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sábado, dezembro 31, 2016

ALTOeCLARO ESCOLHE OS DEZ MELHORES DISCOS DE 2016 (por Chico Marques)

1. BLACK STAR (David Bowie)
Em seu disco de despedida, David Bowie convida o ouvinte para um mergulho na noite da alma. Nele, tudo soa estranhamente confortável e familiar. Ecos dos anos 70 saltam aos ouvidos o tempo todo. Tudo é de uma urgência impressionante. Nesse sentido, lembra um pouco "Station to Station", que foi gravado numa época em que ele vivia no limite, num flerte aberto com a morte -- que ele reverteu de forma brilhante ao longo da série incomparável de álbuns "Low", "Heroes", "Lodger" e "Scary Monsters". Apesar das muitas semelhanças musicais com alguns momentos mais densos de seu disco anterior, "The Next Day" (2013), que abria janelas tanto para seu passado quanto para seu futuro, "Blackstar" não é plural, e nem pretende abrir janela nenhuma para lugar algum. Funciona como um trem fantasma que vaga pela noite, contrapondo o passado à frente do futuro, e vice-versa. Sempre mantendo o imaginário a serviço da realidade, sem perder tempo correndo atrás do sentido da vida, pois não há tempo para isso.

2. POST POP DEPRESSION (Iggy Pop & Josh Homme)
Quem diria que duas das figuras mais loucas da cena do rock and roll iriam um dia unir forças num trabalho conjunto? Pois aconteceu: Iggy Pop e Josh Homme entraram no estúdio em Janeiro deste ano -- às próprias custas e ainda sob o impacto do morte de David Bowie -- e gravaram 9 canções cruas e extremamente contundentes compostas em parceria entre os dois e em apenas duas tardes de gravação. O resultado é cru, urgente, e ao mesmo tempo climático. E lembra eventualmente "Lust For Life", que Iggy e Bowie gravaram juntos em 1977, na Alemanha. De todas as homenagens e tributos realizados este ano pela memória de David Bowie, essa aqui é disparado a mais verdadeira e a mais relevante em termos artísticos.
3. BURN SOMETHING BEAUTIFUL (Alejandro Escovedo)
Aos 65 anos de idade, o sempre incansável Alejandro Escovedo continua correndo atrás no novas experiências musicais. Depois de três discos excelentes produzidos pelo lendário Tony Visconti e gravados com a banda do amigo Chuck Prophet, Escovedo uniu forças com Peter Buck (do REM) e Scott McCaughey (do Minus 5) e juntos compuseram as canções de "Burn Something Beautiful". A coisa toda funciona tão bem que dá para sentir claramente em cada canção do disco um pouco da personalidade musical de cada um dos três, tudo devidamente entrelaçado em guitarradas sensacionais e refrões contundentes. Em suma: um disco com espírito de aventura, algo difícil de ver num artista veterano.
4. SHINE A LIGHT (Billy Bragg & Joe Henry)
2016 foi realmente um ano em que muitos artistas apostaram em trabalhos em colaboração. Aqui, temos o príncipe do folk-punk inglês Billy Bragg unindo forças ao multitalentoso guitarrista e produtor americano Joe Henry em releituras delicadíssimas das clássicas canções de estrada que fizeram a fama de Woody Guthrie e tantos outros menestréis errantes. Para entrar no clima das canções, os dois decidiram apostar no inusitado e gravar o disco em plataformas de embarque e salões de estações ferroviárias entre Chicago e Los Angeles. O resultado é absolutamente reverente ao gênero, e ao mesmo tempo aventuresco em termos de produção. Uma ideia brilhante que acabou rendendo um disco delicioso.
5. THE WESTERNER (John Doe)
Desde os tempos do lendário grupo X nos Anos 80, quem segue a obra do ex-punk rocker John Doe está mais do que acostumado com suas idiossincrasias musicais. Mas The Westerner é, sem dúvida, a melhor, mais ousada e mais madura musicalmente delas todas. É um disco sobre o deserto, que alterna guitarradas à moda de Duane Eddy e Dick Dale com rocks e baladas climáticas que remetem aos Doors e, claro, ao X no início de carreira da banda. À primeira audição, pode até parecer que John Doe está fechando um círculo depois de 35 anos de carreira. Ele diz que não. Mas a sensação -- muito agradável -- que fica é essa. Um disco surpreendente.
