quarta-feira, agosto 20, 2014

THE NEW PORNOGRAPHERS: ENFIM UMA SUPERBANDA FEITA PARA DURAR.


Superbandas sempre existiram e sempre irão existir na cena pop.

As primeiras delas apareceram no final dos anos 60, como um prenúncio da chamada "década dos egos" que viria a seguir:

Em 1969, Eric Clapton e Ginger Baker, do Cream, mais Stevie Winwood, do Traffic, formaram o Blind Faith.


Três anos mais tarde, Jeff Beck uniria forças a Tim Bogert e Carmine Appice, ex-integrantes do Vanilla Fudge e do Cactus, para criar o Beck Bogert & Appice.


Ao mesmo tempo, Leslie West e Corky Laing, ex-integrantes do Mountain, montaram ao lado do ex-baixista do Cream, Jack Bruce, o West Bruce & Laing.


São 3 exemplos de superbandas que nasceram com um potencial impressionante e um futuro brilhante pela frente, mas que, estranhamente, decepcionaram em todos os sentidos: não produziram discos de primeira grandeza, seus membros não se integraram como era esperado, e entraram em colapso antes mesmo de completar um ano.

Desde então, muitas outras superbandas surgiram.

Infelizmente, nenhuma conseguiu se afirmar como uma exceção a essa regra.

Todas falharam nos quesitos relevância e longevidade.

Pois bem: The New Pornographers surgiu bem no final do Século Passado, reunindo os talentos de vários artistas que faziam parte da cena pop de Vancouver, no Canadá.

Seus 3 primeiros discos traziam um mix de power-pop e folk-rock tão bom e tão bem aceito pelo público que acabou trazendo visibilidade internacional tanto às bandas quanto às carreiras solo de seus membros principais -- em particular, a cantora e compositora Neko Case e o líder dos Destroyers, Dan Bejar.

Quando os "projetos principais" de seus integrantes começaram a ter mais ou menos a mesma estatura dos discos da banda, logo se imaginou que The New Pornographers estaria com os dias contados.

Mas não: o grupo segue em frente, com uma sonoridade cada vez mais coesa e seus integrantes estelares cada vez mais comprometidos com a proposta original da banda.


O novo trabalho dos New Pornographers, "Brill Bruisers" é um pouco mais pop, e talvez não seja tão marcante e tão vital quando seus três primeiros discos, mas a excelência das composições e das performances permanece a mesma.

Além do mais, que outra banda da atualidade pode contar com quatro vozes tão distintas e tão marcantes quanto as de Case, Bejar, Carl Newman e Kathryn Calder?

Ao contrário do que acontece em outras superbandas, os integrantes dos New Pornographers parecem desinflar seus egos sempre antes de reunirem a banda, e com isso conseguem reverter a maldição que sempre cercou as superbandas nesses últimos 45 anos.

Depois fazem piada com os canadenses.

Deviam, isso sim, seguir o exemplo deles.



WEBSITE OFICIAL
http://www.thenewpornographers.com/

DISCOGRAFIA
http://www.allmusic.com/artist/the-new-pornographers-mn0000477787/discography

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terça-feira, agosto 12, 2014

TOM PETTY AND THE HEARTBREAKERS RETOMAM SEU IMAGINÁRIO PSICODÉLICO EM PLENO 2014.



Taí uma banda que sempre enganou todo mundo com uma atitude aparentemente despretensiosa e um sorriso nos lábios indicando que só queriam mesmo é fazer "good time music".

Tudo conversa mole.

Logo no terceiro disco, "Damn The Torpedos" (1979), já não havia mais a menor dúvida de que Petty era um cantor com um timbre único e um compositor de primeira grandeza, e ao menos dois de seus escudeiros nos Heartbreakers -- o guitarrista Mike Campbell e o tecladista Benmont Tench -- eram músicos extremamente criativos que, bem aproveitados, levariam a banda muito longe.


Pois foi o que aconteceu.

A carreira espetacular de Tom Petty & The Heartbreakers fala por si própria.

Agora, 38 anos depois de estrearem na lendária Shelter Records de Leon Russell com um disco repleto de sonoridades psicodélicas envolventes, ainda que meio fora de época, eis que nossos bravos rapazes retornam mais uma vez com uma nova coleção de canções naquele mesmo tom de seu distante LP de estréia.


