sábado, dezembro 31, 2016

ALTOeCLARO ESCOLHE OS DEZ MELHORES DISCOS DE 2016 (por Chico Marques)

1. BLACK STAR (David Bowie)
Em seu disco de despedida, David Bowie convida o ouvinte para um mergulho na noite da alma. Nele, tudo soa estranhamente confortável e familiar. Ecos dos anos 70 saltam aos ouvidos o tempo todo. Tudo é de uma urgência impressionante. Nesse sentido, lembra um pouco "Station to Station", que foi gravado numa época em que ele vivia no limite, num flerte aberto com a morte -- que ele reverteu de forma brilhante ao longo da série incomparável de álbuns "Low", "Heroes", "Lodger" e "Scary Monsters". Apesar das muitas semelhanças musicais com alguns momentos mais densos de seu disco anterior, "The Next Day" (2013), que abria janelas tanto para seu passado quanto para seu futuro, "Blackstar" não é plural, e nem pretende abrir janela nenhuma para lugar algum. Funciona como um trem fantasma que vaga pela noite, contrapondo o passado à frente do futuro, e vice-versa. Sempre mantendo o imaginário a serviço da realidade, sem perder tempo correndo atrás do sentido da vida, pois não há tempo para isso.

2. POST POP DEPRESSION (Iggy Pop & Josh Homme)
Quem diria que duas das figuras mais loucas da cena do rock and roll iriam um dia unir forças num trabalho conjunto? Pois aconteceu: Iggy Pop e Josh Homme entraram no estúdio em Janeiro deste ano -- às próprias custas e ainda sob o impacto do morte de David Bowie -- e gravaram 9 canções cruas e extremamente contundentes compostas em parceria entre os dois e em apenas duas tardes de gravação. O resultado é cru, urgente, e ao mesmo tempo climático. E lembra eventualmente "Lust For Life", que Iggy e Bowie gravaram juntos em 1977, na Alemanha. De todas as homenagens e tributos realizados este ano pela memória de David Bowie, essa aqui é disparado a mais verdadeira e a mais relevante em termos artísticos.
3. BURN SOMETHING BEAUTIFUL (Alejandro Escovedo)
Aos 65 anos de idade, o sempre incansável Alejandro Escovedo continua correndo atrás no novas experiências musicais. Depois de três discos excelentes produzidos pelo lendário Tony Visconti e gravados com a banda do amigo Chuck Prophet, Escovedo uniu forças com Peter Buck (do REM) e Scott McCaughey (do Minus 5) e juntos compuseram as canções de "Burn Something Beautiful". A coisa toda funciona tão bem que dá para sentir claramente em cada canção do disco um pouco da personalidade musical de cada um dos três, tudo devidamente entrelaçado em guitarradas sensacionais e refrões contundentes. Em suma: um disco com espírito de aventura, algo difícil de ver num artista veterano.
4. SHINE A LIGHT (Billy Bragg & Joe Henry)
2016 foi realmente um ano em que muitos artistas apostaram em trabalhos em colaboração. Aqui, temos o príncipe do folk-punk inglês Billy Bragg unindo forças ao multitalentoso guitarrista e produtor americano Joe Henry em releituras delicadíssimas das clássicas canções de estrada que fizeram a fama de Woody Guthrie e tantos outros menestréis errantes. Para entrar no clima das canções, os dois decidiram apostar no inusitado e gravar o disco em plataformas de embarque e salões de estações ferroviárias entre Chicago e Los Angeles. O resultado é absolutamente reverente ao gênero, e ao mesmo tempo aventuresco em termos de produção. Uma ideia brilhante que acabou rendendo um disco delicioso.
5. THE WESTERNER (John Doe)
Desde os tempos do lendário grupo X nos Anos 80, quem segue a obra do ex-punk rocker John Doe está mais do que acostumado com suas idiossincrasias musicais. Mas The Westerner é, sem dúvida, a melhor, mais ousada e mais madura musicalmente delas todas. É um disco sobre o deserto, que alterna guitarradas à moda de Duane Eddy e Dick Dale com rocks e baladas climáticas que remetem aos Doors e, claro, ao X no início de carreira da banda. À primeira audição, pode até parecer que John Doe está fechando um círculo depois de 35 anos de carreira. Ele diz que não. Mas a sensação -- muito agradável -- que fica é essa. Um disco surpreendente.
6. PAGING MR. PROUST (The Jayhawks)
