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terça-feira, dezembro 05, 2017

ENCAIXOTANDO FINALMENTE OS LENDÁRIOS BBC TAPES DOS ROLLING STONES

por Chico Marques


Existia nos Anos 60 uma "lei não escrita" no Reino Unido que obrigava as emissoras de rádio de toda a Grã-Bretanha a produzir e fazer broadcasts de apresentações ao vivo de artistas ingleses ou não. É que os Sindicatos pressionavam a BBC para que suas emissoras de rádio não tocassem simplesmente discos industriais, e produzissem gravações de estúdio prestigiando os músicos, que recebiam um cachê padrão por essas apresentações e tinham que ceder a propriedade desses tapes para a emissora estatal que os gravou -- no caso, a BBC.

O que se percebe ao ouvir o legado de toda uma geração de artistas nessas apresentações ao vivo é que dificilmente algum músico inglês tocou de má vontade nesses programas, até porque estar na BBC -- Rádio ou TV -- era sempre motivo de muito orgulho para qualquer artista britânico.

(Se bem que, de acordo com o amigo pesquisador e produtor musical Rene Ferri, Chuck Berry -- que nunca primou pela simpatia -- tocou com extrema má vontade certa vez num programa da BBC por conta de um cachê que exigiu que fosse pago adiantado, gerando um contratempo, pois era fim de semana e o caixa da BBC estava fechado. Alguns funcionários correram e fizeram uma vaquinha para conseguir pagar o cachê de Berry, o que atrasou a gravação por uma hora. Mesmo assim, assim que recebeu o cachê pedido para tocar 60 minutos seguidos, Berry tocou com os olhos grudados num relógio na parede do estúdio, e assim que completou os 60 minutos combinados ele simplesmente desplugou sua guitarra no meio de uma música e foi embora.)

Consta que essa "lei não escrita" foi "revogada" no inicio dos Anos 70, quando os programas de TV da BBC como o "Old Grey Whistle Test" passaram a ser muito visados pelos artistas, que passaram a se apresentar de graça em troca de promoção e prestígio. Mesmo assim, DJs como John Peel trataram de manter viva e ativa a velha tradição dos radio broadcasts ao vivo nas emissoras inglesas, só que agora focalizando prioritariamente jovens artistas ingleses e até artistas americanos que eventualmente estivessem de passagem pela Inglaterra.

 Por conta disso, todos os grupos que fizeram parte da British Invasion lanççaram nos últimos 20 ou 30 anos seus BBC Tapes em disco. Alguns vieram em edições extensas e muito luxuosas. Outros, em edições compactas. Mas estava faltando dar a luz de sua graça uma caixinha reunindo os BBC Tapes de um determinado grupo que permanece na ativa há mais de 50 anos.


Pois agora não falta mais. Acaba de chegar às lojas "The Rolling Stones On Air", com dois cds que abrigam praticamente todas as gravações dos Rolling Stones para a BBC realizadas entre 1963 e 1966 para programas como Saturday Club, Top Gear, Rhythm & Blues e The Joe Loss Pop Show. Que, diga-se de passagem, só pararam de acontecer com frequência porque em 1967 eles foram banidos da BBC após Mick Jagger e Keith Richards serem presos por porte de drogas. 

Todas as 32 faixas de "On Air" foram submetidas a um processo novo de rematrização intitulado Audio Source Separation, que consegue restaurar gravações realizadas originalmente sem maiores cuidados técnicos com resultados simplesmente espetaculares. Só ouvindo e comparando com edições piratas dos tapes da BBC que existem no mercado para sentir a enorme diferença na definição de audio.

Mais da metade do repertório de "On Air" é composto por covers, já que os Stones só foram começar a gravar suas composições a partir de 1965, em LPs como "Out Of Our Heads" e "Aftermath". Assim, preparem-se para versões deliciosas para "It's All Over Now" de Bobby Womack, "Fannie Mae" de Buster Brown", e "I Wanna Be Your Man" de Lennon & McCartney, além de vários números de Chuck Berry como "Memphis Tennessee" e "Beautiful Delilah". É uma seleção de covers simplesmente deliciosa.   

Mas o que "On Air" tem de mais curioso é que finalmente podemos ouvir com nitidez os Stones tocando ao vivo neste período, já que o único registro ao vivo que existia até então era o irritante "Got Live If You Want It", mixado com aquela gritaria intermitente que praticamente impedia que ouvíssemos a banda tocando com clareza.

Agora é tudo diferente. Finalmente podemos sentir a bateria de Charlie Watts e as linhas de contrabaixo de Bill Wyman, as intervenções sempre brilhantes de Brian Jones na guitarra e na harmônica e a base segura proporcionada por Keith Richards. Quanto a Mick Jagger, sua voz está sensacional. Jovial e Soulful até não dar mais.

