tanto para seu passado quanto para seu futuro, "Blackstar" não é plural, e nem pretende abrir janela nenhuma para lugar algum. Funciona como um trem fantasma que vaga pela noite, contrapondo o passado à frente do futuro, e vice-versa. Sempre mantendo o imaginário a serviço da realidade, sem perder tempo correndo atrás do sentido da vida, pois não há tempo para isso.

2. POST POP DEPRESSION (Iggy Pop & Josh Homme)
Quem diria que duas das figuras mais loucas da cena do rock and roll iriam um dia unir forças num trabalho conjunto? Pois aconteceu: Iggy Pop e Josh Homme entraram no estúdio em Janeiro deste ano -- às próprias custas e ainda sob o impacto do morte de David Bowie -- e gravaram 9 canções cruas e extremamente contundentes compostas em parceria entre os dois e em apenas duas tardes de gravação. O resultado é cru, urgente, e ao mesmo tempo climático. E lembra eventualmente "Lust For Life", que Iggy e Bowie gravaram juntos em 1977, na Alemanha. De todas as homenagens e tributos realizados este ano pela memória de David Bowie, essa aqui é disparado a mais verdadeira e a mais relevante em termos artísticos.
3. BURN SOMETHING BEAUTIFUL (Alejandro Escovedo)
Aos 65 anos de idade, o sempre incansável Alejandro Escovedo continua correndo atrás no novas experiências musicais. Depois de três discos excelentes produzidos pelo lendário Tony Visconti e gravados com a banda do amigo Chuck Prophet, Escovedo uniu forças com Peter Buck (do REM) e Scott McCaughey (do Minus 5) e juntos compuseram as canções de "Burn Something Beautiful". A coisa toda funciona tão bem que dá para sentir claramente em cada canção do disco um pouco da personalidade musical de cada um dos três, tudo devidamente entrelaçado em guitarradas sensacionais e refrões contundentes. Em suma: um disco com espírito de aventura, algo difícil de ver num artista veterano.
4. SHINE A LIGHT (Billy Bragg & Joe Henry)
2016 foi realmente um ano em que muitos artistas apostaram em trabalhos em colaboração. Aqui, temos o príncipe do folk-punk inglês Billy Bragg unindo forças ao multitalentoso guitarrista e produtor americano Joe Henry em releituras delicadíssimas das clássicas canções de estrada que fizeram a fama de Woody Guthrie e tantos outros menestréis errantes. Para entrar no clima das canções, os dois decidiram apostar no inusitado e gravar o disco em plataformas de embarque e salões de estações ferroviárias entre Chicago e Los Angeles. O resultado é absolutamente reverente ao gênero, e ao mesmo tempo aventuresco em termos de produção. Uma ideia brilhante que acabou rendendo um disco delicioso.
5. THE WESTERNER (John Doe)
Desde os tempos do lendário grupo X nos Anos 80, quem segue a obra do ex-punk rocker John Doe está mais do que acostumado com suas idiossincrasias musicais. Mas The Westerner é, sem dúvida, a melhor, mais ousada e mais madura musicalmente delas todas. É um disco sobre o deserto, que alterna guitarradas à moda de Duane Eddy e Dick Dale com rocks e baladas climáticas que remetem aos Doors e, claro, ao X no início de carreira da banda. À primeira audição, pode até parecer que John Doe está fechando um círculo depois de 35 anos de carreira. Ele diz que não. Mas a sensação -- muito agradável -- que fica é essa. Um disco surpreendente.
6. PAGING MR. PROUST (The Jayhawks)