Com mais de 30 anos de carreira oscilando entre o alt-country e o indie-rock, os Jayhawks pareciam no início ser a reencarnação do espírito ousado do grupo Uncle Tupelo, mas acabaram se transformando numa espécie de "versão fim de século" dos country-rockers do Poco. Claro que não há nada de errado ou de indigno nisso, muito pelo contrário. Novamente sem Marc Olson, que já entrou e saiu da banda sabe-se lá quantas vezes, os integrantes remanescentes dos Jayhawks seguem em frente combinando suas preferências musicais, e, mesmo sem grandes pretenções, realizando um disco exemplar. A produção de Peter Buck, do REM, ajudou bastante na hora de colocar todos esses elementos em perspectiva. De resto, as harmonias vocais da banda continuam deliciosas e as canções são todas ótimas.    
7. SCHMILCO (Wilco)
O nome do novo disco do Wilco remete ao grande Harry Nillson, que gostava de usar a alcunha Schmillson, e anuncia mudanças muito curiosas na orientação musical da banda. É como se Jeff Tweedy estivesse trazendo para dentro o Wilco um pouco do clima caseiro experimental do disco que gravou ao lado de seu filho dois anos atrás -- que acabou servindo de trilha sonora para o premiadíssimo filme "Childhood", de Richard Linklater. Paralelo a esses experimentos, Tweedy embarca em canções confessionais com um sotaque country que remetem ao início de carreira do Wilco e ao trabalho dele com Jay Farrar no lendário Uncle Tupelo nos Anos 80. O resultado disso é surpreendente. É o Wilco "de volta para casa", só que musicalmente renovado, tematicamente redimensionado, e pronto para voar alto e longe novamente.
8. THE GHOSTS OF HIGHWAY 20 (Lucinda Williams)
Se hoje o termo Americana acabou virando gênero musical, uma das grandes responsáveis por isso foi Lucinda Williams. Ao lado de Lyle Lovett e outros artistas country crossover, ela conseguiu melhor do que ninguém atrair a atenção das plateias de rock para uma série de trabalhos musicais que desafiavam toda e qualquer classificação em meados dos Anos 90. Esse seu novo trabalho é uma colcha de retalhos espetacular, onde Lucinda trafega pelo country, pela soul music e pelos blues em canções poderosíssimas que são a cara dela -- ou seja: passionais, truculentas e inebriantes. Atenção para a releitura sensacional que ela elaborou para Factory, de Bruce Springsteen. Sem exagero, o melhor disco de Lucinda Williams desde o clássico "Car Wheels On A Gravel Road" (1998).
9. SOLID STATES (The Posies)
Outra banda que chega aos 30 anos de carreira com dignidade artística a toda prova. Sempre sob o comando do genial Ken Stringfellow, os Posies tem gravado pouco -- apenas um disco a cada 5 anos --, mas nunca decepcionam, e nunca abrem mão de correr riscos. Nesse novo disco, o power-pop característico da banda flui tranquilamente através de temas agridoces, como divórcios e perdas afetivas. Uma coleção de canções cativante e despretenciosa. Mas vital.
10. THIS GIRL'S IN LOVE - A BACHARACH & DAVID SONGBOOK (Rumer)
Para quem não conhece, Rumer é uma espécie de Karen Carpenter com alma. Ou uma espécie de Adele com estofo musical. Cantora poderosíssima, e de extremo bom gosto na hora de escolher repertório, ela acaba de gravar um tributo a Burt Bacharach e Hal David que é simplesmente desconcertamente de tão bonito. Desde aquele disco clássico de Ron Isley de 2003, ninguém passeava por esse repertório clássico dos Anos 60 com tamanha propriedade e conhecimento de causa. Se você ainda não conhece os "poderes" de Rumer, não há melhor maneira de começar do que por aqui.




sexta-feira, agosto 05, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "HERE", NOVO LP DOS POWERPOPPERS ESCOCESES DO TEENAGE FANCLUB



Tanto as bandas grunge dos Anos 1990 quanto o pessoal do power pop eram unânimes em afirmar em entrevistas as muitas virtudes artísticas no Teenage Fanclub.

Kurt Cobain, por exemplo, não deixava por menos: se referia a eles como "a melhor banda do mundo".

Infelizmente, nada disso serviu para levar esse quinteto talentosíssimo de Bellshil -- que acabou brilhando na cena musical de Glasgow, Escócia -- ao merecido estrelato.

