quarta-feira, outubro 28, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "STILL GOT THAT HUNGER", NOVO LP DOS VETERANÍSSIMOS ZOMBIES

por Chico Marques


Dizer que a música dos Zombies sempre esteve muito à frente do seu tempo equivale a chover no molhado. 

Quando o grupo surgiu num subúrbio londrino em 1961, não havia nada remotamente semelhante a eles em toda a Inglaterra. O piano e o órgão Hammond B-3 bem jazzísticos de Rod Argent pareciam ter sido feitos sob medida para emoldurar a voz intensa e cristalina de Colin Blunstone. E a alquimia resultante disso gerou logo de cara singles curiosos como “She´s Not There” e “Tell Her No” – que, por mais estranhos que fossem para a época, conseguiram pegar carona na British Invasion e acabaram emplacando nas paradas americanas, mesmo tendo passado quase despercebidos nas paradas inglesas. 

A maldição dos Zombies é que eles não conseguiam ser uma banda de singles. Eram arrojados demais para o hit parade britânico. Deram o azar de surgir numa época em que havia a obrigação de emplacar singles nas paradas para só então poder realizar um LP.



Então, depois de uma série de singles que infelizmente não emplacaram nas paradas, os Zombies acabaram descartados pela Decca Records. Rod Argent e Colin Blunstone, desanimados, reuniram os membros da banda e decidiram que gravariam só mais um LP. Assinaram um contrato de um disco só com a Columbia, que repassou para eles uma verba quase ridícula, que os impedia até de contratar músicos adicionais para o projeto -- tanto que Argent teve que emular os arranjos da orquestra num mellotron, algo inédito na época. 

O descaso da Columbia para com eles foi tamanho que ninguém se preocupou em supervisionar o trabalho dos rapazes. Resultado: sem qualquer compromisso em emplacar um LP de sucesso, os Zombies produziram “Odessey & Oracle” (1967), uma pequena obra prima pop psicodélica, que acabou lançada sem publicidade na Inglaterra e por pouco não teve uma edição americana. Se Al Kooper, fã de banda e também contratado da Columbia, insistindo tanto com o pessoal da gravadora, "Odessey & Oracle" jamais teria cruzado o Atlântico.



Então, o inusitado acontece: quase dois anos após o lançamento do LP na Inglaterra, com todos os membros da banda já trabalhando em outros projetos, alguém na Columbia americana decide lançar “Time Of The Season”, uma das canções de “Odessey & Oracle”, no formato single, e a música explode misteriosamente nas paradas do mundo todo. 

A saia justa dos integrantes dos Zombies foi enorme, já que nenhum dos integrantes originais dos Zombies pretendia voltar atrás na decisão de aposentar a banda. Rod Argent já tinha montado o Argent, banda progressiva de muito sucesso nos anos 70, e Colin Blunstone estava lançando seu primeiro disco solo. Pela primeira vez na história da música popular, uma banda chegava ao seu apogeu dois anos depois de ter encerrado carreira.



Nos anos 1980 e 1990, Rod Argent e Colin Blunstone voltaram a contracenar em diversas ocasiões. Argent firmou-se como produtor de sucesso, ajudando a viabilizar as carreiras de vários artistas ascendentes, como Tanita Tikaram e Jules Shear, enquanto Blunstone seguiu com LPs solo sempre muito bem recebidos por crítica e público. 

Até que, em 2000, inventaram de gravar um disco juntos. E esse disco fluiu tão bem que os dois, saudosos dos velhos tempos, decidiram ressucitar os Zombies para uma pequena tournée de 6 datas. Que acabou durando mais de 10 anos, num sinal claro de que a sintonia entre os dois velhos parceiros permanecera inabalada depois de tantos anos.



Foi quando Rod Argent e Colin Blunstone tomaram coragem para lançar um LP repleto de canções inéditas , que eles andaram testando ao vivo nos shows. “Breathe Out, Breath In” (2010) foi saudado pela crítica e pelo público cativo da banda como um disco impecável, de altíssimo gabarito artístico, que não pretendia em momento algum atualizar a sonoridade dos Zombies e muito menos recomeçar de onde “Odessey & Oracle” parou. 