Com mais de 30 anos de carreira oscilando entre o alt-country e o indie-rock, os Jayhawks pareciam no início ser a reencarnação do espírito ousado do grupo Uncle Tupelo, mas acabaram se transformando numa espécie de "versão fim de século" dos country-rockers do Poco. Claro que não há nada de errado ou de indigno nisso, muito pelo contrário. Novamente sem Marc Olson, que já entrou e saiu da banda sabe-se lá quantas vezes, os integrantes remanescentes dos Jayhawks seguem em frente combinando suas preferências musicais, e, mesmo sem grandes pretenções, realizando um disco exemplar. A produção de Peter Buck, do REM, ajudou bastante na hora de colocar todos esses elementos em perspectiva. De resto, as harmonias vocais da banda continuam deliciosas e as canções são todas ótimas.    
7. SCHMILCO (Wilco)
O nome do novo disco do Wilco remete ao grande Harry Nillson, que gostava de usar a alcunha Schmillson, e anuncia mudanças muito curiosas na orientação musical da banda. É como se Jeff Tweedy estivesse trazendo para dentro o Wilco um pouco do clima caseiro experimental do disco que gravou ao lado de seu filho dois anos atrás -- que acabou servindo de trilha sonora para o premiadíssimo filme "Childhood", de Richard Linklater. Paralelo a esses experimentos, Tweedy embarca em canções confessionais com um sotaque country que remetem ao início de carreira do Wilco e ao trabalho dele com Jay Farrar no lendário Uncle Tupelo nos Anos 80. O resultado disso é surpreendente. É o Wilco "de volta para casa", só que musicalmente renovado, tematicamente redimensionado, e pronto para voar alto e longe novamente.
8. THE GHOSTS OF HIGHWAY 20 (Lucinda Williams)
Se hoje o termo Americana acabou virando gênero musical, uma das grandes responsáveis por isso foi Lucinda Williams. Ao lado de Lyle Lovett e outros artistas country crossover, ela conseguiu melhor do que ninguém atrair a atenção das plateias de rock para uma série de trabalhos musicais que desafiavam toda e qualquer classificação em meados dos Anos 90. Esse seu novo trabalho é uma colcha de retalhos espetacular, onde Lucinda trafega pelo country, pela soul music e pelos blues em canções poderosíssimas que são a cara dela -- ou seja: passionais, truculentas e inebriantes. Atenção para a releitura sensacional que ela elaborou para Factory, de Bruce Springsteen. Sem exagero, o melhor disco de Lucinda Williams desde o clássico "Car Wheels On A Gravel Road" (1998).
9. SOLID STATES (The Posies)
Outra banda que chega aos 30 anos de carreira com dignidade artística a toda prova. Sempre sob o comando do genial Ken Stringfellow, os Posies tem gravado pouco -- apenas um disco a cada 5 anos --, mas nunca decepcionam, e nunca abrem mão de correr riscos. Nesse novo disco, o power-pop característico da banda flui tranquilamente através de temas agridoces, como divórcios e perdas afetivas. Uma coleção de canções cativante e despretenciosa. Mas vital.
10. THIS GIRL'S IN LOVE - A BACHARACH & DAVID SONGBOOK (Rumer)
Para quem não conhece, Rumer é uma espécie de Karen Carpenter com alma. Ou uma espécie de Adele com estofo musical. Cantora poderosíssima, e de extremo bom gosto na hora de escolher repertório, ela acaba de gravar um tributo a Burt Bacharach e Hal David que é simplesmente desconcertamente de tão bonito. Desde aquele disco clássico de Ron Isley de 2003, ninguém passeava por esse repertório clássico dos Anos 60 com tamanha propriedade e conhecimento de causa. Se você ainda não conhece os "poderes" de Rumer, não há melhor maneira de começar do que por aqui.




