Em 1996, Tom Petty & the Heartbreakers estavam no auge de suas carreiras.
Formados em Gainesville, na Flórida, eles conseguiram uma proeza única na cena musical americana: foram abraçados pelo Estado da California por terem conseguido resgatar em plenos Anos 70 as sonoridades meio esquecidas -- devidamente repaginadas, diga-se de passagem -- de bandas clássicas de Los Angeles nos Anos 60 como The Byrds e Buffalo Springfield.
Depois de 20 anos de intensa popularidade e 8 festejadíssimos LPs de estúdio para a MCA Records -- 10 se contarmos "Full Moon Fever" e "Wildflowers", assinados apenas por Petty, mas com quase todos os Heartbreakers no suporte --, nossos bravos rapazes estavam prontos para encarar uma nova etapa de suas carreiras na Warner Bros Records.
Mas havia uma pendência contratual de Tom Petty & the Heartbreakers com a MCA que ainda precisava ser saldada, e que impedia que a banda lançasse um novo disco de inéditas pela sua nova casa. Foi quando Petty decidiu chutar para o alto e ofereceu à MCA um projeto de uma caixa retrospectiva de 20 anos de carreira com nada menos que seis CDs: três fazendo uma retrospectiva cronológica da tragetória da banda e outros três com demos, outtakes e covers, além de gravações do Mudcrutch -- banda que Tom Petty e Mike Campbell tiveram nos dois anos que antecederam a estreia oficial dos Heartbreakers. Era pegar ou largar.
A MCA pegou. E lançou a caixa, luxuosíssima, com o título "Playback", e títulos específicos para cada um dos 6 cds do pacote. Não foi exatamente um sucesso de vendas por ser um pacote caro e ambicioso demais, de interesse exclusivo dos fãs mais ardorosos, mas serviu como um rito de passagem para Petty e seus comparsas rumo aos 20 anos seguintes de vida da banda.
Mas, como todos sabemos, de uns anos para cá essas caixas retrospectivas mais ambiciosas, com muitos cds, começaram a deixar de interessar aos fãs das bandas, que passaram a preferir caixas ainda mais extensas com sessões completas de gravação. Como as recentes "The Cutting Edge", que reúne tudo o que Bob Dylan gravou em estúdio entre 1965 e 1966, e "The Ties That Bind", que agrupa em 4 cds e 3 dvds todas as gravações de estúdio feitas por Bruce Springsteen entre 1979 e 1980, além de um show inédito, um documentário e gravações realizadas na longa tournée que veio a reboque do álbum duplo "The River".
Por conta disso, quando Tom Petty começou a gerenciar o lançamento de toda a sua discografia para venda através de downloads digitais, ficou na dúvida se fazia sentido lançar "Playback" digitalmente no formato original. E então, depois de consultar seu staff para definir a melhor saída para comercializar "Playback", ficou decidido que os discos 5 e 6 da caixa -- "Through The Cracks" e "Nobody's Children" -- seriam comercializados individualmente em versões digitais neste final de 2015, um ano em que a banda optou por tirar uma licença sabática e não excursionou.
Não há muito o que dizer sobre esses dois discos, a não ser que são ótimos complementos aos LPs de carreira de Tom Petty & The Heartbreakers, resgatando ítens meio esquecidos que, de tão bons, não mereciam ter sido excluídos por tanto tempo.
"Through The Cracks" traz gravações que remontam ao Mudcrutch e seguem pelos primeiros 10 anos de carreira da banda, revelando canções fantásticas que ficaram de fora dos discos oficiais e covers tão inusitados quanto deliciosos.
Já "Nobody's Children" foca nos demos, inéditas e covers gravados nos anos seguintes, entre 1983 e 1992, resgatando pérolas como "Ways To Be Wicked" -- que Petty e Campbell entregaram para Maria McKee gravar com o Lone Justice -- e "Waiting For Tonight" -- gravada com backing vocals das adoráveis The Bangles, e que permanecia inédita.
Se você é fã de Tom Petty & The Heartbreakers e não possuí a caixa "Playback" na sua coleção, não perca esta chance de conhecer melhor esse material surpreendente da banda.
Acredite: não há maneira melhor do que aguardar até meados de 2016, quando Tom Petty & The Heartbreakers devem sair em tournée mais uma vez, promovendo o lançamento do novo LP que será gravado ao longo deste Inverno que está começando no Hemisfério Norte.
Cada um dos álbuns tem um custo de US$ 9,99 via iTunes Music Store, Amazon MP3 e Spotify, e podem ser adquiridos através do website oficial de Tom Petty com um cartão de crédito internacional.
Taí uma banda que sempre enganou todo mundo com uma atitude aparentemente despretensiosa e um sorriso nos lábios indicando que só queriam mesmo é fazer "good time music".
Tudo conversa mole.
