quarta-feira, dezembro 30, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "SOULTIME", NOVO LP DE SOUTHSIDE JOHNNY & ASBURY JUKES

por Chico Marques


Quando Bruce Springsteen virou herói nacional em 1975 com seu 3º disco, BORN TO RUN, todas as gravadoras americanas -- com excessão da Columbia, onde ele gravava, e grava até hoje -- começaram a correr atrás dos artistas de New Jersey que elas próprias haviam rejeitado sistematicamente nos anos anteriores por considerá-los meio cafonas. 

A esperança era de que algum deles, quem sabe, conseguisse pegar carona no sucesso estrondoso e merecido daquele "tampinha" do balneário decadente de Asbury Park que se transformava num gigante sempre que subia ao palco, à frente de sua E Street Band. 

O que vimos na cena musical anglo-americana nos anos que se seguiram ao surgimento de Bruce Springsteen foi uma verdadeira avalanche de novos roqueiros com um sotaque soul bem carregado, como Graham Parker, Willie Nile, Joe Grushecky, Melissa Etheridge e Jon Bon Jovi. 

Isso sem contar muitos veteranos que estavam meio apagados, quase à margem do mercado, que aproveitaram a deixa para pegar carona naquela onda -- o caso de Garland Jeffreys, Elliott Murphy, Nils Lofgren, Ian Hunter, Gary U.S. Bonds e Dion DiMucci, entre vários outros.


Curiosamente, de todos esses "seguidores", o mais interessante de todos foi justamente um outro grupo de Asbury Park com um cantor espetacular (Johnny Lyon), um guitarrista e band-leader poderoso (Steve Van Zandt) e uma sessão de metais poderosíssima, que o próprio Bruce apadrinhou e a Columbia contratou: Southside Johnny & The Asbury Jukes.

Os três primeiros discos dessa banda enorme são absolutamente notáveis: verdadeiras aulas de soul music com sotaque roqueiro, resgatando o melhor do Northern Soul e, de quebra, sempre apresentando novas canções inéditas que Bruce Springsteen dava de presente para eles gravarem. 

Os três discos seguintes, gravados para a Mercury, já sem o comando de Steve Van Zant e sem os presentões de Bruce Springsteen, não possuem a mesma grandeza. Mas, por outro lado, não fazem feio em momento algum, mantendo a chama artística da banda bem acesa.


De meados dos Anos 80 em diante, conforme Bruce foi se distanciando mais e mais de suas raízes soul, a sonoridade clássica do Southside Johnny & The Asbury Jukes começou a ser questionada pelas gravadoras como sendo datada demais e apelativa de menos para os novos públicos. Daí, a saída para eles foi cair fora do mainstream para preservar sua integridade musical e seguir para a cena independente.

Assim, a banda vem dançando conforme a música nos últimos 30 anos, sempre a reboque do prestígio inabalável de Bruce, que nunca negou fogo a eles, dando todo o suporte possível para que eles conseguissem se manter no mercado musical com aquela sessão de metais poderosa (e onerosa) sempre ativa.


Pois bem: Southside Johnny & The Asbury Jukes estão de volta com um novo disco, SOULTIME(um lançamento Leroy Records, selo do próprio Johnny Lyon), que resgata mais uma vez a sonoridade original da banda em uma série de novas canções que, de tão familiares, mais parecem clássicos da soul music revisitados.

SOULTIME! não traz nenhuma grande novidade em relação aos dois discos anteriores com canções inéditas da banda, GOING TO JUKESVILLE (2002) e "PILLS AND AMMO (2010). Dá para sentir que as mudanças constantes nos integrantes dos Asbury Jukes não surtiram um efeito positivo na identidade musical na banda, mas, por outro lado, não chegaram a prejudicar muito o produto final. E, claro, há sempre alguns números no repertório de SOULTIME! que brilham de forma tão intensa que fazem com que esqueçamos esses detalhes. 

É o caso da balada"The Heart Always Knows", uma pequena pérola que parece ter fugido do repertório de Jackie Wilson. Ou de "I'm Not That Lonely", que soa como o lado B de algum compacto dos Four Tops. Ou de "Walking In A Thin Line", que lembra algumas gravações clássicas dos Temptations com Norman Whitfield. E olha que tem ainda as envolventes "Looking For A Good Time" e "Don't Waste My Time", que remetem diretamente ao Philly Sound de Kenny Gamble & Leon Huff do início dos Anos 70.


SOULTIME! é um disco altamente recomendável, apesar de estar longe de ser tão relevante quanto as gravações iniciais de Southside Johnny & The Asbury Jukes perpetuadas 40 anos atrás.