Na verdade, funcionava como um registro de como Argent e Blumstone pensam e agem musicalmente nos dias de hoje. Não é nenhum exagero afirmar que desde “Before We Were So Rudely Interrupted” (1977), dos Animals, não se via um LP de retorno de uma banda clássica tão honesto e íntegro quanto este.



Agora, cinco anos mais tarde, a história se repete.

E os Zombies retornam com um novo álbum de canções inéditas chamado apropriadamente "Still Got That Hunger". É um LP menos replexivo que o anterior e mais "straight forward", com muitas guitarras gritando o tempo todo e um repertório menos calcado em baladas. O foco principal aqui é no blues acelerado, que, de certa forma, remete mais à sonoridade do grupo Argent -- que Rod Argent comandou nos Anos 70, com muito sucesso -- , do que propriamente ao som tradicional dos Zombies. 

A capa lembra "Odessey & Oracle", e deixa no ar a idéia de que se os Zombies não tivessem encerrado em 1968, provavelmente teriam seguido em frente com uma levada musical bastante semelhante à essa praticada neste disco. Das dez canções que compõem o disco, apenas uma, "I Want You Back Again", é regravação -- bem original, diga-se de passagem -- de um número clássico da banda de 1965. 

Claro que todas as outras nove são marcantes, cada uma à sua maneira. Eu, pessoalmente, fiquei encantado com as baladas pop jazzísticas "And We Were Young Again", "Chasing The Past", ambas excelentes. "New York" não fica atrás: trata-se de uma saudação à cidade, com um relato curioso da primeira vez em que Rod e Colin visitaram a cidade nos Anos 6O e assistiram a uma apresentação de Aretha Franklin. saindo completamente encantados com tudo o que a cidade lhes proporcionou e, de certa forma, lhes ensinou. 

Todas as outras canções são, acima de tudo, eficientes e bem posicionadas na sequência do disco. São canções do tipo que gruda e não sai mais do ouvido. E o mais curioso é que todas parecem ter sido arranjadas da maneira mais descomplicada possível, para poderem ser tocadas na estrada sem maiores problemas.



Definitivamente, não se faz mais compositores como Rod Argent. Quebraram a forma. Ele permanece um compositor, arranjador e pianista espetacular, sempre imaginativo ao extremo, referência fundamental na formação musical de craques como Donald Fagen (Steely Dan) e Jay Ferguson (Spirit, Jo Jo Gunne). 

Quanto a Colin Blunstone, ele permanece o mesmo grande cantor com voz de veludo de sempre. Pode parecer absurdo o que vou dizer agora, mas ele canta melhor hoje, com meio século de carreira nas costas, do que cantava em 1967, quando gravou "Time Of The Season".

Aliás, é bom frisar que tanto Rod Argent quanto Colin Blunstone acabam de completar 70 anos de idade extremamente bem vividos. Juntos, formam uma das parcerias musicais mais criativas e mais longevas da história do rock and roll. 

Assim, só nos resta desejar que os Zombies continuem assim por mais quanto tempo ainda for possível. E nunca deixem de eventualmente presentear a si próprios -- e a nós também, claro -- com discos deliciosos como esse "Still Got That Hunger".

Quem viu The Zombies ao vivo este ano no Festival South By Southwest em Austin, Texas, ficou maravilhado com o poder de fogo da banda. 

A foto abaixo foi tirada no show, e, de certa forma, diz tudo. 



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domingo, outubro 25, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "THE SWEET PRETTY THINGS ARE IN BED NOW, OF COURSE", NOVO LP DOS LENDÁRIOS PRETTY THINGS

por Chico Marques


Não sei se é o caso de dizer que os Pretty Things são uma das bandas mais pé frio da história do rock britânico. Mas é inegável que desde que surgiram em meados dos Anos 60, em discos muito bons gravados para a DECCA Records -- que, diga-se de passagem, os contratou por recomendação de Mick Jagger e Keith Richards --, seus integrantes nunca receberam o reconhecimento merecido e, estranhamente, perderam o bonde da British Invasion, permanecendo ilustres desconhecidos para o público americano enquanto bandas inexpressivas como Gerry and the Pacemakers e The Merseybeats emplacavam um single atrás do outro nas paradas da Billboard e na Cash Box.
  
