quinta-feira, junho 14, 2012

DIÁRIO DE BORDO - SANTOS JAZZ FESTIVAL - 14/06/2012 - PRELIMINARES


Começa logo mais a primeira edição do Santos Jazz Festival.

Isso, para o público do festival.

Na verdade, para nós, da produção do evento, o Santos Jazz Festival começou pra valer na noite de terça, no programa Metrópolis, na TV Cultura em São Paulo, no emocionante reencontro entre Hermeto Pascoal e seu velho parceiro no Quarteto Novo, o fabuloso guitarrista Heraldo do Monte.

Hermeto e Heraldo estavam tão felizes em tocar juntos novamente depois de tantos anos que esqueceram que estavam em um programa de TV, e não deram a mínima para as determinações do pessoal da produção do Metrópolis, seguindo tocando ao fundo do cenário enquanto a apresentadora tentava dar sequência ao programa, apesar deles.



















 Na noite de ontem, foi a vez de Hermeto e o Maestro Guga Petri, da Sinfônica de Santos, se reunirem para um Ensaio Geral da peça composta por Hermeto especialmente para o evento, e que Guga arranjou para Orquestra.

Mais uma vez, a genialidade e a generosidade musicais do velho bruxo deram o tom da brincadeira.

Basta olhar para as fotos de Hermeto contracenando com Guga e sua Orquestra para perceber a camaradagem mágica que havia se instaurado no Palco do Coliseu.


E isso é apenas a prévia do que vem por aí logo mais, às 9 da noite, na abertura oficial da primeira edição do Santos Jazz Festival.

Quem estiver no Coliseu hoje à noite, pode esperar no mínimo um espetáculo inesquecível.

A gente se vê por lá.

quinta-feira, junho 07, 2012

NEIL YOUNG AND CRAZY HORSE RESGATAM CANÇÕES DE ESCOLA E CAEM NO ROCK RASGADO


Para quem não sabe, Neil Young é epilético.

E sempre usa esse álibi meio furado para tentar justificar porque seus projetos são tão disparatados -- como se isso fosse uma explicação para essa mania de alternar coleções de rocks rasgados com discos totalmente solo, ou com bandas acústicas, ou meio eletrônicos, ou então simplesmente conceituais como os recentes 'Glendale", "Fork On The Road" e "Le Noise".

Na verdade, Neil Young é genial.

E é completamente maluco também.

Quando acerta, vai ao Nirvana sem escalas -- como nos clássicos "After The Golrush", "Zuma", "Comes A Time" e "Ragged Glory".

Quando erra, a gente faz de conta que não ouviu, e nem comenta nada.

Mais de 40 anos de carreira ininterrupta fornecem esse handicap a qualquer artista popular.

Que o digam Bob Dylan, Paul Simon e Paul McCartney, que gozam dessas mesmas regalias por parte de setores mais generosos da opinião pública.



Sua tão aguardada volta com o Crazy Horse depois de 8 anos é surpreendente.

"Americana" traz Young e os fabulosos Frank SanPedro (guitarra), Billy Talbot (baixo) e Ralph Molina (bateria) numa empreitada absolutamente despretenciosa, desfilando um repertório de covers meio sem pé sem cabeça, onde velhas canções folk ganham arranjos de rock rasgado, e números clássicos de rhythm and blues como "Get A Job" acabam virando brincadeiras inclassificáveis, mas muito divertidas.

Verdade seja dita: ninguém esperava a essa altura da carreira de Neil Young um disco de covers, até porque seu registro vocal faz dele um intérprete totalmente improvável.

Mas ele fez um mesmo assim -- e deve ter sido muito divertido fazê-lo, pois a banda toda ri bastante sempre que encerra cada número.

Teve gente que torceu o nariz para "Americana", e é compreensível.

Afinal, depois de 8 anos sem um disco novo de Neil Young & Crazy Horse, esperava-se algo mais consistente do que um disco casual e desencanado como esse.

Mas "Americana" é muito legal. Abre com duas velhas baladas de cowboy -- "Oh Suzannah" e "Clementine" -- em releituras roqueiras e irreverentes, com as letras originais bastante alteradas, e segue nessa mesma levada virando do avesso baladas folk tradicionais como "Tom Dula", "Gallow´s Pole", "Travel On", "Jesus Chariot" e "Wayfarin'  Stranger".

