domingo, abril 14, 2013

A SELVAGERIA DOS REPLACEMENTS ESTÁ DE VOLTA. POR UMA CAUSA NOBRE.


Assim como nunca houve uma mulher como Gilda, nunca houve uma banda como os Replacements.

Nunca, antes deles, uma banda teve a cara de pau de tentar combinar o punch infernal dos Sex Pistols, do Damned e dos Tuff Darts com as harmonias vocais dos Byrds.

Nunca, antes deles, uma banda punk ousou incluir no repertório de seus shows números tão duvidosos quanto bem humorados, como “She‘s A Lady”, de Tom Jones, e “Tie A Yellow Ribbon Round The Ole Oak Tree”, de Tony Orlando.

O que para muitos parecia inviável e até inconcebível, para esses rapazes desaforados de Minneapolis era algo perfeitamente natural.

Que outra banda teria a desfaçatez de estrear com um disco entitulado “Desculpa, mãe, esqueci de por o lixo para fora”?

Só eles, The Replacements, banda seminal comandada pelo excelente compositor, guitarrista e cantor Paul Westerberg, e que contava com o suporte tenso e truculento do baixista Tommy Stinson, do baterista Chris Mars e do guitarrista solo Slim Dunlap.

De 1979 a 1991, eles praticamente redefiniram a cena do rock independente americano, buscando saídas estilísticas nada fáceis, e muito menos óbvias, para suas propostas musicais e, de quebra, abrindo alas para o surgimento da cena grunge que iria dominar toda a década de 90 nos EUA.


O legado musical dos Replacements está espalhado por apenas sete albuns – entre eles, dois (“Let It Be” e “Tim”) que viraram referência obrigatória para toda uma geração, e outros dois (“Don’t Tell A Soul” e “All Shook Down”) que praticamente redefiniram o rock-pop praticado na época, revelando o dom melódico de Paul Westerberg e o afirmando como um grande artesão pop.

De lá para cá já se passaram 22 anos, e os Replacements nunca mais se reuniram. Receberam inúmeras propostas para discos e tournées de retorno, mas nunca cogitaram olhar para trás e ceder ao apelo do dinheiro fácil. Westerberg estabeleceu uma sólida carreira solo, mas está muito longe de ser um homem rico. Slim Dunlap partiu para um trabalho solo bem interessante, mas que nunca conseguiu o reconhecimento merecido fora dos limites das cidades gêmeas Minneapolis e Saint Paul. E Tommy Stinson e Chris Mars participaram de inúmeras bandas, todas com pouca projeção.



Até que, ano passado, Slim Dunlap sofreu um derrame, ficou seriamente debilitado e sem condições financeiras para bancar sua recuperação. Diante disso, Westerberg, Stinson & Mars não pensaram duas vezes e reuniram finalmente os Replacements para gravar um disco juntos, e assim levantar uma grana para ajudar seu velho companheiro de banda.

Esse disco é um EP, com apenas cinco canções – nenhuma de autoria deles --, se chama simplesmente “Songs For Slim” e acaba de chegar às lojas através da New West Records.

Mas havia um problema a ser resolvido. Por conta de velhas picuinhas mal resolvidas, Mars se negou a dividir a cena com seus dois ex-parceiros e só aceitou participar da empreitada com um número solo, de autoria de Slim Dunlap, chamado “Radio Hook Word Hit”, acompanhado de um grupo de músicos de seu círculo.

Westerberg não só aceitou as condições como ainda incorporou os mesmos músicos usados por Mars aos outros quatro números em que divide a cena com Stinson.

E o resultado dessa empreitada é extremamente satisfatório, apesar da coisa toda não poder ser considerada uma reunião plena dos Replacements.


Os velhos fãs da banda talvez estranhem o número de abertura, “Busted Up”, um rock suingado à moda de Bo Diddley, só que sem guitarras, com Westerberg martelando um piano e contando uma história de azar extremamente bem humorada, composta justamente pelo homenageado Slim Dunlap.

O número seguinte já é a cara dos Replacements: uma genial versão upbeat para “I’m Not Sayin’”, balada folk de Gordon Lightfoot, que ganhou um tratamento power-pop deliciosamente truculento e a urgência clássica das gravações dos Replacements.

Na seqüência, vem uma versão bem roqueira (e igualmente truculenta) para “Lost Highway”, de Hank Williams, que acaba lembrando mais bandas como Jason and The Scorchers do que propriamente os Replacements. Mas funciona muito bem.

E por fim, uma surpresa extremamente inusitada: “Everything’s Coming Up Roses”, clássico da Broadway, do grande Stephen Sondheim, numa versão roqueira surpreendentemente bem resolvida, sem guitarras distorcidas demais, só para variar.

Ao final de “Songs For Slim”, fica a constatação de que, para os Replacements, só fazia sentido voltar a tocar juntos resgatando esse espírito selvagem e palhaço da banda. Nada de resgatar o passado glorioso, nem de buscar alternativas para o futuro. A idéia aqui, além de ajudar Slim Dunlap, é apesar brincar novamente com o repertório alheio, algo que eles sempre fizeram tão bem, só que não da maneira autodestrutiva de antes.