Sempre sob o comando da dupla Phil May e Dick Taylor, o som dos Pretty Things era meio truculento no início, calcado nos blues mais ou menos como os Rolling Stones, mais muito mais rude e autosuficientes do que Jagger e Richards conseguiam ser então. O marketing pessoal da banda era muito estranho, parecia apostar na contramão de tudo o que dava certo naquele momento. Os cabelos dos integrantes dos Pretty Things tinham que ser obrigatoriamente mais longos que os das bandas concorrentes, e a aparência deles todos nas fotos enviadas para a Imprensa era cuidadosamente desleixada.



Apesar de venderem pouco, os discos dos Pretty Things eram bons demais para ser ignorados. Daí, acabaram abraçados por segmentos do público europeu, o que fez deles uma das primeiras cult-bands de que se tem notícia. Com público cativo, ganharam autonomia artística das gravadoras por onde passaram, que -- talvez por não se interessarem muito no trabalho deles, permitiram que eles apostassem em conceitos complicados em LPs como 'Emotions" -- que trazia canções com uma levada mais R&B, onde a banda vinha acompanhada por uma orquestra --, passando pelo emblemático "S F Sorrow" -- um disco conceitual psicodélico que é considerado por alguns críticos como a "primeira ópera rock", já que foi gravado dois anos antes das investidas dos Kinks e do Who neste sub-gênero -- até chegar á obra-prima "Parachutes", um dosmelhores e mais vitais discos gravados por uma banda de rock britânico em todos os tempos.

A falta de reconhecimento de um público mais amplo, que não incomodava aos Pretty Things até a virada dos Anos 60 para os Anos 70, de repente passou a incomodar. Até os Kinks, que eram a banda mais inglesa de todas da cena da época, conseguira emplacar nos Estados Unidos. Bandas novas de heavy rock como o Led Zeppelin, o Black Sabbath e o Deep Purple saíam do anonimato direto para o estrelato internacional depois de tournées pelos Estados Unidos. Só eles, mais uma vez, estavam de fora da jogada. 

Foi quando começaram a simplificar as coisas e a gravar discos menos conceituais e de apelo mais imediato, como "Freeway Madness". Resultado: acabaram contratados pelo selo Swan Song, do Led Zeppelin, juntamente com a recém-formada superbanda Bad Company, dispondo de todo o poder de fogo promocional da WEA. E então, através dos ótimos "Silk Torpedo" e "Savage Eye", a América -- e de quebra o resto do Planeta Terra --  finalmente tomou conhecimento da existência do ótimo trabalho dos já veteranos -- com dez anos de carreira nas costas -- The Pretty Things.


  
Mas com o estrelato vieram os desentendimentos cada vez mais intensos e frequentes. Então, na virada para os Anos 80, depois de um disco de triste memória onde tentam se situar na new wave, sem sucesso, os Pretty Things encerraram atividades. Seus integrantes sumiram do mapa e permaneceram distantes da cena musical por mais de 25 anos. 

Só em 2005 eles peitaram um retorno para uma tournée comemorativa de 40 anos de surgimento da banda, que tinha como função inicial apenas dar um reforço no caixa dos integrantes da banda, mas acabou crescendo muito além disso. Foi quando descobriram que o trabalho dos Pretty Things continuava relevante, e que ainda havia fogo sob as cinzas. 

Daí, gravaram um bom disco de retorno, "Balboa Island", mesclando novas canções com covers de favoritos da banda. Não foi exatamente um sucesso -- nem de crítica, nem de público. Agradou aos fãs de sempre. Mas serviu para apresentar o som da banda a um novo público que era jovem demais para tê-los conhecido nos Anos 60 ou nos Anos 70.



Pois bem: este ano os Pretty Things comemoram 50 anos de carreira com uma nova tournée e um novo disco. A tournée vai ser curta, até porque a saúde de Phil May inspira cuidados. Ele sofre de complicações pulmonares seríssimas, consequência de muitos e muitos anos de "heavy smoking" e de uma vida descuidada demais.