6. PAGING MR. PROUST (The Jayhawks)
Com mais de 30 anos de carreira oscilando entre o alt-country e o indie-rock, os Jayhawks pareciam no início ser a reencarnação do espírito ousado do grupo Uncle Tupelo, mas acabaram se transformando numa espécie de "versão fim de século" dos country-rockers do Poco. Claro que não há nada de errado ou de indigno nisso, muito pelo contrário. Novamente sem Marc Olson, que já entrou e saiu da banda sabe-se lá quantas vezes, os integrantes remanescentes dos Jayhawks seguem em frente combinando suas preferências musicais, e, mesmo sem grandes pretenções, realizando um disco exemplar. A produção de Peter Buck, do REM, ajudou bastante na hora de colocar todos esses elementos em perspectiva. De resto, as harmonias vocais da banda continuam deliciosas e as canções são todas ótimas.    
7. SCHMILCO (Wilco)
O nome do novo disco do Wilco remete ao grande Harry Nillson, que gostava de usar a alcunha Schmillson, e anuncia mudanças muito curiosas na orientação musical da banda. É como se Jeff Tweedy estivesse trazendo para dentro o Wilco um pouco do clima caseiro experimental do disco que gravou ao lado de seu filho dois anos atrás -- que acabou servindo de trilha sonora para o premiadíssimo filme "Childhood", de Richard Linklater. Paralelo a esses experimentos, Tweedy embarca em canções confessionais com um sotaque country que remetem ao início de carreira do Wilco e ao trabalho dele com Jay Farrar no lendário Uncle Tupelo nos Anos 80. O resultado disso é surpreendente. É o Wilco "de volta para casa", só que musicalmente renovado, tematicamente redimensionado, e pronto para voar alto e longe novamente.
8. THE GHOSTS OF HIGHWAY 20 (Lucinda Williams)
Se hoje o termo Americana acabou virando gênero musical, uma das grandes responsáveis por isso foi Lucinda Williams. Ao lado de Lyle Lovett e outros artistas country crossover, ela conseguiu melhor do que ninguém atrair a atenção das plateias de rock para uma série de trabalhos musicais que desafiavam toda e qualquer classificação em meados dos Anos 90. Esse seu novo trabalho é uma colcha de retalhos espetacular, onde Lucinda trafega pelo country, pela soul music e pelos blues em canções poderosíssimas que são a cara dela -- ou seja: passionais, truculentas e inebriantes. Atenção para a releitura sensacional que ela elaborou para Factory, de Bruce Springsteen. Sem exagero, o melhor disco de Lucinda Williams desde o clássico "Car Wheels On A Gravel Road" (1998).
9. SOLID STATES (The Posies)
Outra banda que chega aos 30 anos de carreira com dignidade artística a toda prova. Sempre sob o comando do genial Ken Stringfellow, os Posies tem gravado pouco -- apenas um disco a cada 5 anos --, mas nunca decepcionam, e nunca abrem mão de correr riscos. Nesse novo disco, o power-pop característico da banda flui tranquilamente através de temas agridoces, como divórcios e perdas afetivas. Uma coleção de canções cativante e despretenciosa. Mas vital.
10. THIS GIRL'S IN LOVE - A BACHARACH & DAVID SONGBOOK (Rumer)
Para quem não conhece, Rumer é uma espécie de Karen Carpenter com alma. Ou uma espécie de Adele com estofo musical. Cantora poderosíssima, e de extremo bom gosto na hora de escolher repertório, ela acaba de gravar um tributo a Burt Bacharach e Hal David que é simplesmente desconcertamente de tão bonito. Desde aquele disco clássico de Ron Isley de 2003, ninguém passeava por esse repertório clássico dos Anos 60 com tamanha propriedade e conhecimento de causa. Se você ainda não conhece os "poderes" de Rumer, não há melhor maneira de começar do que por aqui.




