quarta-feira, agosto 15, 2012

BILLY BOY ARNOLD HOMENAGEIA BIG BILL BROONZY E RESGATA A ALMA DO BLUES


Se engana quem imagina o folk-blues apenas como aquela modalidade rústica de blues acústico tradicionalmente praticada pelo pessoal do Mississipi.

O folk-blues, para quem não sabe, possui uma vertente urbana muito forte, que ganhou a América no início dos anos 40, logo após o lendário espetáculo "From Spirituals To Swing", que John Hammond montou no Carnegie Hall, em Nova York, com a nata do blues e do jazz da época.

Um dos participantes principais do show seria o lendário guitarrista, cantor e compositor Robert Johnson, que morreu assassinado pouco tempo antes de sua realização, naquela história clássica de pacto com o demônio que todo mundo conhece.

Em seu lugar, Hammond escalou um cantor emergente de voz intensa, que sabia tanto cantar com a eloquência dos blues shouters quanto daquele jeitão mais intimista dos jovens cantores brancos, como Frank Sinatra, e que, ainda por cima, era um compositor espetacular, responsável por números que já nasceram clássicos como "Key To The Highway" e "See See Rider".

Seu nome verdadeiro: Lee Conley Bradley.

Nome artístico: Big Bill Broonzy


Nascido em Bolivar County, Mississipi, em 1903, Big Bill Broonzy circulou por todos os cantos dos Sul dos Estados Unidos até decidir virar cantor e assinar um contrato com a Paramount Records em 1924 em Chicago, onde chegou e logo se misturou com o pessoal de jazz da cidade.

Big Bill gravava de tudo na época. Desde blues, work songs e folk music tradicional até versões acústicas de canções do momento que tocavam no rádio. Fazia isso com tamanha personalidade e gabarito que muitas vezes as gravadoras procuravam esconder suas fotos nas capas dos discos, para evitar que sua pele negra atrapalhasse as vendas.

Nos anos 30, brilhou em gravações espetaculares para a Bluebird Records, e começou a ganhar reconhecimento nacional, fazendo longas temporadas em nightclubs de Nova York e Los Angeles com bandas com sonoridade bem mais encorpada, firmando-se como um dos pioneiros do rhythm & blues.
E então, nos anos 40 quando o blues explodiu em Chicago, Big Bill já era veterano na cena da cidade, e conseguiu se sair melhor que a maioria dos novatos promissores que chegavam à cena, ganhando um contrato de vulto com a Mercury, onde produziu mais uma sequência espetacular de canções de sucesso.

Só nos anos 50 é que Big Bill assumiu para valer sua persona musical mais conhecida: a de folk-singer. Ele foi a ponta de lança do revival glorioso do folk-blues na época, gravando LPs magníficos para a Folkways que fizeram dele um dos maiores e mais respeitados tesouros musicais americanos de todos os tempos.

Sua carreira foi interrompida no auge por um câncer na garganta que o tirou de cena em 1958, e seu legado musical influenciou diretamente diversas gerações de bluesmen e folk-singers nesses últimos 50 anos.



Eu confesso que fiquei surpreso quando ouvi dizer que o cantor, guitarrista e grande gaitista Billy Boy Arnold dedicar um disco inteiro ao repertório clássico de Big Bill Broonzy.

É que, francamente, eu nunca achei que houvesse maior afinidade entre a música praticada por eles dois.

Big Bill sempre foi um mestre da delicadeza, enquanto Billy Boy sempre privilegiou um estilo mais truculento e urgente -- característica que ele cultiva desde seus singles gravados nos anos 50, como "I Ain´t Got You" e "I Wish You Would", e seu clássico LP de estréia, o clássico "More Blues On The South Side".

Mas eu estava enganado.

Billy Boy sempre teve grande afinidade com Big Bill. Chegou a conhecê-lo pessoalmente. Trocaram figurinhas em diversas ocasiões diferentes. E, por pouco, Billy Boy não cedeu sua banda na época para acompanhar Big Bill numa tournée rápida, pouco antes de sua morte.