O mais engraçado de tudo é Neil ter escolhido para fechar o disco "God Save The Queen" -- não a dos Sex Pistols, e sim a original, que ele certamente tinha que cantar na escola onde estudava no Canadá quando era criança.

Aliás, todo o repertório do disco é composto de canções que eram cantadas nas escolas americanas e canadenses dos anos 50 e 60 -- o que explica muito da irritação da crítica.

A sonoridade peculiar e bem festiva do Crazy Horse dá o envolvimento adequado para a brincadeira, e lembra bastante a levada country rock que a banda praticava em meados dos anos 70 -- nada a ver, portanto, com os heroísmos vistos aqui no Brasil, quando eles tocaram nos palcos do Rock In Rio.



Não adianta: ninguém vai conseguir enquadrar Neil Young em qualquer formato que a ele não interesse aos 67 anos de idade.

Há muito tempo ele faz o que quer, e não está nem aí se o disco novo vai vender menos que o anterior, ou se existem metas de vendas a ser alcançadas.

E ai de quem ousar encher a sua paciência com detalhes desagradáveis como esses.


Portanto, quem não quiser se aborrecer como os críticos que mencionei há pouco, recomendo nem chegar perto de "Americana" num dia de mau humor.

Pode estragar a audição de um dos discos mais simpáticos e inusitados lançados este ano.

Divirtam-se bastante ouvindo -- como eles se divertiram fazendo.




BIO-DISCOGRAFIA
http://www.allmusic.com/artist/neil-young-mn0000379125

WEBSITE OFICIAL
http://www.neilyoung.com/

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quarta-feira, junho 06, 2012

B NEGÃO E OS SELETORES DE FREQUÊNCIA: SOUL MUSIC ZONA NORTE SÉCULO 21


Lá pelo final dos anos 90, quando o Planet Hemp era – ao lado da Nação Zumbi e do Mundo Livre S.A. -- o que havia de mais vigoroso na cena musical brasileira, tive a chance conhecer essa figura curiosa chamada B Negão.

Na época, o Hemp estava lançado "Queimando Tudo", seu disco derradeiro, e a vitoriosa tournée deles passava aqui por Santos, para delírio da molecada de todo o Litoral Paulista.

Fui até o hotel onde estavam hospedados para recepcioná-los em nome da rádio onde trabalhava -- responsável pela divulgação do show -- e tentar registrar uma entrevista num gravadorzinho de MiniDisc.

Chegando lá, não pude acreditar no que vi.

A banda havia tomado um andar inteiro em um hotel 3 estrelas no Centro da Cidade, Assim que saí do elevador, nuvens densas de maconha pairavam pelos corredores, e todas as portas de todos os quartos estavam abertas, com putas passeando para lá e para cá e todo mundo dando sonoras gargalhadas o tempo todo. Ou seja: o conceito roqueiro do Paraíso.

Pensei comigo: bom, a entrevista já rodou, está todo mundo meio fora de órbita e ninguém vai conseguir falar com objetividade em meio a toda essa esbórnia. Procurei por Marcelo D2, e não o encontrei em lugar algum daquele andar do hotel. Já B Negão eu nem precisei procurar muito. Me recebeu muito educadamente. Se apresentou como "o Bernardo". E, para minha surpresa, rendeu uma entrevista lúcida, extremanente clara e objetiva.

Mais tarde, na hora do show, numa casa noturna que funcionava no mesmo velho cinema onde outrora funcionou o Heavy Metal, na Praia do Boqueirão, fiquei de boca aberta com a performance da banda ao vivo.

Eu, que não via nada demais nos discos do Planet Hemp até então, saí de lá fã absoluto deles.

E para mim estava claro que pelo menos 30% do poder de fogo do Hemp ao vivo merecia ser creditado a B Negão e seu suingue fantástico que transbordava em raps fulminantes.


Pois bem, o MC e rapper B Negão dos tempos do Hemp hoje é passado.