Sendo assim, considerem "Songs For Slim" não um retorno, mas um posfácio para a história turbulenta e visceral dos quatro rapazes de Minneapolis.

Os Replacements estão mortos. Vida longa aos Replacements.





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sábado, abril 13, 2013

BILLY BRAGG CHEGA À MATURIDADE AINDA MAIS INCONFORMADO EM "TOOTH & NAIL"


Um dos maiores desafios para qualquer artista popular é, e sempre será, permanecer relevante depois de se estabelecer no mercado.

Neil Young abordou esse dilema em canções como “Thrasher”, talvez a mais contundente delas, falando de amigos perdidos em canyons de cristal, absorvidos pela vaidade e encastelados no estrelato, incapazes de perceber que seu métier só faz sentido enquanto eles conseguirem se reinventar a cada nova estação.

Billy Bragg sabe disso melhor do que ninguém.

Desde que surgiu, 30 anos atrás, em meio à efervecência pós-punk, em discos contundentes como “Talking With The Taxman About Poetry” e “Workers Playtime” ele personifica uma versão pós-moderna de Woody Guthrie. Isso em plena Era Margareth Thatcher, No início, foi acusado de ser apenas um "poser" curioso. Mas, com os anos, foi-se revelando um ótimo compositor, extremamente hábil tanto com letras quanto com melodias, e um artista muito peculiar.

De lá para cá já se reinventou algumas vezes, unindo forças aos americanos do Wilco e, mais recentemente, integrando a banda The Blokes, sempre alternando seu discurso político com um discurso amoroso denso e intenso, trafegando pelos mais diversos gêneros musicais com sua guitarra na mão e uma atitude nunca menos que contundente.


E não é que em seu mais novo trabalho, “Tooth & Nail”, ele se reinventa mais uma vez?

Gravado em Santa Mônica, Califórnia, com o suporte precioso do produtor Joe Henry e dos amigos The Blokes, Bragg deixa seus temas politizados um pouco de lado e investe numa mensagem mais universal, expandindo sua retórica -- sempre incisiva, diga-se de passagem -- a assuntos ainda não devidamente explorados em seu trabalho -- às vezes num tom de crônica, outras vezes num tom mais confessional..

O resultado disso são canções desconcertantes como “Your Name On My Tongue”, ‘Swallow My Pride” e “No One Knows Nothing Anymore”. Ou então canções delicadas e assováveis, como “January Song” e “Tomorrow’s Gonna Be A Better Day”, que abrem e fecham o disco, respectivamente.

Em meio a tudo isso, temos como termômetro do "estado de coisas atual de Billy Bragg" uma bela e sintomática releitura de “I Ain’t Got No Home Anymore”, de Woody Guthrie. Que, de certa forma, indica que nosso herói está nos dias de hoje mais propenso a conjugar seu ativismo político com sua condição de cidadão do mundo do que ficar restrito à cena trabalhista inglesa que sempre defendeu.

(não vou me espantar se, a essa altura do campeonato, já tiver alguns velhos colegas folkies esquerdofrênicos acusando Bragg de seu um traidor da causa. Bob "Judas" Dylan conhece bem os métodos dessa gente.)



Enfim, Billy Bragg esá comemorando 30 anos de carreira questionando se seu trabalho ainda faz sentido no mundo de hoje.

30 anos que não pesam na bagagem, e que, de quebra, fornecem um diferencial artístico que poucos artistas mais jovens conseguem ostentar.

Além, é claro, de mais perplexidade do que conforto, mais angústia que alívio, e as habituais doses cavalares de som e fúria -- como ele demonstra em “No One Knows Nothing Anymore”, a canção mais truculenta deste disco:

"Let's stop pretending / We can manage our way out of here / Let's stop defending the indefensible / Let's stop relying on / The lecturing of the experts / Whose spin just makes our plight incomprehensible/ High up on a mountain top, somebody with a skinhead crop / Is thinking deep thoughts for us all / Serenity is all around, but if you listen /You can hear the sound / Of one head being banged against the wall"




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BOZ SCAGGS VOLTA PARA CASA EM "MEMPHIS"

Ninguém canta como Boz Scaggs.

Desde seu excelente disco de estréia, gravado na virada dos anos 60 para os 70 com o pessoal da Muscle Schoals Rhythm Section, sua voz estranhamente maleável e sua postura “laid-back” vem intrigando a Indústria Fonográfica, que sempre tentou, mas nunca conseguiu, rotulá-lo para o mercado, mesmo depois dele ter emplacado alguns singles muito bem sucedidos nas paradas.

