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segunda-feira, março 30, 2015

A VOLTA TRIUNFAL DOS BLASTERS NUM PROJETO ACÚSTICO EM HOMENAGEM A BIG BILL BROONZY


Quando o punk-rock explodiu na cena anglo-americana em meados dos Anos 1970 -- pregando de forma truculenta aquele discurso de ruptura bem burrão, de classe operária vingativa --, seus líderes achavam estar derrubando muros em busca de algum tipo de libertação. 

Na verdade, não tinham massa encefálica suficiente para perceber que a desconstrução das formas musicais que eles combatiam frontalmente era, antes de mais nada, um flerte aberto com o suicídio do rock and roll.

Por sorte, antes de conseguir cumprir seu propósito, o punk-rock se autodestruiu por absoluto esgotamento temático e existencial em apenas dois anos de vida. 

Por sorte também, muitas bandas emergentes na época não se deixaram sensibilizar pela atitude autodestrutiva dos punks e saíram em busca de outros caminhos. 

E por mais sorte ainda, a cena pós-punk que veio logo a seguir abriu os braços para todas as manifestações musicais desalinhadas que surgiam em todos os cantos do Planeta, e as acolheu sem restrições.
Os californianos The Blasters são uma dessas bandas desalinhadas que surgiram na esteira do punk-rock, mas que do punk-rock herdou apenas o imediatismo musical e atitude do it yourself. 

Sob o comando dos irmãos Phil Alvin (voz) & Dave Alvin (guitarra), mais o baterista Bill Bateman e o baixista John Bazz, sabiam combinar de forma brilhante elementos de blues, rhythm & blues e rockabilly, e eram tão bons no preparo desse bem-bolado musical que ganharam fama como a "banda cavalo" favorita dos veteranos desses três gêneros sempre que chegavam sem banda para se apresentar em Los Angeles. 

Eram pau para toda obra.

Gravaram seu primeiro disco como quarteto pela Hightone Records em 1980, mesclando muitos clássicos com alguns números originais. 

No segundo disco, de 1981, eles se reinventaram como um septeto, com um pianista e dois saxofonistas cuspindo ijá veio pela Slash!, um selo ligado ao Grupo Warner. 

Eu, pessoalmente, jamais vou conseguir esquecer da porrada que levei quando conheci a banda através de seu terceiro e excelente LP, Non-Fiction, que chegou a ser lançado pela Warner brasileira em 1983. 

Mas, infelizmente, logo após o lançamento do seu quarto disco, Hard Line (1985), os Irmãos Alvin se pegaram no tapa e os Blasters se desintegraram. 
Phil Alvin até tinha uma ótima expectativa de futuro como artista solo, e chegou a brilhar em Romeo's Escape (1987), mas perdeu o rumo de sua carreira e não chegou a gravar um segundo disco, preferindo reeditar os Blasters -- só que sem seu irmão Dave.

Dave Alvin, por sua vez,  engatou uma carreira solo brilhante, gravando mais de uma dúzia de LPs fundamentais e impecáveis e tornando-se um dos artistas mais respeitados da cena musical americana dos últimos 30 anos, trafegando pela alma musical americana com uma grandeza só comparável ao trabalho de seu amigo, também guitarrista, Ry Cooder. 

Pois eis que agora os dois fizeram as pazes ano passado e decidiram gravar um disco juntos depois de 30 anos distantes um do outro. 

E na hora de escolher repertório, uma surpresa: os dois optaram por gravar apenas canções do mestre do blues Big Bill Broonzy -- só que com a urgência rockabilly característica dos Blasters.
Essa brincadeira deu nesse delicioso Common Ground (um lançamento Yep Roc Records), uma pequena obra-prima que recicla de forma inusitada o repertório desse grande cantor e compositor americano de blues. 

A voz tenor de Phil se alterna com o tom baixo da voz de Dave, e os dois viajam maravilhosamente bem em canções de Big Bill pouco gravadas como Tomorrow, You've Changed e Stuff They Call Money. 

Para quem estava com saudades dos Blasters, Common Ground é o antídoto perfeito. 

Já para quem ainda não conhece o legado musical brilhante dessa grande banda californiana, é, certamente, um excelente ponto de partida.