Mas no disco novo, os Pretty Things definitivamente não negam fogo em momento algum, e brindam seus admiradores com 10 novas canções gravadas ao vivo no 811 Studios em Londres, usando equipamento analógico desde a gravação até a mixagem, e dispensando overdubs e outros truques de pós-produção cada vez mais comuns e ao alcance do orçamento de qualquer produção fonográfica.



O nome do disco é muito divertido: "The Sweet Pretty Things (Are In Bed Now, Of Course)". 

É o 12º álbum de carreira da banda. 

Soa um pouco como os Pretty Things nos Anos 6O e um pouco como os Pretty Things nos Anos 70. Mas a personalidade musical da banda se impõe no trabalho, fazendo com que o disco soe absolutamente moderno e absolutamente atemporal do início ao fim.

É um disco muito bem concebido e muito bem realizado. Contém 9 inéditas e um ótimo cover dos Byrds, "Renaissance Fair", numa releitura mais suja, mas com vocais tão harmoniosos quanto a versão original. É um prazer ver uma banda veterana tocando e cantando com tanto "gusto". 

A única coisa que realmente incomoda um pouco em "The Sweet Pretty Things (Are In Bed Now, Of Course)" é a sensação de que este é um trabalho de despedida. 

Se isso realmente proceder, vai ser uma pena. 

Mas, por outro lado, ninguém vai poder acusar os Pretty Things de não terem sido relevantes, criativos e cheio de energia até o final.

Desde já, um dos melhores e mais dignos discos lançados este ano



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terça-feira, outubro 06, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "CRADLE TO THE GRAVE", LP DE RETORNO DO SQUEEZE, COM CHRIS DIFFORD E GLENN TILBROOK DE VOLTA À VELHA FORMA

por Chico Marques


Só quem acompanhou de perto o impacto da separação da dupla de compositores John Lennon & Paul McCartney no final dos anos 60 tem noção do quanto aquilo calou fundo no imaginário da imprensa musical inglesa. 

Nos primeiros anos da década de 70, jornais como o Melody Maker e o New Musical Express não cansavam de tentar encontrar em qualquer nova dupla de compositores que surgisse na cena musical pop inglesa os prováveis sucessores de Lennon & McCartney.

E apesar da dupla Elton John e Bernie Taupin ser a aposta mais óbvia e certeira, havia um problema sério com os dois: eles não faziam parte de uma banda. Para substituir os dois Beatles, a Imprensa Musical da boa e velha Inglaterra fazia questão de dois bandmates com aquele mesmo alto padrão de excelência. Não iria ser nada fácil.

Daí, apostaram as fichas na ótima dupla de compositores Eric Stewart e Graham Gouldman, do grupo 10cc. Com isso, catapultaram o trabalho dos dois -- que era extremamente bom, mas obviamente não tão bom quanto o dos dois Beatles -- a um patamar onde nunca conseguiram se situar direito.


Alguns anos se passaram e a velha obsessão da Imprensa Musical Inglesa apontou para a promissora dupla de compositores Chris Difford e Glenn Tilbrook, que integrava o Squeeze -- sem dúvida, o grupo pop mais importante, mais consistente e mais influenciado pelos Beatles e pelos Kinks da cena post-punk. 

Para o Squeeze, a comparação com Lennon & McCartney foi mais do que oportuna, e ajudou a banda a sedimentar seu caminho através de um mercado que era meio hostil com bandas que não tivessem uma atitude de ruptura. Então, entre 1988 e 1999, o Squeeze gravou nada menos que 14 grandes discos e dezenas de singles de sucesso. Entre eles: "Take Me I'm Yours", "Up the Junction", "Another Nail in My Heart," "Pulling Mussels (From the Shell)," "Tempted" e "Black Coffee In Bed". O hoje famoso pianista e apresentador da BBC2 Jools Holland fez parte da banda enre 1974 e 1980, nos anos iniciais da banda.  

O Squeeze foi uma das bandas precursoras do britpop, e até soube tirar algum proveito de sua influência sobre novas bandas bem-sucedidas, como o Blue e o Oasis. Mas seus integrantes nunca esconderam sua decepção por nunca terem conseguido emplacar nos Estados Unidos o mesmo sucesso que faziam na Inglaterra.