quarta-feira, agosto 22, 2012

TODA A URGÊNCIA ROQUEIRA DO VETERANO ALEJANDRO ESCOVEDO EM "BIG STATION"


Difícil acreditar que ainda hoje, em 2012, aos 40 anos de carreira, Alejandro Escovedo permaneça um grande tesouro escondido da cena roqueira americana.

Mas é verdade, infelizmente.

Com toda a sua bagagem e seu conjunto de obra, era para Escovedo estar hoje no mesmo patamar de Tom Petty, John Hiatt e John Mellencamp. No entanto, ele continua vagando pela cena independente, fazendo flertes eventuais com o mainstream que sempre esbarram no estranhamento provocado pela seu semblante, bem mestiço, em contraponto com o rock and roll rasgado que ele toca.

Alejandro Escovedo tem 61 anos de idade. É natural de San Francisco, California, mas está estabelecido em Austin, Texas, desde 1981. É sobrinho do fabuloso percussionista Pete "Coke" Escovedo, da banda clássica de Carlos Santana nos anos 70, e primo da gostosíssima Sheila Escovedo -- a Sheila E. da banda clássica de Prince, The New Power Generation. Iniciou sua carreira em meados dos anos 70, na banda punk The Nuns, mas só ganhou alguma notoriedade quando comandou dois grupos seminais da cena pós-punk californiana: Rank´n File e True Believers, antes de iniciar sua carreira solo.

Em 35 anos de carreira, Alejandro se firmou como o angry young man mais bem articulado e mais feroz do Oeste americano, produzindo uma sequência impecável de discos que sempre tiveram boa acolhida de crítica e recepção moderada de público.


Então, cinco anos atrás, Alejandro Escovedo teve um colapso em pleno palco, e foi diagnosticado com Hepatite C. Por pouco não morreu. Ficou fora de cena por mais de um ano, fazendo um tratamento médico drástico e dispendioso, que foi bancado por vários concertos tributo promovidos por artistas amigos.

Quando voltou, voltou bem diferente.

Seus discos recuperaram uma urgência que era característica de seu início de carreira, e suas canções inconformadas passaram a dividir espaço com baladas reflexivas extremamente inusitadas -- mas muito bem-vindas.

E, como se isso não bastasse, iniciou uma série de associações.

Primeiro com o ótimo cantor e compositor Chuck Prophet, do lendário grupo californiano Green On Red, com quem passou a compor em parceria.

Segundo com o grande produtor inglês Tony Visconti, figura chave nos primeiros trabalhos de David Bowie para a RCA, que gerou dois discos magníficos, mixados pelo grande Bob Clearmountain: “Real Animal” (2008)  e “Street Songs Of Love” (2010).
“Big Station” é seu terceiro LP nessa nova fase.

Aqui, mais ainda que nos discos anteriores, Alejandro Escovedo soube adequar aquela urgência roqueira “glam” dos discos clássicos de Bowie -- aparentemente, marca registrada do trabalho de Tony Visconti -- às canções intensas e multifacetadas dele em dobradinha com Prophet,

O resultado é rápido e sempre rasteiro, e isso é surpreendente, vindo de Escovedo a essa altura da vida.

Desde o colapso que sofreu em pleno palco, em Phoenix, em decorrência da Hepatite C, a temática habitual das suas canções ficou mais serena -- como em “Bottom Of The World”, "San Antonio Rain" e “Sally Was A Cop” –, apesar de sua musicalidade estar mais turbulenta e agressiva do que jamais esteve – como comprovam “Man Of The World” e “Can't Make Me Run”.