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quarta-feira, agosto 29, 2012

THE BLASTERS ESTÃO DE VOLTA COM UM LP VIBRANTE, COMO NOS VELHOS TEMPOS.


Certas bandas são tão boas, mas tão boas, que nunca deveriam ter o direito de sair de cena.

É o caso dos californianos The Blasters

Quando apareceram no final dos anos 70 em Downey, California, nas vizinhanças da Disneylandia, eles logo se afirmaram como a banda-cavalo de rhythm and blues favorita de nove em cada dez artistas clássicos de blues e rhythm and blues em tournée pelo Sul da California.

The Blasters eram então o cantor Phil Alvin, o guitarrista Dave Alvin, o baixista John Bazz e o baterista Bill Bateman: um quarteto infernal que estreou em 1980 com um disco de rock and roll e rhythm and blues demolidor para o selo de blues Hightone Records.

O nome do disco era "American Music", vendeu apenas duas mil cópias, mas foi ouvido pelas pessoas certas e rendeu à banda um contrato bem generoso com a Slash-Warner Bros, onde gravaram 3 LPs espetaculares na primeira metade dos anos 80, repletos de canções brilhantes dos irmãos Phil e Dave Alvin

Apesar de todo o prestígio e todo o sucesso que alcançaram nesse período, os Blasters viviam às turras. Daí, não foi surpresa para ninguém quando, em 1985, Dave anunciou que partiria para uma carreira solo. Logo em seguida, cada um dos outros 3 integrantes da banda também seguiu seu caminho.



Para surpresa geral, a carreira solo de Phil Alvin foi um fiasco.

Já a de Dave Alvin acabou saindo melhor que a encomenda.

Dave, que entrava mudo e saía calado dos shows e discos dos Blasters, acabou se revelando um cantor extraordinário e um artista extremamente vital na cena musical independente dos anos 90 para cá, com mais de dez discos gravados, todos de altíssimo gabarito.

Coube a Phil Alvin tentar ressucitar os Blasters originais, e ele bem que tentou diversas vezes. Só que a agenda de seu irmão Dave estava sempre cheia de compromissos com sua própria banda, o que inviabilizava empreitadas desse tipo.

Em 2002, no entanto, surgiu uma chance dos quatro integrantes originais dos Blasters emplacarem uma tournée de retorno, e lá foram eles novamente, de encontro aos velhos admiradores da banda.

Mas, infelizmente, a idéia não prosperou para a realização de um novo álbum de estúdio, pois Dave já tinha um disco solo gravado só aguardando lançamento e várias datas de tournée com sua banda esperando por ele.

Mesmo assim, por teimosia, o cantor Phil Alvin não desistiu da idéia de reunir os Blasters, mesmo sem Dave Alvin. Gravou em 2004 um disco de estúdio entitulado "4-11-44", onde usava o nome The Blasters, mas não trazia nenhum dos integrantes originais da banda.

Mesmo sendo agradável, e capaz de lembrar o vigor original dos Blasters, "4-11-44" foi uma decepção para os velhos fãs da banda, que não conseguiram reconhecer neste novo grupo o glorioso quarteto de roots rock e blues turbinado que marcou suas vidas no início dos anos 80.


Mas agora, com esse novo disco, "Fun On A Saturday Night", a história é diferente.

Temos aqui, finalmente, os Blasters originais -- menos o guitarrista Dave Alvin, substituído pelo truculento mas eficaz  Keith Wyatt -- reunidos num projeto onde passeiam por um repertório clássico de country, blues e rhythm and blues impecável em todos os sentidos, misturados com apenas duas composições originais de Phil Alvin.

É uma salada dos diabos, que inclui desde "Jackson", sucesso da dupla Johnny Cash & June Carter, até "Please Please Please", de James Brown -- mas que funciona muito bem, e tem a ousadia e o som clássico dos discos iniciais dos Blasters.

Portanto, preparem-se pois dessa vez a alquimia finalmente funcionou, e os Blasters voltaram a soar não apenas convincentes, mas também vibrantes e eletrizantes.

"Fun On A Saturday Night" não só merece a sua atenção como pode salvar seu próximo sábado à noite.



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