Chris Difford e Glenn Tilbrook vem seguindo carreiras solo relativamente bem-sucedidas desde a virada do milênio. De tempos em tempos, se reunem para fazer tournées juntos. Ou como dupla, ou com o Squeeze reunido. 

Entre 2009 e 2010, parecia que a banda iria voltar de verdade. Reuniram-se para uma longa tournée mundial e até voltaram a compor juntos. Mas não conseguiram produzir canções em número suficiente para um novo disco do Squeeze na ocasião. 

No último inverno, no entanto, Chris Difford e Glenn Tilbrook se reuniram para combinar uma nova tournée para 2015, e, de quebra, trataram de compor mais algumas canções para juntar às outras que estavam prontas há cinco anos.


São essas 12 canções que compõem "Cradle to the Grave" (um lançamento Virgin-EMI, sem previsão para o Brasil), esse grande disco de retorno do Squeeze, que quebra um jejum de 17 anos desde o ultimo álbum de inéditas da banda, "Domino", e não corre o menor risco de decepcionar os fãs do grupo. 

É um disco curto, com 44 minutos de duração, seguindo na mesma medida e no mesmo tom dos LPs que a banda gravava nos Anos 80, provando por A mais B que a alquimia entre eles permanece intacta depois de todos esses anos.

Em suas carreiras solo, tanto Chris Difford quanto Glenn Tilbrook vivem testando saídas musicais bem diferentes do som do Squeeze. Mas sempre que unem forças num projeto em comum, eles fazem questão de simplesmente deixar a velha parceria fluir da mesma maneira como acontecia lá atrás.


Pois em "Cradle to the Grave" eles acertam na mosca com 12 canções atemporais completamente impregnadas com a personalidade musical deliciosa da banda. Produzido por Tilbrook e Laurie Latham, o disco foi gravado em poucos dias no 45 RPM Studios em Charlton, Inglaterra. 

A formação atual do Squeeze traz, além de Tilbrook e Difford nos vocais e nas guitarras, Simon Hanson na bateria, Stephen Large nos teclados e Lucy Shaw e John Bentley se alternando nos contrabaixos, além de alguns músicos convidados.


Todas as canções de "Cradle to the Grave" são deliciosas, o conjunto do álbum é extremamente equilibrado, e não é nenhum exagero afirmar que este talvez seja o melhor disco do Squeeze desde "East Side Story" (1981). Tudo dá certo aqui. E todo o prazer que eles proporcionam ao ouvinte soa absolutamente genuíno o tempo todo. 

2015 tem sido um ano bom para bandas clássicas gravarem discos de retorno relevantes: The Pretty Things, The Zombies e Graham Parker & The Rumour acabam de lançar ótimas coleções de canções inéditas. 

Estava mais do que na hora do Squeeze se juntar a eles.

Pois sejam bem-vindos.




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sábado, outubro 03, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "FAST FORWARD", NOVO LP DO GENIAL JOE JACKSON

por Chico Marques


Desde o final dos anos 70, o público se acostumou a sempre esperar o inesperado de Joe Jackson.

Pianista, cantor e compositor, esse inglês de Burton-upon-Trent, dono de um background musical invejável, começou a veu companheiros de geração como Elvis Costello e Graham Parker se afirmarem na cena post-punk com blends diversos de pop e rock com muita ironia e uma boa contundência meio raivosa, e se perguntou: "Se eles podem, porque não eu?"

Então, preparou um repertório bem no tom daqueles tempos, montou sua Joe Jackson Band com alguns músicos amigos, levou algumas demos com algumas composições para a A&M Records e rapidamente foi contratado pelo selo, onde gravou logo de cara dois LPs muito divertidos sob a supervisão do produtor David Kershenbaum.


Obteve sucesso internacional imediato, que lhe rendeu uma invejável autonomia de trabalho na gravadora. Graças a isso, Joe deu início a sua longa série de aventuras musicais pelo pop classudo ("Night & Day"), pelo cool jazz ("Body & Soul"), pelo latin jazz ("Beat Crazy") e pela world music ("Big World"), com mergulhos cada vez mais profundos nas mais diversas modalidades da música popular americana e até algumas incursões no território da música erudita.

