segunda-feira, março 30, 2015

A VOLTA TRIUNFAL DOS BLASTERS NUM PROJETO ACÚSTICO EM HOMENAGEM A BIG BILL BROONZY


Quando o punk-rock explodiu na cena anglo-americana em meados dos Anos 1970 -- pregando de forma truculenta aquele discurso de ruptura bem burrão, de classe operária vingativa --, seus líderes achavam estar derrubando muros em busca de algum tipo de libertação. 

Na verdade, não tinham massa encefálica suficiente para perceber que a desconstrução das formas musicais que eles combatiam frontalmente era, antes de mais nada, um flerte aberto com o suicídio do rock and roll.

Por sorte, antes de conseguir cumprir seu propósito, o punk-rock se autodestruiu por absoluto esgotamento temático e existencial em apenas dois anos de vida. 

Por sorte também, muitas bandas emergentes na época não se deixaram sensibilizar pela atitude autodestrutiva dos punks e saíram em busca de outros caminhos. 

E por mais sorte ainda, a cena pós-punk que veio logo a seguir abriu os braços para todas as manifestações musicais desalinhadas que surgiam em todos os cantos do Planeta, e as acolheu sem restrições.
Os californianos The Blasters são uma dessas bandas desalinhadas que surgiram na esteira do punk-rock, mas que do punk-rock herdou apenas o imediatismo musical e atitude do it yourself

Sob o comando dos irmãos Phil Alvin (voz) & Dave Alvin (guitarra), mais o baterista Bill Bateman e o baixista John Bazz, sabiam combinar de forma brilhante elementos de blues, rhythm & blues e rockabilly, e eram tão bons no preparo desse bem-bolado musical que ganharam fama como a "banda cavalo" favorita dos veteranos desses três gêneros sempre que chegavam sem banda para se apresentar em Los Angeles

Eram pau para toda obra.

Gravaram seu primeiro disco como quarteto pela Hightone Records em 1980, mesclando muitos clássicos com alguns números originais. 

No segundo disco, de 1981, eles se reinventaram como um septeto, com um pianista e dois saxofonistas cuspindo ijá veio pela Slash!, um selo ligado ao Grupo Warner

Eu, pessoalmente, jamais vou conseguir esquecer da porrada que levei quando conheci a banda através de seu terceiro e excelente LP, Non-Fiction, que chegou a ser lançado pela Warner brasileira em 1983. 

Mas, infelizmente, logo após o lançamento do seu quarto disco, Hard Line (1985), os Irmãos Alvin se pegaram no tapa e os Blasters se desintegraram. 
Phil Alvin até tinha uma ótima expectativa de futuro como artista solo, e chegou a brilhar em Romeo's Escape (1987), mas perdeu o rumo de sua carreira e não chegou a gravar um segundo disco, preferindo reeditar os Blasters -- só que sem seu irmão Dave.

Dave Alvin, por sua vez,  engatou uma carreira solo brilhante, gravando mais de uma dúzia de LPs fundamentais e impecáveis e tornando-se um dos artistas mais respeitados da cena musical americana dos últimos 30 anos, trafegando pela alma musical americana com uma grandeza só comparável ao trabalho de seu amigo, também guitarrista, Ry Cooder

Pois eis que agora os dois fizeram as pazes ano passado e decidiram gravar um disco juntos depois de 30 anos distantes um do outro. 

E na hora de escolher repertório, uma surpresa: os dois optaram por gravar apenas canções do mestre do blues Big Bill Broonzy -- só que com a urgência rockabilly característica dos Blasters.
Essa brincadeira deu nesse delicioso Common Ground (um lançamento Yep Roc Records), uma pequena obra-prima que recicla de forma inusitada o repertório desse grande cantor e compositor americano de blues. 

A voz tenor de Phil se alterna com o tom baixo da voz de Dave, e os dois viajam maravilhosamente bem em canções de Big Bill pouco gravadas como Tomorrow, You've Changed e Stuff They Call Money

Para quem estava com saudades dos Blasters, Common Ground é o antídoto perfeito. 

Já para quem ainda não conhece o legado musical brilhante dessa grande banda californiana, é, certamente, um excelente ponto de partida.









AMOSTRAS GRÁTIS

sexta-feira, março 20, 2015

ANNIE LENNOX CHEGA AOS 60 ANOS DE IDADE COM UM DISCO SIMPLESMENTE ESPETACULAR


Annie Lennox é uma cantora e tanto.

Quem a viu na Cerimônia de Entrega dos Grammies cantando uma versão poderosíssima de "I Put A Spell On You", clássico de Screamin' Jay Hawkins, ficou de boca aberta.

Primeiro com o vigor de sua releitura, que destoava por completo do clima sempre meio xoxo e cerimonioso da 'Festa".

Segundo, porque ela fez alterações mínimas no arranjo original da canção, que já havia sido gravada por dezenas de artistas dos mais diversos gêneros, e correu atrás de fazer a diferença apenas com sua interpretação -- que foi, sem exagero algum, um esforço artístico espetacular, quase heroico.

Chega a ser um contrassenso que sua gravação de "I Put A Spell On You", com essa pegada fortíssima, faça parte justamente da trilha sonora de "Cinquenta Tons de Cinza", certamente o filme mais frouxo deste ano.


O caso é que desde que deixou o Eurythmics, a escocesa (de nascença, apenas) Annie Lennox vem seguindo uma das carreiras solo mais erráticas de que se tem notícia.