"O Bernardo" o dominou completamente, levando-o a experimentar saídas musicais as mais diversas ao longo dos últimos 12 anos, em projetos como The Funk Fuckers, Turbo Trio e Loucomotivos, até chegar às faces musicais múltiplas de "Sintoniza Lá", à frente do grupo Seletores de Frequência.

Já na primeira audição do LP fiquei bastante impressionado com o vigor da empreitada. Tudo soa infinitamente mais intenso que em seu trabalho anterior com os Seletores, "Enxugando Gelo" (2003), e também muito superior a todas as bandas onde embocou nesses anos todos.

"Sintoniza Lá" brilha pela multiplicidade e pela modernidade, e mapeia de forma carinhosa todas as sororidades que fazem a cara das ruas dos dias e das noites do Rio de Janeiro nesse (ainda) início de Século. Por essas e outras, está para o momento musical atual assim como "Da Lata" (1995), de Fernanda Abreu, estava para os anos 90.

Suas 11 faixas trazem ecos dos Paralamas, da Motown, de O Rappa, do funk dos anos 70, do melhor rock and roll e até do Planet Hemp -- mas a maneira como essas sonoridades de alternam ou, vez ou outra, se misturam, nunca é menos que espetacular.

Se Marcelo D2 optou por fazer de sua carreira pós-Hemp um híbrido conceitual de rap e samba -- que aos poucos vai dando sinais claros de esgotamento --, "o Bernardo" prefere partir para uma antropofagia sonora onde se propõe a reinventar seu personagem B Negão a cada faixa do disco.

E B Negão resiste firme e forte.

Aliás, parece ter sido feito para esses tempos em que vivemos, e provavelmente estava quieto, apenas esperando por seu grande momento:

Agora.


Quer um conselho?

Não hesite e caia logo na festa do Bernardo que ele sabe muito bem onde quer chegar, e também onde quer levar você.

Aliás, sempre soube.

Desde aqueles tempos esfumaçados em que vivia queimando tudo até a última ponta.

BIO-DISCOGRAFIA
http://pt.wikipedia.org/wiki/BNeg%C3%A3o

CD Á VENDA NA DISQUERIA-SANTOS

MYSPACE
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segunda-feira, junho 04, 2012

JACK WHITE SAI EM CARREIRA SOLO E SE REINVENTA POR COMPLETO EM 'BLUNDERBUSS"



Desde quando surgiu à frente do duo The White Stripes -- ao lado de sua mulher, a baterista Meg White --, Jack White parecia ter um plano de vôo bastante claro:

1. Soar estranho
2. Agir de forma incomum
3. Jamais dificultar o acesso de seu trabalho ao grande público e aos meios de comunicação


Meio gênio, meio enganador, Jack White nunca escondeu que ser diferente e popular ao mesmo tempo sempre foi seu grande desafio mercadológico.

Apesar do formato dos White Stripes ser bastante semelhante ao utilizado pelo duo-casal texano Timbuk 3, muito popular nos anos 1990, a sonoridade das duas bandas sempre foi muito diferente.

Toda a excentricidade dos Stripes era exageradamente calculada -- ao contrário do Timbuk 3, que era anárquico e autosuficiente.

Mas tanto um quanto outro nunca deixaram de cultivar uma postura debochada diante do mainstream, além de embarcar em flertes eventuais com ele.

Claro que todo esse esforço não seria possível se a música dos White Stripes não fosse de alto gabarito. Não foi à toa que eles ganharam o mundo em 6 discos extremamente populares, que os projetaram direto para o topo da cena independente.



Mas o diabo é que muitas estações se misturaram, e o fim do casamento de Jack White com Meg White, somado às limitações terríveis do formato guitarra + bateria, acabaram levando ao encerramento de atividades dos White Stripes.

Quando isso aconteceu, Jack White já estava completamente envolvido por com dois projetos paralelos: a superbanda Raconteurs e o grupo de alt-country Dead Weather -- ambos extremamente bem sucedidos e voltados para segmentos de público diferentes.

Para não permitir que estações se misturassem novamente, e também para evitar crises de ciúmes entre seus parceiros de bandas, Jack nunca incluiu material dos Stripes nos shows das duas bandas, e jamais utilizou canções compostas para uma banda no setlist do show de outra, preservando assim a integridade artística de cada um de seus projetos.

