domingo, maio 13, 2012

DJ TUDO: NOS QUINTAIS DO MUNDO E AGORA TAMBÉM À BEIRA-MAR, EM SANTOS.


Nessa próxima terça, o Baile AFROJAZZLATINO & Outras Quisassas vai entortar de vez o prédio da esquina da Siqueira Campos com a Praia, em Santos.

Os intrépidos DJs Stéfanis Caiaffo, Luiz Dias Lufer e Wagner Parra, do FUTURAFRICA, terão o reforço do liquidificador cultural e do caldeirão musical de Alfredo Bello, mais conhecido como DJ Tudo.

Apesar de sua alcunha DJ Tudo ser aparentemente autoexplicativa, acreditem: definí-lo não é tarefa das mais fáceis.

O musicólogo Júlio de Paula, do website CulturaBrasil, que o diga. Esse texto a seguir é de autoria dele:

"Folclorista do século XXI, ele é mestre do afrobeat. Cruzou fronteiras pra pisar em outros terreiros. Perré-dub, dub-ijexá, coco jungle são construções nascidas de suas garrafadas. DJ Tudo é cria (e personagem) do músico e produtor musical Alfredo Bello. Baixista, tecladista e percussionista que já atuou com Lee Scratch Perry, Otto, Apollo 9, além das bandas Dona Zica e Pedra Branca. Produziu os álbuns de Junio Barreto e Gero Camilo, para citar apenas dois. Ao lado de Simone Sou e Marcelo Monteiro, manteve o Projeto Cru. Tendo em vista as mais distintas culturas do mundo, em seu segundo projeto, o DJ Tudo parte para a mistura, expandindo as fronteiras de comunidades da Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Goiás. Nos quintais do mundo é álbum gravado e editado entre idas e vindas a São Paulo com colaboração e conexão real a Escócia, Inglaterra, Suécia, França e Senegal. A tecnologia é mais uma arma, uma possibilidade para pensar a música. Equipamentos portáteis de registro em campo possibilitam a colaboração, a arte coletiva. Para entender o conceito do álbum é preciso saber qual o papel do disc jockey. Alfredo Bello trabalha com a ideia do novo e do desconhecido - o DJ deve ser um circulador de novas informações, “mesmo que elas sejam antigas”, ele diz. Ampliar os horizontes para o futuro e para o passado levaram o DJ Tudo pelos caminhos da música tradicional. Antes do DJ, vem o pesquisador de campo com seus microfones a postos. “Bem, eu acredito que [os registros da cultura tradicional] são recortes da história da humanidade. Meu acervo é uma parte, um tijolinho num muro grande que é a história da humanidade”, diz Alfredo. Globalização musical é derrubar fronteiras e levantar as vozes em uníssono por um mundo melhor. “Nos quintais do mundo é uma ampliação do quintal brasileiro pra dialogar com o mundo. O diálogo é muito importante, acho que a gente tem muito problema no mundo por falta de diálogo”

Deu para entender?

Então venha conhecê-lo ao vivo nesta terça, a partir das 22 horas, no Torto (Siqueira Campos com Avenida da Praia).

Você vai descobrir que esse folclore modernoso que ele manipula de forma tão brilhante não só é o futuro da música brasileira moderna, como já é o que há de mais moderno acontecendo na cena alternativa hoje.

Visite o website do selo Mundo Melhor e conheça um pouco mais dessa aventura musical absolutamente singular: http://www.selomundomelhor.org/


Lembrando que nesta terça, a partir das 14 horas, Alfredo Bello/DJ Tudo estará autografando seus CDs na DISQUERIA, Avenida Conselheiro Nébias quase esquina com a praia, em Santos.


sexta-feira, maio 11, 2012

A ADORÁVEL ANARQUIA MUSICAL DA DIRTY DOZEN BRASS BAND ESTÁ DE VOLTA.


Eu lembro como se fosse ontem do primeiro disco da Dirt Dozen Brass Band que escutei, e do estrago que ele provocou na maneira como eu via até então o jazz de New Orleans.