Sua discografia é irregular, e se divide entre os que trazem composições próprias e os que são coleções de covers.

Os de canções próprias diferem bastante do trabalho que ela desenvolvia com Dave Stewart no Eurythmics, pois são projetos aventurescos, repletos de composições bem resolvidas, mas pouco orgânicos em termos musicais, e que revelam uma artista empenhada muito além da medida na busca de algum tipo de autoafirmação, após ter feito parte de uma banda tão bem resolvida em termos artísticos. 

"Diva", seu primeiro disco solo, foi uma vítima fatídica dessa síndrome do estreante ilustre. e praticamente naufragou em uma sucessão de excessos, tanto nos arranjos quanto na produção. Os outros dois -- "Bare" e "Songs Of Mass Destruction" --, um pouco menos.

Já suas coleções de covers são sempre soberbas. 

"Medusa", a primeira e mais bem sucedida delas, tanto em termos artísticos quanto comerciais -- com as canções "No More I Love You's", "A Whiter Shade Of Pale" e "Train In Vain" -- estabeleceu Annie tanto como intérprete quanto como uma artista solo extremamente viável para o público adulto contemporâneo. 


Agora ela está de volta com mais uma coleção de covers, bem diferente das anteriores.

Em "Nostalgia", sua estréia na Blue Note Records, Annie passeia pelo "Great American Songbook" -- mas faz isso de forma pouco ou nada ortodoxa, esbarrando aqui e acolá com canções mais selvagens e desalinhadas que as que saíam dos escritórios das Editoras Musicais do bairro mítico de Tin Pan Alley, em Nova York.

Annie trabalha com o suporte de um combo de jazz (guitarra, piano, baixo e bateria) que dá a ela um apoio mais percussivo que melódico, muitas vezes reduzindo grandes standards a temas quase minimalistas. 

A partir dessa moldura, Annie fica inteiramente à vontade para reinventar canções clássicas -- como acontece com "God Bless The Child" e 'Strange Fruit", ambas de Billie Holiday -- ou então para simplesmente acrescentar seu sotaque personalíssimo a baladas que são escolhas quase óbvias, como "Georgia On My Mind" e "Summertime".

"I Put A Spell On You" abre como uma espécie de carta de intenções, cantando a bola dos elementos que, pouco a pouco, vão nos nocautear ao longo do disco. Piano percussivo e sem floreios. Base rítmica idem. Dramaticidade extrema nas interpretações. Tudo reunido num produto final desconcertante e primoroso.

"Nostalgia" é tudo menos um disco nostálgico. É, na verdade, uma abordagem moderníssima a um repertório de canções clássicas. Um trabalho extremamente bem resolvido em termos artísticos. Gravado com alguma rapidez, mas mixado sem a menor correria. Com todo o carinho que Annie dispensa habitualmente a suas obras.



Annie Lennox nunca foi fácil de lidar. 

É uma mulher rica, trabalha quando quer e, por conta disso, nunca se preocupou em facilitar as coisas para sua gravadora. 

Não faz shows, raramente promove seus discos, e em 23 anos lançou apenas 6 LPs, o que é muito pouco para uma artista de seu quilate.

Mas, como agora Annie faz parte do prestigiadíssimo elenco da Blue Note -- motivo de muito orgulho para ela --, nossa Diva não negou fogo na promoção e na divulgação deste "Nostalgia". 

Que chegou às lojas físicas e virtuais em Novembro do ano passado, foi muito bem de vendagem como presente de fim de ano, e agora ganha uma edição "plus", com um DVD bônus contendo uma performance magnífica gravada em estúdio com o repertório do disco (veja trechos logo abaixo, em AMOSTRAS GRÁTIS).

Se você não ganhou "Nostalgia" de presente no final do ano, vale a pena correr atrás dessa edição "plus". 

Se ganhou, dê o seu exemplar de presente para o primeiro amigo ou a primeira amiga que fizer aniversário, e corra também atrás da edição "plus". 

Annie Lennox está em sua melhor forma aos 60 anos de idade. 

Não hesite em prestar reverência a esta artista admirável. 






segunda-feira, março 16, 2015

ARETHA FRANKLIN E CLIVE DAVIS SE REÚNEM EM MAIS UM DISCO COMERCIALMENTE CERTEIRO E ARTISTICAMENTE DUVIDOSO


Sempre que Clive Davis e Aretha Franklin se encontram, é tiro e queda: a carreira dela imediatamente volta a ser rentável financeiramente.

Claro que o custo artístico desse resgate é sempre bastante alto, mas isso faz parte do jogo -- e é sempre o reflexo de um primeiro momento, pois logo mais adiante qualidade artística e orientação mercadológica acabam se encontrando e chegando a um acordo.

A primeira vez que Clive e Aretha se encontraram foi no início dos anos 1980.

Aretha estava em baixa. 

Vinha de uma série de LPs com vendagem muito baixa na Atlantic, que, por sua vez, se negou a renovar seu contrato. 

A gota d'água havia sido um disco chamado "La Diva" (1979), produzido por Van McCoy, que tentava situá-la, sem sucesso, na cena disco.


Na ocasião, Clive Davis era proprietário da Arista Records. 

Pois ele a contratou em 1982 na bacia das almas -- ela estava há quase dois anos sem contrato -- e passou a supervisionar sua carreira bem de perto.