"Hypnotic Eye" é um álbum denso, envolvente, com melodias inusitadas e saídas musicais extremamente criativas que se por um lado remetem ao passado da banda, por outro demonstram uma atitude musical madura e atual.

É menos bluesy e menos truculento que o anterior "Mojo", mas é tão vigoroso quanto.

Canções como "American Dream Plan B", que abre o disco de forma inusitada, e "All You Can Carry" e "Shadow People" estão entre os números mais marcantes de toda a carreira do grupo.

E é tão bem tocado que engana mais uma vez o ouvinte desavisado que não conseguir perceber a sintonia fina dos músicos enquanto alinhavam o formato derradeiro dessas novas canções.


Quando dizem que Tom Petty & The Heartbreakers vem na mesma tradição musical de The Band, acreditem: não há exagero.

Apenas a constatação de que a soma dos fatores às vezes multiplica o produto final.

Com certeza foi isso que Bob Dylan viu neles quando os convidou para ser sua banda de estrada nos Anos 80.

E com certeza é isso que -- curiosamente -- faz desses velhos rapazes da Florida a melhor banda californiana dos últimos... vai, 38 anos!


Moral da história: não se deixe enganar pelo "low profile" do Tom Petty & The Heartbreakers.

Eles sempre produziram música de primeira. Música intrincada, rock and roll extremamente vertebrado.

E continuam produzindo. Em grande estilo.

Só que sem dar bandeira.






WEBSITE OFICIAL
http://www.tompetty.com/?frontpage=true

DISCOGRAFIA
http://www.allmusic.com/artist/tom-petty-the-heartbreakers-mn0000614137/discography

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JOHN HIATT VOLTA MAIS DESPOJADO DO QUE NUNCA EM "TERMS OF MY SURRENDER"


O público de classic rock dos anos 70 costuma abusar do direito de ser conservador.

Quem já trabalhou com emissoras de rádio dedicadas a esse segmento de público sabe bem o quanto é difícil apresentar a eles qualquer coisa que não seja o PF nostálgico que sempre os remete de volta aos "bons e velhos tempos".

Felizmente, vários artistas que podem ser enquadrados nessa categoria, e que permanecem na ativa até hoje, adoram remar contra a maré do "saudosismo confortável". E trazem de tempos em tempos discos repletos de novidades, onde deixam claro que não querem ser prisioneiros dos seus passados gloriosos.


John Hiatt é um que viveu grandes momentos e chegou a flertar com o estrelato nos anos 80.

Hoje ele é um sobrevivente de alma.

Jamais encostou o boi na sombra.

Continua produtivo aos sessenta anos com a mesma verve que tinham aos trinta, somada à sabedoria de estrada que acumulou com o passar dos anos.


Quando estreou em 1974 com "Hangin' Around The Observatory", ele era apenas mais um candidato ao cargo de "novo Bob Dylan" -- que estava em aberto desde que Dylan subiu as montanhas e sumiu da vista de todos no final dos anos 60.

Hiatt tentou de tudo, quebrou a cara em 7 discos que, apesar de bons, não deram em nada, e só foi dar certo como artista solo em 1987, quando aparou as arestas e reduziu suas idéias musicais a um mínimo no disco "Bring The Family", onde contracenou com Ry Cooder, Nick Lowe e Jim Keltner.

Desde então, desistiu de apostar no "aim high, hit big" e vem mantendo seu "low profile" desfilando seus rocks, seus blues e suas baladas em discos às vezes elétricos, outras vezes acústicos, às vezes urgentes, outras vezes perenes.


Como é o caso deste seu novo trabalho, "Terms Of My Surrender", predominantemente acústico, gravado com sua banda de estrada e produzido pelo seu guitarrista Doug Lancio.

Se você é daqueles que reclamaram que o padrão de produção de Kevin Shirley havia afogado os discos anteriores de Hiatt num padrão sonoro roqueiro demais, sorria: esse disco é para você.

Aqui, Hiatt brinca à vontade com sua voz e com sua banda numa sequência deliciosa de números totalmente "laid back".

Talvez falte um single, alguém vai dizer.

Talvez, mas será que isso faz alguma diferença em 2014?