Sua maior virtude é trazer uma dose cavalar daquilo que a banda sabe fazer melhor: Soul Music da Costa Leste Americana, bem dançante, com um sotaque levemente italianado e uma atitude truculenta tipicamente irlandesa.

É, antes de mais nada, um trabalho de resistência de uma banda veterana que nunca cansou de brigar contra as adversidades para continuar seguindo em frente. 

Bandas como o Southside Johnny & The Asbury Jukes, que sempre suam a camisa e nunca deixaram de ostentar uma dignidade inabalável, jamais poderão ser chamadas de "caça-níqueis", pois são o sal da terra do classic rock anglo-americano.


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segunda-feira, dezembro 28, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "LOST CITIES", NOVO LP DO VETERANO ED KUEPPER

por Chico Marques


Se não é a figura mais inclassificável da riquíssima cena musical australiana, Ed Kuepper deve ser, muito provavelmente, o singer-songwriter mais desalinhado daqueles lados de lá -- em todos os tempos, claro!

O histórico artístico de Ed Kuepper já diz bastante a seu respeito. Surgido em plena era punk, e co-líder (com Chris Bailey) do The Saints, o grupo número um da Austrália na segunda metade dos Anos 70, ele deixou a banda no auge do sucesso em 1979 para montar um grupo meio jazzístico, meio experimental, muito idiossincrático e muito menos popular chamado The Laughing Clowns.

Foi quando Ed, para surpresa geral, deu início a sua carreira solo com um disco nada idiossincrático e extremamente pop, chamado "Electrical Storm". Foi o primeiro de uma série de 3 grandes discos nesse tom, culminando com "Rooms Of the Magnificent" e "Everybody's Got To". Todos fizeram sucesso na Australia, e ganharam edições pelo mundo afora. Mas, de certa forma, falharam por não garantir a ele a mesma projeção que outros artistas australianos, como Paul Kelly e Nick Cave, ganharam pelo mundo afora.

Então, já nos Anos 90, Ed passou a gravar um disco após o outro compulsivamente, sempre de forma independente e sempre com o apoio incondicional de um grupo nada desprezível de seguidores fidelíssimos, disposto a tolerar e aplaudir qualquer extravagância musical promovida por ele. Vem nessa toada até os dias de hoje.

Aqui em Santos, poucos o conhecem. Mas dentre esses poucos, há gente como o veterano jornalista Lane Valiengo, que possui praticamente todos os discos de Ed Kuepper. Aliás, faço questão de frisar aqui que foi Lane quem me apresentou ao trabalho de Ed Kuepper, e ao de seu ex-parceiro Chris Bailey também. Sou muito agradecido a Lane por isso.



Pois bem: Ed Kuepper acaba de chegar ao seu 50º disco. Seu nome é "Lost Cities" (um lançamento Prince Melon Records, selo dele próprio), e é tudo o que um fã de Kuepper poderia esperar dele a essa altura da vida: um projeto "back to basics", só com guitarra e uma moldura de teclados bem sutil e climática, que compõem de forma extremamente orgânica com sua voz encorpada e suave, dispensando qualquer tipo de acompanhamento adicional.

"Lost Cities" funciona como uma trilha sonora para uma espécie de road movie que está em cartaz desde sempre na mente criativa de Ed Kuepper. É extremamente acessível a qualquer não-iniciado em seu trabalho. O tom lembra um pouco o de "Nebraska" de Bruce Springsteen, ou o de algumas produções de Rick Rubin para a American Recordings. Mas não é assustador. Pelo contrário, é tudo muito ensolarado. A beleza de cada uma das 9 canções do disco fica evidente logo de cara, pois todas elas são apresentadas praticamente no osso no disco, como se fossem demos bem acabadas.

A viagem de Kuepper começa com a belíssima ‘Pavane’, e segue de forma intensa nas atmosféricas "Making Friends With the Leader", "Free Passage To Mars", "In The Ruins" e "Fever Dream". Mas a viagem termina de forma meio insólita em "Some Said" e "Queen Of The V.A.L.E.", dois flertes com o desespero e com o surreal que parecem sugerir um encontro musical altamente improvável entre Syd Barrett e Lou Reed.


O trabalho de guitarra extremamente criativo de Ed Kuepper pontua "Lost Cities" da primeira à última faixa, sempre de forma mansa e perigosa. Os teclados e sintetizadores foram todos arranjados e tocados por ele. E a produção é toda dele também, que define o disco como "solo orquestral".