Foi 23 anos atrás, com o disco de estréia deles para a Columbia Records, “Voodoo”, uma pequena obra-prima que misturava a instrumentação clássica das bandas de rua com o rhythm & blues e o jazz moderno, numa atitude absolutamente transgressora e, ao mesmo tempo, festiva e dançante, com participações espetaculares de Dizzy Gillespie e Dr. John.

A grande sacada da Dirty Dozen Brass Band estava em usar o souzaphone para fazer a marcação do contrabaixo com a pulsação do funk – algo que ninguém tinha tentado antes.

Depois de ouvir esse disco, confesso que nunca mais tive a menor paciência com sonoridades clássicas de New Orleans paradas no tempo que se negam terminantemente a mergulhar no borbulhante e apimentado caldeirão musical de lá, que inclui ritmos caribenhos, cajun e influências recém-chegadas da Mãe Africa, .

Foi nessa mesma época – e em parte por causa disso -- que perdi completamente a paciência com o chorinho e com a atitude purista e babaca da imensa maioria dos chorões -- mas isso é um outro assunto, que não cabe aqui nesse texto, até porque é meio chatão.


O caso é que a Dirty Dozen Brass Band está de volta com um LP delicioso chamado “Twenty Dozen” para o selo Savoy Jazz.

Alguns setores da crítica reclamaram dele, alegando ser o mais ortodoxo e menos transgressor da carreira da banda.Eu, pessoalmente, discordo. É com certeza o álbum menos anárquico que eles já gravaram. Mas é um trabalho vigoroso, repleto de experimentos musicais iusitados e impressionantes.

A faixa de abertura, “Tomorrow”, por exemplo, começa como um número de rhythm & blues típico da cidade e evolui para um ska completamente ensandecido. De tirar o fôlego.

O proto-funk “Joop” é outro exemplo dessas experimentações. Começa como se fosse um tema de seriado de detetives dos anos 70 e acaba virando uma brincadeira deliciosa – e nada inconsequente -- entre os trumpetistas, os saxofonistas e o trombonista da banda.

E ainda tem uma releitura muito estranha -- mas bem divertida -- para “Don't Stop The Music”, de Michael Jackson, além de versões absolutamente histéricas – e igualmente divertidas -- para clássicos do repertório da cidade como “E-Flat Blues” e “When The Saints Go Marchin´ In”, diferentes de todas as outras já executadas pelas inúmeras Brass Bands de New Orleans. .


Enfim, dá para sentir que a Dirty Dozen Brass Band procurou privilegiar seu lado mais jazzístico em “Twelve Dozen” para satisfazer o pessoal da Savoy Jazz Records, que bancou o disco.

Isso não significa que eles tenham abandonado aquela anarquia adorável que eles promovem habitualmente, tanto nas gravações de estúdio quanto em apresentações ao vivo. Até porque não faria o menor sentido a Dirty Dozen Brass band abrir do seu grande diferencial apenas para se adequar a uma gravadora.

Agora, vai ser engraçado se -- ao contrário das Brass Bands tradicionais e dos grupos de Dixieland, que impoem normas de conduta relativamente rígidas a seus músicos – a Dirty Dozen Brass Band, do alto de seus 35 anos de carreira, estabelecer toda uma tradição da anarquia musical de New Orleans.

E, pior, fizer escola.

Aí, aquela cidade vai ficar ainda mais louca do que já é, podem ter certeza...


INFO:
http://www.allmusic.com/artist/the-dirty-dozen-brass-band-p6405/biography

DISCOGRAFIA:
http://www.allmusic.com/artist/the-dirty-dozen-brass-band-p6405/discography

WEBSITE OFICIAL:
http://www.dirtydozenbrass.com/

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ATÉ QUANDO É AGRESSIVA E DESAGRADÁVEL, NORAH JONES SOA DOCE E MAGNÍFICA



Eu tenho um caso sério com Norah Jones.

Desde o momento em que ouvi, dez anos atrás, “Come Away With Me”, seu primeiro disco solo -- onde ela mesclava jazz e pop com uma levada meio bluesy, e às vezes meio folk, mas sempre de extremo bom gosto – fiquei perdidamente enfeitiçado.

Confesso que, na ocasião, não achei original seu approach musical. 