Bom... o caso é que o blues ardido de Billy Boy Arnold suavizou com o passar dos anos, e depois de viver longos períodos tocando na Europa e no Japão, ele finalmente conseguiu retomar sua carreira na América em 1993 com "Back Where I Belong", gravado para a Alligator Records, que o colocou novamente no Olimpo do Blues de Chicago depois de mais de 20 anos de semi-ostracismo.

De lá para cá, vem desenvolvendo discos brilhantes para a Eletro-Fi, e se reinventando artisticamente a cada trabalho.

Quando completou 70 anos de idade, gravou um belo tributo a seu mentor musical e vizinho Sonny Boy "John Lee' Williamson I, e foi alvo de mais elogios e premiações do que jamais antes.



E agora ele surge com esse "Billy Boy Arnold Sings Big Bill Broonzy", mais ou menos no mesmo padrão de excelência da homenagem que fez a Sonny Boy, promovendo um belo passeio pelo repertório de mais esse grande mestre do blues americano.

É um disco respeitoso, mas não necessariamente reverente a Big Bill Broonzy.

Billy Boy deixa claro o tempo todo que é, antes de tudo, um gaitista, e que, por mais forte que seja seu jeito de cantar, ele não tem e jamais terá o magnetismo de Big Bill Broonzy. Com isso estabelecido logo de cara, ele alcança resultados soberbos tanto em números mais manjados de seu repertório, quanto em escolhas incomuns como "San Antonio Blues", "Living On Easy Street" e a adorável "Just Got To Hold You Tight".

"Billy Boy Arnold Sings Big Bill Broonzy" é mais um songbook do que propriamente um disco tributo.

Segue mais ou menos na mesma levada descontraída do grande disco que Muddy Waters fez em 1960 também em homenagem a Big Bill, e que foi tão criticado na época por ser moderno demais.

Convenhamos, ver um artista setentão como Billy Boy Arnold se reinventando mais uma vez, e buscando em 15 números do repertório de Big Bill Broonzy que marcaram sua juventude uma ponte de volta a sua própria origem como bluesman, só pode ser um jornada gloriosa, tanto para os aficionados em blues em geral quanto para os fãs de folk music.

Um disco e tanto!



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segunda-feira, agosto 13, 2012

LEE KONITZ CHEGA AOS 80 ANOS DE IDADE E SEGUE EM FRENTE NESSE ESPETACULAR "LIVE AT THE VILLAGE VANGUARD"


O poder de fogo da música de Charlie Parker incendiou o jazz dos anos 40 de forma irreversível, enterrando a Era do Swing e dando o pontapé inicial na Era do Bebop.

O estilo de Parker era tão vibrante e sua personalidade musical tão forte que era praticamente impossível para qualquer jovem músico que tivesse escolhido o sax alto como instrumento não se deixar contaminar pelo sopro sincopado e acelerado de Parker.

Mas havia uma exceção: um jovem saxofonista de Chicago chamado Lee Konitz, nascido em 1927, aluno de Lennie Tristano, que esnobou um convite para ingressar na Orquestra de Dizzy Gillespie, onde Parker tocava, para unir forças a dois amigos que estavam montando um noneto sob orientação de Gil Evans, que iria levar a carreira de todos os envolvidos para um caminho inusitado e brilhante.

Esses amigos se chamavam Miles Davis e Gerry Mulligan.

O ano era 1949.

E o disco que eles iriam gravar juntos -- "The Birth Of The Cool" -- viraria um marco para o jazz moderno, inaugurando uma modalidade mais climática e reflexiva de bebop, com músicos usando e abusando de notas longas e encorpadas, que mais tarde seria batizada de cool jazz.



Todos os músicos que se escolavam com o pianista Lennie Tristano saíam com uma bagagem em comum: tornavam-se craques em harmonia jazzística e erudita, e eram encorajados por Tristano a fazer experiências melódicas e rítmicas constantemente.

Graças a esse background, Lee Konitz conseguiu desenvolver um estilo no sax alto bem diferente do estilo de Parker, abusando das notas longas, valorizando a melodia em suas intervenções, e sempre permitindo que os integrantes de suas bandas improvisassem à vontade.

Daí em diante, passou a desafiar gêneros.

Fez um disco explosivo de jazz com o baterista Elvin Jones para a Verve, chamado "Motion". Experimentou desde Dixieland até o free-jazz, com músicos das mais diversas formações, e gravou vários discos para o mercado de música erudita. Apesar de ser conceituado como band-leader, não negava fogo sempre que algum amigo o convidava para atuar como sideman em alguma tounée.