Só nos resta torcer para que essa sua lua de mel com Tony Visconti e Bob Clearmountain emplaque outros discos tão superlativos quanto esses seus trabalhos recentes.

E que este ótimo “Big Station” não seja o ponto final de uma trilogia.



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segunda-feira, julho 18, 2011

CINCO ERRANTES ROQUEIROS NAVEGANTES (por Chico Marques)

Nos cinco anos que antecederam “Thriller”, o clássico de Michael Jackson e Quincy Jones, reinava uma pluralidade musical notável nas cenas musicais pop do mundo inteiro. Podia qualquer coisa nas cenas pós-punk e no wave. Bastava ter talento e a bênção de algum produtor musical, e pronto: todos os caminhos estavam abertos.

Mas então veio 'Thriller", o LP que instituiu uma espécie de Idade Média na Indústria Fonográfica americana. E então, a partir dele, a própria Indústria começou a escantear qualquer manifestação artística que não fosse 100% integrada ao que então se considerava “mainstream”.

Hoje, temos uma cena musical bastante semelhante à que havia antes de "Thriller". Só que com uma variedade muito maior de manifestações, uma cena independente que não pára de crescer cada vez, facilidades antes inpensáveis para gravar e mixar um disco e novas “medias” que conseguem entregar o “produto” certo ao cliente certo.

Pouco a pouco, o ideal de mercado musical que existia naquela época – “um mar que não rejeita rio algum”, imagem forjada por Pete Townshend, do The Who, nos anos 1980 – virou realidade.

Sendo assim, nada mais justo que artistas que deram os primeiros passos em suas carreiras naquela momento já meio distante, possam desfrutar de uma situação confortável hoje.

É o caso dos nossos cinco errantes roqueiros navegantes desta semana:

Garland Jeffreys – mulato do Brooklyn apaixonado por blues e soul music, que descobriu o reggae acidentalmente numa academia de ginástica do bairro em 1969.

Willy DeVille – criatura bastante estranha dos subúrbios de Nova York, falecido recentemente, que mesclava a urgência do punk rock com serenatas soul com sotaque latino.

Alejandro Escovedo – punk rocker e poeta das ruas de San Francisco, Califórnia, que aos poucos se tornou um dos compositores mais contundentes da América.

Raul Malo – country-rocker de Miami, Florida, filho de cubanos e um dos artistas mais multifacetados que a cena musical americana já teve o prazer de conhecer.

Luka Bloom – folk singer irlandês nada ortodoxo, que ficou famoso por pegar um número do rapper L L Cool J. e transformá-lo numa bela balada folk.

Todos eles tem em comum o mesmo espírito aventureiro e a mesma atitude desalinhada

Pois estes são os mais novos trabalhos desses bravos desbravadores musicais.

Vamos a eles:



