Agora, que decidiu gravar seu primeiro álbum solo e sair em tournée com músicos convidados, Jack finalmente incluiu números de suas outras bandas no set list dos seus shows.

Mas não sem antes pedir licença a seus companheiros dos Raconteurs e Dead Weather, que permanecem ativos, mas em férias.

Algum de vocês já ouviu falar de algum astro de rock tão consciencioso assim?


Até agora eu não sei ao certo o que pensar de “Blunderbuss”, seu primeiro disco solo.

Não canso de escutá-lo há quase dois meses, e quanto mais tento entender esse novo passo ousado em sua carreira, mais eu fico sem saber o que dizer.

Cada faixa do disco parece revelar uma faceta diferente de Jack White, e tudo isso junto forma um pacote difícil de definir, mas extremamente fácil de digerir – o que provoca no ouvinte um estranhamento curioso.

Um exemplo disso: “Missing Pieces”, a intrincada faixa de abertura, lembra um pouco algumas brincadeiras musicais do início de carreira do grupo Sparks, que fez algum sucesso nos anos 70 – mas, mesmo sendo familiar, ainda assim soa estranha.

Já as guitarradas de “Sixteen Saltines”, um rock fulminante, lembram Dave Davies, dos Kinks – mas meio de passagem, pois na essência parece mesmo um número dos White Stripes tocado pelos Raconteurs.

A inusitada “Freedom At 21” lembra o Led Zeppelin viajando em velocidade de cruzeiro, mas com Robert Plant com a voz lá nas alturas em meio a uma batida sincopada frenética.

Já a faixa título do disco parece alguma balada fugitiva de "Gasoline Alley", de Rod Stewart.

E por aí vai...


Todas as canções de “Blunderbuss” parecem ter sido compostas no violão, de forma bem simples.

No entanto, seus arranjos foram todos estranhamente moldados ao piano, complicando bastante a estrutura e as harmonias dessas canções.

Tudo isso somado à produção refinadíssima e, ao mesmo tempo, urgente de Jack, acaba gerando os contrapontos musicais e estilísticos que fazem desse disco um dos lançamentos mais intrigantes e, ao mesmo, mais agradáveis deste ano.

Mas... será que isso explica tudo o que “Blunderbuss” propõe em termos artísticos?

Será que é possível desconstruir Jack White de forma tão óbvia, e se satisfazer com definições artísticas que sejam eventualmente simplórias e indignas?

Será que eu não estou sendo leviano com um gênio incompreendido -- ou, quem sabe, estar bancando o ingênuo com um grande pilantra, mesmo depois de 40 anos ouvindo discos novos diariamente?

Se você, assim como eu, acha que já ouviu de tudo na vida, experimente “Blunderbuss”.

Jack White vai dar um belo nó na sua cabeça, pode ter certeza.






BIO-DISCOGRAFIA:
http://www.allmusic.com/artist/jack-white-mn0000128873

WEBSITE OFICIAL:
http://jackwhiteiii.com/

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domingo, junho 03, 2012

GRAVELROAD GUIA O BLUES RUMO AO SÉCULO 21


Quem diria que um power trio formado há 8 anos por três brancos de alma roqueira -- muito talentosos e inventivos, mas também extremamente reverentes ao blues ainda hoje praticado no "deep south" americano -- iria conseguir se afirmar de forma tão eloquente em termos artísticos no panorama blueseiro atual?

Pois essa é a história de vida (até agora) do Gravelroad.

Desde o primeiro ano de vida da banda, eles sentiram que, se permanecessem sozinhos, não iriam chegar a lugar nenhum.

Daí uniram forças com o bluesman octogenário T-Model Ford, uma das figuras mais loucas e emblemáticas do blues atual -- analfabeto, pai de 26 filhos, que conseguiu iniciar sua carreira musical nos anos 1960 depois de muitos anos como trabalhando como peão de obra e outros tantos anos cumprindo pena numa Prisão do Mississipi por assassinato.

Gostaram do velhinho, e decidiram virar uma espécie de "banda cavalo" dele.

Foi um casamento perfeito, que resiste bravamente até hoje -- e que permite ao Gravelroad apostar em discos próprios sempre que T-Model Ford está descansando dos palcos e dos estúdios de gravação.