Desde 1980 está estabelecido em Paris, voltando aos Estados Unidos de tempos em tempos para matar a saudade de casa, quase sempre acompanhado por músicos jovens de vários cantos do mundo.


"Live At The Village Vanguard" é o registro precioso de duas noites em 2010 em que Konitz se apresentou à frente de seu New Quartet, formado pelo excelente pianista alemão Florian Weber, pelo baterista israelense Ziv Ravitz e pelo baixista californiano Jeff Denson.

Mesmo com 83 anos de idade na ocasião, Konitz não fez feio em momento algum.

Pelo contrário, dividiu a responsabilidade de proporcionar uma noite memorável para o público com os músicos, e eventualmente se posiciona quase como um sideman de seu pianista para poder se poupar para aguentar mais tempo no palco. Convenhamos, que outro grande mestre do jazz dos anos 40 ainda circula pelos palcos do mundo inteiro com tamanha galhardia?

Konitz e seu New Quartet dão um toque totalmente novo a um dos temas mais gravados do jazz, 'Cherokee", de Ray Noble. Passeiam com muita delicadeza por três standards -- "Polka, Dots & Moonbeans", "I Remember You" e uma releitura inusitada para "All The Things You Are" --  e mergulham de cabeça num tema impressionista intrincadíssimo, "Colors", de autoria de Weber, que segue magnificamente bem por mais de 10 minutos e poderia durar outros dez, tranquilamente.

Tudo isso somado à alegria de tocar novamente no Village Vanguard, onde brilhou em diversas formações desde os anos 40, faz de Lee Konitz um músico feliz e realizado, e um verdadeiro patrimônio afetivo para quem teve o prazer de estar na platéia em qualquer uma dessas duas noites registradas nesse disco.



Lee Konitz está com 85 anos agora.

Sua saúde não anda boa de uns tempos para cá, e suas apresentações estão ficando cada vez mais esporádicas. Algumas tiveram que ser canceladas ano passado.

É bem provável que, daqui para a frente, não tenhamos mais a chance de ouví-lo com toda essa non-chalance demonstrada nesse belo concerto ao vivo.

Mas só de saber que Lee Konitz continua vivo e ativo depois de mais de 60 anos de excelentes serviços prestados ao jazz já é motivo de comemoração entre os amantes do gênero

Sendo assim...

"Senhoras e Senhores, Benvindos ao Village Vanguard. Com vocês, o grande Lee Konitz!"






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sexta-feira, agosto 10, 2012

CAT POWER SE REINVENTA DE FORMA INUSITADA EM SEU NOVO LP: "SUN"


Difícil acreditar que Cat Power já seja uma veterana da cena independente americana...

Mas é verdade. O tempo passa para todos. O mais curioso é tentar reconhecer no trabalho que Chan Marshall -- o nome verdadeiro dessa novaiorquina louquinha de pedra -- desenvolve hoje a mesma anarquista folk-punk arrogante e desgovernada de seus primeiros discos "Dear Sir" e "Myra Lee", ambos gravados no mesmo dia, em 1995.

Ela começou sua carreira já enfiando o pé na jaca, abrindo shows para a desbocada Liz Phair numa tournée completamente perdulária. Foi quando conheceu Steve Shelley, baterista do Sonic Youth, e o guitarrista Tim Foljahn, do grupo Two Dollar Guitar, e transformou o conceito Cat Power numa banda de verdade.

Iniciou uma longa associação com a Matador Records que persiste até hoje, a partir de "What Would the Community Think?", de 1996, extremamente bem recebido pela crítica na época, que ficou impressionada com suas canções sempre derramadas de emoção e seus vocais catárticos.


Faltava ganhar o público.

E isso Cat Power conseguiu em mais dois discos de material original extremamente bem resolvidos: "Moon Pix", de 1998 e "You Are Free", de 2003, com participações especialíssimas de Dave Grohl e Eddie Vedder.