O belo booklet que acompanha a edição traz informações detalhadas (algumas bastante preciosas) sobre cada sessão de gravação -- um trabalho tão primoroso quando o recebido anos atrás pelos Beatles e pelos Kinks ao lançarem suas BBC Tapes.  

 Francamente, não consigo imaginar melhor presente de Natal a um fã dos Stones do que "On Air".

Mas, antes de presentar, cheque se a pessoa que você vai presentear não correu para comprar essa pequena maravilha assim que saiu.

PS: Logo abaixo, uma foto dos Stones remanescentes na festa em que anunciaram o lançamento de "On Air".



AMOSTRAS GRÁTIS







sexta-feira, junho 02, 2017

NOSSO ANIVERSARIANTE DESTA SEXTA É SIMPLESMENTE O BATERISTA MAIS SÓBRIO E CLASSUDO QUE O ROCK AND ROLL JÁ TEVE O PRAZER DE CONHECER


NOSSO ANIVERSARIANTE DESSA SEXTA
É O BATERISTA DOS ROLLING STONES:
O JAZZMAN CHARLIE WATTS.

PARA CELEBRAR SEUS 76 ANOS DE IDADE
RESGATAMOS UMA PERFORMANCE GENIAL
DA CHARLIE WATTS BIG BAND EM 1988,
REUNINDO O CRÈME DE LA CRÈME
DOS MÚSICOS DE JAZZ LONDRINOS
NUM MESMO PALCO.

ENJOY...









quinta-feira, junho 01, 2017

NOSSO ANIVERSARIANTE DESSA QUINTA É SIMPÁTICO, BEBERRÃO, BEM-HUMORADO, NARIGUDO E TOCA SLIDE GUITAR COMO NINGUÉM NA BOA E VELHA INGLATERRA


CELEBRAMOS OS 70 ANOS BEM VIVIDOS
DESSE GRANDE GUITARRISTA INGLÊS
QUE FAZ PARTE DOS ROLLING STONES
RELEMBRANDO SEU ÚLTIMO SHOW COMO
GUITARRISTA DOS FACES DE ROD STEWART
E TAMBÉM RESGATANDO OS REGISTROS
DA LENDÁRIA TOURNÉE QUE ELE FEZ EM 1988
COMO MEMBRO DA BANDA DE BO DIDDLEY

ENJOY...









sexta-feira, outubro 30, 2015

2 OU 3 COISAS SOBRE "CROSSEYED HEART", NOVO LP SOLO DO SOUL SURVIVOR KEITH RICHARDS

por Chico Marques


Depois de um mês escutando quase diariamente o novo disco de Keith Richards, "Crosseyed Heart", e já sabendo de antemão que seria impossível para mim escrever uma resenha empírica sobre ele, decidi partir para a louvação mesmo. 

A verdade é que eu adorei "Crosseyed Heart". Presumo que todos os que conheçam bem o trabalho de Keith tenham adorado o disco também. Tudo é completamente familiar da primeira à última faixa. O surpreendente aqui não é o conteúdo do disco. E sim a atitude na hora de executar as canções. 

É uma pena que os Rolling Stones não tenham mais saco nem para gravar novos discos de estúdio -- o último, "A Bigger Bang", já tem onze anos de idade --, nem para trabalhar de forma tão francamente descomplicada quanto a escolhida por Keith nesse disco.



Quando Keith Richards brigou feio com Mick Jagger 30 anos atrás, na ocasião da gravação do LP "Dirty Work", alegando que os Stones precisavam urgentemente cair na estrada para continuar sendo relevantes como banda -- e Mick bateu o pé e discordou --, não havia mais futuro possível para os Rolling Stones naquele momento. 

Havia uma clara situação de rompimento entre os dois. Tanto que gravaram suas partes em "Dirty Work" em horários alternados, sem olhar na cara um do outro. Só não se separaram porque a banda é, antes de mais nada, uma empresa muito rentável, e desmontá-la naquele momento seria uma operação muito complicada. 

Foi quando Keith decidiu dar um tapa na cara com luvas de pelica em Mick, reunindo um grupo de artistas que admirava e montando uma banda com eles, The X-Pensive Winos, para em seguida cair na estrada e -- heresia das heresias! -- gravar dois discos -- "Talk Is Cheap" (1988) e "Main Offender" (1992) -- que, apesar de serem tecnicamente discos solo, eram nitidamente discos de banda.

E essa banda não era The Rolling Stones.