GARLAND JEFFREYS

THE KING OF IN BETWEEN
A primeira vez que o mundo tomou conhecimento da existência de Garland Jeffreys foi no disco “Vintage Violence”, que John Cale gravou logo que saiu do Velvet Underground, em 1969. Jeffreys estava lá, cantando ao lado dele, e logo foi saudado como “the best next thing” e um dos tesouros musicais escondidos mais preciosos da Costa Leste americana. Demorou a ser contratado, pela Atlantic. E então, gravou um belo disco em 1972 com uma banda que trazia Dr. John e outros grande músicos, onde mapeava musicalmente a região do Brooklyn e do Queens, mesclando soul, rock and roll, reggae, canções hispânicas e outras sonoridades trazidas pelos novos habitantes desses bairros, que vinham de todos os cantos do mundo. Podia ter sido um triunfo. Mas, infelizmente, ninguém tomou o menor conhecimento, e o LP foi um fiasco de vendas. Jeffreys passou quatro anos no estaleiro tentando avaliar o que saiu errado, e então voltou à carga com um segundo disco certeiro, excelente, chamado “Ghost Writer”, onde retomava o mesmo projeto musical anterior, mas agora com o suporte jazzy da banda do guitarrista David Spinozza e alguns singles em potencial escondidos na cartola e nas mangas. Aí sim, funcionou. E o sucesso finalemente chegou. Mas infelizmente não durou muito -- apenas 3 ou 4 anos. Em meados dos anos 1980 – sem dúvida o períodos menos tenebroso da história da música pop -- , Jeffreys cansou de correr atrás de contratos e passou a gravar discos independentes, que vendiam muito pouco, e, por conta disso, ficaram cada vez mais espaçados. Para se ter uma idéia, “The King Of In Between” é seu primeiro trabalho em nada menos que 13 anos, e é excelente, vigoroso, repleto de composições que grudam no ouvido logo após a primeira audição e perfeito em todos os sentidos. Tem um dos boogies mais deliciosos que ouvi nos últimos anos – “Til John Lee Hooker Calls Me” --, a melhor homenagem à cidade de Nova York que ouvi neste novo Século – “Roller Coaster Town” – e também seqüências temáticas a seus números clássicos dos anos 70 ‘Wild In the Streets” -- “Streetwise”, malandra até dizer chega – e “”Ghost Writer” -- “The Contortionist”, quase uma autobiografia dos últimos 30 anos --, ambas magníficas. A não ser que Mr. Jeffreys seja um compositor muito pouco prolífico, não há justificativa para gravar assim tão pouco, e tão espaçado. Garland Jeffreys: por favor, não suma novamente. E agora chega, pois meus adjetivos acabaram.




















WILLY DEVILLE

COME A LITTLE BIT CLOSER – LIVE!
Por mais questionável que tenha sido o legado musical do punk rock nos Estados Unidos, não se pode negar que foi graças à efervescência da cena pós-punk que muitos artistas inclassificáveis ou difíceis de classificar conseguiram um merecido lugar ao sol na Indústria Fonográfica. Willy DeVille era uma deles. No comando do grupo Mink DeVille nos anos 1970 e 1980, ele mesclou um rock and roll pedestre e urgente com a soul music com sotaques latinos dos subúrbios de Nova York e Newark numa combinação que lembrava tanto Phil Spector quanto os emergentes conterrâneos Bruce Springsteen & The E Street Band e Southside Johnny & The Asbury Jukes. Mas Willy DeVille tinha um projeto de carreira bem mais complexo que isso. Depois de 10 anos à frente do Mink deVille, dissolveu a banda e seguiu para New Orleans para fazer investigações musicais no rhythm & blues do Deep South, em discos magníficos como “Loup Garou” -- que foram extremamente bem recebidos na Europa mas solenemente ignorados nos EUA. Mas isso não o desanimou. Mudou-se para Paris, passou a administrar sua carreira de lá, e tocou seu trabalho em frente, fazendo tournées memoráveis e gravando discos estranhos, difíceis, mas sempre inusitados e de altíssimo gabarito artístico. Desde sua morte ano retrasado, circulam rumores de que um grande número de gravações inéditas estaria sendo organizada para lançamento em discos futuros. Esse aqui, pelo visto, é o primeiro deles. É quase um The Best Of Willy DeVille gravado ao vivo, com releituras magníficas tanto para canções de todas as fases de sua carreira, como ‘Venus Of Avenue D”, ‘Spanish Stroll”, “Mixed Up Shook Up Girl” e “Just To Walk That Little Girl Home”. De surpreendente, uma releitura à moda de Phil Spector para “Slave To Love”, de Brian Ferry, e outra, estranhíssima -- em tom de salsa, simplesmente genial --, para a imortal “Hey Joe”. Quem não conhece Willy deVille, temem “Come A Little Bit Closer – Live!” um excelente ponto de partida para uma das figuras mais loucas e idiossincráticas da cena musical pop americana em todos os tempos. Para quem o conhece de longa data, é uma excelente oportunidade para matar a saudade. Da minha parte, não é pouca.




