Chamou Luther Vandross para assumir como produtor de um disco novo para Aretha, com a missão de deixar tirá-la da década de 1970 e fazer com que sua música encontrasse o tom dos Anos 1980. 

Injetou uma verba considerável na produção, e dessa brincadeira nasceu "Jump To It", um disco mais eficaz do que propriamente bom, que emplacou forte nas paradas da época.

Deu no que deu: a carreira de Aretha renasceu nos Anos 80.

E ela voltou a faturar milhões, ainda que em discos de qualidade meio duvidosa, com repertório sempre irregular e produção quase sempre inadequada -- culpa do escandaloso Narada Michael Walden --, um milhão de milhas distante dos grandes discos que ela gravou na Atlantic sob a batuta de Jerry Wexler, Arif Mardin, Tom Dowd e Quincy Jones nos Anos 1960 e 1970.

Mas ao menos essa virada serviu para sintonizar Aretha com o que acontecia de mais moderno na cena rhythm and blues.

O ápice dessa série de discos foi, sem dúvida, "A Rose Is Still A Rose", de 1997, um trabalho moderno e ousado onde ela se afirmou em definitivo como a Diva Absoluta da cena R&B do Fim de Século, com o repertório e os produtores certos pela primeira vez em muitos anos.


Só que de lá para cá, muita coisa desandou em sua carreira.

Aretha se envolveu em processos judiciais complicados.

Depois teve problemas de saúde bastante complicados.

Por último, sua carreira entrou num declive perigoso e ela acabou ficando à deriva do mercado. 

Quando voltou, tentou virar artista independente, e quebrou a cara em dois discos que só seus fãs mais ferrenhos sabem que existem.

Daí, o jeito foi recorrer novamente a Clive Davis para resgatar sua carreira.



"Aretha Franklin Sings The Great Diva Classics" é seu 38 LP de estúdio, e marca sua volta triunfal à Arista Records.

É uma superprodução concebida como uma homenagem a outras Divas, veteranas ou não, que sejam dignas de uma reverência prestada pela Primeira Dama da Soul Music.

Entre as Divas homenageadas, temos tanto as veteranas Barbra Streisand, Etta James, Dinah Washington, Chaka Khan e Gladys Knight quanto novas Divas que ela considera relevantes, como Alicia Keys, Adele e Sinead O'Connor.

Não é um disco à altura do que Aretha já produziu de melhor.

Na verdade, é mais um daqueles discos criados a partir de uma reunião no Departamento de Projetos Especiais da gravadora, empacotados na medida certa para faturar e à prova de riscos.

Apesar da voz de Aretha já não ter mais o mesmo alcance de antes -- convenhamos, ninguém chega aos 70 anos impunemente --, ela tira o repertório de letra.

Infelizmente, suas releituras de clássicos como "Midnight Train To Georgia", de Gladys Knight, ou "I'm Every Woman", de Chaka Khan, soam redundantes e desnecessárias.

Em baladas lentas como "At Last", de Etta James, ou "People", de Barbra Streisand, os resultados são um pouco melhores, mas, mesmo assim, essas releituras estão longe de ser relevantes".

Para ser franco, existem apenas duas releituras relevantes em 
"Aretha Franklin Sings The Great Diva Classics".

A primeira é de "At Night", de Alicia Keys, que virou um reggae perigosíssimo, onde Aretha mostra toda a exuberância de sua voz e todo o perigo que ainda existe por trás de suas investidas vocais.

E a segunda é "Nothing Compares 2U", de Sinead O'Connor, que virou um tema jazz em uptempo irreconhecível. mas intenso, cativante e brilhante...

Se você achar que duas grandes gravações justificam a compra desse novo disco de Aretha Franklin, vá em frente.



"Aretha Franklin Sings The Great Diva Classics" é seu primeiro álbum em 15 anos a ser produzido por Clive Davis, que o considera "pura e simplesmente sensacional", insistindo que Aretha "está pegando fogo e no topo de seus poderes como cantora".

Clive disse ainda que "é emocionante ver uma artista como ela ainda mostrando o caminho, ainda provocando arrepios na espinha, ainda demonstrando que o que a música contemporânea precisa agora ainda é a voz... e que voz!

Exageros à parte, dá para se divertir com "Aretha Franklin Sings The Great Diva Classics"

Não é o canto do cisne de Lady Soul -- que provavelmente tenha sido "A Rose Is Still A Rose" -- mas é um trabalho simpático.

Eu, que evitei ouvir o disco nos 4 ou 5 meses que separam esse comentário do seu lançamento -- com medo de me decepcionar, pois gosto muito de Aretha Franklin --, confesso que estou aliviado.








AMOSTRAS GRÁTIS

sexta-feira, março 13, 2015

CINCO RAPIDINHAS BEM DADAS COM VANILLA FUDGE, CLIMAX BLUES, UFO, TEN YEARS AFTER E URIAH HEEP

É impressionante como tem veterano mercenário e pilantra na cena do rock pesado sempre pronto para faturar um troco qualquer em cima de um passado de glórias que não volta mais.

Basta ver o Queen, que convocou um jovem cantor de uma banda cover do próprio Queen para assumir os vocais da banda nas tournées nostálgicas milionárias que fazem por aí.

O mais impressionante disso tudo é que o público -- que nem se preocupa em esconder seu conservadorismo galopante e seu fetichismo doentio -- prestigia mesmo assim, acha bacana, paga caro, e até sai satisfeito.