Aliás, uma pequena correção. Tem alguém que canta parecido com Boz Scaggs, sim: o soulman de Memphis Al Green -- ou vice-versa, já que os dois são compenheiros de geração e surgiram na cena musical mais ou menos ao mesmo tempo, só que em lugares diferentes. Na medida em que Scaggs nunca se definiu claramente como um artista de rock, de pop ou de R&B, parecia uma boa idéia tomar emprestado um pouco daquela levada pedestre dos singles soul de Memphis produzidos por Willie Mitchell para Al Green em seus discos gravados na motorizada e frenética Los Angeles.

Em “Slow Dancer”, seu grande LP de 1974, produzido pelo craque Johnny Bristol, Scaggs chegou muito próximo de assumir em definitivo essa sua persona soul. Só não foi adiante porque David Foster o desviou dessa rota no disco seguinte, “Silk Degrees”, emplacando “Lowdown”, clássico absoluto da era disco, que catapultou Boz Scaggs ao estrelato do dia para a noite, depois de dez anos de trabalho árduo tentando sair da periferia do big business musical.

Apesar de nunca ter conseguido, nem de longe, igualar o sucesso de “Silk Degrees”, Boz Scaggs vem mantendo uma regularidade muito peculiar em seu trabalho nesses 35 anos, apostando suas fichas em discos com um sotaque R&B bastante acentuado, e sempre acompanhado de músicos de primeira em suas tournées.

Tudo bem que os tempos mudaram, e o gosto do público também mudou, mas seu estilo inconfudível e seu padrão de qualidade permaneceram intactos em discos excelentes como "Some Change" (1994) e "Come On Home" (1998).



E então, eis que aos 69 anos de idade, Boz Scaggs ressurge com esse inesperado “Memphis”, uma homenagem à cidade que ele tanto admira musicalmente.

Inesperado porque, apesar de trazer apenas duas canções inéditas de sua autoria para abrir e fechar essa coleção de clássicos – nada óbvios, diga-se de passagem -- da soul music, elas são as primeiras que ele grava desde “Dig”, de 2001. Inesperado também porque "Memphis” escancara algo que Scaggs sempre sugeriu: que gostaria de ter sido um artista de Hi Records. Não foi nada acidental a escolha do velho e lendário estúdio de Willie Mitchell, o Royal Recordings Studio, como base para as sessões de gravação de "Memphis". Era lá mesmo que ele "tinha" que ser gravado.

O produtor (e baterista) Steve Jordan fez de tudo para resgatar o clima das velhas gravações. Chamou o tecladista Spooner Oldham, o baixista Willie Weeks e o guitarrista Ray Parker Jr. para compor a banda e trabalhar os arranjos. Só faltou mesmo fazer uma sessão de mesa branca para invocar a presença da alma do velho e genial produtor no estúdio. O resto eles fizeram.

E os resultados são estupendos. Na segunda faixa, “So Good To Be Here”, de Al Green, Scaggs já está completamente em casa, soltando seu falsete inconfundível nos momentos chave da canção e dando um toque ainda mais suave à gravação original. O mesmo acontece em “Rainy Night In Geórgia”, de Tony Joe White, e em “Can I Change My Mind”, grande sucesso de Tyrone Davis, ambas impecáveis e precisas ao extremo.

Outro dado curioso em “Memphis” é a sutil homenagem prestada por Scaggs ao grande artista novaiorquino Willy DeVille, que brilhou na cena pós-punk americana no grupo Mink DeVille. Duas das canções de seu álbum de estréia, “Cabretta”, de 1979, estão aqui, em releituras um tanto quanto surpreendentes. “Mixed Up Shook Up Girl”, por exemplo, perdeu seu jeitão latin-soul e subiu aos céus graças a um coro negro delicadíssimo. Já “Cadillac Walk” ficou menos urgente e mais perigosa. Coisa de quem tem bagagem de sobra para usar como bem entender.



“Memphis” tem muito mais que isso para mostrar, mas eu paro por aqui e deixo o resto por conta de Boz Scaggs e sua banda magnífica, e por conta de vocês, claro!.

Acreditem, “Memphis” é um disco que tem aquele gostinho de chegar em casa depois de um bom tempo distante.

Não tem contra-indicações. É, provavelmente, o melhor disco de covers que vocês irão ouvir em 2013. Não é pouca coisa.



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sexta-feira, abril 12, 2013

RAPIDINHAS: Duke Robillard, Ronnie Earl, 4 Jacks, Bobby Rush, Big Bill Morganfield


Tem muita gente por aí que ainda vê o Blues nos dias de hoje como “aquele idioma musical restrito tocado por negros pobres que não tiveram a chance de aprender a tocar jazz”.

Assim como muita gente insiste em afirmar que Blues é “música de gente sofrida, válvula de escape para os dramas diários de gente triste.

Sim, e tem ainda aqueles tradicionalistas die-hard que bradam de boca cheia que “só os negros são capazes de entender o verdadeiro sentimento do Blues”.:

Pois bem: os três primeiros discos comentados aqui são de brancos e dois últimos de negros -- todos artistas de primeiro time, bem sucedidos comercialmente e nada ortodoxos em termos musicais.