Mick Jagger já tinha três discos solo até então. 

Todos eles meio frios, orientados por produtores, e gravados com o apoio de músicos de estúdio altamente profissionais, mas que em momento algum suam a camisa. 

Não havia nesses discos o menor vestígio daquele vigor que só o trabalho de uma banda de verdade pode proporcionar, e Jagger sabia bem disso, tanto que morreu de ciúmes da atitude de Keith. 

No final das contas, teve que dar o braço a torcer. 

E então, os Rolling Stones voltaram com um disco sensacional em 1989 -- "Steel Wheels" -- e uma tournée espetacular a reboque do disco. 

Foi a última com Bill Wyman no baixo, que deixou a banda por ter desenvolvido pânico de aviões, mas preferiu alegar não suportar mais o estilo de vida de seus velhos parceiros.



Apesar de Keith Richards contar com o apoio de vários X-Pensive Winos -- Steve Jordan, Waddy Wachtel, Ivan Neville, Sarah Dash -- na maioria da faixas de "Crosseyed Heart", não estamos diante de um disco de banda como nas duas vezes anteriores. 

De certa forma, esse talvez seja o primeiro disco solo de verdade de Keith. 

Ao invés de uma banda, dessa vez ele está cercado de músicos amigos. 

Os sopros derradeiros de seu velho comparsa Bobby Keys, por exemplo, estão registrados aqui, em "Crosseyed Heart".

A sempre adorável Norah Jones também faz uma participação muito delicada nessas sessões de gravação.



O momento atual é completamente diferente do vivido por Keith Richards nos Anos 80. 

O futuro dos Stones não parece ser mais uma preocupação em sua vida. 

As tournées que antes promoviam discos novos agora promovem o programa de relançamento da discografia original dos Stones, repletas de bonus tracks e com remasterização supervisionada por Keith e Mick. 

Dizem as boas e as más línguas que vários supostos leftovers da banda da década de 1970 incluídos nestes relançamentos foram na verdade compostos recentemente e fajutados como canções clássicas.

Mick e Keith não dizem que sim, nem que não.



Enfim, "Crosseyed Heart" é um disco com a cara de Keith Richards. 

Que revela um artista multifacetado em toda a sua plenitude, mas que sempre usou -- e, pelo visto, sempre vai usar --  o blues como via de acesso a todas as linguagens musicais que lhe interessam. 

Melhor indicativo disso do que o repertório absolutamente eclético desse disco, impossível. 

Tem desde uma releitura linda de "Goodnight Irene" de Leadbelly até uma curiosa gravação do reggae "Love Overdue" de Gregory Isaacs, passando por baladas magníficas -- “Suspicious”, “Just a Gift”, “Illusion” -- e por rocks impecáveis -- “Trouble”, “Amnesia”, “Something for Nothing”, “Substantial Damage”, “Heartstopper” --, além de alguns blues e outros números que, de tão híbridos, chegam a ser difíceis de classificar. 

Rola de tudo nas 15 faixas de "Crosseyed Heart". E é tudo um imenso prazer. E não poderia ser diferente em se tratando de um soul survivor como Keith Richards. 

Acreditem: ninguém ostenta um coração vesgo assim, à toa.



WEBSITE PESSOAL 

DISCOGRAFIA COMENTADA

AMOSTRAS GRÁTIS










sábado, junho 14, 2014

A ESPETACULAR VOLTA POR CIMA DO "MAESTRO CÓSMICO" LEON RUSSELL



Leon Russell é uma das maiores expressões da música popular americana em todos os tempos.

Eclético ao extremo, emprestou seu talento como pianista, guitarrista, compositor e arranjador para artistas dos mais diversos gêneros, e se escolou como produtor ao lado de Phil Spector, com quem trabalhou continuamente entre 1960 e 1967.

Ao final desse período, montou seu próprio estúdio em Los Angeles, e imediatamente passou a ser convocado para contracenar com os Rolling Stones, os Beatles, os Flying Burrito Brothers e, finalmente, Joe Cocker, de quem acabou virando maestro na lendária tournée Mad Dogs And Englishman.

Iniciou em 1970 uma das carreiras solo mais vibrantes da época, tornou-se rapidamente uma das atrações mais bem pagas da cena musical americana, teve suas composições disputadas a tapa por diversos intérpretes, emplacou sua estelar Shelter Records lançando uma série de grandes artistas que trabalhavam constantemente com ele, como J J Cale, Dwight Twilley e Tom Petty... tudo parecia conspirar a favor de Leon Russell.

Mas infelizmente essa sorte não durou para sempre.