Vinte e sete anos depois de estrearem, eles continuam pautando os caminhos de sua carreira pela cena musical independente, que sempre os acolheu muito bem, apesar de seu repertório ter um apelo que poderia, ao menos em princípio, levá-los muito além disso e atingir um público muito mais amplo do que atnge.



A banda surgiu em 1989 a partir da combinação de três cantores e compositores muito talentosos: os guitarristas Norman Blake e Raymond McGinley e o baixista Gerard Love, que nunca esconderam o fato de que o Teenage Fanclub era, antes de mais nada, uma espécie de veículo para a divulgação de seus trabalhos autorais.

E provável que se o Teenage Fanclub tivesse provado o "sweet smell of success" no início dos Anos 90, talvez não tivesse emplacado uma carreira tão longeva e tão criativa.

O segredo da longevidade deles talvez esteja num acerto extremamente democrático que eles honram desde o início da carreira  da banda: tanto os discos quanto os shows da banda intercalam canções e participações vocais dos três exatamente na mesma proporção.

E na medida em que isso sempre foi respeitado, nunca aconteceu de qualquer um dos "três líderes da banda" entrar numas de "sair em carreira solo".

Na verdade, isso nunca foi necessário.
 

Here é o 13°disco de carreira do Teenage Fanclub, está chegando às lojas inglesas por esses dias através pelo própio selo da banda, PeMA, e será distribuído internacionalmente pela Republic Of Music a partir de Setembro.

É o primeiro desde Four Thousand Seven Hundred and Sixty-Six Seconds – A Short Cut to Teenage Fanclub, uma bela panorâmica de carreira acrescida de 3 novas canções -- uma de Norman Blake, outra de Raymond McGinley e outra de Gerard Love, como de hábito -- lançada em 2013 e anunciada como uma possível despedida do Teenage Fanclub, que felizmente não se concretizou.

Para tentar permancer relevante, o Teenage Fanclub voltou repaginado e com uma atitude adequada tanto ao público cativo da banda quanto às características da cena powerpop atual.

Desnecessário dizer que o senso de melodicidade herdado de bandas clássicas como Big Star e Badfinger e artistas como Dwight Twilley, Phil Seymour e Matthew Sweet segue intacto nas canções que compoem este novo trabalho.

I'm In Love, a faixa de abertura (ouça em AMOSTRAS GRÁTIS abaixo), não só é lindíssima, como evoca em tom menor os Byrds da fase Chestnut Mare de uma maneira muito aconchegante.

Logo a seguir, Thin Air resgata a influência -- sempre bem-vinda, diga-se de passagem -- de Alex Chilton e do Big Star, com uma levada pop bem straight-forward que coloca um pouco de velocidade na suavidade habitual da banda.

E essas diferenças musicais seguem ao longo das 12 faixas do disco, intercaladas de forma sempre harmoniosa, e com a brevidade necessária para que, ao final da audição, dê vontade de colocar o disco para tocar novamente.



Here revela -- e faz isso de forma flagrante -- que o Teenage Fanclub não só amadureceu musicalmente como também se transformou numa banda extremamente refinada em termos musicais.

Tudo é muito delicado e cuidadosamente medido neste Here, e é provável que eles possam soar um pouco conservadores para alguns ouvidos mais modernosos.

Minha recomendação?

Não liguem para o mimimi dos chatinhos  modernosos.

Ouçam Here e tirem bom proveito do fato dessa grande banda insistir em permanecer ativa e relevante musicalmente.

Assim como acontece com veteranos de gerações anteriores como o Squeeze e os Turtles, que permanecem em cena com um trabalho de alto gabarito, tudo indica que o Teenage Fanclub ainda tenha muita lenha para queimar.

Então, let it burn!


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domingo, julho 31, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "STRANGER TO STRANGER", O NOVO LP DE PAUL SIMON.

por Chico Marques


Uma das (poucas) vantagens de estar ficando velho é a sensação aconchegante de que nossa memória está abarrotada de impressões inesquecíveis da primeira vez que experimentamos algo que até hoje nos traz muito prazer -- como, por exemplo, a primeira vez que ouvimos nossos discos favoritos.

No caso específico desse tampinha novaiorquino do Bronx que completa 75 anos no próximo dia 13 de Outubro, e que atende pelo nome Paul Frederic Simon, eu lembro perfeitamente de quando seu primeiro trabalho solo sem Art Garfunkel chegou às lojas no segundo semestre de 1972, e eu tive o prazer de escutá-lo numa audição coletiva numa loja daqui em Santos, a saudosa Tremendão Discos, gerenciada pelo meu amigo (até hoje) Lourenço Custódio.