Ou seja: cinco pesadelos para esses pobres equivocados que adoram cultivar frases prontas e lugares comuns.

Com vocês, a alma do blues moderno.

Divirtam-se


DUKE ROBILLARD BAND
Independently Blue 
(Stony Plain) 

O veterano guitarrista e produtor Duke Robillard é um dos músicos mais completos da cena americana dos últimos 45 anos, desde que iniciou sua carreira à frente do grupo Roomful of Blues. Trafega pelo blues e pelo rhythm and blues com a mesma destreza com que investiga o jazz e o rock and roll, e é um band-leader de mão cheia. Durante muito tempo, apostou suas fichas em discos temáticos que, se por um lado, mostravam que ele era capaz de mergulhar fundo em diversos idiomas musicais sem perder sua identidade musical, por outro empacotavam a ele e sua banda de forma um tanto quanto incômoda. Aqui, no entanto, nesse novo disco, “Independently Blue”, Duke e sua banda chutam na direção oposta e apostam todas as fichas na diversidade das composições e na versatilidade das abordagens musicais. E o resultado disso é surpreendentemente positivo. São doze faixas, em que o rhythm and blues e o blues rasgado dão o tom a maior parte do tempo. Mas sempre permitindo ousadias, como a deliciosa balada jazzy “You Won’t Ever” e uma homenagem a Cab Calloway na colorida “Patrol Wagon Blues”, de autoria do convidado especial Monster Mike Welch, que veio para fazer uma participação especial e acabou se integrando à banda e tocando no disco inteiro. Vocês sabem, o blues tem dessas coisas...


RONNIE EARL & THE BROADCASTERS
Just For Today
(Stony Plain) 

Ronnie Earl surgiu na cena musical em 1979, substituindo Duke Robillard como guitarrista do Roomful Of Blues. Ficou apenas 5 anos por lá – tempo suficiente para perceber que não iria conseguir crescer muito musicalmente numa banda dominada por uma sessão de metais, e também que tinha fôlego para alçar um vôo solo. Foi quando se auto-promoveu a band-leader e -- sempre à frente de sua banda, The Broadcasters -- iniciou uma das carreiras mais espetaculares que um guitarrista de blues já ousou fazer, trafegando por diversos gêneros musicais e sempre mesclando blues e jazz de forma intensa e apaixonada. “Just For Today”, seu novo álbum ao vivo, é mais um desses deliciosos showcases musicais, com doze números instrumentais gravados em sua última tournée, onde há espaço tanto para uma releitura intrincadísima de “Equinox”, de John Coltrane, quanto para homenagens a seus heróis musicais Otis Rush (“Rush Hour”), Hubert Sumlin (“Blues For H.S.”) e Robert Nighthawk (“R. H. Stomp”). A grande surpresa fica por conta da cantora (extraordinária) Diane Blue, que faz uma releitura precisa de “I’d Rather Go Blind” que acaba servindo como um tributo à inesquecível Etta James. É a 13ª e única faixa não-instrumental nos exatos 80 minutos de duração de “Just For Today”, um disco ao vivo exemplar.


4 JACKS
Deal With It 
(EllerSoul) 

Desde a morte de seu velho parceiro musical, o blues shouter Sam Myers, em 2006, o grande guitarrista texano Anson Funderburgh andava meio sem rumo. Sua banda, The Rockets, foi temporariamente desativada, e ele passou a vagar pelas bandas de amigos em busca de algum sentido para sua carreira. Choveram convites para gravar discos solo. Anson descartou todos eles, e seguiu participando de gigs com praticamente todo mundo na cena do blues. Numa dessas brincadeiras, ele encontrou um irmão musical no ótimo pianista Kevin McKendrea, e os dois tomaram emprestado a cozinha da banda de Delbert McClinton -- o baixista Steve MacKey e o baterista Big Joe Maher -- para tentar esboçar um projeto em grupo. Daí nasceram os 4 Jacks, a superbanda instrumental mais low-profile do blues atual, batizada em homenagem ao saudoso trio The Aces – dos lendários irmãos guitarristas Louie e Dave Myers, mais o baterista Fred Below. O som dos 4 Jacks, no entanto, não tem nada a ver com o Chicago Blues classudo dos Aces. A música deles é, na verdade, a cara do Texas: suingada e seca, colorida e ríspida, urgente e atemporal, tudo ao mesmo tempo agora. “Deal With It” mescla de forma notável todas as vertentes musicais que formam a música do sul dos Estados Unidos, e marca a volta triunfal desse guitarrista fabuloso, Anson Funderburgh, ao que sabe fazer de melhor: romper fronteiras e estabelecer novos parâmetros musicais.