Segundo Ed Kuepper: “Desde muito jovem eu sempre visualizei discos como um todo, daí quando eu tocava eu sempre me imaginava como sendo uma orquestra inteira, e não como um instrumentista no canto esquerdo do palco. Nos discos com The Saints já era assim, e continua sendo assim agora, 50 discos mais tarde. A grande diferença é que sigo hoje num tom extremamente oposto ao que seguia no início".

Eu diria que "Lost Cities" soa um grupo de canções acústicas tocadas numa guitarra elétrica com uma levada deliciosamente hipnótica.

Extremamente bem sucedido em termos artísticos, é sem dúvida um dos grandes discos de 2015.



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quarta-feira, dezembro 23, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "ROCKIN' RUDOLPH", NOVO LP DA BRIAN SETZER ORCHESTRA

por Chico Marques


Não existe nenhum artista de rock no Planeta Terra que goste tanto de Natal quanto Brian Setzer.

Desde 1994, quando começou a alternar os LPs de sua carreira solo com álbuns à frente de sua suingadíssima orquestra com 18 músicos, Brian vem gravando discos de Natal com uma frequência impressionante: já são 4 até agora, sem contar as 2 antologias que sua gravadora montou com números dos seus 3 primeiros discos de natal.

O motivo de tamanha frequência e assiduidade ao tema é fácil de explicar: apesar de muito sazonais, discos de Natal são altamente rentáveis. Assim, em tempos bicudos como esses que a Indústria Fonográfica vem vivendo, conseguir vender discos acaba sendo sempre um grande privilégio para qualquer artista.

Além do mais, excursionar com uma orquestra com 18 músicos em circunstâncias normais não só não é nada barato, como só é viável em ocasiões muito especiais. Como o Natal, por exemplo.

Pois Brian Setzer é completamente maluco por sua Orquestra. No início todo mundo achava engraçado um cara como ele, escolado num power trio de rockabilly como os Stray Cats, ter tamanho carinho por comandar uma formação tão grande de músicos.

Mas ele tem mesmo. Faz de tudo para manter sua Orquestra viva e ativa, mesmo sendo pouco rentável. Há 12 anos, a Brian Setzer Orchestra é o cartaz principal da Christmas Rocks! Tour, que circula por algumas capitais americanas no mês de Dezembro.

Ou seja: o bom e velho bad boy do neo-rockabilly americano surgido na Inglaterra em meio à cena pós-punk, quem diria acabou se tornando um emissário do bom velhinho do Polo Norte.



Nesse recém-lançado "Rockin' Rudolph", Brian Setzer nos oferece mais do mesmo coquetel natalino dançante apresentado nos anteriores "Boogie Woogie Christmas" (2002), "Dig That Crazy Christmas" (2005) e "Christmas Comes Alive" (2010), aplicando solos de guitarra bem "twangy" à frente de uma sessão de metais que conversa com sua guitarra o tempo todo, em fraseados divertidos e contagiantes, com uma desenvoltura rara em big bands nos dias de hoje.

"Rockin' Rudolph" tem desde nuggets natalinos pouco lembrados como "Here Comes Santa Claus" de Gene Autry -- ele mesmo, o cowboy dos seriados de cinema dos Anos 30 e 40 -- e "Little Jack Frost" do pianista de jazz Seger Ellis, quanto números natalinos do Século 19, como "Hark! The Herald Angels Sing!" de Charles Wesley e "O Little Town Of Bethlehem" de Philip Brooks, até rocks sensacionais como "Rockin'  Around The Christmas Tree" e "Rockabilly Rudolph", ambas compostas por Johnny Marks nos Anos 1950.

Claro que o xodó do disco vai ser a gravação deliciosa da versão de natal de "Meet The Flintstones", que ganhou uma letra natalina e o nome "Yabba Dabba Yuletide". Fãs do velho desenho animado da Hanna-Barbera com certeza vão lembrar com carinho dela de um velho especial de natal dos Flintstones da primeira metade dos Anos 1960.


Enfim, Brian Setzer está cantando melhor do que nunca nesses 12 novos números de Natal que ele escolheu para compor esse delicioso "Rockin' Rudolph", produzido por Peter Collins e Steve Gibson para a Surfdog Records, selo fundado 14 anos atrás pelo próprio Brian Setzer.