A maioria dos que estavam na loja torceu o nariz para o disco -- o comentário geral era de que Simon fugira demais do padrão sonoro que vinha sendo adotado nos discos da dupla.

Já eu gostei bastante do que ouvi. Não simpatizei muito com "Me & Julio Down By The Schoolyard", estranhei um pouco "Mother & Child Reunion", mas tudo mais esstava no mesmo nível de excelência de Bridge Over Troubled Water, lançado dois anos antes.

Fiquei encantado logo de cara com "Everything Put Together Falls Apart" e "Duncan", até porque na época eu estava começando a estudar inglês, e, mesmo com a pouca bagagem que tinha, já conseguia perceber o quão densas em termos poéticos eram as letras dessas canções.



A foto da capa do disco, com Simon agasalhado, e com sua cabeça protegida por um capuz de pele de urso, indicava claramente que ele estava pronto para encarar tempo ruim, caso crítica e público desaprovassem seu disco de estreia.

Mas felizmente não foi isso que aconteceu, e Paul Simon 1972 foi extremamente bem sucedido, tanto em termos artísticos quanto em termos comerciais.

 

 Seu segundo LP, There Goes Rhymin' Simon, lançado no ano seguinte, 1973, já rendeu uma experiência bem diferente para mim.

Esse eu já ouvi sozinho, em casa, e bem alto.

Era um disco mais direto e mais conciso, com canções que grudavam nos ouvidos após a primeira audição, e um tom nostálgico bem alegrinho que era típico da época, e que também estava presente em Don't Shoot Me, I'm Only The Piano Player de Elton John e outros discos.

 Mas foi no seu disco seguinte de Simon que veio o "grande tapa na cara", e a certeza inabalável de que não havia na cena musical do mundo inteiro nenhum outro compositor igualamente gabaritado e nenhum outro performer tão meticuloso na hora de montar um disco.




Still Crazy After All These Years (1975) me deixou completamente boquiaberto quando o ouvi pela primeira vez no apartamento do meu saudoso amigo Paulinho Filgueiras.

Vi logo de cara que se tratava de uma coleção de canções urbanas com uma certa atmosfera jazzística em comum. 

Mas... que coleção de canções!

Uma melhor do que a outra, encadeadas numa sintonia tão fina que conseguia mascarar perfeitamente o fato do disco ser uma colcha de retalhos muito bem alinhavada.

É até hoje um de meus discos favoritos.



Acompanhei com muita atenção tudo o que Paul Simon produziu desde então.

Confesso que nunca tive saco para aturar a rigidez conceitual de discos como Graveland (1986) e Rhythm Of The Saints (1990), ou projetos fechados como a trilha sonora do filme One-Trick Pony (1980) e o score original do estranhíssimo Musical da Broadway The Capeman (1996).

Preferia mil vezes quando ele chegava com algum trabalho sem muita unidade -- como Hearts and Bones (1983), que é um disco magnífico, apesar de não ter pé nem cabeça.

Já You're The One (2000) é um álbum inspiradíssimo, gravado quando ele estava começando a namorar com Edie Brickell, e predomina nele aquele mesmo tom leve e descompromissado dos discos dela.

E tem ainda Surprise (2006), que não só esbanja um frescor musical delicioso como vem recheado de ótimas canções que acabaram injustamente esquecidas.

Confesso que nunca consegui entender porque o público cativo de Paul Simon tende a aprovar sem ressalvas seus discos mais experimentais, e torce o nariz quando ele parte para um trabalho mais descomplicado.



Stranger to Stranger é o 12º LP de estúdio de Simon, e saiu há dois meses pelo selo Concord -- que já havia lançado So Beautiful Or So What? em 2011, um belo lote de canções sobre amor, morte, paternidade tardia, espiritualidade, e o amor pela música.

Se no disco anterior Simon procurava resgatar seu background folk urbano em canções introspectivas densas e reflexivas, aqui ele chuta tudo para o alto e volta a falar das ruas, enveredando por experiências musicais exóticas e mesclando instrumentação etnica com loops eletrônicos e muita percussão.