BOBBY RUSH
Down In Louisiana
(Deep Rush) 

Aos 77 anos de idade, eis que Bobby Rush decide se reinventar em seu 22º LP solo: “Down In Louisiana”, que marca o retorno triunfal desse grande cantor e multinstrumentista conhecido no mundo inteiro a suas raízes musicais nos pântanos da Louisiana. Não que ele tenha abandonado o conceito musical do “folkfunk”, seu grande difencial musical, desenvolvido ao longo de toda a sua carreira. A diferença é que aqui, em “Down In Louisiana”, Rush está trabalhando com uma banda menor, e com acordeons onde antes haviam sessões de metais. E o resultado é vigoroso, um passeio musical pela alma da música da Louisiana. Não é nenhum exagero afirmar que Bobby Rush rejuveneceu 20 anos nesse disco, o danado está com a corda toda. Os destaques ficam para as desbocadas “You Look Like A Dresser” e “Bowlegged Woman”, que devem ficar ainda mais divertidas em suas performances ao vivo.


BIG BILL MORGANFIELD
Blues With A Mood 
(Black Shack) 

Muddy Waters deixou uma quantidade enorme de filhos pelo mundo, e vários tentaram seguir seus passos como artista de blues. De todos eles, só Big Bill Morganfield demonstrou ter talento para tanto. Big Bill tem um timbre vocal semelhante ao de seu pai, ainda que um pouco mais suave, e não se importa de vez ou outra passear pelo repertório clássico dele. Mas faz questão de desenvolver um trabalho extremamente pessoal, tanto como compositor e intérprete quanto como instrumentista. Esse é seu sexto disco, talvez o melhor até agora. Em “Blues With A Mood”, Big Bill recebe grandes artistas formados pelo seu pai participando como sidemen, e o resultado musical disso é sempre caloroso e acolhedor. Os destaques vão para 3 ótimas composições de Big Bill: as divertidas “No Butter For My Grits” e “Money’s Getting Cheaper”, e a autobiográfica “Son Of The Blues”, que fala francamente sobre a bênção e a maldição de ser filho do maior artista de blues de todos os tempos. Mas Big Bill Morganfield nem sonha em jogar a toalha e largar essa vida. Pelo contrário, faz dessas adversidades matéria prima para sua música. Que melhora a cada disco.


AMOSTRAS GRÁTIS

DUKE ROBILLARD BAND
http://www.dukerobillard.com/

RONNIE EARL AND HIS BROADCASTERS WITH DIANE BLUE
 http://www.ronnieearl.com/

ANSON FUNDERBURGH AND THE ROCKETS WITH KIM WILSON
http://www.myspace.com/ansonfunderburghandtherockets

BOBBY RUSH 
http://www.songkick.com/artists/408475-bobby-rush
BIG BILL MORGANFIELD 
http://bigbillmorganfield.net/
 

sexta-feira, março 15, 2013

BEN HARPER E CHARLIE MUSSELWHITE UNEM FORÇAS NO MELHOR DISCO DE BLUES DE 2013 (ATÉ AGORA)



Com 43 anos de idade e 10 discos de estúdio em seu curriculum, Ben Harper é um cara bem vivido. Já foi quase um superstar 10 anos atrás. E agora está flertando com a idéia de se tornar um artista da cena independente. Mas se por um lado ele nunca aceitou o alto preço cobrado pela Indústria do Showbiz para ser catapultado ao megaestrelato, por outro lado ele também nunca se conformou com as limitações impostas pelos segmentos do mercado musical a seu trabalho, e sempre apostou na pluralidade musical. Por conta disso, Ben é hoje um artista desalinhado do mainstream -- mas extremamente bem situado, e feliz proprietário do The Machine Shop, um Estúdio de Gravação movimentadíssimo que funciona na enorme casa onde ele mora com a atriz Laura Dern e a filharada em Santa Barbara, California.

É grande o volume de artistas independentes que vem requisitando não só The Machine Shop, mas também os préstimos de Ben Harper como produtor e arranjador. Rickie Lee Jones, por exemplo, gravou seu último disco, 'The Devil You Know", por lá. Harper gosta desse tipo de ambiente. Vem de uma família de professores de música que possuiam um Conservatório em Claremont, California, e não sossegou enquanto não transformou seu canto num espaço semelhante ao que seus pais mantinham, onde ele se orgulha de receber artistas dos mais diversos backgrounds musicais, e de poder interagir diretamente com eles. A maneira como ele se envolveu com o grupo vocal The Blind Boys Of Alabama cinco anos atrás é o retrato mais fiel dessa atitude. O que deveria ser apenas uma faixa de colaboração entre eles para integrar um disco encomendado ao grupo rapidamente se transformou numa parceria para disco inteiro. Disco premiadíssimo, diga-se de passagem.

Pois bem: depois de contracenar nos últimos anos com vários bluesmen clássicos, e de ficar muito amigo de todos eles, surgiu a idéia de gravar um disco do gênero assim que encerrasse suas obrigações contratuais com a Virgin Records. Foi quando fez uma proposta nada indecorosa para um disco em parceria -- aceita de imediato, diga-se de passagem -- ao amigo Charlie Musselwhite, 67 anos de idade, gaitista extraordinário de Memphis, escolado em Chicago e radicado no Norte da California. Charlie é o grande herdeiro do legado musical de Little Walter Jacobs, que sempre evitou manter uma relação tradicionalista com o blues. Esse acabou se tornando seu grande diferecial artístico, uma espécie de bandeira geracional que ele e seu saudoso amigo Paul Butterfield sempre levantaram, cada um de uma maneira diferente.