ALEJANDRO ESCOVEDO

STREET SONGS OF LOVE
Há mais de 35 anos na cena musical da Costa Oeste americana à frente de bandas ótimas que nunca emplacaram direito -- Rank & File, True Belivers – ou apostando numa carreira solo que nunca decolou como merecia, tudo indica que Alejandro Escovedo finalmente achou seu Norte. “Street Songs Of Love” é seu segundo LP produzido pelo lendário Tony Visconti, ex-parceiro de David Bowie nos anos 1970, e mixado por Bob Clearmountain -- que souberam adequar aquela urgência roqueira “glam” dos discos clássicos de Bowie ao trabalho intenso e multifacetado de Escovedo, O resultado é vigoroso, sem dúvida um dos discos mais contundentes deste ano. O isso é surpreendente vindo de Escovedo, já que ele esteve à beira da morte dez anos atrás, por conta de uma hepatite C dignosticada e não tratada ao longo de 4 anos. Escovedo teve um colapso em pleno palco, em Phoenix, e teve sua carreira interrompida por um tratamento demorado, que foi totalmente bancado pelos amigos e admiradores, e que durou mais de dois anos – mas, felizmente, teve bons resultados. Desde que voltou à ativa, a temática habitual das canções de Escovedo ficou mais serena -- como “After The Meteor Showers” e “Shelling Rain” –, apesar de sua musicalidade estar mais turbulenta e agressiva do que jamais esteve – como comprovam “This Bed Is Getting Crowded” e “Anchor”. Enfim, Alejandro Escovedo é um grande talento. Está no melhor momento de sua carreira. Só nos resta torcer para que essa sua lua de mel com Tony Visconti e Bob Clearmountain emplaque outros discos tão superlativos quanto estes recentes “Real Animal” e “Street Songs Of Love”.




















RAUL MALO

SINNERS AND SAINTS
Se tem alguém hoje em dia na cena musical americana capaz de aglutinar gêneros musicais tão conflitantes quanto rockabilly, honky tonk, surf music, polka, tex-mex, salsa e country... esse alguém é Raul Malo. Ex-líder dos Mavericks, dono de um timbre vocal que lembra eventualmente Roy Orbison, e herdeiro do legado musical do “maestro” Doug Sahm – conhecido como o Count Basie do Tex-Mex --. Raul Malo nasceu em Miami, Florida, filho de pais cubanos, e tocou em tantas bandas de tantos gêneros diferentes que aprendeu a ver a música popular por uma ótica plural e totalmente pessoal. Esse seu sexto LP solo começou a ser gravado dois anos atrás em um estúdio caseiro em Nashville, Conforme as canções foram evoluindo, Malo sentiu que aquelas novas canções estavam brotando na cidade errada, e mudou de mala e cuia para Austin, Texas, onde uniu forças a craques como o lendário organista Augie Myers, o guitarrista Shawn Sahm (filho de Doug) e o grupo vocal feminino The Trishas. Foi aí que “Sinners and Saints” ganhou esse sotaque fronteiriço delicioso e esse colorido musical que ostenta. Não é exagero algum dizer que este é o melhor de todos os discos de Malo, incluindo os que fez com os Mavericks. E não há muito mais o que dizer. Escutem esse novo trabalho de Raul Malo e entendam porque não existem fronteiras musicais entre Estados Unidos, México e as sonoridades caribenhas. “Sinners and Saints” é tão bem resolvido que merecia tocar o dia inteiro como música ambiente na ONU. Quem sabe aquela gente aprende alguma coisa com esses músicos eternamente sorridentes.