Stranger to Stranger vem repleto de canções truculentas e inconformadas com a miséria mundial, com a estupidez fundamentalista, e com a boçalidade política reinante na Campanha Presidencial Americana -- Simon não se declara nem democrata, nem republicano, mas odeia tudo o que Donald Trump representa --, e o único defeito dessas canções reside no fato delas parecem ser demasiadamente frágeis para suportar molduras tão pesadas.

Abre com "The Werewolf", um libelo contra a estupidez e prepotência reinantes por todo lado. Vem seguida da estranha mas cativante "Wristband", sobre um cantor que sai para fumar um cigarro, ouve a porta do palco se fechar, percebe que deixou sua pulseira de identificação no camarim e tem que enfrentar um leão de chácara 2 metros de altura, que não o reconhece. Qualquer semelhança entre o que acontece a partir daí e a ironia judaica implacável de certos contos de Isaac Bashevis Singer não é -- mas não é mesmo! -- mera coincidência.

As canções que compõem Stranger to Stranger ostentam muita percussão. Quatro das primeiras seis faixas não tem guitarra alguma, e seguem bem além dos quatro minutos regulamentares, conectando-se sutilmente umas às outras. O resultado é curioso, mas francamente acho que seria muito mais interessante se o conceito fosse menos intrincado e mais casual.

Talvez não haja canção que melhor demonstre onde Stranger to Stranger erra na dose do que "The Riverbank", que descreve o funeral de um veterano que cometeu suicídio -- e que poderia ser uma canção tão contundente quanto "Powderfinger" de Neil Young, que aborda o mesmo tema, mas é estranha e truculenta demais, e irônica de menos.



Para o bem ou para o mal, Stranger to Stranger tem tudo a ver com Graceland (1986) e The Rhythm of the Saints (1990).

É tão ousado e tão experimental quanto os dois, e mescla influências musicais de vários cantos do mundo com a destreza e a meticulosidade habituais -- mas sem a organicidade que faria com que suas gravações soassem efetivamente "vivas".

Produzido como sempre pelo parceiro Roy Halee, levou nada menos que cinco anos para ser gravado no estúdio caseiro de Simon em New Canaan, Connecticut.

É um sucesso de público inquestionável: está no primeiro posto das paradas na Inglaterra e no terceiro posto da Billboard americana.

Jonathan Bernstein, da revista Entertainment Weekly, escreveu que o álbum é “uma coleção das mais ousadas, cheia de novos conceitos e sons que empurram as fronteiras musicais de Simon além do nunca”.

Randy Lewis, do Los Angeles Times, disse que “isso é música em sua forma mais ousada e relevante, sentimento de um representante septuagenário da velha guarda do rock que é, sem dúvida, tão potente como qualquer coisa de artistas aparentemente de vanguarda com um terço de sua idade.”

Ben Rosner, da revista Paste, chamou o álbum de “testemunho de um artista que se recusa a ser comum e rotulado. Com este álbum, Paul Simon criou o seu melhor trabalho em muitos anos.” e Andy Gill, do The Independent, o considerou seu melhor trabalho em muitos anos e declarou que "poucos compositores podem misturar seriedade e capricho como Paul Simon.”

Tem mais: Steve Smith do The Boston Globe afirmou que “é o mais rico manifesto de Simon desde Graceland” e Jim Beviglia de Americana Songwriter declarou que “este álbum apresenta Paul Simon no seu momento mais inquieto, tanto em letras questionando tudo quanto em sons... uma inquietação múltipla infinitamente fascinante.”

Eu, se fosse um crítico de verdade, e não um mero palpiteiro musical, teria que concordar com o que todos disseram, pois não tenho a menor dúvida de que Simon jamais foi tão ousado a ponto e nunca correu tantos riscos quanto neste disco: seu esforço artístico é realmente admirável.

Então, vou discordar, com toda a gentileza e o respeito que Paul Simon merece. Porque eu não consegui gostar do disco. E certamente jamais irei ouví-lo de novo. Francamente, não saberia como acomodá-lo na estante de discos da minha memória afetiva musical, ao lado de Still Crazy After All These Years, There Goes Rhymin' Simon, Hearts and Bones , You're The One, Surprise...


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quinta-feira, julho 14, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "WE'RE ALL SOMEBODY FROM SOMEWHERE", LP DE ESTREIA DE STEVEN TYLER

por Chico Marques


Antes de mais nada, queria deixar claro que sou um velho admirador do trabalho do Aerosmith.