Toda aquela salada que ela prepara alí já havia sido testada antes – mais precisamente no início dos anos 70 -- por artistas como Maria Muldaur, Wendy Waldman e Valerie Carter, que continuam por aí até hoje, mesmo não tendo sido tão bem sucedidas comercialmente quanto ela.
O caso é que havia algo de estranhamente cativante no trabalho de estréia de Norah Jones, do tipo “decifra-me ou te devoro” – que eu confesso que não consegui decifrar, e que me devorou.

Não era apenas a produção do especialista Arif Mardin. Nem a doçura e o alto gabarito dela como cantora e compositora. Era algo mais. Um equilíbrio muito delicado, e verdadeiramente arrebatador. E um mistério: como explicar que uma estreante como ela pudesse chegar à cena mainstream de forma tão determinada e incondicional?

Dez anos e seis discos se passaram e eu continuo sem entender que magia é aquela que vem de “Come Away With Me”, e de todos os outros álbuns solo dessa adorável cantora e pianista, filha de mãe texana e pai indiano – ninguém menos que o genial Ravi Shankar.

Seja lá o que for que emane de Norah Jones, permanece no ar, imagino que encantando a todos. E essa regra vale até mesmo para discos um pouco estranhos, como esse que ela acaba de lançar. 


“Little Broken Hearts” é o sexto trabalho solo de Norah Jones, e o mais aventuresco que ela gravou até agora.
                                                                                                              
Justo quando todos esperavam que -- por conta de seu tumultuado divórcio, muito noticiado pela Imprensa -- Norah fosse reaparecer em cena se rasgando toda e cantando “torch songs” no melhor estilo “Carly Simon vivendo sem James Taylor”, eis que ela surpreende a todos com o disco mais “up” de sua carreira.

"Little Broken Hearts" é dissimulado e envolvente. Nele, a doçura habitual de Norah Jones se esconde por trás de letras truculentas e até meio malcriadas, e suas canções ganham uma moldura sonora pop noir bem modernosa, providenciada pelo craque Danger Mouse, do Gnals Barkley.
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Quase tudo é espinho nos números aparentemente alegrinhos que compoem “Little Broken Hearts”. Na desconcertante “She´s 22”, por exemplo, ela pergunta candidamente a seu ex-amante se sua nova namorada, de apenas 22 anos, consegue fazê-lo feliz? Em “Say Goodbye”, em meio a um riff oriental, ela desdenha seu ex-amante e diz na cara dele, serenamente, que mentirosos como ele só merecem uma coisa: adeus. Mais da metade das canções do disco segue nesse tom.

Só lá pelas tantas, em “Traveling On”, Norah deixa a raiva um pouco de lado e assume sua atitude escapista. É quando as canções passam a ostentar novamente aquela doce melancolia que todos nós conhecemos muito bem de seus discos anteriores. Até chegar em “All A Dream”, faixa de encerramento do disco, em que ela reduz a zero, sem piedade e com uma delicadeza ímpar, o cidadão que inspirou todas as canções desse “Little Broken Hearts”.

É um álbum com a duração de um LP: 45 minutos de duação.

Extremamente climático já a partir da capa, que traz a sempre adorável Norah mais linda do que nunca, fazendo um tipo fatal bem inusitado.

Com certeza não vai agradar aos que encaram Norah Jones como uma artista de pop adulto com um estilo cristalizado. Mas revela uma faceta adorável de sua personalidade musical, que deve introduzí-la a uma nova faixa de público que aprecia as sonoridades muito envolventes de Danger Mouse e o Gnals Barkley.

Enfim, "Little Broken Hearts" é sob medida para fazer novos amigos e também para deixar velhos fãs babões como eu completamente extasiados.

Quer um conselho? Antes de descartar o disco por ser diferente demais, dê a ele uma segunda chance. E uma terceira, se necessário.

Essa menina merece, ela é demais...

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quarta-feira, maio 09, 2012

O RETORNO SEMPRE BEM-VINDO DE CRIS BRAUN NUM DISCO TERNO, DENSO E TURBULENTO



Sempre que alguém faz menção ao rock carioca dos anos 80 e 90, o assunto é invariavelmente Cazuza, Lobão, Barão Vermelho, Paralamas ou Kid Abelha.