Vamos comentar hoje aqui cinco discos de bandas veteranas.  

Dessas cinco, três mantém sua dignidade intacta, e estão de volta com LPs relevantes. 

Já as outras duas merecem o esquecimento

Vamos a elas:



VANILLA FUDGE
SPIRIT OF 67
(Cleopatra)

O Vanilla Fudge é uma das bandas mais originais da cena americana dos anos 60. Surgida nos arredores da cidade de Nova York, é, certamente, o elo perdido entre a soul music, o pop psicodélico e o hard rock, graças aos grandes covers com arranjos criados a partir de um órgão Hammond B-3 para as canções de sucesso da Motown e da Stax que brilhavam nas paradas de sucesso da época. Sempre sob o comando do baixista Tim Bogert e do baterista Carmine Appice, o Vanilla Fudge conseguiu a proeza de brilhar intensamente tanto em meio ao grande elenco soul da Atlantic Records quanto ao lado de bandas heavy como o Iron Butterfly e o Led Zeppelin, que também eram contratados da ATCO. Encerraram atividades na virada para os Anos 1970 porque acharam que o som da banda havia envelhecido. Mas, depois de participarem de bandas de vida curta como o Cactus e o trio Beck Bogert & Appice, descobriram que estavam enganados, a sonoridade do Vanilla Fudge era mais perene do que aparentava ser a princípio. Daí, o Vanilla Fudge voltou ao batente em meados dos anos 80, quando Carmine Appice foi dispensado da banda de apoio de Rod Stewart, e não parou mais. O que esse recém-lançado "Spirit Of 67" tem de tão especial é que, ao mesmo tempo em que é absurdamente fiel à sonoridade original do Vanilla Fudge, mostra a banda rejuvenecida musicalmente, bem produzida e demonstrando um vigor musical delicioso nessas releituras de clássicos que brilharam nas paradas de 1967. Acredite: esses velhinhos ainda dão no couro. 



CLIMAX BLUES 
BROKE HEART BLUES 
(Angel Air Music)

Quando o cantor e saxofonista Colin Cooper morreu em 2008, aos 68 anos de idade, Pete Haycock, seu velho parceiro e guitarrista na Climax Blues Band, declarou que a banda havia acabado. Desde então, Pete vem mantendo uma carreira solo modesta com discos eventuais e tournées constantes pela Europa e Japão, onde se concentra o grosso do público da Climax. Dois anos atrás, no entanto, ele se reuniu ao guitarrista Robin George e ao saxofonista Mel Collins, e juntos deram início a um projeto que, acidentalmente, remetia à sonoridade original da Climax Blues Band. Daí os executivos da Angel Air Music propuseram a Pete que resgatasse o nome da velha banda, sugerindo uma nova formação. Pete não gostou da ideia a princípio, mas acabou permitindo o uso de Climax Blues, sem o Band no final. Fez bem em fazer isso. "Broke Heart Blues" faz juz à levada soul-blues-pop da banda, e o uso do nome deve despertar o interesse dos velhos fãs em seu trabalho solo atual. É um disco delicado, suingado, envolvente e extremamente agradável. Um belo projeto, que, com um pouco de sorte, talvez tenha uma sequência em breve. 



UFO
A CONSPIRACY OF STARS
(Steamhammer Music)

Caso raríssimo de dignidade a toda prova na cena do hard-rock, os ingleses do UFO permanecem em cena há 45 anos tentando se reinventar de tempos em tempos, sem jamais perder sua identidade original, e não querem saber de virar um "item de nostalgia", como acontece com tantas outras bandas contemporâneas deles. "A Conspiracy Of Stars", 21° LP do UFO, traz dez bons números que talvez não acrescentem muita coisa ao que a banda já realizou antes, mas servem para marcar território e mostrar que eles estão muito acima da oportunismo safado que assola o gênero. A banda mantém em seu elenco os membros veteranos Phil Mogg, Paul Raymond e Andy Parker, e convocou os reforços do virtuoso guitarrista Vinnie Moore e do baixista Rob De Luca. A intenção dos integrantes do UFO é seguir em frente, sempre renovados, tentando, na medida do possível, manter-se relevantes com um trabalho honesto e bem realizado. Sabem o que fazem. Parabéns!  



TEN YEARS AFTER
THE NAME REMAINS THE SAME
(Nova Music)

Impressionante como no "pega pra capar" do universo do hard-rock, dignidade vem sempre em último lugar: o importante é faturar em cima do passado glorioso de uma banda e o resto que se dane. Alvin Lee ainda nem tinha esfriado no túmulo e seus inexpressivos e nada suingados ex-companheiros de banda Ric Lee e Chick Churchill, agora donos do nome Ten Years After, caíram na estrada com um jovem guitarrista e cantor chamado Marcus Bonfanti, que topou vender sua alma para embarcar numa das empreitadas mercantilistas mais escrotas da história do rock and roll. O resultado é esse constrangedor "The Name Remains The Same", um LP ao vivo que tenta emular as performances clássicas da banda na primeira metade dos anos 1970. Bonfanti é um artista talentoso, com três discos solo muito bons em seu curriculum. Errou feio ao se envolver nesse projeto 171 que em nada enobrece sua biografia. Engodo pesado.