Comprei os LPs Toys In the Attic (1975), Rocks (1976) e Draw The Line (1977) na época do lançamento, e ouvi até os sulcos gastarem.

Mais adiante, vibrei prá valer ao ver a banda sair de um buraco sem fundo e conseguir dar a volta por cima em LPs potentes como Pump (1989), Get A Grip (1994) e Nine Lives (1997).

Posto tudo isso, vou ser muito franco aqui:

Odiei profundamente os dois últimos LPs de estúdio do Aerosmith: Just Push Play (2001) e Music From Another Dimension (2012).

Just Push Play tinha cara de disco solo de Steven Tyler, tamanho o distanciamento que os outros membros da banda mantiveram do projeto, repleto de canções nada memoráveis e performances duronas, com baticums eletrônicos demais e rock and roll de menos. (e põe menos nisso). Desnecessário dizer que foi um fiasco retumbante de vendas e acabou virando uma espécie de elefante branco na carreira da banda. Tanto que, de todas as canções do disco, a única que acabou entrando para o setlist dos shows da banda foi "Jaded". E olhe lá...

Music From Another Dimension consegue ser um equívoco ainda maior, por motivos bem diferentes dos que vitimaram Just Push Play. Pressionados pelos fãs e pela gravadora para retomar a trilha dos LPs de sucesso dos Anos 90, Tyler e Perry convencersam a Columbia Records a queimar uma pequena fortuna na produção das sessões de gravação do disco. Só que esqueceram que sem um ou dois singles poderosos, o disco simplesmente não decolaria. E não decolou. Se bem que o que havia de mais errado no disco é que todas as canções do disco são voltadas demais ao público adolescente, só que o novo público adolescente -- que na época de Wayne's World idolatrava a banda -- já não tinha mais nenhuma afinidade com eles. Para piorar, os fãs tradicionais do Aerosmith acharam o conceito do disco bobo e juvenilóide.


Para mim, não chegou a ser uma surpresa quando, depois de algumas temporadas no programa de TV American Idol, Mr. Tyler decidiu aproveitar o novo público que acabara de conquistar e repaginar sua carreira musical, escorregando estrategicamente para fora da cena roqueira onde o Aerosmith militou por 45 anos para se afirmar na altamente rentável cena country-crossover de Nashville, que de uns anos para cá abriga artistas dos mais diversos gêneros musicais vindos de todos os cantos do país.

Nesta sexta, dia 15 de Julho de 2016, sai do forno o aguardado We're All Somebody From Somewhere, (um lançamento DOT-Big Machine Records), primeiro album solo de Steven Tyler. É um disco surpreendente, repleto de canções que poderiam perfeitamente constar de um álbum do Aerosmith, mas que apresentam molduras musicais mais suaves e coloridas, repletas de harmonicas e pedal-steel guitars, que jamais combinariam com o DNA "arena rock" da banda.

Eu confesso que fiquei arrepiado com a faixa de abertura My Own Worst Enemy: uma balada meio enganadora, que começa perigosa só nos versos, e pouco a pouco vai ganhando peso e densidade emocional até explodir num gospel heavy-metal, ou coisa que o valha. Impressionante!

A faixa título vem logo a seguir, e pega mais leve. Tem um refrão bem pegajoso e ganha o ouvinte pela simpatia. Vai ser o primeiro single do disco. tem grandes chances de emplacar.

Mas então, logo a seguir, somos atropelados por um número bem truculento chamado Hold On (Can't Let Go) e por um country blues delicioso chamado It Ain't Easy, que não fariam feio num show do Aerosmith.

É pena que o perfeito encadeamento inicial se perca lá pela 6ª faixa, e o disco se transforme numa colcha de retalhos para conseguir acomodar as 15 músicas escolhidas por Mr. Tyler -- que assina a produção de We're All Somebody From Somewhere em dobradinha com vários produtores craques da cena country como T-Bone Burnett, Dann Huff, Marti Frederiksen e Jaren Johnston.


Francamente, não dá para entender a troco do que Mr. Tyler resolveu gravar (mal) Piece Of My Heart (imortalizada por Janis Joplin e por Etta James) e regravar (pior ainda) Janie's Got A Gun, numa versão acústica totalmente irrelevante e desnecessária.

Idiossincrasias de superstar à parte, não dá para negar os vários méritos de We're All Somebody From Somewhere. Eles garantem a dignidade dessa empreitada meio atrapalhada, que só não é melhor porque peca pelo excesso. Mas mesmo assim, é sem dúvida o melhor disco vindo do Aerosmith nos últimos 19 anos.