Gostaria de destacar duas canções: a magnífica balada dylaniana "Long Time Comin'", que abre o disco e já nasce clássica, e a adorável faixa título, "Terms Of My Surrender", que lembra aquelas velhas baladas de Hoagy Carmichael dos anos 30 e 40.


Há 40 anos, John Hiatt conquistou um público fiel, sempre ansioso por conhecer as novas canções que ele compôs ao longo do ano.

Mesmo assim, isso não foi o suficiente para a Indústria Fonográfica, que, no início dos Anos 90, rebaixou John Hiatt do mainstream para a cena alternativa, já que a vendagem de seus discos permanecia estática ao longo dos anos. Hoje, depois da crise da Indústria, esse público fiel e essas vendagens estáticas de John Hiatt passaram a valer ouro. Na verdade, sempre valeram, a Indústria é que não se dava conta disso.

A cada dois anos, John Hiatt sempre nos brinda com um disco muito especial.

Mas dessa vez ele caprichou pra valer.




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http://www.johnhiatt.com/

DISCOGRAFIA 
http://www.allmusic.com/artist/john-hiatt-mn0000812046/discography

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terça-feira, julho 22, 2014

CHRISSIE HYNDE ESTRÉIA SOLO E ESCANTEIA OS PRETENDERS POR TEMPO INDETERMINADO


Todo mundo adora falar mal dos anos 80.

É compreensível.

Foi uma época terrível, onde qualquer manifestação artística pop tinha que virar blockbuster obrigatoriamente e as gravadoras não apostavam mais em qualquer coisa que não flertasse abertamente com o mercadão.

Mas o fato é que quem não estava no mainstream na ocasião e conseguiu ter jogo de cintura para se virar na recém-surgida cena alternativa, buscando apoio promocional nas college radios, bem ou mal conseguiu se virar, e pouco a pouco conseguiu um lugar ao sol na nova cena musical que foi surgir forte mais para o final da década.


Quando a americana Chrissie Hynde surgiu à frente dos Pretenders na Londres do início dos anos 80, bem na fase derradeira da efervescência punk londrina -- ou seja, dois anos depois do desmantelamento dos Sex Pistols e um ano depois do marco "London Calling" do Clash -- a morte do rock and roll foi adiada mais uma vez, e a cena musical anglo-americana suspirou aliviada.

Chrissie era boa demais para ser verdade: bonita, sensual, carismática, ótima cantora e band-leader com uma atitude feroz.

Os Pretenders, por sua vez, eram o veículo perfeito para ela, graças principalmente à bateria truculenta e estranhamente sofisticada de Martin Chambers, e forneciam a muralha sonora perfeita para os manifestos políticos e sentimentais de Chrissie.



A partir do terceiro disco, "Learning To Crawl", as composições dela -- que eram o único quesito de qualidade discutível nos dois primeiros discos da banda -- ganharam um toque de excelência que surpreendeu a todos, elevando os Pretenders da condição de promessa para a de grupo bem estabelecido.

E foi assim por 30 anos e 11 álbuns muito bons.

Mas então, em 2010, Chrissie deu sinais de que os Pretenders talvez já pertencessem ao passado.

Participou do LP "Fidelity!" ao lado do singer-songwriter e namorado JP Welsh, com quem compôs todas as canções e dividiu todos os vocais.



E agora, com esse "Stockholm", as evidências do fim dos Pretenders ficam mais claras ainda. Se "Fidelity!" já era um flerte com o pop, 'Stockholm" -- composto integralmente em parceria com o Björn Yttling, da banda pop sueca Peter Bjorn and John -- reafirma essa tendência, mesclando melodias fortes com números bem roqueiros, à moda dos Pretenders, só que mais estilizados musicalmente e menos musculares.

O resultado é muito positivo, uma bela coleção de novas canções, sendo que duas delas já nascem clássicas: "You Or No One" e "Dark Sunglasses".

Nas faixas que encerram "Stockholm", Chrissie se autoquestiona sobre a real necessidade de gravar um disco solo, mas não conclui coisa alguma, provavelmente de propósito, deixando entender que talvez esteja apenas tirando férias tanto de sua velha banda quanto do rock and roll acelerado que sempre pontuou seu trabalho como cantora e compositora.

Parece sincera, mas... vai saber?