LUKA BLOOM

2 METER SESSIONS
Luka Bloom nasceu na Irlanda e começou sua carreira em meados dos anos 1970 com seu nome verdadeiro, Barry Moore -- incentivado pelo irmão Christy Moore, que já era na ocasião um dos artistas folk mais respeitados da cena irlandesa. Mas, por algum motivo que nada tinha a ver com seu talento como cantor e compositor – provavelmente a sombra protetora e, ao mesmo tempo, incômoda de seu irmão mais famoso – sua carreira nunca sensibilizou muito os irlandeses. Então, a reboque do sucesso internacional do U2, ele deixou a Irlanda em 1987 e mudou seu nome artístico para Luka Bloom, para tentar a sorte na América. Gravou 3 discos para a Reprise Records que o projetaram como artista folk, mas acabou prisioneiro de um contrato leonino que o deixou 5 anos sem poder gravar. Curiosamente, do início dos anos 1990 em diante sua carreira finalmente decolou. Seus últimos discos -- “Tribe”, ‘Eleven Songs” e “Lost In America” – são triunfos artísticos inquestionáveis, bem recebidos por crítica e público no mundo inteiro. Esse novo “2 Meter Sessions” é um EP com 8 de suas canções gravadas ao vivo, sem banda, para um projeto da TV Dinamarquesa , que acaba de ser lançado somente para o mercado europeu. Para quem ainda não conhece o trabalho de Luka Bloom, serve como uma bela introdução aos múltiplos talentos desse eloqüente folk Singer irlandês. Para quem já conhece, vale como aperitivo até que ele nos brinde com seu próximo disco, quem sabe até o final deste ano.


DISCOGRAFIAS

LPs GARLAND JEFFREYS
Garland Jeffreys & Grinders Switch (1970)
Garland Jeffreys (1973)
Ghost Writer (1977)
American Boy & Girl (1978)
Escape Artist (1980)
Rock & Roll Adult (1981)
Guts For Love (1983)
Don´t Call me Buckwheat (1992)
Wildlife Dictionary (1997)
The King Of In Between (2011)

LPs WILLY DEVILLE
Cabretta (com Mink DeVille 1977)
Return To Magenta (com Mink DeVille 1978)
Le Chat Bleu (com Mink DeVille 1980)
Coup De Grace (com Mink DeVille 1981)
Where Angels Feat To Tread (com Mink DeVille 1983)
Sportin´ Life (com Mink DeVille 1985)
Miracle (com Mink DeVille 1987)
Victory Mixture (1990)
Willy DeVille Live (1993)
Backstreets Of Desire (1994)
Loup Garou (1996)
Live (1991)
Horse Of A Different Color (1991)
Acoustic Trio In Berlin (1993)
Crow Jane Alley (1994)
Pistola (2008)
Come A Little Bit Closer – Live! (2011)

LPs ALEJANDRO ESCOVEDO
Sundown (com Rank & File 1982)
Long Gone Dead (com Rank & File 1984)
Rank & File (com Rank & File 1985)
True Believers (com True Believers 1987)
Hard Road (com True Believers 1989)
Gravity (1992)
The End-Losing Your Touch (1994)
Thirteen Years (1994)
With These Hands (1996)
More Miles Than Money-Live! (1998)
Bourbonitis Blues (1999)
A Man Under The Influence (2001)
By The Hand Of the Father (2002)
Por Vida: A Tribute to Alejandro Escovedo (2004)
Room Of Songs (2005)
The Boxing Mirror (2006)
Real Animal (2008)
An Introduction To Alejandro Escovedo (2009)
Street Songs Of Love (2011)

LPs RAUL MALO
Mavericks (com Mavericks 1991)
From Hell To Paradise (com Mavericks 1992)
Cryin´ Shame (com Mavericks 1994)
Music For All Occasions (com Mavericks 1995)
Trampoline (com Mavericks 1998)
It´s Now! It´s Live! (com Mavericks 1998)
Live In Austin Texas (com Mavericks 2000)
Today (2001)
The Nashville Acoustic Sessions (2004)
You´re Only Lonely (2006)
After Hours (2007)
Marshmallow World & Holiday Favorites (2007)
Lucky One (2009)
Sinner & Saints (2011)