"Get Up!" é o tal disco de Ben e Charlie, e a estréia dos dois no lendário selo Stax, que agora pertence à Concord Records. É possivelmente o melhor disco de blues que iremos escutar neste ano. Impressionante como a nochalance musical de Harper combina bem com o espírito aventuresco de Musselwhite, que ao longo dos últimos 45 anos tem levado a "blues harp" a territórios musicais onde nenhum bluesman jamais esteve. Apesar de todas as composições serem assinadas por Harper, os arranjos foram feitos em comum acordo, e a alquimia que rola entre eles explode nas 10 faixas do disco, que tem um único defeito: dura apenas 40 minutos.

Logo na faixa de abertura -- um folk-blues perigoso, que vai crescendo e eletrificando a cada verso de forma extremamente ameaçadora -- já dá para sentir que os dois trabalham numa sintonia musical muito fina. Tudo o que vem a seguir -- blues-rocks, boogies e baladas bluesy -- tem um impacto musical impressionante, revelando que Harper não tem a menor chance de ser considerado "um estranho no ninho" pelos bluesófilos mais conservadores. "I'm In, I'm Out, I'm Gone" é uma homenagem bem suingada ao amigo John Lee Hooker. Já "You Found Another Lover (I Lost Another Friend)" é uma balada soul poderosa e uma das composições mais contundentes já assinadas por Harper. E por aí vai, até "All That Matters Now", a faixa de encerramento, um slow blues bem tradicional, para fechar o disco com os pés na lama mais pura do Mississippi.

Mais que um encontro entre dois grandes artistas de gerações e backgrounds musicais muito diversos, "Get Up!" serve como recado a todos aqueles que estão convenientemente prostrados em encruzilhadas musicais com medo de perder "status no mercado" ou de correr riscos num momento muito incerto da Indústria Fonográfica. Charlie Musselwhite nem considera essas coisas. Afirma que sempre deixou sua carreira se mover a partir de algo que ele chama de "will of the music", sem o qual já teria pendurado as botas há muito tempo. Os 25 anos que o separam da jovialidade musical de Ben Harper em momento algum atrapalham a simbiose musical que rola entre os dois. Aliás, só ajudam. Todos saem mais leves no final da brincadeira.

Charlie Musselwhite sabe melhor do que ninguém que bagagem só faz sentido se estiver sempre em movimento,

Já Ben Harper está descobrindo isso agora. E está adorando.



BIO-DISCOGRAFIAS
http://www.allmusic.com/artist/ben-harper-mn0000792733
http://www.allmusic.com/artist/charlie-musselwhite-mn0000211627

WEBSITE OFICIAL
http://getup.benharper.com/

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quinta-feira, março 14, 2013

DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE "THE NEXT DAY", O NOVO DISCO DE DAVID BOWIE


Nessas últimas duas semanas, a Imprensa Musical Internacional não falou de outra coisa senão "The Next Day", o primeiro disco de David Bowie Bowie depois de 10 anos de sumiço. Sem conceder uma entrevista sequer, ele conduziu de forma brilhante o lançamento do disco. Liberou seu produtor Tony Visconti e os músicos que participaram das gravações para falar o que quisessem, mas em momento algum veio a público "explicar o disco". Deixou que as análises corressem soltas por aí, confiando no poder de fogo de seu novo trabalho. E, até onde eu sei, não foi publicada uma crítica negativa sequer. Todas as que li fizeram questão de ressaltar que há muitos anos Bowie não surgia com uma coleção de canções tão intrigante e tão vigorosa.

Eu gostei muito do longo comentário de David Cavanagh para a Uncut e da crítica-louvação de Rob Sheffied para a Rolling Stone. Mas acho que tanto uma quanto a outra deixaram escapar alguns pontos importantes, que me parecem muito peculiares desse momento artístico de David Bowie.


O primeiro deles diz respeito aos personagens que David Bowie cria para as canções desse disco. Ao contrário de trabalhos anteriores, em que nosso herói se transmutava nesses personagens de forma intensa, "The Next Day" revela um Bowie mais cauteloso nesse sentido. Pode ser talvez resultado de sua reclusão nesses últimos anos, ou mesmo reflexo do infarto quase fulminante que sofreu em sua última tournée. O caso é que algo mudou no processo de composição das novas canções. Na hora de gravá-las, ele nem se preocupou em dar instruções demais a Tony Visconti e ainda ofereceu uma autonomia maior que a habitual aos seus músicos para desenvolverem livremente suas partes nos arranjos das canções do disco, limitando suas interferências ao mínimo necessário. O impacto diferenciado do mix final de cada canção com certeza se deve a esse esforço conjunto, e ao leve distanciamento que Bowie impôs a si próprio em relação a suas personas.