URIAH HEEP
LIVE AT KOKO, LONDON 2014
(Frontiers Music)

É um alívio constatar que, 43 anos depois de "Bronze Records Presents Uriah Heep Live!", esta velha banda finalmente aprendeu a tocar direito. Claro que para que isso fosse possível, foi necessário trocar praticamente toda a incompetentíssima formação original -- da qual resta apenas Mick Box, um dos piores e mais escandalosos guitarristas da história do rock. Mas isso infelizmente não resolve a questão existencial básica do Uriah Heep, que é: como justificar a estranha longevidade de um grupo tão desqualificado em termos artísticos? "Live At Koko London 2014" é um CD-DVD que promove uma longa retrospectiva na carreira da banda, mesclando o repertório clássico da primeira metade dos anos 1970 com obscuridades cometidas de lá para cá, e é constrangedor da primeira à última faixa. Para os que ainda tem estômago para os arranjos de péssimo gosto da banda e tímpanos para suportar os gritinhos socados do horrendo cantor Bernie Shaw, "Live At Koko London 2014" pode até ser uma diversão descompromissada. Já para o resto da humanidade, é só aborrecimento.








terça-feira, março 10, 2015

DWIGHT TWILLEY MANTÉM O FRESCOR DA JUVENTUDE AOS 64 ANOS DE IDADE EM "ALWAYS"


Nossa história começa em 1967, numa sessão de "A Hard Day's Night" em Tulsa, Oklahoma.

Dwight Twilley, um jovem guitarrista de 16 anos, conhece na saída do cinema Phil Seymour, também guitarrista e também com 16 anos, e os dois decidem montar uma banda chamada Oyster.

Começam a compor canções inspiradas nos Beatles, e a gravá-las num estúdio improvisado no porão da casa de Twilley, além de tocá-las nas casas noturnas e nos bailes da região -- e dessa parceria surge um repertório magnífico, conhecido por poucos na ocasião, mas com todos os pré-requisitos para cair no gosto do grande público.

Então, surgiu uma chance de gravar essas canções em Memphis, com técnicos profissionais, no lendário Sun Studios, e isso acaba acrescentando ao som do Oyster um tom mais roqueiro, acentuando as guitarras e estabelecendo, meio que por acidente, a pedra fundamental do que viria a ser classificado nos anos seguintes como Power Pop.


Mas o caso é que nada aconteceu com o Oyster até que Leon Russell -- também de Tulsa, Oklahoma -- resolveu contratá-los para sua Shelter Records em 1974, onde lançaram apenas um compacto -- e onde também gravaram  dois LPs sensacionais, que permaneceram inéditos por vários anos em decorrência da falência abrupta da Shelter e só viram a luz do dia quando a massa falida pode ser finalmente negociada com outras companhias.

E então, finalmente, em 1976, a Dwight Twilley Band estreou num LP sensacional, bem urgente, chamado "Sincerely", gravado inteiramente em Tulsa, com orçamento baixíssimo, e que veio seguido de "Twilley Don't Mind", baseado na mesma fórmula de sucesso.

O motivo pelo qual esses discos eram -- e são -- tão bons é que o repertório deles, composto de Twilley e Seymour ao longo dos dez anos de parceria, estava mais do que testado na estrada e aprovado pela pequena legião de fãs da banda. Não havia o que temer, bastava entrar no estúdio e tocar direito.

Mas o caso é que esse anos todos de contratempos com gravadoras e discos que não eram lançados dificultaram muito o deslanchar de carreira deles, gerando muitos atritos internos e um desgaste pessoal enorme. 

Outras bandas com ambições musicais semelhantes -- como Badfinger, Raspberries e Big Star -- se lançaram na frente e tiveram melhor sorte, apesar de Twilley e Seymour serem, sem sombra de dúvidas, juntamente com Alex Chilton, os grandes pioneiros do Power Pop.



Todo esse desgaste acabou separando Dwight Twilley de Phil Seymour na virada dos anos 1970 para os 1989.

E os dois seguiram carreiras distintas.

Twilley conseguiu se virar melhor, gravando vários discos para a Arista e para a EMI, e tentando adequar sua musicalidade aos Anos 80.

Mas na virada da década seguinte, quando tentou acertar um acordo de distribuição para seu trabalho conceitual "Tulsa", ele viu as portas das grandes gravadoras começarem a se fechar para ele, e o jeito foi lançá-lo por um selo independente.

Desde então, ele brilha na cena indie, grava com relativa regularidade e mantém seu séquito de admiradores com shows constantes pelos EUA e Canadá.



"Always", seu novo trabalho, um lançamento Big Oak Records, não é um trabalho de ruptura com o que Dwight realizou ao longo de seus mais de 40 anos de carreira.

Também não é um disco conceitual.

É apenas uma coleção de canções compostas nos últimos 3 anos, onde ele mostra claramente que continua em excelente forma, tanto como cantor quanto como compositor.

Dwight aproveitou a deixa para chamar vários amigos da cena power pop para participar de "Always", e eles vieram em peso: Mitch Easter, Susan Cowsill, Ron Flynt, Steve Allen, Leland Sklar, Ken Stringfellow, Tommy Keene e até o componente da formação original da Twilley Band, Bill Pitcock IV.

Desnecessário dizer que o astral do disco é altíssimo, e que suas novas canções continuam grudando nos nossos ouvidos -- no bom sentido, claro! -- como grudavam as que ele compôs 40... 30... 20... 10 anos atrás.  