Por uma questão de justiça, por conta da excelência do trabalho apresentado aqui, conheçam a formação completa da Brian Setzer Orchestra:

Brian Setzer (guitarra, vocal, arranjos)

Charlie Peterson, Jim Youngstrom, Matt Zebly, Sam Levine, Tim Messina, Eric Morones (saxofones)

Roy Agee, Mike Briones, Barry Green, Robbie Hioki, Jeremy Levy, Kerry Loeschen (trombones)

Sean Billings, Ron Blake, Mike Haynes, Jamie Hovorka, Steve Patrick, Steve Reid (trompetes)

Matt Rowlings (piano)

John Hatton, David Spicher (baixo acústico)

Paul Leim, Tony Pia (bateria)

Julie Setzer, Shannon Brown, Josy Nardone, Leslie Spencer (vocais de fundo)



E já que isso aqui está mais para uma louvação do que para uma crítica, finalizo com as palavras do próprio Brian Setzer sobre "Rockin' Rudolph": 

“Essas canções são todas fantásticas. Pouco importa se são canções de festas ou quando foram compostas: são todas grandes canções. O truque é fazer com que elas soem "hip". Se bem que algumas delas são "hip" desde quando foram compostas, não é necessário aplicar truque algum nelas"

Ao som de Brian Setzer e sua Orquestra, ALTOeCLARO deseja um Feliz Natal bem suingado e dançante para todos os seus leitores.



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segunda-feira, dezembro 21, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "THROUGH THE CRACKS" E "NOBODY'S CHILDREN", DUAS COLETÂNEAS DE FAIXAS RARAS DE TOM PETTY & THE HEARTBREAKERS

por Chico Marques


Em 1996, Tom Petty & the Heartbreakers estavam no auge de suas carreiras.

Formados em Gainesville, na Flórida, eles conseguiram uma proeza única na cena musical americana: foram abraçados pelo Estado da California por terem conseguido resgatar em plenos Anos 70 as sonoridades meio esquecidas -- devidamente repaginadas, diga-se de passagem -- de bandas clássicas de Los Angeles nos Anos 60 como The Byrds e Buffalo Springfield.

Depois de 20 anos de intensa popularidade e 8 festejadíssimos LPs de estúdio para a MCA Records -- 10 se contarmos "Full Moon Fever" e "Wildflowers", assinados apenas por Petty, mas com quase todos os Heartbreakers no suporte --, nossos bravos rapazes estavam prontos para encarar uma nova etapa de suas carreiras na Warner Bros Records.


Mas havia uma pendência contratual de Tom Petty & the Heartbreakers com a MCA que ainda precisava ser saldada, e que impedia que a banda lançasse um novo disco de inéditas pela sua nova casa. Foi quando Petty decidiu chutar para o alto e ofereceu à MCA um projeto de uma caixa retrospectiva de 20 anos de carreira com nada menos que seis CDs: três fazendo uma retrospectiva cronológica da tragetória da banda e outros três com demos, outtakes e covers, além de gravações do Mudcrutch -- banda que Tom Petty e Mike Campbell tiveram nos dois anos que antecederam a estreia oficial dos Heartbreakers. Era pegar ou largar. 

A MCA pegou. E lançou a caixa, luxuosíssima, com o título "Playback", e títulos específicos para cada um dos 6 cds do pacote. Não foi exatamente um sucesso de vendas por ser um pacote caro e ambicioso demais, de interesse exclusivo dos fãs mais ardorosos, mas serviu como um rito de passagem para Petty e seus comparsas rumo aos 20 anos seguintes de vida da banda.


Mas, como todos sabemos, de uns anos para cá essas caixas retrospectivas mais ambiciosas, com muitos cds, começaram a deixar de interessar aos fãs das bandas, que passaram a preferir caixas ainda mais extensas com sessões completas de gravação. Como as recentes "The Cutting Edge", que reúne tudo o que Bob Dylan gravou em estúdio entre 1965 e 1966, e "The Ties That Bind", que agrupa em 4 cds e 3 dvds todas as gravações de estúdio feitas por Bruce Springsteen entre 1979 e 1980, além de um show inédito, um documentário e gravações realizadas na longa tournée que veio a reboque do álbum duplo "The River".

Por conta disso, quando Tom Petty começou a gerenciar o lançamento de toda a sua discografia para venda através de downloads digitais, ficou na dúvida se fazia sentido lançar "Playback" digitalmente no formato original. E então, depois de consultar seu staff para definir a melhor saída para comercializar "Playback", ficou decidido que os discos 5 e 6 da caixa -- "Through The Cracks" e "Nobody's Children" -- seriam comercializados individualmente em versões digitais neste final de 2015, um ano em que a banda optou por tirar uma licença sabática e não excursionou.


Não há muito o que dizer sobre esses dois discos, a não ser que são ótimos complementos aos LPs de carreira de Tom Petty & The Heartbreakers, resgatando ítens meio esquecidos que, de tão bons, não mereciam ter sido excluídos por tanto tempo.

 "Through The Cracks" traz gravações que remontam ao Mudcrutch e seguem pelos primeiros 10 anos de carreira da banda, revelando canções fantásticas que ficaram de fora dos discos oficiais e covers tão inusitados quanto deliciosos.