Poucos anos mais tarde, no final da década de 70, Leon estava falido, viciado em drogas pesadas, sem contrato com nenhuma gravadora e dependendo da ajuda de amigos como Willie Nelson, que lhe arranjava trabalho no círculo da country music.

Nos 30 anos que se seguiram, Leon Russell não conseguiu reaver seu status artístico anterior.

Foi salvo do esquecimento em grande estilo pelo amigo Elton John, que, inconformado com o ostracismo em que seu ídolo musical havia caído, o convidou para um disco em parceria em 2010, chamado "The Union", que foi um sucesso estrondoso e resgatou não só a carreira como também a auto-estima de Leon Russell.



Corta para exatos 25 anos atrás.

No dia em que ouvi pela primeira vez a deliciosa coleção de standards de Dr. John, "In A Sentimental Mood", lembro de ter pensado cá com meus botões: "Puxa, bem que Leon Russell merecia um disco parecido com esse".

Pois agora isso finalmente aconteceu.

Algum executivo da Universal teve o bom senso de chamar o produtor e arranhador Tommy LiPuma -- o mesmo do disco de Dr. John mencionado há pouco -- para trocar uma idéia com Russell e definir repertório para um disco predominantemente de covers.


Desse encontro nasceu esse magnífico "Life Journey" (Mercury-Universal Music), que acaba de chegar às lojas.

Aqui, Leon solta sua voz ríspida como nos tempos da Shelter Records, onde gravou seus melhores discos nos anos 70.

Os arranjos não são menos que espetaculares, com muitos metais e muitas cordas.

Vez ou outra, eles saem de cena e deixam Leon e seu piano velho de guerra darem sozinhos o recado.

O repertório traz desde "Come On Into My Kitchen" de Robert Johnson e "New York State Of Mind" de Billy Joel até "I Got It Bad And That Ain't Good" de Duke Ellington e "Georgia On My Mind" de Hoagy Carmichael, mesclando diversos estilos musicais e compondo um quadro multifacetado que é a cara de Russell.



"Life Journey" é um disco delicioso que vai agradar em cheio os velhos fãs do velho maestro cabeludo que subia ao palco sempre usando sua cartola com a bandeira americana estampada.

A cartola se foi faz tempo.

Mas o maestro está de volta, firme e forte.

Num disco digno de sua estatura musical, que faz jus a seus mais de 50 anos de ótimos serviços prestados à música popular anglo-americana.




WEBSITE PESSOAL
http://www.leonrussellrecords.com/

DISCOGRAFIA
http://www.allmusic.com/artist/leon-russell-mn0000816387/discography

AMOSTRAS GRÁTIS

quinta-feira, outubro 04, 2012

A VOLTA DO MESTRE DO BLUES SUGAR BLUE NUM ÁLBUM AO VIVO DE TIRAR O FÔLEGO

Sugar Blue é o tipo de artista que nove em cada dez puristas do blues odeia de paixão.

Desde que surgiu na cena musical, no início dos anos 70, no Harlem, Nova York, bem distante do Mississipi, ele vem se revelando não só um gaitista extraordinariamente intenso e criativo, como também um intérprete poderoso, capaz de trafegar por todas as nuances musicais que compõem a música negra das ruas de Nova York.

Dono de um vozeirão e de um sopro implacáveis, Sugar Blue foi constantemente comparado a Junior Wells e James Cotton, por conseguir trafegar tranquilo e com muita desenvoltura entre o blues e a soul music.

Essa atitude eclética acabou dando o norte a sua carreira emergente. E com isso, ele logo passou a ser chamado com frequência para gravar tanto com artistas de rock e soul quanto com grandes mestres do blues de passagem pelos estúdios da cidade -- como os saudosos Johnny Shines, Brownie McGhee e Louisiana Red.

Essas gravações foram parar em discos excelentes desses veteranos do blues, mas infelizmente foram ouvidos por poucos.

Por sorte, entre esses poucos estavam Mick Jagger e Keith Richards, que já conheciam a reputação de Sugar Blue quando foram apresentados pessoalmente a ele num clube de blues em Paris, em 1977.

Desse dia em diante, começou uma longa associação entre ele e os Rolling Stones, que dura até os dias de hoje, em participações memoráveis em quase todos os discos da banda gravados desde então.



É engraçado como a carreira fonográfica solo de Sugar Blue segue num rumo inversamente proporcional ao impacto fulminante de seu jeito de cantar e tocar. Ele gravou apenas 6 discos solo de estúdio de 1980 para cá -- muito pouco para alguém que nunca esteve distante dos palcos.

São discos muito consistentes e de alto gabarito, baseados no blues e no rhythm and blues, com influoências musicais bem urbanas e bem diversas sempre pipocando entre um número e outro.