Toda essa diversidade musical, no entanto, fez de Joe Jackson um artista difícil de classificar, e sua sobrevida no mercado só foi possível graças a um público bastante fiel, que sempre aplaude sem restrições qualquer nova aventura musical que ele se disponha a trilhar. Mas é um público que, infelizmente, não se expande há anos.



"Fast Forward" (um lançamento earMusic, sem previsão para o Brasil) é o primeiro disco de Joe Jackson com material próprio desde "Rain", de 2008, e chega sinalizando claramente que, dessa vez, ele decidiu facilitar as coisas para permitir que suas canções atinjam um público maior que o habitual. 

É um trabalho curioso, com 16 novas canções, todas sobre a vida moderna e com temas ligados aos dias de hoje. Quatro delas foram gravadas gravadas em Nova York, com o suporte de músicos de jazz como Bill Frisell e Brian Blade. Outras quatro foram gravadas em New Orleans, com integrantes do grupo Galactic. Outras quatro em Berlin, ao lado de Greg Cohen e Earl Harvin, e mais quatro em Amsterdam, com Stefan Kruger e Stefan Schmid. 

Cada um desses lugares e cada um desses times de músicos forneceu o setting adequado para que Joe Jackson pudesse desfilar sua ironia implacável e seu bom humor contagiante. É como se para ele, neste momento, fosse necessário olhar para o mundo e para a vida moderna a partir de vários pontos diferentes do globo para poder ver com mais clareza os tempos duvidosos em que vivemos. 

Jackson sempre foi bom nessa brincadeira de "outside looking in". A novidade aqui é o tom da brincadeira, um pouco mais incisivo do que suas abordagens anteriores sobre temas semelhantes. Com certeza, tem gente que não vai gostar de "Junkie Diva", um puxão de orelhas em Amy Winehouse um tanto quanto inoportuno, ou do clima de cabaré de algumas faixas gravadas na Alemanha, meio arrastado e desnecessariamente pretensioso em termos musicais.



Mas, no geral, o que temos em "Fast Forward" é o bom e velho Joe Jackson se renovando e buscando uma espécie de rejuvenecimento em canções um pouco mais verborrágicas que o seu habitual, mas ainda assim muito certeiras.

Em "Fast Forward", Jackson faz o que sabe fazer melhor: canções pop classudas. 

De um tipo que só ele sabe fazer. 

Sem se submeter a nenhum grande desafio artístico que possa afastar seu público de seu trabalho.

Parece que Joe Jackson finalmente entendeu que o mundo atual, que ele contempla tão brilhantemente neste "Fast Forward", exige talento e clareza de intenções. 




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quinta-feira, setembro 24, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "1989", A BRILHANTE RELEITURA DE RYAN ADAMS DO ÁLBUM CLÁSSICO DE TAYLOR SWIFT

por Chico Marques


Quando um dos artistas mais prolíficos e descolados da cena americana decide gravar um disco de covers, quem em sã consciência esperaria por um álbum convencional? 

Ninguém, com certeza.

Ainda mais quando esse artista é o incansável Ryan Adams, que aos 40 anos de idade e mais de duas dezenas de LPs pelas costas, ainda tem fôlego para lançar de dois a três discos novos por ano.

Por outro lado, ninguém jamais poderia imaginar que algum artista estabelecido iria um dia decidir regravar uma a uma as canções de um LP como "1989" de Taylor Swift. 

Nem mesmo Ryan Adams.


Não, não se assustem, Ryan Adams não voltou a beber, nem teve uma recaída na cocaína. 

Ele simplesmente tem uma relação de afeto e aversão muito curiosa em relação a esse álbum.

Quando ouviu ano passado o ambicioso disco de Taylor Swift na ocasião de seu lançamento, ele, que nunca foi admirador da cantora, ficou perplexo com a necessidade quase atávica dela em se desvinvular da cena country para se afirmar como uma artista pop.

O que havia de tão errado com a Taylor Swift country-pop, afinal? Porque isso a incomodava tanto?

As perguntas permaneceram sem resposta.

Ryan ficou intrigado com o repertório do disco, e também com o esforço de Taylor Swift em resgatar sonoridades datadas, que remetem a artistas perdidos no tempo como George Michael e Debbie Gibson, mescladas com toques de new wave e outras idiossincrasias musicais da época.