"Psychedelta" é o quarto disco da carreira do Gravelroad, e o mais festejado até agora -- apesar deles ainda não terem conseguido emplacar como mereciam.

Ouvi numa tacada só com muito prazer. Me lembrou muito os primeiros trabalhos do Z Z Top no início dos anos 70, antes deles começarem a brincar com sintetizadores e estragarem tudo. Se bem que o Gravelroad é bem superior musicalmente ao Z Z Top dos dois primeiros LPs.

Pois "Psychedelta" combina essa urgência musical texana com o suingue ríspido, sem contrabaixo, dos combos de blues eletrificados do Mississipi, mais as guitarradas modernosas e atemporais de Jimi Hendrix -- não por acaso, natural de Seattle, assim como os nossos três rapazes.

Formado pelos guitarristas John 'Kirby" Newman e Stefan Zillioux, mais o baterista Martin Reinsel, o Gravelroad define sua música como "acid blues". Se autodefinem "exploradores musicais", transcendendo gêneros e trazendo para seu blend de blues um molho e uma sabedoria musical que faltam a 99% das bandas atuais de "blues-rock" .

Isso se reflete nos vários números instrumentais presentes em "Psychedelta" -- rápidos, rasteiros, e sempre muito climáticos.

E isso também salta aos ouvidos em composições completamente inusitadas como "In The Woods" e "Nobody Gets Me Down", indefiníveis por natureza e fora de qualquer cartilha musical, mas que -- mais uma vez -- remetem ao espírito musical sempre indômito de Jimi Hendrix.



De todas as virtudes que o Gravelroad ostenta, talvez a maior delas seja brigar para repaginar o blues e colocá-lo no mapa musical do Século XXI.

Não é uma tarefa das mais fáceis.

Até porque uma grande parcela do público de blues tradicional torce o nariz para empreitadas crossover com outros gêneros musicais -- tônica principal do que eles fazem.

Já o público adepto do blues-rock consegue ser ainda mais conservador que o do blues tradicional, prestigiando apenas aqueles guitarristas exagerados que são discípulos declarados de Stevie Ray Vaughan -- e não admitem coisa alguma que fuja a esse padrão.

O Gravelroad tem a difícil missão de, pouco a pouco, dobrar essas duas vertentes de público que primam pela teimosia e pelo conservadorismo, para ser aceito por um público mais amplo.

Se vai conseguir, não se sabe.

Mas que a música que eles fazem é grande, de primeira grandeza, e merece uma chance com todo esse público, disso não resta a menor dúvida.






WEBSITE OFICIAL:
http://gravelroadblues.com/

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sábado, junho 02, 2012

RELANÇADO O MELHOR LP AO VIVO DA HISTÓRIA DO ROCK & ROLL: 'BO DIDDLEY´S BEACH PARTY"



Nos primeiros anos da década de 1960, era relativamente comum entre artistas de grande apelo popular gravar discos ao vivo com microfones abertos para a platéia, para assim captar de forma plena tanto a energia de quem está tocando no palco quanto a vibração de quem está assistindo o show.

Deixar a euforia e a eventual gritaria da platéia tomar conta do mix final desses discos era uma maneira de driblar as deficiências técnicas e a falta de recursos disponíveis para as gravações ao vivo na época.

Quem se der ao trabalho de ouvir LPs ao vivo desse período -- como “Got Live If You Want It” dos Rolling Stones, ou “Live At The Regal” de B B King – vai sentir como esse conceito de mixagem funcionava extremamente bem, isso quando feito da maneira certa.

É dessa época também o conceito do “disco de festa” gravado ao vivo em estúdio com uma quantidade infinitamente superior de recursos de gravação, com gente falando alto enquanto os artistas tocam de forma descontraída seus sucessos ou versões cover de canções de outros artistas.

Uma peculiaridade desses “discos de festa” é que não costumavam ter separação de faixas -- neles, todas as canções sempre começam e terminam envoltas em muito falatório e muitas gargalhadas.

O LP “The Beach Boys Party” é um exemplo clássico disso.