Todo mundo parece ter esquecido que a cena roqueira carioca tinha um segundo time espetacular, que infelizmente passou batido do grande público na época -- o que condenou bandas brilhantes como Picassos Falsos e Sex Beatles a ficar restritos apenas ao circuito alternativo.

A gauchinha espevitada Cris Braun apareceu justamente como vocalista nos Sex Beatles, uma banda tão divertida quanto difícil de classificar -- parecia um cruzamento dos Mutantes com o Concrete Blonde, como algo assim fosse possível.

Ela dividia a cena com Alvin L, compositor e tecladista de gênio, e com o produtor e guitarrista Dado Villa-Lobos, dono do selo Rockit!.

Não duvidem: eles não só faziam música de primeira, como frequentemente passavam a impressão de estarem se divertindo no palco muito mais do que quem estava na platéia.
 

Talvez por isso mesmo, nenhum dos dois discos brilhantes que a banda gravou – “Automobilia” (1994) e “Mondo Passionale” (1996) -- tenha conseguido vingar, deixando a banda cheia de dívidas e com um futuro incerto demais pela frente.

Com o fim dos Sex Beatles, Alvin L saiu por aí e Cris Braun começou a flertar com uma possível carreira solo.

Deu no que deu: em 1997, com a ajuda de um time de amigos estelares, Cris Braun gravou e lançou seu primeiro disco solo, “Cuidado Com Pessoas Como Eu”, pelo selo Fullgás da amiga Marina Lima.

Apesar de muito bem recebido pela crítica, “Cuidado Com Pessoas Como Eu” falhou ao não conseguir amenizar um certo estranhamento que existia -- e talvez ainda exista até hoje, num grau bem inferior -- em relação à figura de Cris Braun. Como explicar sua atitude roqueira naquele repertório de MPB com arranjos bem pop e com um pé na música eletrônica?

Por essas e outras, “Cuidado Com Pessoas Como Eu” foi considerado MPB demais pelas rádios rock e roqueiro demais pelas rádios adulto-contemporâneo -- e acabou não sendo executado como merecia em nenhuma das duas modalidades de emissora.

Já no seu segundo disco, "Atemporal", gravado em 2004, Cris Braun, ao invés de tentar corrigir esse estranhamento, o incorporou às composições que fez em parceria com Gustavo Corsi e Billy Brandão, resultando num disco climático, nada afoito, repleto de convidados e com uma atitude roqueira bem relaxada, mas jamais adormecida.


E eis que, oito anos depois, Cris Braun volta com “Fábula”, uma nova coleção de canções estranhamente pontuais, onde promove um mix de rock and roll com ritmos nordestinos e baladas pop sem igual na música brasileira moderna.

Gravado parte com músicos de Alagoas, onde vive atualmente, e parte no Rio de Janeiro, "Fábula" é uma espécie de crônica roqueira da chegada à maturidade inevitável.

É um disco cheio de solavancos, onde Cris canta de forma serena o tempo todo, apesar das canções se alternarem com muita turbulencia, além de um viés existencial sempre muito envolvente e arranjos extremamente originais.

“Tão Feliz”, por exemplo, lembra um pouco Edu Lobo e Antonio Adolfo, mas ostenta um coro de vozes sintetizadas que Edu, por exemplo, jamais aprovaria – o que dá o diferencial nessa explosão bem dosada de melancolia.

Outro exemplo curioso é “Oscilante”, só com voz e batucada baiana -- uma brincadeira deliciosa que mescla imaginário pop com raízes africanas, como nunca alguém ousou fazer por aqui. 

E o que dizer do reggae “O Amor Calou”, todo levado no órgão, na sítara e na harmônica, e com referências a “Carinhoso”, de Pixinguinha, na letra? No mínimo, genial.

Tem ainda, entre outras coisas, releituras impecáveis de “Tanto Faz Para O Amor”, de Lucas Santana, e de “Deve Ser Assim”, de Marina Lima e Alvin L, que revelam em Cris Braun uma intérprete sofisticada e de uma sensibilidade ímpar.


“Fábula” é um daqueles discos aparentemente tortos que a gente deixa tocando o dia inteiro e ele -- assim, como quem não quer nada -- sai preenchendo todas as nossas horas com emoções genuínas dos mais diversos tipos.