sexta-feira, agosto 05, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "HERE", NOVO LP DOS POWERPOPPERS ESCOCESES DO TEENAGE FANCLUB



Tanto as bandas grunge dos Anos 1990 quanto o pessoal do power pop eram unânimes em afirmar em entrevistas as muitas virtudes artísticas no Teenage Fanclub.

Kurt Cobain, por exemplo, não deixava por menos: se referia a eles como "a melhor banda do mundo".

Infelizmente, nada disso serviu para levar esse quinteto talentosíssimo de Bellshil -- que acabou brilhando na cena musical de Glasgow, Escócia -- ao merecido estrelato.

Vinte e sete anos depois de estrearem, eles continuam pautando os caminhos de sua carreira pela cena musical independente, que sempre os acolheu muito bem, apesar de seu repertório ter um apelo que poderia, ao menos em princípio, levá-los muito além disso e atingir um público muito mais amplo do que atnge.



A banda surgiu em 1989 a partir da combinação de três cantores e compositores muito talentosos: os guitarristas Norman Blake e Raymond McGinley e o baixista Gerard Love, que nunca esconderam o fato de que o Teenage Fanclub era, antes de mais nada, uma espécie de veículo para a divulgação de seus trabalhos autorais.

E provável que se o Teenage Fanclub tivesse provado o "sweet smell of success" no início dos Anos 90, talvez não tivesse emplacado uma carreira tão longeva e tão criativa.

O segredo da longevidade deles talvez esteja num acerto extremamente democrático que eles honram desde o início da carreira  da banda: tanto os discos quanto os shows da banda intercalam canções e participações vocais dos três exatamente na mesma proporção.

E na medida em que isso sempre foi respeitado, nunca aconteceu de qualquer um dos "três líderes da banda" entrar numas de "sair em carreira solo".

Na verdade, isso nunca foi necessário.
 

Here é o 13°disco de carreira do Teenage Fanclub, está chegando às lojas inglesas por esses dias através pelo própio selo da banda, PeMA, e será distribuído internacionalmente pela Republic Of Music a partir de Setembro.

É o primeiro desde Four Thousand Seven Hundred and Sixty-Six Seconds – A Short Cut to Teenage Fanclub, uma bela panorâmica de carreira acrescida de 3 novas canções -- uma de Norman Blake, outra de Raymond McGinley e outra de Gerard Love, como de hábito -- lançada em 2013 e anunciada como uma possível despedida do Teenage Fanclub, que felizmente não se concretizou.

Para tentar permancer relevante, o Teenage Fanclub voltou repaginado e com uma atitude adequada tanto ao público cativo da banda quanto às características da cena powerpop atual.

Desnecessário dizer que o senso de melodicidade herdado de bandas clássicas como Big Star e Badfinger e artistas como Dwight Twilley, Phil Seymour e Matthew Sweet segue intacto nas canções que compoem este novo trabalho.

I'm In Love, a faixa de abertura (ouça em AMOSTRAS GRÁTIS abaixo), não só é lindíssima, como evoca em tom menor os Byrds da fase Chestnut Mare de uma maneira muito aconchegante.

Logo a seguir, Thin Air resgata a influência -- sempre bem-vinda, diga-se de passagem -- de Alex Chilton e do Big Star, com uma levada pop bem straight-forward que coloca um pouco de velocidade na suavidade habitual da banda.

E essas diferenças musicais seguem ao longo das 12 faixas do disco, intercaladas de forma sempre harmoniosa, e com a brevidade necessária para que, ao final da audição, dê vontade de colocar o disco para tocar novamente.



Here revela -- e faz isso de forma flagrante -- que o Teenage Fanclub não só amadureceu musicalmente como também se transformou numa banda extremamente refinada em termos musicais.

Tudo é muito delicado e cuidadosamente medido neste Here, e é provável que eles possam soar um pouco conservadores para alguns ouvidos mais modernosos.

Minha recomendação?

Não liguem para o mimimi dos chatinhos  modernosos.

Ouçam Here e tirem bom proveito do fato dessa grande banda insistir em permanecer ativa e relevante musicalmente.

Assim como acontece com veteranos de gerações anteriores como o Squeeze e os Turtles, que permanecem em cena com um trabalho de alto gabarito, tudo indica que o Teenage Fanclub ainda tenha muita lenha para queimar.

Então, let it burn!


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