sexta-feira, janeiro 20, 2006

Meu problema com Bush, Kate (por Arthur Dapieve para NoMinimo.com)


Qual o borogodó de Kate Bush? Eu olhava para a foto dela na capa da “Mojo” de dezembro e me perguntava por que a revista inglesa se gabava de trazer a única entrevista para o lançamento de “Aerial”, seu primeiro disco em doze anos. Li o texto babão de Tom Doyle, que chega a lhe elogiar as formas. Li as declarações angelicais de Kate (“Eu nunca quis ser famosa. Meu desejo não era ficar famosa, era fazer um disco.”). Li os elogios de David Gilmour, de Peter Gabriel e de Rufus Wainwright. E, por fim, li a resenha cinco estrelas de Fiona Wylie, com o carimbo “clássico instantâneo Mojo”. Não entendi nada.

Assim que trombei com a edição nacional de “Aerial” (EMI) numa loja de discos, pus no cestinho de compras para tentar compreender o fenômeno que, ao menos pelo que dizia minha memória, era inexplicável. Nelas, Kate continuava sendo somente aquela vozinha de desenho animado, a intérprete de “Wuthering heights” e de “Babooshka” – embora os Futureheads recentemente tenham feito bem a outra de suas canções, “Hounds of love”. Bush, hoje com 47 anos, não lançava um disco desde “The red shoes”, de 1993. Desde, então, fora um “vídeo álbum” fracassado em 1994, nenhum trabalho novo veio à luz, exceto seu filho Albert, nascido em 1998. Sua última entrevista ocorreu no mesmo ano.

O nascimento do garoto radicalizou a opção de Kate por permanecer longe dos holofotes da mídia. Se isso é só uma estratégia de marketing pessoal como qualquer outra, quem há de saber? Enquanto trocava uma fralda e varria a casa, ela ia casando idéias e sons no estúdio caseiro que montou com o marido guitarrista, Dan McIntosh. Na verdade, uma das músicas presentes em “Aerial”, a música que abre “Aerial”, a melhor música de “Aerial”, “King of the mountain”, havia sido composta no longínquo 1996, misturando Elvis Presley e Orson Welles: “Elvis você está lá fora em algum lugar/ Parecendo um homem feliz?/ Na neve com Rosebud (o mítico trenózinho de “Cidadão Kane”) / e rei da montanha.”

“King of the mountain” abre o primeiro CD (sim, “Aerial” é um álbum duplo), sub-batizado “A sea of honey” e composto por sete canções. Todas de uma forma ou de outra estranhas, como seria de se esperar de Kate, mesmo após doze anos de silêncio. O refrão de “π”, por exemplo, diz: “3,141592653589793238462643383279”. A renascentista “Bertie” é para seu filho. E “Joanni”, para Joana D’Arc. Já “Mrs. Bartolozzi” é uma ode erótica à lavagem de roupas e à sua secagem no varal (“Minha saia flutuando em torno da sua cintura etc.”). Como qualquer autor, Kate escreve sobre a sua realidade, ainda que alterada.

O segundo CD, sub-batizado “A sky of honey”, é uma espécie de suíte em nove partes, começando com um “Prelude” e terminando com a faixa-título de todo o álbum, “Aerial”. Há um belo dia, um casal, um idílio e, aqui e ali, passarinhos trinando, o que aproxima o clima geral de um encontro entre Branca de Neve, Enya e Tetê Espíndola, deus nos livre. As duas últimas faixas do disco, “Nocturne” e “Aerial”, se sustentam por si sós, sobretudo porque modificam a dinâmica, hum, pastoral do todo, introduzindo ritmos mais marcados que quebram a pasmaceira precedente. O conjunto da obra, li na “Mojo” e alhures, é genial.

Bem, após a primeira audição de “Aerial”, senti-me um perfeito idiota: gostei de cara de “King of the mountain”, que, a despeito de versar sobre o Rei do Rock, tem toques magrebinos, mas o resto não bateu. Após sucessivas audições, passei a gostar também de “Nocturne” e de “Aerial”, mas o resto continuou não batendo. Fiquei nisso. Comecei a me perguntar se eu teria de ser inglês para apreciar Kate Bush, pois tudo o que eu lia acabava mencionando uma certa englishness. Pensei até em disparar e-mails para meus amigos ingleses, para averiguar se eles têm mesmo sonhos molhados com Kate Bush, mas concluí que não valia o esforço. Aqui, onde o buraco é mais embaixo, “Aerial” é tedioso.

Fiona Wylie, a entusiasmada resenhista da “Mojo”, teve de escrever depois de escutar “Aerial” apenas duas vezes numa sala da EMI, sob vigilância para não gravar o álbum e vazá-lo em cópias piratas. Na primeira, nos diz, ficou “seduzida, intrigada, um pouco perplexa”. Na segunda, ficou “excitada, tocada, comovida”. Comigo, depois de mais de uma dúzia de audições, foi acontecendo um pouco o contrário: comecei respeitoso, preocupado em captar o espírito da coisa, mas fui ficando cético e irritado. Irritou-me a pretensão travestida de simplicidade, as iluminações prêt-à-écouter, a sonoridade de sub-Peter Gabriel de saias, a sensação de que, mesmo depois de doze anos, a maior parte daquelas canções ainda não se concluiu ou resolveu, perdendo-se em planícies de teclados.

Claro, o problema deve ser meu.

Um comentário:

Stella Freitas-Grisam disse...

Concordo plenamente... com a última linha.