 Já "Nobody's Children" foca nos demos, inéditas e covers gravados nos anos seguintes, entre 1983 e 1992, resgatando pérolas como "Ways To Be Wicked" -- que Petty e Campbell entregaram para Maria McKee gravar com o Lone Justice -- e "Waiting For Tonight" -- gravada com backing vocals das adoráveis The Bangles, e que permanecia inédita.


Se você é fã de Tom Petty & The Heartbreakers e não possuí a caixa "Playback" na sua coleção, não perca esta chance de conhecer melhor esse material surpreendente da banda.

Acredite: não há maneira melhor do que aguardar até meados de 2016, quando Tom Petty & The Heartbreakers devem sair em tournée mais uma vez, promovendo o lançamento do novo LP que será gravado ao longo deste Inverno que está começando no Hemisfério Norte.   

Cada um dos álbuns tem um custo de US$ 9,99 via iTunes Music Store, Amazon MP3 e Spotify, e podem ser adquiridos através do website oficial de Tom Petty com um cartão de crédito internacional.


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domingo, dezembro 20, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "ZIPPER DOWN", NOVO LP DOS EAGLES OF DEATH METAL

por Chico Marques


Não dá para negar a velha frase favorita do saudoso cineasta francês François Truffaut: "A vida tem mais imaginação que nós".

Quem diria que, depois de 15 anos na cena independente de Los Angeles, com um projeto artístico extremamente divertido e quase diletante, os amigos de adolescência Jesse Hughes e Josh Homme iriam emplacar com o grande público a partir da terrível desgraça ocorrida no Club Le Bataclan, foco principal dos atentados terroristas de 13 de Setembro de 2015 em Paris?

Pois foi o que aconteceu. O Eagles Of Death Metal estava na Cidade Luz para o lançamento de seu novo disco, "Zipper Down", o quarto de sua carreira. Por não ser uma banda mainstream, capaz de arrastar multidões para dentro de um Estádio -- como o U2 ou o Pearl Jam, por exemplo --, o Club Le Bataclan, com capacidade para no máximo 1.500 pessoas, estava de muito bom tamanho para acomodar os fãs parisienses da banda e mais alguns novos adeptos.

Toda essa encrenca em Paris parece colocar um ponto final num período bastante conturbado na vida do biker e boogie-rocker Jesse Hughes, relatado no recente documentário "The Redemption Of The Devil", sobre sua recente ordenação como pastor protestante em uma dessas seitas malucas que pipocam na California desde o início do Século XX, além de seu casamento com a ex-estrela pornô Tuesday Cross, seu envolvimento com militantes pró-NRA (National Rifle Association) e sua batalha pela custódia de um filho de um casamento anterior.

Consta ainda que o "making of" desse novo disco, "Zipper Down", foi, segundo fontes, um tanto quanto atrapalhado, e teria sido salvo pela concisão de idéias de Josh Homme, encarregado da produção, que fez uso de toda a bagagem adquirida em anos e anos como cantor e produtor do grupo Queens Of The Stone Age.



Quem vê o visual Doobie Brothers Anos 70 dos Eagles Of Death Metal, logo percebe que são gozadores. O assunto principal do repertório do Eagles Of Death Metal em "Zipper Down" é sempre mesmo: sexo, mulheres fogosas e dadivosas e, claro, zippers arreados, prontos para o que der e vier. O tom da banda é sempre de galhofa. Mas não uma galhofa inócua qualquer. O Eagles Of Death Metal é musicalmente arrojado, faz uso de saídas musicais modernas e inusitadas, e produz discos para apetites musicais diferenciados. É uma banda que passa milhas distante de qualquer obviedade do mercado fonográfico.

"Zipper Down" abre com "Complexity", um rock tipo anos 50 que brinca com os paradoxos da vida, que faz uso de vocais de fundo perseguidos por um sax barítono meio desgovernado numa muralha de som engarrafada. É um número curto e de rachar de rir. Phil Spector certamente teria aprovado a brincadeira.

"Silverlake KSOFM", a faixa seguinte, pode até parecer à primeira vista uma saudação ao hoje elegante bairro de Los Angeles, mas uma leitura cuidadosa revela ironias e sarcasmos disparadas em primeira pessoa dignas das canções clássicas de Randy Newman escritas para a cidade, como "I Love L.A.". Simplesmente sensacional.

O resto do disco soa mais familiar, mas nem por isso é menos atraente. Números suingados como "Got A Woman", "Skin Tight Boogie" e "So Easy" remetem diretamente às aventuras musicais da banda em seus três discos anteriores, e servem para colocar "Zipper Down" mais próximo do chão. 