Logo no terceiro disco, "Damn The Torpedos" (1979), já não havia mais a menor dúvida de que Petty era um cantor com um timbre único e um compositor de primeira grandeza, e ao menos dois de seus escudeiros nos Heartbreakers -- o guitarrista Mike Campbell e o tecladista Benmont Tench -- eram músicos extremamente criativos que, bem aproveitados, levariam a banda muito longe.
Pois foi o que aconteceu.
A carreira espetacular de Tom Petty & The Heartbreakers fala por si própria.
Agora, 38 anos depois de estrearem na lendária Shelter Records de Leon Russell com um disco repleto de sonoridades psicodélicas envolventes, ainda que meio fora de época, eis que nossos bravos rapazes retornam mais uma vez com uma nova coleção de canções naquele mesmo tom de seu distante LP de estréia.
"Hypnotic Eye" é um álbum denso, envolvente, com melodias inusitadas e saídas musicais extremamente criativas que se por um lado remetem ao passado da banda, por outro demonstram uma atitude musical madura e atual.
É menos bluesy e menos truculento que o anterior "Mojo", mas é tão vigoroso quanto.
Canções como "American Dream Plan B", que abre o disco de forma inusitada, e "All You Can Carry" e "Shadow People" estão entre os números mais marcantes de toda a carreira do grupo.
E é tão bem tocado que engana mais uma vez o ouvinte desavisado que não conseguir perceber a sintonia fina dos músicos enquanto alinhavam o formato derradeiro dessas novas canções.
Quando dizem que Tom Petty & The Heartbreakers vem na mesma tradição musical de The Band, acreditem: não há exagero.
Apenas a constatação de que a soma dos fatores às vezes multiplica o produto final.
Com certeza foi isso que Bob Dylan viu neles quando os convidou para ser sua banda de estrada nos Anos 80.
E com certeza é isso que -- curiosamente -- faz desses velhos rapazes da Florida a melhor banda californiana dos últimos... vai, 38 anos!
Moral da história: não se deixe enganar pelo "low profile" do Tom Petty & The Heartbreakers.
Eles sempre produziram música de primeira. Música intrincada, rock and roll extremamente vertebrado.
Leon Russell é uma das maiores expressões da música popular americana em todos os tempos.
Eclético ao extremo, emprestou seu talento como pianista, guitarrista, compositor e arranjador para artistas dos mais diversos gêneros, e se escolou como produtor ao lado de Phil Spector, com quem trabalhou continuamente entre 1960 e 1967.
Ao final desse período, montou seu próprio estúdio em Los Angeles, e imediatamente passou a ser convocado para contracenar com os Rolling Stones, os Beatles, os Flying Burrito Brothers e, finalmente, Joe Cocker, de quem acabou virando maestro na lendária tournée Mad Dogs And Englishman.
Iniciou em 1970 uma das carreiras solo mais vibrantes da época, tornou-se rapidamente uma das atrações mais bem pagas da cena musical americana, teve suas composições disputadas a tapa por diversos intérpretes, emplacou sua estelar Shelter Records lançando uma série de grandes artistas que trabalhavam constantemente com ele, como J J Cale, Dwight Twilley e Tom Petty... tudo parecia conspirar a favor de Leon Russell.
Mas infelizmente essa sorte não durou para sempre.
Poucos anos mais tarde, no final da década de 70, Leon estava falido, viciado em drogas pesadas, sem contrato com nenhuma gravadora e dependendo da ajuda de amigos como Willie Nelson, que lhe arranjava trabalho no círculo da country music.
Nos 30 anos que se seguiram, Leon Russell não conseguiu reaver seu status artístico anterior.
Foi salvo do esquecimento em grande estilo pelo amigo Elton John, que, inconformado com o ostracismo em que seu ídolo musical havia caído, o convidou para um disco em parceria em 2010, chamado "The Union", que foi um sucesso estrondoso e resgatou não só a carreira como também a auto-estima de Leon Russell.
Corta para exatos 25 anos atrás.
No dia em que ouvi pela primeira vez a deliciosa coleção de standards de Dr. John, "In A Sentimental Mood", lembro de ter pensado cá com meus botões: "Puxa, bem que Leon Russell merecia um disco parecido com esse".
Pois agora isso finalmente aconteceu.
Algum executivo da Universal teve o bom senso de chamar o produtor e arranhador Tommy LiPuma -- o mesmo do disco de Dr. John mencionado há pouco -- para trocar uma idéia com Russell e definir repertório para um disco predominantemente de covers.
Desse encontro nasceu esse magnífico "Life Journey" (Mercury-Universal Music), que acaba de chegar às lojas.
Aqui, Leon solta sua voz ríspida como nos tempos da Shelter Records, onde gravou seus melhores discos nos anos 70.
Os arranjos não são menos que espetaculares, com muitos metais e muitas cordas.
Vez ou outra, eles saem de cena e deixam Leon e seu piano velho de guerra darem sozinhos o recado.
O repertório traz desde "Come On Into My Kitchen" de Robert Johnson e "New York State Of Mind" de Billy Joel até "I Got It Bad And That Ain't Good" de Duke Ellington e "Georgia On My Mind" de Hoagy Carmichael, mesclando diversos estilos musicais e compondo um quadro multifacetado que é a cara de Russell.