Foi mais ou menos por aí que ela decidiu flertar abertamente com a música produzida em Memphis, Tennessee, e mergulhou de cabeça no blue-eyed soul em discos como "The Greatest" e as coleções de covers "The Covers Record" e "Jukebox". Com resultados surpreedentemente positivos, diga-se passagem.

Era difícil acreditar, mas a irrascível Cat Power havia finalmente sido absorvida pelo mercado musical.

E o que é melhor: sem ter que vender a alma para nenhuma gravadora, nem ter que se submeter a algum produtor metido a gênio da raça empenhado em facilitar sua entrada no mainstream.


Pois a julgar por "Sun", o mais recente trabalho de Cat Power, tudo o que ela quer agora é justamente não ser aceita facilmente pelo mainstream.

Que se dane se o seu time está ganhando ou não. Ela insiste no seu apreço pelo incerto e segue topando qualquer parada para não virar escrava do pessoal de marketing de sua gravadora.

"Sun" é um disco muito agradável e, ao mesmo tempo, muito estranho também.

É consequência direta de suas recentes andanças pelo mundo afora, e vem repleto de loops musicais que lembram tanto o pop francês dos anos 70 quanto a bossa nova brasileira e o minimalismo de seu amigo Philip Glass.

Aqui ela está cantando bem melhor, sobrepondo sua própria voz em diversas camadas diferentes, e os arranjos trazem um instrumental cru e ao mesmo tempo sofisticado, repleto de surpresas e ousadias.

Para completar, é sua estréia, vitoriosa, como produtora.

Eu não ousaria destacar nenhuma faixa do disco. São todas muito envolventes. Acabo de ouvir o disco três vezes seguidas. É primoroso. Denso, suave, climático e cheio de atitude.

Convenhamos: não é pouca coisa.



"Sun" rompe com quase tudo que Cat Power vinha fazendo nos últimos anos.

A obsessão com o som de Memphis dos últimos discos foi por água abaixo, assim como qualquer resquício folk ou punk que ainda restasse no trabalho dela.

Permanece apenas a truculência melódica habitual, dentro de uma nova moldura sonora extremamente arrojada, inquieta e complexa.

Francamente, não acho que valha a pena ficar tentando definir com palavras o que Cat Power realizou aqui. Melhor ouvir "Sun" e tirar suas próprias conclusões. Só não espere nada fácil.

Ou seja: prepare-se para se deixar arrebatar mais uma vez pelo talento de Chan Marshall.

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quinta-feira, agosto 09, 2012

AIMEE MANN VOLTA MESCLANDO DENSIDADE EXISTENCIAL E CHARME NUM LP MAGNÍFICO


Quem acompanhou a passagem do grupo Til Tuesday pela cena pop americana em meados dos anos 80, jamais poderia suspeitar que aquela loira bonitinha que cantava quase sussurrado no grupo iria um dia se transformar numa das maiores compositoras pop americanas, produzindo canções de uma grandeza muito próxima à de Joni Mitchell e Rickie Lee Jones, suas mentoras.

Aimee Mann começou sua carreira ganhando as pessoas pela simpatia e pela delicadeza, mas aos poucos foi revelando uma habilidade literária na composição de suas canções -- quase sempre baseadas em vivências pessoais, mas jamais confessionais.

Os dois primeiros discos do Til Tuesday são apenas trabalhos medianos e sem grandes atrativos artísticos. Mas o terceiro e último disco da banda, "Everything´s Different Now" (1988), mostra um salto qualitativo considerável nas canções de Aimee Mann, e traz uma parceria dela com Elvis Costello que já nasceu clássica: "The Other End Of The Telescope".


Daí por diante, ficou claro que o talento de Aimee não cabia mais na banda, e não teve jeito: o Til Tuesday debandou.

Mas não sem antes arrumar uma confusão do tamanho de um bonde com a Epic, que, por brigas contratuais, impediu que Aimee se lançasse solo antes de 1993 -- quando finalmente brilhou com "Whatever", uma estréia magistral, e "I´m With Stupid", uma sequência brilhante, que emplacou dois singles arrebatadores: "That´s Just What You Are" e "You Could Make A Killing".

Então, veio "Bachelor #2" e o filme "Magnólia", criado pelo grande diretor e roteirista Paul Thomas Anderson a partir de algumas canções extremamente contundentes de Aimee, e o resultado foi que, na cerimònia dos Oscars de 2001, Aimee Mann foi revelada para o mundo inteiro.