E então, a releitura meio desarvorada de "Save A Prayer", do Duran Duran, fecha o disco quase em tom de piada, deixando o arremate final para 'The Reverend", uma carta de (más) intenções extremamente bem humorada do Reverendo Jesse Hughes a seus discípulos.



É perfeitamente compreensível que tanto os roqueiros mais ortodoxos quanto os fãs de rock pop permaneçam insensíveis às idéias musicais do Eagles Of Black Metal. Não é uma banda que veio para facilitar as coisas. Seu decadentismo modernoso segue uma cartilha musical muito própria.

Chega a ser sintomático que justamente eles tenham sido escolhidos como vítimas da tragédia promovida pelos terroristas do Estado Islâmico.

Mas o fato deles estarem, dois meses depois do ocorrido, em tournée pela Europa novamente, intrepidamente divulgando a palavra do Reverendo Jesse Hughes para platéias destemidas, já é prova suficiente de que o Ocidente Decadente e Depravado continua vencendo a Guerra.



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sexta-feira, outubro 30, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "CROSSEYED HEART", NOVO LP SOLO DO SOUL SURVIVOR KEITH RICHARDS

por Chico Marques


Depois de um mês escutando quase diariamente o novo disco de Keith Richards, "Crosseyed Heart", e já sabendo de antemão que seria impossível para mim escrever uma resenha empírica sobre ele, decidi partir para a louvação mesmo. 

A verdade é que eu adorei "Crosseyed Heart". Presumo que todos os que conheçam bem o trabalho de Keith tenham adorado o disco também. Tudo é completamente familiar da primeira à última faixa. O surpreendente aqui não é o conteúdo do disco. E sim a atitude na hora de executar as canções. 

É uma pena que os Rolling Stones não tenham mais saco nem para gravar novos discos de estúdio -- o último, "A Bigger Bang", já tem onze anos de idade --, nem para trabalhar de forma tão francamente descomplicada quanto a escolhida por Keith nesse disco.



Quando Keith Richards brigou feio com Mick Jagger 30 anos atrás, na ocasião da gravação do LP "Dirty Work", alegando que os Stones precisavam urgentemente cair na estrada para continuar sendo relevantes como banda -- e Mick bateu o pé e discordou --, não havia mais futuro possível para os Rolling Stones naquele momento. 

Havia uma clara situação de rompimento entre os dois. Tanto que gravaram suas partes em "Dirty Work" em horários alternados, sem olhar na cara um do outro. Só não se separaram porque a banda é, antes de mais nada, uma empresa muito rentável, e desmontá-la naquele momento seria uma operação muito complicada. 

Foi quando Keith decidiu dar um tapa na cara com luvas de pelica em Mick, reunindo um grupo de artistas que admirava e montando uma banda com eles, The X-Pensive Winos, para em seguida cair na estrada e -- heresia das heresias! -- gravar dois discos -- "Talk Is Cheap" (1988) e "Main Offender" (1992) -- que, apesar de serem tecnicamente discos solo, eram nitidamente discos de banda.

E essa banda não era The Rolling Stones.



Mick Jagger já tinha três discos solo até então. 

Todos eles meio frios, orientados por produtores, e gravados com o apoio de músicos de estúdio altamente profissionais, mas que em momento algum suam a camisa. 

Não havia nesses discos o menor vestígio daquele vigor que só o trabalho de uma banda de verdade pode proporcionar, e Jagger sabia bem disso, tanto que morreu de ciúmes da atitude de Keith. 

No final das contas, teve que dar o braço a torcer. 

E então, os Rolling Stones voltaram com um disco sensacional em 1989 -- "Steel Wheels" -- e uma tournée espetacular a reboque do disco. 

Foi a última com Bill Wyman no baixo, que deixou a banda por ter desenvolvido pânico de aviões, mas preferiu alegar não suportar mais o estilo de vida de seus velhos parceiros.



Apesar de Keith Richards contar com o apoio de vários X-Pensive Winos -- Steve Jordan, Waddy Wachtel, Ivan Neville, Sarah Dash -- na maioria da faixas de "Crosseyed Heart", não estamos diante de um disco de banda como nas duas vezes anteriores. 

De certa forma, esse talvez seja o primeiro disco solo de verdade de Keith. 

Ao invés de uma banda, dessa vez ele está cercado de músicos amigos. 

Os sopros derradeiros de seu velho comparsa Bobby Keys, por exemplo, estão registrados aqui, em "Crosseyed Heart".

A sempre adorável Norah Jones também faz uma participação muito delicada nessas sessões de gravação.