Aqui no Brasil, a série de LPs “Alegria, Alegria”, de Wilson Simonal, gravados entre 1966 e 1969, segue esse mesmo padrão.


“Bo Diddley´s Beach Party” é uma combinação curiosa desses dois formatos de disco ao vivo.

Considerado por vários críticos o melhor LP de rock and roll de todos os tempos, ele estava fora de circulação há muito tempo, e nunca havia sido relançado em CD pela Chess nos Estados Unidos em sua versão mono original -- existia apenas numa "versão frankestein" com stereo fajutado eletronicamente, que circulou pela Europa numa edição da Charly Records.

Totalmente gravado ao vivo numa praia na Carolina do Sul diante de uma platéia bem festiva -- com recursos técnicos limitados e uma banda de apoio sob medida para seus devaneios selvagens naquela charmosíssima guitarra quadradinha e em suas vocalizações divertidas e inusitadas.--, “Bo Diddley´s Beach Party” traz nosso herói Elias McDaniel, vulgo Bo Diddley, desfilando um número explosivo atrás do outro, numa seqüência de altíssima voltagem que tem um único defeito: dura apenas 33 minutos.

Esse disco, para quem não sabe, era um dos favoritos de Mick Jagger & Keith Richards, e serviu de modelo por uns bons anos para as peripécias no palco dos jovens Rolling Stones. Basta ouvir as gravações dos Stones ao vivo em 1964 para sentir como eles tocam parecido com a banda de Bo Diddley nesse “Beach Party”. A semelhança é tamanha que tem gente maldosa por aí que diz que esse LP merece ser guardado na estante junto com a discografia dos Stones...

O que mais impressiona ao ouvir “Beach Party” após todos esses anos é constatar que Bo Diddley conseguiu manter, a um custo altíssimo, a essência do seu blend de rock and roll e rhythm & blues viva e selvagem num momento, 1963, em que todos os artistas seminais do gênero tentavam amenizar e diluir seus trabalhos para não sofrer represálias dos setores conservadores da sociedade americana.

Afinal, esses mesmos setores já haviam crucificado artistas negros como Chuck Berry e Little Richard pelo pecado portal de terem virado ídolos da juventude branca.


É questão de ouvir, vibrar e depois tirar o chapéu para "Bo Diddley´s Beach Party". Um disco espetacular, que permanece impávido em seu mix original em mono mesmo quase 50 anos depois de ter sido gravado.

Infelizmente, foi o último grande sopro de popularidade de Bo Diddley.

Ele foi sumindo das paradas paulatinamente, enquanto a Invasão Britânica (dos Beatles, Animals, Kinks e Rolling Stones) tomava conta da cena musical americana, isso de 1964 em diante.Bo Diddley só iria conseguir ressurgir com material novo a partir do início dos anos 70, em gravações geniais feitas em Londres com aquela rapaziada de lá.

Eu assumo: faço parte dos fãs incondicionais de "Bo Diddley´s Beach Party".Nenhum outro herói da primeira geração do roll conseguiu produzir um disco ao vivo tão bom quanto esse. Nem Jerry Lee Lewis em seu espetacular "Live At The Star Club" consegue brilhar e ferver tanto quando o velho Bo.

Fico feliz de ter tido a chance de ver Bo Diddley ao vivo num Festival de Blues no Ginásio do Ibirapuera em 1990, onde desfilou todos os seus grandes sucessos de forma vigorosa para uma platéia lamentavelmente desinteressada, que estava lá apenas para ver e ouvir ícones do blues de Chicago como Koko Taylor e Magic Slim & The Teardrops.

Bem... o azar é todo deles.

Para mim, naquela noite de 1990, era 1963 novamente numa praia na Carolina do Sul, em plena Era de Ouro do Rock & Roll.


BIO-DISCOGRAFIA:
http://www.allmusic.com/artist/bo-diddley-mn0000055128

WEBSITE OFICIAL:
http://www.bodiddley.com/

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sexta-feira, junho 01, 2012

RON CARTER SE REINVENTA MAIS UMA VEZ. AGORA COMANDA UMA BIG BAND ESPETACULAR.



Jazz sem contrabaixo não existe. 

Ou, ao menos, não existe em toda a sua plenitude. 