 Foi mais ou menos aí que, meio sem querer, de tanto ouvir o disco, começou a imaginar, descompromissadamente, possíveis releituras para aquelas canções.

E então, movido por uma obsessão muito curiosa, acabou embarcando nesse projeto, que acabou se revelando uma espécie de "guilty pleasure" irresistível para ele.


Eu, no início, achei que seria uma tarefa complicada comentar esse disco. 

Até ontem à noite, não conhecia o tal disco original de Taylor Swift que tanto fascina Ryan Adams. 

Fui conhecer o disco dela só depois de ouvir as releituras feitas por ele. 

Mas agora, depois de ouvir os dois discos algumas vezes, acho que começo a entender mais ou menos de onde vem todo esse fascínio.


"1989" de Taylor Swift é um disco simpático, mas um tanto quanto opaco. 

Seu repertório é composto por canções eficazes, mas não muito expressivas, que funcionam como um desafio para um compositor e arranjador compulsivo como Adams.

  É um disco pop revivalista que remete ao ano em que a cantora nasceu e que pretende apresentar as sonoridades daquela época a pessoas que não estavam vivas -- ou então ainda eram muito pequenas -- naquele ano.

"1989", de Taylor Swift, está bem longe de ser um grande disco.

Mas, por algum motivo obscuro, foi um dos LPs mais premiados do ano passado na noite dos Grammies.


O que Ryan Adams na releitura completa que fez de "1989" (um lançamento PAX-AM, sem previsão para o Brasil) foi virar as canções de ponta cabeça, tentando -- e nem sempre conseguindo -- não ser desrespeitoso com o trabalho dela.

A primeira coisa que ele descartou em suas releituras foi se sentir obrigado a adotar sonoridades que remetessem a 1989, transformando as canções do disco original em rocks, baladas pop e até números alt-country bem atemporais.

A segunda coisa que fez questão de descartar foi o tom épico do disco de Taylor Swift, e tratou de reduzir as canções ao que cada uma delas poderia ser individualmente, deixando de lado todas as pretensões conceituais do projeto dela.

E o que restou disso tudo é surpreendente: uma coleção de 13 canções extremamente simpáticas, todas com a personalidade musical de Ryan Adams, num tom que lembra bastante seu excelente disco do final do ano passado, "Ryan Adams", lançado pela Blue Note Records.

Ou seja: bastou Ryan desatrelar as canções de Taylor Swift de seus arranjos fofos e e das molduras certinhas impostas pelo produtor que elas melhoraram sensivelmente.


Ryan é um artista moderno, não é um revivalista. Sua visão de pop e de country music é engenhosa demais para ficar atrelada ao passado. 

Confesso que acho meio cruel ele fazer o que fez com Taylor Swift. "1989" era o momento de afirmação dela como artista adulta. Mas, pensando bem, foi necessário. Ela, com certeza, vai desenvolver um trabalho bem mais orgânico e bem menos pomposo daqui para a frente. 

Nunca consegui entender essa tendência inaugurada por Madonna vinte e poucos anos atrás de superproduzir canções muito básicas para fazer com que elas ganhem relevo como produto final. Uma tendência que, diga-se de passagem, fez escola entre a maioria das cantoras pop, brancas ou negras, surgidas de 2000 para cá. 

 Ryan apenas colocou os pingos nos is e promoveu um "back to basics", apostando que havia algo muito saboroso escondido em meio a todo aquele glacê meio insosso de "1989" de Taylor Swift, e era só questão de procurar direito.

Se Taylor Swift gostou ou não gostou do que ouviu, ninguém sabe ao certo. Ela, de qualquer maneira, achou por bem publicar uma declaração dizendo sentir-se honrada com a homenagem de Ryan Adams.

Bom, agora que conseguiu provar sua tese, que tal voltar logo com um LP todo seu de verdade, hein Mr. Adams?

Estamos saudosos.




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segunda-feira, agosto 31, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "BAD MAGIC", NOVO LP DE LEMMY KILMISTER À FRENTE DO MOTORHEAD

por Chico Marques


O Motorhead está completando 40 anos de vida em 2015.