São canções que nasceram prontas para virar singles, prontas para tocar no rádio, prontas para ser assoviadas por todos -- e que só não são porque não chegam mais ao grande público, circulam apenas por um círculo não muito pequeno, mas também não muito grande, de iniciados.

O dado curioso é que, apesar de Dwight ter hoje 64 anos de idade, o frescor juvenul de suas canções permanece intacto em números como "Happy Birthday", dedicado a uma "sweet sixteen" que está completando 17 anos, e "Everyday", um delicioso rito de passagem para a vida adulta que não se completa porque quem canta não consegue esquecer uma garota que ainda é muito importante para ele, e na qual pensa todos os dias.

Algumas faixas são mais roqueiras -- "Into The Flame", "Til The Jukebox Dies" --, outras são baladas com um sotaque beatle -- "I See It Your Eyes", "We Were Scared", "Lovers" --, e tem ainda a faixa título, "Always", que tem o mesmo DNA e a mesma urgência de "I'm On Fire", que abre seu disco de estreia de 1976.




"Always" é um disco agradabilíssimo -- que parece simples, mas não é.

Primeiro, porque não é nada fácil escrever "silly love songs" tão boas quanto essas que temos aqui.

Segundo, porque não é nada simples tocar no "padrão de simplicidade" -- que de simples não tem absolutamente nada -- adotado nos arranjos de suas canções. 

E terceiro, porque não deve ser nada fácil para Dwight manter viva essa Síndrome de Peter Pan aos 64 anos -- mas ele faz o possível para não perder de vista o meninão que mora dentro dele até hoje.

Dwight Twilley é um artista admirável e um verdadeiro original americano.

Que continue com seu "mojo" funcionando por muitos e muitos anos.
    







AMOSTRAS GRÁTIS

sexta-feira, março 06, 2015

JOE ELY RESGATA SUA ALMA DE DELINQUENTE MUSICAL JUVENIL EM DEMOS DE 30 ANOS ATRÁS


Quando Joe Ely surgiu nos anos 1970 no grupo texano The Flatlanders, ao lado dos amigos Jimmie Dale Gilmore e Butch Hancock, ninguém poderia suspeitar que ele pudesse ser tão inquieto em termos musicais.

The Flatlanders era uma combinação aparentemente impossível de talentos, reunindo três compositores de naturezas muito distintas, mais ou menos como o Crosby Stills and Nash, e teve vida curta: em menos de dois anos de carreira, seus integrantes zarparam para carreiras solo.

Joe Ely foi o que demorou mais tempo para emplacar seu primeiro disco -- mas quando conseguiu, foi como um daqueles tornados que assolam o Texas de tempos em tempos, mesclando country music da fronteira com rock and roll rasgado e explosivo.

Seu segundo disco, "Honky Tonk Masquerade" (1978), até hoje tido como uma obra-prima do country rock texano, é tão vigoroso e tão truculento que rendeu a ele um convite do Clash para abrir a tournée americana de "London Calling" e a descoberta de que ele e Joe Strummer eram almas gêmeas.


A partir daí, Joe Ely aproveitou a deixa e passou a se posicionar artisticamente não mais como uma artista de country-rock texano, mas como um roqueiro pós-punk, aberto a todo tipo de experiências musicais sem a menor preocupação com rótulos classificatórios.

O auge desse momento foi justamente no ano de 1984, quando Joe montou uma banda nova e começou a trabalhar com sintetizadores, buscando uma sonoridade situada mais ou menos entre "Trans", de Neil Young, e os discos de Gary Numan.


Essa aventura musical deu no disco "Hi Res", co-produzido por Joe Strummer, que, de tão estranho, nem chegou a ser lançado nos EUA, e foi um fiasco tanto de crítica quanto de vendas.

Depois disso, Ely voltou para os EUA com o rabo entre as pernas e fez de conta que esse disco nunca existiu, dando sequência a sua carreira e canalizando seu lado "delinquente musical" para outros fronts artísticos.

Pois bem: agora, no final de 2014, Joe Ely decidiu resgatar os demos que antecederam aquele disco fatídico, ainda sem banda.

E o que surgiu dessa resgate é quase uma revelação.


"B4 84" (um lançamento Rack'em Records) foi inteiramente gravado num computador Apple IIe, com recursos extremamente ousados na época, mas seguindo a cartilha DIY (Do It Yourself) da Era Punk. 

E não só recupera algumas grandes canções que acabaram atoladas em arranjos duvidosos como também proporciona aos ouvintes com alma geek uma certa nostalgia tecnológica de 30 anos atrás. 

A começar pela arte e encarte de capa com um grafismo realizado em 8-bits -- hoje paupérrimo em termos visuais -- e pelas notas de contracapa do próprio Steve Wozniak, da Apple Computer, que dão o tom deste resgate, muito mais emocional do que meramente musical.

Segundo Ely, o Apple IIe foi o primeiro computador que ele usou para gravar canções, e foi como retornar ao jardim de infância do métier. 

Naquele brinquedinho, ele tratou de se reinventar como compositor e músico. 

Tudo era novidade e tudo parecia possível, e ele mergulhou de cabeça no que ele podia proporcionar.


Ouvindo essas demos hoje, fica a sensação de que elas são  muito superiores ao resultado final dessas mesmas canções em "Hi Res".