É o baixo que determina o drive, que estabelece o chão e que fornece o tapete para que qualquer arranjo -- seja para duos, trios, quartetos, quintetos e até mesmo orquestras -- funcione.

Não é nenhum exagero afirmar que Ron Carter é não só o maior contrabaixista vivo, como também o mais experimentado, o mais elegante e um dos únicos a conseguir estabelecer uma carreira como band-leader.

Domina todas as possibilidades tanto do cello quanto do contrabaixo – e, não satisfeito com isso, ainda desenvolveu um instrumento acústico muito interessante chamado Picollo Bass, bastante difundido de uns tempos para cá. 

Só não é muito chegado em baixos elétricos, apesar de ter feito uso esporádico deles nos anos 1980.


A carreira de Ron Carter é nada menos que espetacular. 

Desde o início prá lá de eloquente, em meados dos anos 50, nas bandas de Chico Hamilton e de Eric Dolphy. 

Depois brilhando como sideman em combos de diversos formatos com os amigos Cannonball Adderley, Randy Weston, Thelonious Monk, Bobby Timmons e Art Farmer. 

Até desembarcar no inigualável Miles Davis Quintet em 1963, ao lado de Tony Williams, Herbie Hancock e Wayne Shorter, virando os conceitos do jazz de ponta cabeça e libertando-o de todas as amarras ao longo de seis anos extremamente produtivos.

Foi quando percebeu que não cabia mais em grupo algum na condição de sideman e iniciou uma carreira como solista e band-leader em discos nada menos que espetaculares, como “Blues Farm” (CTI 1973), “Milestones with Sonny Rollins & McCoy Tyner” (Milestone 1980) “The Bass And I” (Blue Note 1997) e “Dear Miles” (Blue Note 2006)


Vocês já ouviram falar de algum baixista que tivesse comandado uma Orquestra de Jazz?

Pois foi exatamente o que Ron Carter decidiu fazer – e fez -- ano passado, reinventando-se mais uma vez como artista de jazz nesse espetacular “Ron Carter´s Great Big Band”, com arranjos bastante incomuns providenciados por Robert M Freedman para clássicos do jazz compostos entre os anos 1920 e 1970, e utilizando alguns dos melhores músicos de Nova York nos 13 números – nenhum deles com mais de 5 minutos de duração -- que compõem o disco.

Os destaques – se é que é o caso de destacar alguma coisa aqui, já que o disco inteiro é espetacular – ficam por conta de “The Eternal Triangle”, de Sonny Stitt, e  “Line For  Lions”, de Gerry Mulligan, números clássicos que ganham releituras tão intensas que certamente deixariam seus autores orgulhosos.

O mesmo vale para “Com Alma”, um dos temas favoritos de Dizzy Gillespie, além de “Footprints” de seu velho comparsa Wayne Shorter e das releituras extremamente originais para “Caravan”, de Duke Ellington, e “St. Louis Blues”, de W C Handy. 

Em meio a tudo isso, números como “Loose Change” e “Opus 1.5 - Theme For Clifford Brown”, ambos de autoria do próprio Ron Carter, e com linhas de contrabaixo espetaculares, caem redondos como um brandy bem maturado e um bom charuto.


Ron Carter estudou cello desde menino, no Estado do Mississipi, porque queria tocar em Orquestras Sinfônicas quando adulto.

Já quase adulto, nos anos 1950, tentou mas nunca conseguiu ser aceito tantos nas Orquestras Sinfônicas do Sul dos Estados Unidos quanto na Detroit Symphony.

O motivo: Segregação Racial.

E foi isso que o obrigou a trocar o cello pelo contrabaixo, e a música erudita pelo jazz.

Daí, ver Ron Carter comandando uma Orquestra com seu contrabaixo em plena Era Obama, e alternando seu trabalho jazzístico com discos solo com temas de Bach tocados no cello -- como em "Ron Carter Plays Bach", que está sendo lançado por esses dias --, é algo no mínimo emocionante.

É a evidência definitiva de que justiça poética pode ter swing.



BIO-DISCOGRAFIA:
http://www.allmusic.com/artist/ron-carter-mn0000275832

WEBSITE OFICIAL:
 http://www.roncarter.net/officialSite.html

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