O momento atual é completamente diferente do vivido por Keith Richards nos Anos 80. 

O futuro dos Stones não parece ser mais uma preocupação em sua vida. 

As tournées que antes promoviam discos novos agora promovem o programa de relançamento da discografia original dos Stones, repletas de bonus tracks e com remasterização supervisionada por Keith e Mick. 

Dizem as boas e as más línguas que vários supostos leftovers da banda da década de 1970 incluídos nestes relançamentos foram na verdade compostos recentemente e fajutados como canções clássicas.

Mick e Keith não dizem que sim, nem que não.



Enfim, "Crosseyed Heart" é um disco com a cara de Keith Richards. 

Que revela um artista multifacetado em toda a sua plenitude, mas que sempre usou -- e, pelo visto, sempre vai usar --  o blues como via de acesso a todas as linguagens musicais que lhe interessam. 

Melhor indicativo disso do que o repertório absolutamente eclético desse disco, impossível. 

Tem desde uma releitura linda de "Goodnight Irene" de Leadbelly até uma curiosa gravação do reggae "Love Overdue" de Gregory Isaacs, passando por baladas magníficas -- “Suspicious”, “Just a Gift”, “Illusion” -- e por rocks impecáveis -- “Trouble”, “Amnesia”, “Something for Nothing”, “Substantial Damage”, “Heartstopper” --, além de alguns blues e outros números que, de tão híbridos, chegam a ser difíceis de classificar. 

Rola de tudo nas 15 faixas de "Crosseyed Heart". E é tudo um imenso prazer. E não poderia ser diferente em se tratando de um soul survivor como Keith Richards. 

Acreditem: ninguém ostenta um coração vesgo assim, à toa.



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quarta-feira, outubro 28, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "STILL GOT THAT HUNGER", NOVO LP DOS VETERANÍSSIMOS ZOMBIES

por Chico Marques


Dizer que a música dos Zombies sempre esteve muito à frente do seu tempo equivale a chover no molhado. 

Quando o grupo surgiu num subúrbio londrino em 1961, não havia nada remotamente semelhante a eles em toda a Inglaterra. O piano e o órgão Hammond B-3 bem jazzísticos de Rod Argent pareciam ter sido feitos sob medida para emoldurar a voz intensa e cristalina de Colin Blunstone. E a alquimia resultante disso gerou logo de cara singles curiosos como “She´s Not There” e “Tell Her No” – que, por mais estranhos que fossem para a época, conseguiram pegar carona na British Invasion e acabaram emplacando nas paradas americanas, mesmo tendo passado quase despercebidos nas paradas inglesas. 

A maldição dos Zombies é que eles não conseguiam ser uma banda de singles. Eram arrojados demais para o hit parade britânico. Deram o azar de surgir numa época em que havia a obrigação de emplacar singles nas paradas para só então poder realizar um LP.



Então, depois de uma série de singles que infelizmente não emplacaram nas paradas, os Zombies acabaram descartados pela Decca Records. Rod Argent e Colin Blunstone, desanimados, reuniram os membros da banda e decidiram que gravariam só mais um LP. Assinaram um contrato de um disco só com a Columbia, que repassou para eles uma verba quase ridícula, que os impedia até de contratar músicos adicionais para o projeto -- tanto que Argent teve que emular os arranjos da orquestra num mellotron, algo inédito na época. 

O descaso da Columbia para com eles foi tamanho que ninguém se preocupou em supervisionar o trabalho dos rapazes. Resultado: sem qualquer compromisso em emplacar um LP de sucesso, os Zombies produziram “Odessey & Oracle” (1967), uma pequena obra prima pop psicodélica, que acabou lançada sem publicidade na Inglaterra e por pouco não teve uma edição americana. Se Al Kooper, fã de banda e também contratado da Columbia, insistindo tanto com o pessoal da gravadora, "Odessey & Oracle" jamais teria cruzado o Atlântico.



Então, o inusitado acontece: quase dois anos após o lançamento do LP na Inglaterra, com todos os membros da banda já trabalhando em outros projetos, alguém na Columbia americana decide lançar “Time Of The Season”, uma das canções de “Odessey & Oracle”, no formato single, e a música explode misteriosamente nas paradas do mundo todo. 

A saia justa dos integrantes dos Zombies foi enorme, já que nenhum dos integrantes originais dos Zombies pretendia voltar atrás na decisão de aposentar a banda. Rod Argent já tinha montado o Argent, banda progressiva de muito sucesso nos anos 70, e Colin Blunstone estava lançando seu primeiro disco solo. Pela primeira vez na história da música popular, uma banda chegava ao seu apogeu dois anos depois de ter encerrado carreira.