Ao contrário do esperado, Aimee Mann não optou pelo big business e preferiu resguardar seu trabalho,   para manter sua autonomia criativa. Nos últimos dez anos, gravou cinco discos, quase todos conceituais ou, ao menos, temáticos.

E um muito diferente do outro.


"Charmer", seu mais recente trabalho, é uma deliciosa coleção de canções na mesma linha de "Bachelor #2" (2000), que circulam em torno de um mesmo tema: o aprendizado do uso cotidiano do Charme como meio de sobrevivência num mundo cada vez mais apegado a aparências.

As canções falam de desilusões, ilusões, descaminhos e revelações íntimas por meio de epifanias poéticas que mais parecem uma longa sessão de terapia. A maneira como Aimee promove a alternância desses temas faz com que o encadeamento das canções no disco soe perfeito.

Ela está em excelente forma artística. O tom de suas canções segue um padrão de serenidade muito interessante. Pelo visto, está vivendo um momento muito especial de sua vida. E isso, para quem a conhece de vários romances anteriores, acaba se refletindo no tom das suas novas canções.

Mas jamais espere otimismo em demasia na produção poética de Aimee Mann. A barra pesada está sempre logo alí na esquina, à espreita, em números contundentes como 'Living A Lie" e "Disappeared". 

A maneira como ela aborda esse universo, no entanto, é sempre feita com o devido distanciamento.
.

E não há muito mais o que dizer, exceto que "Charmer" engana o ouvinte desavisado, pois é muito mais profundo do que aparenta à primeira vista, e também muito menos leve do que sua sonoridade indica.


Se bem que, para quem está familiarizado com o trabalho de Aimee Mann, isso não vai ser exatamente novidade. Aliás, para quem conhece e gosta do trabalho de Aimee Mann, "Charmer" tem tudo para ser um dos melhores discos desse ano.

Não sei quanto a vocês, mas eu adoro essa garota-enxaqueca encantadora, que acaba de completar 52 anos de idade insuspeitos.

Agradeçam por Aimee Mann continuar assim como sempre foi, complicada e perfeitinha.

Da minha parte, é um grande prazer poder saudar a sua volta.



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quarta-feira, agosto 08, 2012

OMAR AND THE HOWLERS ESTÃO DE VOLTA NUM DISCO FULMINANTE: "I´M GONE"


Se tem uma coisa que Omar Kent Dykes apreendeu ao longo de seus quase 40 anos de carreira à frente do grupo texano Omar and the Howlers foi justamente não complicar o blues.

Não vale a pena, nem faz sentido, pois o blues é um formato de música simples e básico, que recebe facilmente coloridos externos vindos de outros gêneros musicais adicionados a ele, mas que também deteriora facilmente dependendo dos adititivos que recebe.

Uns podem até achar que isso é conservadorismo musical, mas não é não.

É preciso tomar certos cuidados para que essas cores, ao se misturarem com o blues, resultem numa combinação harmoniosa.

Caso contrário, corre-se o risco de perder o contato com a essência do gênero -- que é o grande mal que aflige artisticamente a imensa maioria das bandas de blues-rock que circulam por aí.



Desde que estreou em disco em 1980 no rastro de outra banda de Austin, The Fabulous Thunderbirds, Omar and the Howlers passou a ser considerado a segunda referência máxima em boogie, rhythm & blues e rock and roll e a party band favorita dos frequentadores da noite da cidade.

Começaram no formato power-trio, mas pouco a pouco passaram a receber um sua formação muitos músicos amigos como integrantes eventuais.
 
Resultado: num levantamento recente, descobriram que mais de 30 integrantes passaram por Omar and the Howlers de 1973 para cá -- entre eles, craques como os saudosos Gary Primich e Stevie Ray Vaughan.

Por conta disso, a banda foi pouco a pouco virando um veículo para o talento de Omar Kent Dykes, dono de um vozeirão privilegiado, um carisma fortíssimo no palco e um jeito festivo de misturar todos aqueles ingredientes que fazem parte da música do Texas no eclético repertório da banda, hoje espalhado por uma vasta discografia.