Outro aspecto interessante, a meu ver, é que esse é, sem dúvida, o disco mais político de Bowie em muitos e muitos anos. “The Next Day” mostra o mundo de hoje visto por Bowie de seu apartamento em Nova York, ao lado de sua família e de seus amigos mais próximos, distante do calor da ruas e da ação cotidana. Esse microcosmo alterna momentos de conforto com momentos extremamente claustrofóbicos. Concebido nessa reclusão auto-imposta, é um disco ao mesmo tempo cruel e carinhoso com os temas que aborda: turbulências conjugais, guerras, vida de celebridade, conflitos entre o passado e o presente, e a dificuldade em projetar um futuro que não seja sombrio, duvidoso e, mesmo assim, fascinante. 


“The Next Day” é o 24° disco de David Bowie, e é tão bem dosado que simplesmente não tinha como dar errado. A expectativa em torno dele era enorme, e, mesmo assim, ele não decepciona em momento algum. Aliás, só surpreeende. E continua surpreendendo, após inúmeras audições. Pela vitalidade da empreitada. Pela maneira como os temas se encadeiam e nos envolvem. E também porque ninguém esperava um disco superlativo vindo dele a essa altura do campeonato. Um disco mediano, reflexivo, já teria agradado e muito.

Mas não adianta: caras como David Bowie nunca deixam por menos.

Grandes artistas são assim mesmo, não negam fogo jamais. 









BIO-DISCOGRAFIA
http://www.allmusic.com/artist/david-bowie-mn0000531986

WEBSITE OFICIAL
http://www.davidbowie.com/ 

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quarta-feira, março 13, 2013

RAPIDINHAS: Eric Clapton, Jimi Hendrix, Eric Burdon, T-birds, Mavericks e Poco

ALTOeCLARO está de volta após 3 meses de descanso por conta da estiagem de bons lançamentos na cena internacional, que se encerra todo ano em Fevereiro quando vários artistas bem estabelecidos na cena musical do Hemisfério Norte tradicionalmente lançam novos trabalhos e abrem o ano musical, já projetando suas tournées de Primavera e de Verão.

ALTOeCLARO manterá comentários mais extensos para discos diferenciados nas postagens de quarta a sexta. Às segundas, publicaremos nossa videocronica semanal. E às terças, uma panorâmica rápida em vários discos dignos de atenção, mas não tão vitais quanto os escolhidos para os comentários de quarta, quinta e sexta..

Como vocês podem notar, todos os artistas comentados hoje são figuras de ponta na cena musical anglo-americana, que estão de volta com trabalhos bons, recomendáveis, mas nada fundamentais em seus conjuntos de obras. 

Vamos a eles:


OLD SOCK
Eric Clapton 
(Bushbranch / Surfdog Records)

O guitarrista mais blasé da cena do blues-rock anglo-americano está de volta com um novo disco nada eloquente e com um jeitão indisfarçável de trabalho caseiro. Eric Clapton passeia por reggaes bem reflexivos, baladas delicadas e standards do “Great American Songbook”, sempre sob a alegação de que quis fazer um disco unindo sua produção recente com canções de terceiros que ele sempre gostou mas nunca tinha pensado em gravar, até agora. Tudo bem, só que a alegação não cola. “Old Sock” soa displicente e desconjuntado a maior parte do tempo, as canções novas são apenas medianas e o conjunto final é inofensivo e inexpressivo demais. Tudo bem que, com 50 anos de carreira nas costas, Clapton não tem mais absolutamente nada a provar para ninguém. Mas, cá entre nós, também não precisava encostar tanto o corpo, como ele fez aqui. Já chega Paul McCartney fazendo essas coisas. Ainda assim, vale a pena destacar as releituras bastante criativas que ele fez para “My One And Only Man”, de Otis Redding, e “Still Got The Blues”, de Gary Moore -- a primeira virou um reggae, e a segunda um número de jazz. Em tempo: é seu primeiro disco depois de quase 30 anos de associação com a Warner Bros. Records.


PEOPLE, HELL AND ANGELS
Jimi Hendrix
(Experience Hendrix / Legacy / Sony Legacy)

Enquanto os herdeiros do espólio de Jimi Hendrix seguirem vasculhando os tapes perdidos do lendário guitarrista americano falecido em 1970, discos como esse continuarão a surgir nas lojas de tempos em tempos. O fato é que o material deixado por Hendrix entre 1969 e 1970 -- anos em que ele iniciou vários projetos, mas não conseguiu concluir nenhum – é muito extenso e sem um foco claro. “People, Hell And Angels” é um projeto interessante, mas padece do mesmo mal que vitimou inúmeros discos póstumos de Hendrix. Não é que o material contido no disco seja fraco. É que a promessa de entregar “o grande álbum perdido de Jimi Hendrix” virou uma espécie de busca pelo Santo Graal, que simplesmente não tem como ser cumprida. A cada disco póstumo de Hendrix que chega ao mercado, fica mais claro que ele não sabia mesmo para onde estava indo, e infelizmente saiu de cena antes de conseguir definir suas novas rotas musicais. E sendo assim, as gravações contidas em discos póstumos como “The Cry Of Love” e ‘War Heroes” permanecem como o testamento definitivo dele, e tudo o mais é reciclagem de espólio. Um espólio sempre digno de muito interesse, diga-se de passagem. O destaque aqui não vai para nenhum número musical, e sim para a excelente qualidade dos tapes incluídos no disco. Não há a menor dúvida de que Eddie Kramer andou por ali.