Claro que se Mr. Tyler tivesse optado por 10 canções ao invés de 15, teria conseguido realizar um disco mais intenso e mais coeso, e deixado no final da audição um gostinho de quero mais no ouvinte.

Mas ele -- exagerado, hiperativo e louco de pedra como sempre -- preferiu levar o ouvinte à exaustão.

Convenhamos: é a cara dele.




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quarta-feira, julho 06, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "STRANGE LITTLE BIRDS", NOVO LP DO GARBAGE


Lembro como se fosse ontem quando recebi na Enseada FM o disco de estréia do Garbage, por volta de 1996.

O release sinalizava um provável embuste: banda americana com cantora escocesa -- ex-junkie e ex-prostituta -- produzida pelo baterista da banda Butch Vig – responsável pela produção do clássico instantâneo “Nevermind”, do Nirvana –, que faz um mix de pop eletrônico com rock and roll rasgado.

Para não perder tempo, fui direto nas duas faixas recomendadas no release.

A primeira, “Only Happy When It Rains”, grudou e nunca mais saiu da minha cabeça, até hoje.

A segunda, “Stupid Girl”, me impressionou quase tanto quanto a primeira.

Depois disso, minha objetividade foi por água abaixo e parei tudo o que estava fazendo para ouvir o disco inteiro na íntegra.

Fiquei completamente boquiaberto não só com o vigor da banda estreante, mas também com a expertise de Butch Vig em conseguir repetir com outra banda o mesmo padrão poderoso de produção utilizado em “Nevermind”.

Desse dia em diante, nunca mais deixei de aguardar um novo disco do Garbage com alguma ansiedade.


O Garbage é uma banda complicada e de muito difícil trato.

Não é à toa que, em 18 anos de carreira, eles conseguiram lançar apenas 6 discos.

Escolheram o nome “Garbage” depois de  de um comentário que ouviram de um executivo de uma gravadora, que achou que o trabalho deles tinha “jeito de lixo”                          .

No início, eram apenas o baterista Butch Vig, o baixista Duke Erickson e o guitarrista Steve Marker, todos tarimbados como compositores e também como produtores. Vig era o cantor da banda em princípio, mas a coisa não funcionava direito, e todos concordaram que o ideal seria tentar achar uma cantora para o posto.

Um dia, assistindo a um clip do grupo inglês Angelfish na MTV, Steve Marker começou a gritar: “Essa é a cantora que precisamos!”.


Era Shirley Manson, que foi localizada rapidamente em Londres pelo telefone, e que custou a acreditar que estava sendo procurada pelo produtor de “Nevermind” do Nirvana.

Manson largou o Angelfish e veio para Wisconsin, base do Garbage, e todos começaram a trabalhar juntos nos primeiros demos da banda, que eram enviados para as gravadoras sempre omitindo o nome – muito conhecido, então -- de Butch Vig como baterista.

Assinaram com dois selos: um europeu e outro americano, e lançaram seu primeiro LP  -- que foi um sucesso estrondoso, ganhando disco de platina tanto nos EUA quanto na Inglaterra e na Austrália.

Garbage veio seguido do igualmente ótimo Version 2.0 em 1998.

Em 2001, lançaram Beautiful Garbage no mês dos ataques às torres do World Trade Center, e a promoção do disco meio que se perdeu em meio aos acontecimentos.Era um disco leve e descompromissado num momento da história que de leve e descompromissado não tinha absolutamente nada.

Foi o primeiro fiasco comercial da banda nos EUA e na Inglaterra – e, mesmo assim, um fiasco relativo, já que conseguiu vender quase 4 milhões de cópias nos EUA, Inglaterra e Austrália, e entrou na listas dos 10 Melhores Discos de 2011 da Rolling Stone.

Depois veio Bleed Like Me, muito bom, mas meio confuso e mal resolvido, perdido em meio às doses cavalares de "psicagem” que rolavam entre os integrantes da banda, e que acabaram levando o Garbage a um colapso.


E agora, eis que eles ressurgem nesse atmosférico e meditativo Strange Little Birds (um lançamento StunVolume Records), um LP bem diferente do trabalho anterior da banda: o vigoroso e truculento Not Your Kind Of People (2012).