LPs LUKA BLOOM
The Barry Moore Years (1987)
Luka Bloom (1988)
Riverside (1990)
The Acoustic Motorbike (1992)
Turf (1994)
Salty Heaven (1999)
Keeper Of The Flame (2000)
Between The Mountain & The Moon (2002)
Amsterdam Live! (2003)
Before Sleep Comes (2004)
Innocence (2006)
Tribe (2007)
Eleven Songs (2008)
Dreams In America (2010)
2 Meter Sessions (2011)


PORTA-RETRATOS

“Não sou o tipo de compositor que escreva canções sobre garotas e carros. Meu tema é sempre como e onde eu fui criado, e como vivo hoje. Meu desafio é sempre achar uma maneira nova de traduzir isso em canções.” (Garland Jeffreys)

“O grande segredo na hora de gravar é saber a hora de parar. Tem momentos em que, se você entra na cabine novamente para refazer alguma passagem, ou para acrescentar alguma coisa, você mata a canção. Daí, é importante ter segurança e acreditar no que você fez. E tomar coragem para dar o assunto por encerrado.” (Willy DeVille)

“Bruce Springsteen sempre foi um grande amigo e um grande incentivador do meu trabalho. Há já uns bons anos, enquanto seu show não começa, ele sempre manda colocar meus cds para tocar para o público dele. Esse tipo de camaradagem é a cara dele.” (Alejandro Escovedo)

“Ouço de tudo desde pequeno. Adoro Elvis e Johnny Cash. Gosto muito de Luciano Pavarotti. Sempre ouço Etta James e James Brown. É muito raro eu calhar de não gostar de algum tipo de música.” (Raul Malo)

“É um grande privilégio poder compor canções e cantá-las para as pessoas. Tenho uma gratidão imensa por qualquer um que compre meus discos ou vá a meus shows. Nunca achei que merecesse receber mais crédito do público do que os que já tenho. O desafio agora é zelar pelos admiradores que já conquistei, e mantê-los interessados no que faço.” (Luka Bloom)

“Fico feliz quando acerto na mosca com minhas composições. Tempos atrás, conversando com meu amigo Graham Parker, ele disse: Puxa, Garland, aquela sua canção, “Matador”, é demais, simplesmente perfeita, talhada para o sucesso. Como eu queria ter escrito uma canção poderosa como essa. O diabo é que tem gente como Paul Simon que tem umas vinte dessas em seu curriculum.” (Garland Jeffreys)

“Adoro a música que faço e adoro sair em tournée. Quando sinto que consegui entrar na mesma sintonia da platéia, o prazer que sinto é indescritível. Eu me considero um cara de sorte. Faço só o que gosto. Pouca gente no mundo inteiro conta com esse privilégio.” (Willy DeVille)

“Meus pais contribuiram bastante para a cena musical americana. Meus irmãos Coke e Pete são muito conhecidos por terem participado das melhores formações da banda de Carlos Santana. Eu, que sou o mais novo, já estou na cena há 35 anos. Somos quase um clã musical. Para mim, é motivo de muito orgulho carregar o nome Escovedo.” (Alejandro Escovedo)

“Música é um negócio muito incerto. É preciso gostar muito de fazer música para poder encarar o meio musical. Ou você ama muito o que você está fazendo, e confia no seu taco -- torcendo para que dê tudo certo no final e o público responda positivamente ao que você realizou --, ou então é melhor mudar de ramo.” (Raul Malo)

“Luka eu tirei da canção de minha amiga Suzanne Vega. Bloom, eu tirei do personagem de James Joyce. Como eu estava vindo de Dublin para Nova York para recomeçar minha carreira, achei que seria boa idéia adotar um novo nome artístico que fizesse a ponte entre essas duas cidades.” (Luka Bloom)


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