'TIL YOUR RIVER RUNS DRY
Eric Burdon
(ABKCO Records / Universal)

Esse bem que poderia ser o grande disco de retorno de Eric Burdon à cena musical, alavancado por Bruce Springsteen a partir de uma performance fulminante no Festival South By Southwest do ano passado que apresentou Burdon a uma nova geração de roqueiros. Mas infelizmente ele demorou demais para gravá-lo e lançá-lo, e a expectativa se dissipou. “'Til Your River Runs Dry” pode, se muito, resgatar s velhos admiradores para esse cantor inglês que, além de cantor extraordinário, é também um dos caras mais teimosos e azarados do showbiz anglo-americano. Sua carreira solo de 1977 até 2000 é uma sucessão de fiascos anunciados, por conta de associações com bandas inexpressivas, escolha inadequada de repertório e apostas em produtores sem visão. “'Til Your River Runs Dry” fecha com chave de ouro uma trinca de bons discos iniciada em “My Secret Life” (2004) e a coleção de covers “Soul Of A Man” (2006). As vendas do disco ainda não decolaram até agora, mas, de repente, até o Verão europeu, quem sabe esse quadro possa reverter a favor de Burdon. O destaque vai para o melhor cover já gravado para “Before You Accuse Me", bluesaço de Bo Diddley. Um assombro, de tão eloqüente.


ON THE VERGE
Fabulous Thunderbirds
(Severn Records)

Eis que a lendária banda texana comandada pelo cantor e gaitista Kim Wilson achou uma saída viável para continuar existindo, depois de sete anos de silêncio. Na impossibilidade de encontrar um guitarrista à altura de Jimmie Vaughan para dar seqüência ao projeto original da banda, Kim vem testando várias saídas musicais ao longo dos anos, e agora optou por desviar do rhythm and blues suingado que notabilizou a banda para aproximá-la da soul music pedestre de Memphis, Tennessee. O resultado é surpreendentemente bom. As novas composições são muito fortes e marcantes, Wilson está cantando melhor do que nunca e a banda toca de forma tão agradável que as dez faixas do disco passam voando. O destaque vai para a belíssima balada “Hold Me”, tão bem resolvida que até parece coisa de Dan Penn e Spooner Oldham, dois clássicos compositores da Stax Records -- mas que, na verdade, é do bravo Kim Wilson, que segue sua carreira solo low-profile nas férias prolongadas entre um lançamento e outro dos T-Birds. Que talvez sejam menos prolongadas daqui para a frente.


IN TIME
Mavericks
(Valory) 

Depois de vários discos solo altamente gabaritados, mas que infelizmente não aconteceram comercialmente, eis que o grande cantor e compositor Raul Malo caiu na real e decidiu resgatar sua velha banda para um disco e uma tournée de retorno. Poderia ser apenas mais uma entre tantas empreitadas oportunistas de bandas veteranas em busca de um reforço de caixa em suas contas bancárias, mas é inegável que esse retorno dos Mavericks acabou saindo melhor que a encomenda. Tudo o que parecia esquemático demais no disco anterior da banda, lançado 10 anos atrás, parece ter sido abandonado em prol de uma musicalidade expontânea e novas canções descomplicadas e fáceis de tocar ao vivo. O resultado final é que Malo e seus comparsas acabaram gravando o melhor disco da banda até agora. Em algum lugar do Universo, Roy Orbison com certeza está sorrindo. O destaque vai para “Born To Be Blue”, totalmente atemporal.


ALL FIRED UP
Poco
(Drifter's Church Productions) 

A lendária banda de country-rock californiana completa 45 anos de carreira apenas com o guitarrista Rusty Young remanescente da formação original, mas com a sonoridade clássica intacta, graças ao espírito aventuresco de seus novos e jovens integrantes. Todos os flertes crossover que sempre marcaram o blend musical do Poco continuam fazendo parte do cardápio da banda, só que com um frescor renovado. Isso faz de “All Fired Up” um dos melhores discos deles nos últimos 30 anos -- período marcado por altos e baixos decorrentes de crises de estrelismo que rolavam sempre que algum integrante original como Paul Cotton, Tim Schmitt e Ritchie Furay voltava por uma ou duas temporadas. Agora, reina a paz no Poco, e isso transparece aqui. Os destaques vão para “Hard Country” e para a tocante homenagem a um amigo músico em “Neil Young”.

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