O caso é que não dá para negar que ela está muito bem posicionada artisticamente nesse novo contexto.

Tanto que não consegue -- e nem quer --  esconder o prazer de estar recomeçando novamente sua carreira de forma mais leve, só com bagagem de mão, num trabalho tão bacana quanto esse "Stockholm".

Fico feliz por Chrissie.

Mas triste pelos Pretenders.



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http://chrissiehynde.com/

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http://www.allmusic.com/artist/pretenders-mn0000492331/discography

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quarta-feira, julho 02, 2014

PHISH UNE FORÇAS A BOB EZRIN E JÁ NÃO É MAIS UM PEIXE FORA D'ÁGUA NOS DISCOS DE ESTÚDIO.


Toda jam-band que se preze padece da mesma sina.

Seus discos de estúdio, por melhores que sejam, empalidecem sempre que equiparados a suas performances ao vivo.

Essa regra implacável vale tanto para bandas clássicas dos anos 60, como o Grateful Dead e a Allman Brothers Band quanto para jam-bands mais jovens, como o Phish, na estrada há "apenas" 31 anos.

Composto por músicos de altíssimo gabarito -- o guitarrista Trey Anastasio, o baterista John Fishman, o baixista Mike Gordon e o tecladista Page McConnell --, o Phish se afirmou rapidamente entre o público universitário desafiando definições musicais e fazendo nos palcos uma brincadeira na qual se revelaram imbatíveis:

Vira e mexe, sem aviso prévio, tocam discos clássicos de outros artistas na íntegra, seguindo a sequência original das faixas -- só que reinventando os arranjos à moda deles.






Pequenas legiões de fãs seguem p Phish em suas tournées na esperança de serem surpreendidos por setlists com a íntegra dos álbuns favoritos dos integrantes da banda -- como o "White Album" dos Beatles, "Remain In Light" dos Talking Heads, 'The Dark Side Of The Moon" do Pink Floyd ou "Quadrophenia" do Who.

Mas, independente disso, os 11 álbuns de estúdio da banda, apesar de muito bons, continuam sendo considerados tanto pela crítica quanto pelo público -- além, é claro, das mulheres e dos familiares mais próximos dos integrantes da banda -- como meros apêndices para suas performances ao vivo -- essas sim,  registradas em mais de 30 cds não menos que sensacionais.

Desanimados com essa situação, os rapazes do Phish passaram a direcionar as canções novas que compunham para seus álbuns solo, e com isso o Phish passou a entrar em estúdio para gravar discos com material inédito apenas de cinco em cinco anos, cumprindo sua cota de lançamentos anuais com álbuns gravados ao vivo.


Mas então, ano passado, numa conversa com o veterano produtor musical Bob Ezrin, veio a idéia de utilizar no próximo disco do Phish um processo inusitado de gravação bem diferente do "live in the studio" praticado por eles desde sempre.

E o resultado é esse "Fuego", que acaba de chegar às lojas.

É o disco de estúdio mais "vivo" de toda a história do Phish. E também o mais trabalhoso de todos eles, já que todos os instrumentos gravados separadamente por Ezrin, que conduziu o processo utilizando recursos comuns nos estúdios nos anos 70, mas que a maioria dos produtores e músicos mais jovens desconhecem por completo, ou então desistiram de usar por existirem soluções mais práticas e descomplicadas.

O resultado é uma vigorosa viagem musical do Phish, explorando combinações musicais sempre difíceis de definir em palavras, mas deliciosas de se ouvir.


Dizer mais o que desse grande LP?

Que a jam de 10 minutos que abre o disco é genial?

Que a homenagem que eles fazem ao Grateful Dead em "Devotion To A Dream" é emocionante?

Que "Halfway To The Moon" é uma das melhores canções que Lennon e McCartney não compuseram?

Que o Phish nunca gravou um repertório tão variado e ao mesmo tempo tão forte e coeso?

Ouçam "Fuego" e vocês vão entender o que eu estou tentando não dizer.


WEBSITE OFICIAL
http://phish.com/

DISCOGRAFIA
http://www.allmusic.com/artist/phish-mn0000333464/discography

AMOSTRA GRÁTIS 
PERFORMANCE ESPECIALÍSSIMA NO LIVE ON LETTERMAN 
CBS-TV 24 DE JUNHO DE 2014