Nos anos 1980 e 1990, Rod Argent e Colin Blunstone voltaram a contracenar em diversas ocasiões. Argent firmou-se como produtor de sucesso, ajudando a viabilizar as carreiras de vários artistas ascendentes, como Tanita Tikaram e Jules Shear, enquanto Blunstone seguiu com LPs solo sempre muito bem recebidos por crítica e público. 

Até que, em 2000, inventaram de gravar um disco juntos. E esse disco fluiu tão bem que os dois, saudosos dos velhos tempos, decidiram ressucitar os Zombies para uma pequena tournée de 6 datas. Que acabou durando mais de 10 anos, num sinal claro de que a sintonia entre os dois velhos parceiros permanecera inabalada depois de tantos anos.



Foi quando Rod Argent e Colin Blunstone tomaram coragem para lançar um LP repleto de canções inéditas , que eles andaram testando ao vivo nos shows. “Breathe Out, Breath In” (2010) foi saudado pela crítica e pelo público cativo da banda como um disco impecável, de altíssimo gabarito artístico, que não pretendia em momento algum atualizar a sonoridade dos Zombies e muito menos recomeçar de onde “Odessey & Oracle” parou. 

Na verdade, funcionava como um registro de como Argent e Blumstone pensam e agem musicalmente nos dias de hoje. Não é nenhum exagero afirmar que desde “Before We Were So Rudely Interrupted” (1977), dos Animals, não se via um LP de retorno de uma banda clássica tão honesto e íntegro quanto este.



Agora, cinco anos mais tarde, a história se repete.

E os Zombies retornam com um novo álbum de canções inéditas chamado apropriadamente "Still Got That Hunger". É um LP menos replexivo que o anterior e mais "straight forward", com muitas guitarras gritando o tempo todo e um repertório menos calcado em baladas. O foco principal aqui é no blues acelerado, que, de certa forma, remete mais à sonoridade do grupo Argent -- que Rod Argent comandou nos Anos 70, com muito sucesso -- , do que propriamente ao som tradicional dos Zombies. 

A capa lembra "Odessey & Oracle", e deixa no ar a idéia de que se os Zombies não tivessem encerrado em 1968, provavelmente teriam seguido em frente com uma levada musical bastante semelhante à essa praticada neste disco. Das dez canções que compõem o disco, apenas uma, "I Want You Back Again", é regravação -- bem original, diga-se de passagem -- de um número clássico da banda de 1965. 

Claro que todas as outras nove são marcantes, cada uma à sua maneira. Eu, pessoalmente, fiquei encantado com as baladas pop jazzísticas "And We Were Young Again", "Chasing The Past", ambas excelentes. "New York" não fica atrás: trata-se de uma saudação à cidade, com um relato curioso da primeira vez em que Rod e Colin visitaram a cidade nos Anos 6O e assistiram a uma apresentação de Aretha Franklin. saindo completamente encantados com tudo o que a cidade lhes proporcionou e, de certa forma, lhes ensinou. 

Todas as outras canções são, acima de tudo, eficientes e bem posicionadas na sequência do disco. São canções do tipo que gruda e não sai mais do ouvido. E o mais curioso é que todas parecem ter sido arranjadas da maneira mais descomplicada possível, para poderem ser tocadas na estrada sem maiores problemas.



Definitivamente, não se faz mais compositores como Rod Argent. Quebraram a forma. Ele permanece um compositor, arranjador e pianista espetacular, sempre imaginativo ao extremo, referência fundamental na formação musical de craques como Donald Fagen (Steely Dan) e Jay Ferguson (Spirit, Jo Jo Gunne). 

Quanto a Colin Blunstone, ele permanece o mesmo grande cantor com voz de veludo de sempre. Pode parecer absurdo o que vou dizer agora, mas ele canta melhor hoje, com meio século de carreira nas costas, do que cantava em 1967, quando gravou "Time Of The Season".

Aliás, é bom frisar que tanto Rod Argent quanto Colin Blunstone acabam de completar 70 anos de idade extremamente bem vividos. Juntos, formam uma das parcerias musicais mais criativas e mais longevas da história do rock and roll. 

Assim, só nos resta desejar que os Zombies continuem assim por mais quanto tempo ainda for possível. E nunca deixem de eventualmente presentear a si próprios -- e a nós também, claro -- com discos deliciosos como esse "Still Got That Hunger".

Quem viu The Zombies ao vivo este ano no Festival South By Southwest em Austin, Texas, ficou maravilhado com o poder de fogo da banda. 

A foto abaixo foi tirada no show, e, de certa forma, diz tudo. 



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