É o disco menos urgente do Garbage até o presente momento, e vem repleto de texturas densas de guitarras e sintetizadores somadas ao jeito de cantar sempre performático de Shirley Manson -- cuja voz está soando bem diferente neste disco, mixada muito acima da massa sonora produzida pelos rapazes da banda.

É o segundo disco totalmente independente do Garbage, sem o apoio de distribuição de nenhum selo grande. Está saindo pela Stunvolume Records, da própria banda, e sendo oferecido em vários formatos através do website garbage.com 

Se eu tiver que destacar dois números de  Strange Little Birds que me agradaram em especial, eu escolheria um rockão chamado Empty e uma balada que lembra alguns experimentos de Robert Smith à frente do Cure nos Anos 90, intitulada Blackout” e a delicadíssima “Sugar”. As duas -- cada uma à sua maneira -- são excessões à regra num disco que é pouco caraterístico do som da banda. Mas que faz sentido na medida em que o Garbage nunca aceitou fazer concessões ao mercado e sempre fez questão de manter sua independência criativa como ponto inegociável.

Um belo e estranho disco, de uma banda que não cansa de surpreender.



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domingo, julho 03, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "A CURE FOR LONELINESS", NOVO LP DE PETER WOLF

por Chico Marques


Pode ser difícil de acreditar para os mais jovens, mas, ao longo de toda a primeira metade da década de 70, Peter Wolf brilhava na linha de frente de uma banda sensacional -- hoje meio esquecida -- que promovia performances ao vivo tão vigorosas a ponto de rivalizar diretamente com os Rolling Stones.

A J. Geils Band era implacável em todos sentidos: tinha um repertório demolidor focado no rhythm and blues dos Anos 60 mas com uma velocidade típica dos Anos 70, quase todo assinado pelo engraçadíssimo cantor Peter Wolf e pelo endiabrado tecladista Seth Justman.

Claro que a harmonica anfetaminada de Magic Dick, o suingue acelerado da guitarra de Jay Geils e a cozinha rapidíssima de Stephen Jo Bladd e Daniel Klein sempre fizeram toda a diferença.



Mas diferenças artísticas e pessoais fizeram com que Peter Wolf deixasse a banda no início dos Anos 80 para seguir carreira solo, justo no momento em que a banda vendia milhões de discos.

Eles bem que tentaram seguir em frente sem Wolf, mas não teve jeito:

Ele não era apenas a voz da banda, era também a cara dela. 



Não se pode dizer que a carreira solo de Peter Wolf nunca tenha prosperado como merecia.

Mas o fato é que ela nunca decolou para valer rumo ao estrelato, até porque Wolf nunca facilitou muito as coisas para agradar ao grande público.

Fiel ao rhythm and blues praticado desde os tempos da J Geils Band, Wolf começou a experimentar novas saídas musicais como compositor, trabalhando com diversos parceiros e mudando de mala e cuia para a cena independente para poder trabalhar em paz, sem interferências de executivos de gravadoras.



Agora, Peter Wolf está de volta com solo em 32 anos: A Cure for Loneliness (um lançamento Concord Records), um disco leve e descompromissado onde assume seus 70 anos de idade sem olhar muito para trás e não permitindo em momento algum que isso pese nas suas costas.

A mistura musical que permeia o disco é tão curiosa que chega a ser risível. Vai do folk urbano classudo ao country dor de corno sem a menor cerimônia, passando por números de rock and roll, soul music, cajun e até gospel, quase todos compostas em parceria com e especialista Will Jennings.  

As excessões são It Was Always So Easy (To Find an Unhappy Woman), uma balada country de Moe Bandy que fez algum sucesso em 1974, Tragedy, um número clássico do grupo de doo-wop DeLons e Love Stinks, número de rock clássico do repertório de sua própria J Geils Band, que aqui recebe um arranjo bluegrass engraçadíssimo.



Tem um número musical em A Cure For Loneliness que foge um pouco ao tom do desencanado que predomina no disco.

Trata-se de It’s Raining, composta em parceria com o amigo soulman Don Covay, falecido ano passado.

Wolf propôs ao também amigo e soulman Bobby Womack gravar a canção em dueto, numa homenagem a Don Covay.

Mas então, pouco antes de entrarem em estúdio, para surpresa geral, Bobby Womack faleceu.

O jeito foi gravá-la sozinho, num arranjo bem pedestre, à moda de Memphis, e dedicá-la a esses dois grandes mestres e parceiros musicais.

Como um tributo à longevidade e à teimosia em seguir em frente, sempre.



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