"Life Journey" é um disco delicioso que vai agradar em cheio os velhos fãs do velho maestro cabeludo que subia ao palco sempre usando sua cartola com a bandeira americana estampada.
A cartola se foi faz tempo.
Mas o maestro está de volta, firme e forte.
Num disco digno de sua estatura musical, que faz jus a seus mais de 50 anos de ótimos serviços prestados à música popular anglo-americana.
Quem viveu os anos 70 e seguia os passos de bandas power-pop como Big Star, Badfinger e Raspberries, com certeza lembra com muito carinho da Dwight Twilley Band.
Era uma guitar-band americana fortemente influenciada pelos Beatles, com canções delicadas e ensolaradas, fruto da conjunção dos talentos de dois guitarristas, cantores e compositores brilhantes: Phil Seymour e o próprio Dwight Twilley.
Eles se conheceram em Tulsa, Oklahoma, 1967, depois de assistir “A Hard Day’s Night” num cinema da cidade.
Montaram sua banda, Oister, no ano seguinte, e passaram mais de cinco anos viajando por todo o Sul dos Estados Unidos, tentando gravar para algum selo que se interessasse por eles. Sem sucesso.
Só em 1974 eles conseguiram um contrato, com a gloriosa Shelter Records, de Denny Cordell e Leon Russell -- que, a essa altura do campeonato, não ia nada bem das pernas.
Cordell achou a banda ótima, mas também achou o nome Oister medonho.
Insistiu para que eles mudassem para Dwight Twilley Band e gravou com eles material suficiente para compor dois LPs diferentes.
Dessas gravações, saíram vários singles e também o primeiro LP deles, “Sincerely”, lançado pela ABC em 1976 em meio a uma confusão dos diabos, por conta do colapso financeiro da Shelter.
Foi sucesso de crítica e fiasco de público, sendo seguido no ano seguinte por “Twilley Don´t Mind” -- igualmente ótimo, mas que também não emplacou.
Foram tantas confusões empresariais e tantos revezes ao longo desses dois anos que a banda não suportou o tranco.
Phil Seymour e Dwight Twilley acharam por bem desistir do projeto da banda e seguir carreiras solo.
Com a explosão do pós-punk no final dos anos 70. ficou mais fácil para qualquer artista inglês ou americano conseguir um lugar ao sol na cena musical tocando "pop puro", como o que eles faziam.
Dwight Twilley seguiu a reboque das tournées do amigo Tom Petty e, com isso, conseguiu contratos com gravadoras que resultaram em vários discos muito bons, ainda que não tão eloquentes quanto os que gravara nos anos 70.
Já Seymour produziu apenas três discos ao longo dos anos 80, sendo que o primeiro (foto abaixo) é considerado hoje uma obra prima do power-pop.
Infelizmente, nenhum dos dois jamais conseguiu emplacar no Top 20 da Billboard.Pareciam estar fadados ao fracasso comercial.
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E então, Phil Seymour morre em 1993.
Paralelo a isso, Dwight Twilley resolve parar de correr atrás de contratos com gravadoras e de ter que trabalhar com produtores sem a menor consideração com a integridade de seu trabalho, e decide virar um artista independente.
Nesse meio tempo, tanto ele quanto Phil Seymour viram objeto de culto para as novas gerações.Seus discos antigos começam a ser relançados, e isso dá um gás todo especial à carreira meio combalida de Twilley.
O resultado prático disso é que, nos vinte anos que se seguiriam a esses acontecimentos, Dwight Twilley não sossegaria mais, produzindo discos em abundância e compondo canções extremamente apelativas e praticamente tão boas quanto as do tempo em que Seymour e ele faziam dobradinha.
O que nos leva a "Soundtrack", seu novo trabalho.
São canções autobiográficas e em tom confessional compostas especialmente para um documentário sobre sua vida artística, que ainda não foi lançado. Todas muito envolventes e invariavelmente grudentas.
Sua nova banda é ótima, com músicos das mais diversas faixas de idade. Impressionante como as guitarras de Twilley e de Bill Pitcock soam harmoniosas e estridentes na medida certa, resgatando boa parte da alquimia que rolava em seus primeiros discos, ao lado de Phil Seymour.
Em suma: a musicalidade de Dwight Twilley chega completamente revigorada nesse "Soundtrack", e isso é uma grande notícia para seus novos e velhos fãs.
Nada mais bacana do que vez um veterano talentoso como ele, que passou anos e anos dando murro em ponta de faca para manter sua carreira ativa, finalmente chegando a um porto seguro.
Enfim, se você gosta do power-pop dos Beatles, conheça “Soundtrack”, de Dwight Twilley.
É um disco “perfil baixo” espetacular, de um grande artista, talvez no melhor momento de sua carreira.
Um marco na história atrapalhada de um grande herói subestimado do rock and roll.