Quase todas elas soam ainda modernas ouvidas 30 anos depois de terem sido gravadas, enquanto tudo em "Hi Res" soa irremediavelmente datado.

“Imagine Houston”, por exemplo, usa bateria eletrônica e sons sintetizados, e consegue ser mais vigorosa que todas as outras versões já gravadas dele -- inclusive por Joe Ely em seus vários álbuns ao vivo com sua banda.

"Cool Rockin' Loretta", outro número que nunca pode faltar em seus shows, também está perfeita aqui, com um arranjo simples mas apimentado e bem humorado, como pede a letra.

Várias passagens de "B4 84" lembram coisas que ouvimos hoje nos discos do Daft Punk e classificamos apressadamente como "novidades".


Enfim, não deixa de ser curioso que Joe Ely tenha conseguido achar sua essência musical num brinquedinho eletrônico, mas acreditem: é exatamente isso que acontece aqui.

Joe Ely pode até parecer hoje um senhor pacato de 68 anos de idade, cantor e compositor consagrado e estabilizado em sua carreira musical.

Mas não se engane: dentro desse senhor mora um delinquente musical juvenil perigosíssimo, e sempre muito divertido.

Não é à toa que o Texas é o Estado mais desalinhado da Federação.

Com cidadãos como Joe Ely circulando livremente por lá, estranho seria se não o fosse. 





AMOSTRAS GRÁTIS

quarta-feira, março 04, 2015

O TROVADOR LUNÁTICO ROBYN HITCHCOCK ESTÁ DE VOLTA COM UM DISCO SURPREENDENTE.


Robyn Hitchcock é, sem sombra de dúvidas, a figura mais mambembe e difícil de decifrar do pós-punk britânico dos Anos 1970.

Quando surgiu à frente dos Soft Boys, desafiando a urgência musical da época com um folk-rock psicodélico moderníssimo que seguia na contramão daquilo tudo, ninguém entendeu ao certo onde ele pretendia chegar.

Mas então, no momento em que os Soft Boys começam a ganhar um público mais amplo, ele dissolveu a banda e arrastou quase todos os integrantes para seu projeto Robyn Hitchcock & The Egyptians -- com uma levada mais pop, ainda que com toda a iconoclastia dos Soft Boys preservada -- e, de repente, suas intenções começaram a ficar mais claras.

E o sucesso veio rapidamente, com contratos em gravadoras com base nos Estados Unidos e muita promoção em torno do nome dele.

O sucesso internacional de LPs como "Globe Of Frogs" e "Queen Elvis" deu a Robyn Hitchcock & The Egyptians não só projeção internacional como também um cult-following invejável, que rendeu a ele o apelido "Bob Dylan da Cena Indie".

Paralelamente a sua trajetória com The Egyptians, Robyn deu início a uma carreira solo paralela em discos quase caseiros, completamente inusitados em termos musicais e deliciosamente diletantes.

Com isso, ajudou a criar a Cena Indie, que é hoje tão próspera, e tem evitado seguir modelos impostos por gravadoras e produtores desde então..

E tem sido assim desde então. 

Com mais de 25 discos nas costas, Robyn segue seu caminho, agora com base fixa nos Estados Unidos e sempre presente com discos solo no mínimo curiosos, ou como integrante de projetos como o coletivo all-star Venus 5, que reúne, além dele, Peter Buck (REM), Scott McCaughney (Young Fresh Fellows) e Bill Rieflin (Ministry).



Seu mais novo trabalho, "The Man Upstairs" (um lançamento Yep Roc), é surpreendente. 

Primeiro por não ser um disco conceitual, e suas dez canções -- cinco originais de Robyn Hitchcock e cinco covers -- não estarem interligadas umas às outras.

Segundo, por ser pouco ou quase nada idiossincrático, de fácil digestão até para quem não conhece seu trabalho ou não faz parte de seu cult-following.

E terceiro, por ser produzido pelo amigão Joe Boyd -- responsável por grandes discos de Nick Drake, Fairport Convention, Sandy Denny, Richard Thompson e tantos outros artistas folk crossover --, que conseguiu ancorar a musicalidade de Robyn Hitchcock e dar a ela um porto seguro, algo que ele nem sempre se preocupa em buscar para seus discos.

A produção de Boyd é sutil e suave, entrelaçando de forma muito delicada as cinco canções originais de Robyn com os covers que ele escolheu para o repertório do disco -- entre eles, "I Didn't Mean To Turn You On", do Roxy Music, "The Crystal Ship", dos Doors e "The Ghost In You", dos Psychedelic Furs, todas em versões muito pessoais e deliciosamente excêntricas.

Dizem os amigos mais próximos que Robyn é um intérprete sui generis, pois tem o dom de se expressar plenamente como compositor reinventando drasticamente  as canções dos outros -- o que faria dele não um exatamente como intérprete, mas uma espécie extremamente criativa de usurpador.

Verdade ou não, nenhum dos compositores que cederam canções para Robyn gravar jamais reclamou disso.

Seu público também não. 



Não se engane: Robyn Hitchcock continua, aos 62 anos de idade, o mesmo trovador lunático mezzo Syd Barrett, mezzo Tim Buckley -- ou mezzo Bob Dylan, mezzo Nick Drake, dependendo da estação do ano.

Sua voz continua nasal, ríspida e fora dos padrões certinhos e inofensivos do pop adulto -- o que faz de seu trabalho uma espécie de "veneno" para os programadores das rádios rock pretensamente mais descoladas, que mal conseguem esconder seu conservadorismo.