"I´m Gone" é o décimo-oitavo disco do Omar and the Howlers, e o primeiro trabalho de estúdio da banda em 9 anos -- período em que Omar andou trabalhando em projetos diferenciados ao lado de artistas amigos, ainda que mantendo a banda viva e ativa em tournées pela Europa e Japão.

Não se pode dizer que seja um LP que traga novidades ao som da banda. Pelo contrário: não há nenhum experimento novo em "I´m Gone". Apenas a reafirmação de que Omar and the Howlers permanecem imbatíveis no seu jogo, mesmo depois de tanto tempo sem lançar discos.

No entanto, pode-se dizer que eles nunca tocaram com tanta maestria quanto aqui, Funcionam como uma unidade perfeita, mais ou menos no formato de seus quatro primeiros discos, até hoje saudados como clássicos imbatíveis do blues-rock texano.

É como se a herança musical do boogie man Lightning Hopkins fosse mesclada com a herança musical do band leader tex-mex Doug Sahm, e tudo fervesse num mesmo caldeirão musical: o resultado é sempre delicioso.

Se for o caso de destacar algum número musical em particular, "All About The Money" e "Down At The Station" estão entre as mais marcantes canções de Dykes desde sempre, e a balada bêbada "Drunkard´s Paradise" soa como uma homenagem a outra grande banda texana atemporal: The Sir Douglas Quintet. Isso para não falar em "Take Me Back", que encerra o disco de forma fulminante, com a banda cuspindo fogo num número aceleradíssimo que se estende por mais de 6 minutos de duração.



Omar and the Howlers foi uma das bandas que, nos anos 70, ajudou a firmar a cidade de Austin, no Texas, como a Mecca da country-music alternativa, recebendo todos os artistas descontentes com o status quo de Nashville.

Merecidamente, a banda ganhou fama como uma das grandes instituições musicais da cidade, mas, de certa forma, deitou na cama, e se acomodou demais.Faltava talvez um desafio musical para dar uma nova motivação para seguir adiante indo além da mera repetição de tudo o que eles já fizeram. E "I´m Gone" parece ter vindo cobrir essa lacuna, além de restaurar a dignidade criativa dessa grande banda.

Sendo assim, coloque seu chapéu de cowboy, pouse o revolver na mesa, prepare umas doses de bourbon e ponha para tocar o novo disco de Omar and the Howlers.

E seja benvindo ao coração do Estado da Estrela Solitária.




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segunda-feira, agosto 06, 2012

O LENDÁRIO JAZZMAN CURTIS FULLER TROUXE O TROMBONE, E O PRAZER É TODO NOSSO.


Trombonistas são as criaturas mais subestimadas do jazz.

Sempre eclipsados por saxofonistas e trumpetistas exuberantes, eles são constantemente subjulgados a um papel secundário ou terciário em qualquer arranjo musical que envolva um sexteto, septeto ou octeto de jazz -- sim, porque só se lembram de incluir um trombone na formação de um grupo de jazz depois de escalar ao menos um trumpetista e um ou dois saxofonistas.

Pois é uma pena que isso ocorra com tão pouca frequência. Sempre que um combo de jazz recebe um trombone em sua formação, todos os demais instrumentos crescem de forma graciosa e intensa.

Até por isso, ao longo de todo o Século XX, poucos trombonistas como J J Johnson, Kai Winding e Frank Rosolino conseguiram ser protagonistas na história do jazz, gravando com praticamente todos as grandes feras do gênero, e muito eventualmente comandando grupos por trás de suas gigantescas armações de metal brilhante que exigem um fôlego assombroso de quem se aventura a soprá-las.

Por essas e outras, é comum ver trombonistas se aposentando cedo.

Dos trombonistas clássicos da era do bebop, apenas um permanece vivo e ativo: Curtis Fuller.


Curtis Fuller está com 78 anos de idade e em plena atividade, comandando um grupo talentoso de jovens jazzistas meio século mais jovens que ele.

Fuller começou a tocar profissionalmente numa banda que Cannonball Adderley montou pouco antes de servirem o exército. Se alistaram juntos e acabaram integrando a Banda do Exército durante um ano.