É um trabalho envolvente, carinhoso, incômodo, cativante, delicado, truculento, ameaçador... Nada ao mesmo tempo agora. Mas tudo a seu tempo...

Cris Braun diz que “Fábula” não é pacato como o anterior “Atemporal” porque não foi concebido na paz da Serra Carioca, e sim à beira-mar, em Maceió, onde mora atualmente e convive com as turbulências que vêm do oceano.

Faz sentido.

Seja como for, “Fábula” é desde já um dos melhores discos desse ano, e afirma Cris Braun como uma cantora e compositora de primeiro time da música brasileira moderna -- que conseguiu, a duras penas, se ver livre do estigma de "artista esquecida e não-reconhecida dos anos 90".

Confiram os números musicais de Cris Braun nas janelas do YouTube logo abaixo.

Mas respirem fundo antes de cada um deles.



WEBSITE OFICIAL:
http://www.crisbraun.com.br/

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"FRESH CREAM", ÁLBUM DE ESTRÉIA DO CREAM, COMPLETA 45 ANOS (Videocrônica para o JORNAL DA ORLA WEB - Maio 08, 2012)

terça-feira, maio 08, 2012

ANDERS OSBORNE SE AFASTA UM POUCO DO BLUES PARA REENCONTRAR A SI PRÓPRIO



O sueco Anders Osborne é uma figuraça.

Há 27 anos vivendo em New Orleans, esse cantor, compositor e guitarrista estranhamente talentoso não cansa de nos surpreender com seu blend único de blues, soul, folk e rock and roll.

Anders Osborne conhece como ninguém a música dos Estados Unidos. Fascinado pelos cantores e compositores dos anos 70, com Neil Young e Jackson Browne, ele acidentalmente descobriu o blues e se apaixonou. Viajou pela América aos 16 anos de idade incentivado por seu pai, que é músico de jazz na Suécia, e desde então mergulha cada vez mais fundo nas raízes musicais do país que o adotou.

Não demorou muito a concluir que New Orleans era onde ele queria viver, e desde seu disco de estréia, de 1995, vem participando da cena musical local com um trabalho híbrido e vigoroso.

Em 2007, decidiu deixar seu lado performer fulminante um pouco de lado para apostar em seu lado compositor.

Suas belas canções sobre a New Orleans pós-Katrina deram origem a um lindo disco chamado "Coming Down", que só serviu para elevar seu prestígio no meio musical.

Agora, já consagrado como uma das figuras emergentes mais vitais da cena blueseira americana, Anders assinou com a Alligator Records, de Chicago, e partiu para um trabalho voltado para um público mais amplo.

Com LPs ainda mais híbridos e aventurescos do que os que desenvolvia antes.
Estreou na Alligator em 2009 com “American Patchwork”, um disco com um conceito essencialmente hendrixiano, muito bem recebido por crítica e público.

E agora ele retorna com esse “Black Eye Galaxy”, onde que segue uma rota musical que tem mais a ver com Neil Young e seu Crazy Horse, mesclando o som e a fúria de suas guitarradas com devaneios musicais acústicos muito reveladores de seu momento de vida atual.

As duas primeiras faixas do disco -- "Send Me A Friend" e "Mind Of A Junkie" -- falam sobre dependência química, e tentam colocar em termos musicais o desespero e a dificuldade em lidar com a abstinência.

E conforme “Black Eye Galaxy” vai avançando, Anders segue rumo a um resgate pessoal em números como “Tracking My Roots” e “Louisiana Gold”, onde reavalia sua vida e suas opções existenciais. 

Mais adiante, na faixa título, ele não deixa por menos e embarca numa viagem musical surpreendente serena e completamente inusitada.

E tudo culmina em “Higher Ground”, um gospel muito delicado, onde mulher e filha se unem a ele e todos cantam juntos, num desfecho comovente para essa sequência contundente de canções.


A sensação que fica após ouvir esse “Black Eye Galaxy” é que Anders Osborne está fechando a conta da primeira metade de sua carreira, e abrindo alas para o que vem de agora em diante.

Aos 46 anos de idade, ele parece estar se preparando para um passo ainda maior muito em breve. 

Portanto, se você ainda não conhece o trabalho desse sueco naturalizado americano, o disco que vai fazer as devidas apresentações é esse aqui mesmo.