O desafio de Joe Boyd em "The Man Upstairs"era romper esse bloqueio do mercado e domar a iconoclastia implacável de Robyn -- e aparentemente foi bem sucedido em sua empreitada.

Há muito tempo um disco de Robyn Hitchcock não consegue tanto "airplay" além do circuito habitual das Collage Radios, que sempre dedam suporte à sua carreira.

Mas o mais importante disso tudo é que Robyn Hitchcock tem um público fiel, sempre muito tolerante e muito interessado nos rumos que ele dá a sua carreira.

Esse público fiel -- desnecessário dizer -- abençoou esse "The Man Upstairs" antes mesmo de escutar o disco.









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domingo, março 01, 2015

JOSEPH ARTHUR CELEBRA LOU REED COMUNGANDO DA MESMA ATITUDE ICONOCLASTA PERANTE VIDA E ARTE


A carreira musical de Lou Reed foi uma carreira plena.

Em quase 50 anos desde o surgimento do Velvet Underground até "Lulu", seu último suspiro artístico ao lado do Metalllica, Lou experimentou praticamente tudo o que lhe veio à cabeça, muitas vezes arrumando encrencas monumentais tanto com seu público quanto com as gravadoras RCA, Arista e Sire, que nem sempre aprovavam seus projetos mais diletantes.

Se ficou faltando fazer alguma coisa em sua carreira, talvez tenha sido um álbum acústico com releituras de seus grandes sucessos -- se bem que em "Perfect Night Live In London" (1997) ele chegou perto desse conceito, só que optou por trabalhar um repertório mais obscuro.


O novo álbum de Joseph Arthur, "Lou" (um lançamento Vanguard), pretende ser um tributo carinhoso e pouco reverente a Lou Reed, de quem era amigo pessoal.

Mas o caso é que a falta de reverência foi tamanha que o projeto acabou ganhando contornos amplos e se transformando em muito mais que um mero tributo.

"Lou", da maneira como foi gravado, é um mergulho criativo na obra de um grande artista.

Totalmente acústico, e repleto de releituras que, vez ou outra, tornam números muito conhecidos do repertório de Mr. Reed irreconhecíveis, "Lou" dispensa bateria, baixo e instrumentos adicionais para recriar apenas com voz, violão e piano algumas das canções mais marcantes de duas, três ou quatro gerações.

São doze canções no total.

Abre com uma versão minimalista de "Walk on the Wild Side", sem o cinismo habitual e com uma ternura para com os personagens da canção jamais antes imaginada por Lou. 

"Stephanie Says" traz vocalizações em reverb que transformam os versos da canção quase num diálogo.

"Heroin" vira um blues rasgado, como Lou jamais imaginou gravá-la antes.

"Wild Child" e "Sattelite Of Love" transformam-se em baladas hipnotizantes, 

"NYC Man" e "Coney Island Baby" ganham contornos inusitados na voz gutural de Joseph Arthur.

E "Pale Blue Eyes" e "Magic and Loss" deixam de ser flertes com a morte para transformarem-se em celebrações à vida em tom menor.




Joseph Arthur nasceu em Akron, Ohio, 40 anos atrás, mas caiu fora de lá assim que pôde.

Foi tentar a sorte no circuito folk da Califórnia, e em 1997 deu a sorte -- e também o azar -- de ser descoberto por Peter Gabriel, que o contratou para seu selo New World, voltado prioritariamente para artistas de world music.

Seu primeiro disco para o selo, “Big City Secrets”, serviu para tirá-lo do ghetto folk e projetá-lo para o público de Peter Gabriel. 

Só no seu terceiro trabalho, “Come To Where I'm From” (2000), com produção de T-Bone Burnett e uma levada mais country rock, Joseph Arthur conseguiu atingir um público mais amplo.

Devidamente amparado pela Virgin Records, ele começou a desenvolver projetos mais ambiciosos, sempre influenciado por Gabriel e seguindo conselhos de amigos como Joe Henry e T-Bone Burnett.

Levou alguns anos até a Virgin finalmente se desinteressar dele, mas quando isso aconteceu, ele já era uma força emergente na cena independente.

De lá para cá, gravou uma série de Lps e EPs impeacáveis com sua banda The Lonely Astronauts para seu selo próprio, mesclando folk com pop em contextos sonoros no mínimo inusitados e firmando-se como um dos compositores mais solicitados da cena atual.


Joseph Arthur é um compositor prolífico, e nunca pensou em gravar um disco de covers antes de "Lou".

Talvez por isso mesmo, e também por admirar Lou Reed tão profundamente, essa homenagem ganhou contornos tão especiais e tão pessoais.

O que se pode concluir depois de ouvir "Lou" é que Lou Reed e Joseph Arthur compartilham da mesma atitude iconoclasta perante suas vidas e sua arte.

Da mesma forma que Lou não via nenhuma barreira entre seu trabalho como cantor-compositor e fotógrafo, Joseph adora dizer que sua obra musical e suas pinturas são uma coisa só, que ele chama carinhosamente de “Museum Of Modern Arthur”.

Ou seja: existem mais afinidades entre o autor da homenagem e o homenageado do que pode supor nossa vã filosofia.

Essas afinidades estão todas presentes em "Lou", um disco a ser descoberto.







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