Depois trabalhou com Kenny Burrell, Yusef Lateef, Benny Golson, Dizzy Gillespie, Coleman Hawkins, Art Blakey, Count Basie, Miles Davis... pode escolher qualquer artista de jazz: com certeza Curtis Fuller terá em seu curriculum alguma sessão clássica gravada ao lado dele.

Desde 1957, alterna discos como band-leader com experiências como sideman, e criou um estilo único no trombone, sustentando as oitavas em fraseados longos que acomodam muito bem qualquer improviso de qualquer solista por ele convidado, e também fazem dele um sideman muito requisitado.

Ao longo dos anos 90, comandou a Timeless All-Stars numa tournée contínua pelo mundo afora e praticamente abandonou sua carreira fonográfica -- até retornar de forma triunfal em 2004 num disco sensacional para a Delmark chamado "Up Jumped Spring".

De lá para cá, Curtis Fuller passou a trabalhar com os all-stars do Jazztet e vem gravando um LP a cada dois anos, além de seguir em tournée com um sexteto brilhante de Denver, Colorado, composto por Keith Oxman (sax tenor), Al Hood (trumpete, flugelhorn), Chip Stephens (piano), Ken Walker (contrabaixo) e Todd Reid (bateria).


É justamente esse pessoal de Denver que o acompanha nesse suingadíssimo "Down Home".

Aqui, Curtis Fuller esbanja delicadeza em blues e baladas, esboçando um bebop que nunca é rasgado e que jamais flerta com atonalidades. E que, mesmo assim, soa sempre extremamente jovial, moderno e melodioso.

Combinando metade do repertório com números originais de autoria de Fuller com a outra metade composta por clássicos do gênero nos anos 50 e 60, temos aqui jazz classudo, dançante, atemporal, extremamente bem executado e nada cerebral.

Portanto, quem presumir que o título "Down Home" é indicativo de "Nostalgia", vai se enganar.

Não é nada disso. Felizmente.



Curtis Fuller está vivendo um momento muito especial de sua carreira.

Ano passado ele gravou um dos discos mais bonitos da história recente do jazz, "The Story Of Cathy And Me", em homenagem a sua companheira de toda a vida -- que acabara de falecer --, repleto de canções que marcaram seu longo casamento, e algumas novas.

Um pouco antes, com esse mesmo sexteto de "Down Home", gravou outra pequena obra-prima, "I Will Tell Her", só com composições dele próprio, ao vivo em tournée.

É um dos renascimentos musicais mais festejados pela cena jazzística dos últimos anos, e é a reafirmação desse gênero musical incomparável e de primeira grandeza.

Se você gosta de jazz, tente conhecer toda a produção recente de Curtis Fuller. É magnífica. Vale a pena.

Aliás, vale o prazer.



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quinta-feira, agosto 02, 2012

O LONGO CAMINHO DE VOLTA DE KEVIN ROWLAND E OS DEXYS MIDNIGHT RUNNERS


Em meio à efervescência pós-punk do final dos anos 70, havia uma banda de Birmingham com um cantor irlandês que reciclava o folk celta com o soul americano com uma receita ligeiramente diferente da que Van Morrison e o grupo Them haviam usado nos anos sessenta -- só que com resultados tão explosivos e expressivos quanto.

Essa banda era o Dexys Midnight Runners do guitarrista Al Archer e do tecladista Mick Talbot, mas principalmente do cantor, compositor e gênio pop Kevin Rowland, que idealizou o conceito da banda, mantendo-a funcionando de forma brilhante por três discos magníficos gravados num período de 5 anos extremamente turbulentos

O Dexys começou com dez integrantes e uma série de compactos poderosos para a EMI que emplacaram mundialmente nas paradas -- "Geno, "Burn It Down" --, além de um LP absurdamente vigoroso chamado "Searching for the Young Soul Rebels" (1980), que saudava de forma eloquente a herança soul americana nas Ilhas Britânicas.

Para o segundo disco, já na Mercury Records, Kevin Rowland aproximou o Dexys ainda mais de seu mentor Van Morrison injetando uma dose cavalar de folk celta no som da banda e um toque pop que refinou o som bruto dos Dexys, sem jamais deixar o suingue de lado -- e isso gerou "Too Rye-Aye" (1982), um dos discos fundamentais daquele período.