Acreditem: Anders Osborne é o cara.


INFO:
 http://www.allmusic.com/artist/anders-osborne-p169518/biography

DISCOGRAFIA:
 http://www.allmusic.com/artist/anders-osborne-p169518/discography

WEBSITE OFICIAL:
http://www.andersosborne.com/

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segunda-feira, maio 07, 2012

Relendo Revistas Velhas num Domingo de Chuva: A ROLLING STONE BRASILEIRA DE 1972




Por Ana Maria Bahiana (publicado originalmente pelo Digestivo Cultural)

Ficava no segundo andar de um sobrado cor-de-rosa na esquina de Visconde de Caravelas com Conde de Irajá. Das janelas, via-se o Corcovado e tudo parava no final da tarde para um sorvete e outras guloseimas menos legais. O chão era de tábuas corridas e rangia. O banheiro tinha um pequeno nicho a São Jorge, Iemanjá, Buda e Shiva. Num extremo do sobrado, ficava o santo dos santos: o escritório dos donos, um inglês e um americano muito festeiros.

Só os chefes – Luís Carlos Maciel, editor, Lapi, diretor gráfico – tinham acesso a ele. Fui lá uma vez: assinaram minha carteira de trabalho estalando de nova, a primeira anotação da minha vida.

No outro extremo, ficava a redação. A primeira sala era de Lapi. Parte do meu trabalho era manter Lapi feliz e sossegado, o que nem sempre era fácil considerando a noção vaga de "tempo", "prazo" e "pauta" que reinava na outra sala, um cômodo de janelas enormes, eternamente fechadas.

Este era o império de Ezequiel Neves, que às vezes respondia por Zeca Jagger e era, na verdade, o coração, a força motriz e o verdadeiro Shiva dançante de todo o sobrado. Zeca tinha uma juba encaracolada, um perpétuo bronzeado e uma lampadinha no pescoço. Várias vezes ao dia eu era chamada aos berros de "garotiiiiiiiiinhaaaaaaaaaa" ou "Aniiiiiinhaaaaaaa". Em geral, o que me aguardava era uma aula prática de jornalismo rock.

A crueldade que Zeca reservava aos grandes era comparável apenas à ternura que ele guardava para os pequenos. Nenhuma banda local era obscura demais, nenhum guitarrista principiante demais para merecer sua mais devotada atenção.

Seus acólitos nesse oficio eram Okky de Souza, com cachinhos de querubim barroco; o repórter volante Drope, sempre com um relato detalhado dos últimos acontecimentos; e o eternamente on the road Joel Macedo.


Se Zeca era a pilha, Maciel era o córtex cerebral do sobrado, pairando com uma calma zen sobre o festivo caos mal controlado que flutuava sobre as tábuas rangentes. Nenhuma crise – A polícia vai dar batida! A edição foi recolhida pela censura! Acabou o contrato com Jan Wenner! – era suficiente para abalar o Maciel.

Fora isso, Maciel sorria, tentava discutir com Zeca (impossível) e me ensinava o que eu pedia para aprender. Minhas tarefas consistiam inicialmente em marcar as laudas de matéria para a gráfica, recolher o material de ilustração, manter Lapi feliz e responder às cartas dos leitores, o que era quase uma psicanálise.


Como eu sabia muito bem, os leitores se julgavam donos da revista, sócios, conspiradores. E eram. Dois escreviam quase toda semana: uns tais Jamari França e José Emílio Rondeau. Eu reclamava com Maciel: esses caras estão monopolizando as cartas!

Durou um ano, exatamente: o ano de 1972. O último disco que recebemos foi Acabou Chorare, dos Novos Baianos. Lembro dos janelões finalmente abertos, um poente lindo de começo de verão entrando por cima das copas das amendoeiras, o disco rodando na vitrola do Zeca. Todo mundo ouvindo os Novos Baianos dizerem que tudo ia ficar lindo, a gente sabendo que a revista estava condenada e Zeca dizendo: "Mas garotinhos, vai ser um verão demais!".

Durou um ano exato.

Foi mais que o primeiro ano do resto da minha vida. Foi o primeiro ano completamente feliz da minha vida.