No início, a banda do ensandecido baixista Lemmy Kilmister, recém-expulso do grupo de space-rock Hawkwind, desafiava definições. Os integrantes do Motorhead usavam (usam) cabelos longos com costeletas e indumentária de bikers, mais camisas pretas típicas dos metaleiros, só que rasgadas e com motivos da Era Punk. Confuso? Nem tanto. Quando tocavam (tocam), produziam (produzem) uma modalidade extremamente barulhenta e acelerada de heavy rock que acabou dando origem a vários subprodutos do heavy-metal, como o speed metal e o thrash metal. 

Guardadas as devidas proporções, o Motorhead sempre esteve para o rock inglês como os Ramones estavam para o rock americano. Com a diferença de que os Ramones -- que também começaram por volta de 1975 -- eram bem humorados e saíram de cena em 1996, enquanto o carrancudo e divertido Motorhead só vai acabar mesmo no dia em que Lemmy bater com as quatro -- o que, a julgar por sua saúde extremamente precária e pelos constantes cancelamentos de shows da tournée atual da banda, pode acontecer a qualquer momento.

Da formação original do Motorhead, só Lemmy Kilmister permanece. Todos os integrantes deste power-trio extremamente atípico foram trocados algumas vezes. Mas, de meados dos Anos 90 para cá, o line-up da banda estabilizou: o guitarrista Phil Campbell segue na linha de frente da banda há 30 anos e o batera Mickey Dee cuida da cozinha há já 22 anos. No comando da brincadeira, claro, a voz escalavrada e o baixo pancadão de Lemmy continuam dando o tom e enlouquecendo a legião de fãs da banda, que abriga metaleiros de diversas tribos e classic rockers os mais diversos.



Pois o Motorhead está de volta, e com boas novas. Seu 22° LP acaba de chegar às lojas, se chama "XXXX - Bad Magic" (UDR Records, com lançamento previsto para Setembro no Brasil) e é tudo o que os fãs da banda podiam esperar de um disco comemorativo de 40 anos de carreira. Cameron Webb, produtor da banda, não mediu forças para viabilizar um disco digno da longevidade do Motorhead e da persistência de Lemmy, que, mesmo muito debilitado, mantém a postura do velho soldado que não se rende jamais.

"XXXX - Bad Magic" traz 13 faixas memoráveis. "Victory Or Die" abre o disco chutando a porta em grande estilo, com grito de guerra e tudo o que tem direito. Na sequência, "Thunder & Lightning" reafirma a profissão de fé dos membros da banda, deixando claro que não é da índole deles sossegar com a chegada da idade. E então, lá vem "Fire Storm Hotel", com um riff que lembra "Cat Scratch Fever" de Ted Nugent, e fazendo a apologia do rock and roll way of life.  E por aí a coisa vai, com o Motorhead disparando artilharia pesada para vários lados e, como de hábirto, se negando a fazer prisioneiros.



Em meio a toda essa pancadaria sonora, "XXXX - Bad Magic" traz duas curiosidades muito interessantes. 

A primeira é "Till The End", uma balada (!!!????) onde Lemmy contempla seu próprio fim de forma doída e contundente, num tom que nunca havia usado antes em nenhuma de suas canções -- cláro que não sem, logo a seguir, debochar de si próprio desdenhando tudo o que disse antes num rock avassalador chamado "When The Sky Comes Looking For You" -- que, de certa forma, encerra a sequência de canções autorais do disco. 

E então vem a segunda surpresa: a décima terceira faixa de "XXXX-Bad Magic" é nada menos que um cover bem pedestre para "Sympathy For The Devil", clássico dos Rolling Stones, onde Lemmy deixa claro que, mesmo estando no bico do corvo, não faz a menor questão de receber a extrema unção na hora em que tiver que sair de cena em definitivo. 

Considerando que tanto Lemmy Kilmister e Keith Richards são tidos como "walking dead" há muitos anos, e considerando também que ambos estão com discos novos na praça e em tournée pelo mundo afora, eu não me espantaria se o amigão Lucifer não tiver feito dos dois entidades indestrutíveis na cena do rock inglês.

Acredite: você não vai ouvir um disco de rock pesado tão honesto e tão divertido quanto "XXXX-Bad Magic" neste ano.



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