Mas a essa altura do campeonato, a fama de perfeccionista temperamental de Rowland já tinha chegado à diretoria da gravadora, que não se conformava com o fato dele gastar tanto tempo e tanto dinheiro em estúdios de gravação, além das quedas de braço constantes entre ele e executivos de empresas financiadoras deixaram um histórico de desavenças e contas a pagar que por pouco não arruinaram o terceiro disco da banda, "Don´t Stand Me Down" (1985), que, apesar de tudo, conseguiu ser ainda mais refinado e denso que os trabalhos anteriores -- em parte pelo apoio luxuoso do ex-pianista do Atomic Rooster, Vincent Crane, convocado para substituir Mick Talbot, que saiu do Dexys para se juntar a Paul Weller no igualmente genial Style Council.

Mas, infelizmente, o Dexys estava tão desgastado a essa altura do campeonato que todos os integrantes abandonaram o barco em meio a uma tournée desastrada, pois não suportavam mais conviver com Kevin Rowland.

Paralelo a isso, a Mercury tentou impor um método de trabalho menos dispendioso para Rowland -- uma criatura totalmente perdulária, diga-se de passagem -- e levou um não pela cara.

Um não que acabou custando muito caro para Kevin Rowland.

Nesses últimos anos, Rowland permaneceu atrelado a um contrato leonino com a gravadora, que lançou mais dois discos solo -- "The Wanderer" (1988) e "My Beauty" (1999) --, que, apesar de ótimos, não vingaram e o afundaram ainda mais em dívidas e em drogas.

Por tudo isso, em 2005, quando começou a correr por aí a notícia de que Rowland estaria reformando o Dexys Midnight Runners com vários integrantes originais para gravar um novo disco, todos os admiradores da banda, habituados com o processo criativo demorado de Kevin Rowland, acharam por bem esperar sentados.




Pois agora, finalmente, "One Day I´m Going To Soar", o disco de retorno do Dexys Midnight Runners vê a luz do dia, e a sensação que isso desperta é bastante estranha.

Primeiro por conta da leveza do projeto e da pegada suave e envolvente das novas canções, que oscilam entre o smooth soul de Marvin Gaye e um jeitão pop dance hall bem distante do despojamento dos dois primeiros discos da banda.

(detalhe: esse conceito light da banda original se estende ao nome, que agora está reduzido a Dexys)

E segundo porque o resultado é ótimo.

Eu confesso que fiquei relutante a princípio, achando que Rowland havia diluído o som dos Dexys a um nível perigoso, afastando-o demais de sua proposta original e desprezando elementos que talvez fossem o que a banda tinha de melhor. Mas não. A essência dos Dexys permanece intacta. Só a moldura do quadro está meio diferente.

Kevin Rowland está cantando melhor do que nunca. Mick Talbot está de volta ao piano com um toque que lembra mais o Style Council do que propriamente seu trabalho prévio com o Dexys. A nova cantora Madeleine Hyland é simplesmente espetacular. As canções são todas excelentes, costuradas pelo tema recorrente "Now", que resgata a velha combinação da sessão de metais soul com violinos celtas que é a marca registrada do som do Dexys, deixando que nuances musicais variadas tragam um recheio diferente para o disco.

Não é o caso de destacar um número ou outro. "One Day I´m Going To Soar" é admirável, e estranhamente perfeito. Tanto quanto os 3 trabalhos anteriores dos Dexys.


O Dexys pretende sair em tournée mês que vem pela Inglaterra para promover "One Day I´m Going To Soar", dessa vez sem o stress que marcou as relações pessoais deles nos anos 80..

Quem conhece o histórico deles sabe o quanto o dia a dia de uma tournée pode ser temeroso, e que as chances da banda não conseguir sobreviver a uma tournée são altíssimas.

Resta torcer para que Kevin Rowland esteja mais tranquilo com a idade, agora distante do álcool, da cocaína e da trip de popstar que diversas vezes fez com que ele não sentisse mais o chão, passando anos e anos privando a todos de seu enorme talento.

"One Day I´m Going To Soar" é o resgate à cena principal de um dos maiores artistas musicais que a Grã-Bretanha já produziu, e havia se perdido.

Tomara que, dessa vez, o retorno de Kevin Rowland seja para valer.

  
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