Seus dois trabalhos gravados para a Alligator nos anos 90 -- "Blue Blazes" e "In Your Eyes" -- são multifacetados e surpreendentes em termos artísticos.

"Code Blue", de 2007, gravado para o selo Beeble, chuta para todos os lados com grande maestria e é considerado uma pequena obra prima do blues moderno.

Já "Threshold", seu mais recente trabalho, também para a Beeble, lançado ano passado, é bem menos bluesy que o habitual, e mais roqueiro e funkeado. Mesmo assim, é praticamente tão intenso quanto seus trabalhos anteriores.

Curiosamente, em contraponto a esses poucos discos de estúdio, Sugar Blue tem pelo menos outros 6 discos ao vivo lançados por aí pelos mais diversos selos, atestando o quanto ele tem sido presente e constante nos palcos do mundo inteiro ao longo desses anos todos.



"Raw Sugar Blue Live!" é mais um desses registros ao vivo excepcionais.

Comandando uma banda que traz o grande guitarrista Rico McFarland, seu colaborador contumaz, e uma cozinha excepcional composta por músicos bem jovens, Sugar Blue mostra todo o seu poder de fogo num repertório bem variado nesse álbum duplo contagiante.

Impossível ficar indiferente a "Red Hot Mama", uma shuffle aceleradíssimo, que vem seguido de verdadeiras aulas de swing em números como "One More Mile" e a quase jazzística "Swing Chicken". E tem ainda clássicos como "Hoochie Cootchie Man", de Muddy Waters, e "Messin´ With The Kid", de seu mestre Junior Wells, revistos de forma pouco reverente e sempre muito vigorosa.

E, para completar, como não podia deixar de ser, "Raw Sugar Blue Live!" traz uma surpreendente releitura de "Miss You", clássico dos Stones, que tem Sugar Blue na gaita em sua versão original. Ele se apropriou devidamente da canção e fez dela o número mais aguardado em em seus shows, e também em seus discos ao vivo.



Conversando com Sugar Blue alguns anos atrás numa mesa de bar, depois de um show demolidor no SESC-Santos -- e assombrado com a quantidade impressionante de doses de Velho Barreiro que ele estava bebendo desde antes de começar o show --, perguntei a ele se tinha viajado muito pelas rotas do blues do sul dos Estados Unidos.

A resposta foi não. Sempre tocou blues em Nova York mesmo, onde vive praticamente desde sempre.

Não satisfeito, tentei puxar dele, completamente bêbado, como e onde ele teve seu primeiro contato com o blues.

Ele respondeu: "foi no Vietnam".

Não perguntei mais nada depois disso.

Toda a urgência e a truculência da música de Sugar Blue passaram a fazer todo o sentido do mundo para mim depois dessa declaração.


BIO-DISCOGRAFIA

WEBSITE PESSOAL

AMOSTRAS GRÁTIS

sábado, junho 02, 2012

RELANÇADO O MELHOR LP AO VIVO DA HISTÓRIA DO ROCK & ROLL: 'BO DIDDLEY´S BEACH PARTY"



Nos primeiros anos da década de 1960, era relativamente comum entre artistas de grande apelo popular gravar discos ao vivo com microfones abertos para a platéia, para assim captar de forma plena tanto a energia de quem está tocando no palco quanto a vibração de quem está assistindo o show.

Deixar a euforia e a eventual gritaria da platéia tomar conta do mix final desses discos era uma maneira de driblar as deficiências técnicas e a falta de recursos disponíveis para as gravações ao vivo na época.

Quem se der ao trabalho de ouvir LPs ao vivo desse período -- como “Got Live If You Want It” dos Rolling Stones, ou “Live At The Regal” de B B King – vai sentir como esse conceito de mixagem funcionava extremamente bem, isso quando feito da maneira certa.

É dessa época também o conceito do “disco de festa” gravado ao vivo em estúdio com uma quantidade infinitamente superior de recursos de gravação, com gente falando alto enquanto os artistas tocam de forma descontraída seus sucessos ou versões cover de canções de outros artistas.

Uma peculiaridade desses “discos de festa” é que não costumavam ter separação de faixas -- neles, todas as canções sempre começam e terminam envoltas em muito falatório e muitas gargalhadas.

O LP “The Beach Boys Party” é um exemplo clássico disso.

Aqui no Brasil, a série de LPs “Alegria, Alegria”, de Wilson Simonal, gravados entre 1966 e 1969, segue esse mesmo padrão.


“Bo Diddley´s Beach Party” é uma combinação curiosa desses dois formatos de disco ao vivo.

Considerado por vários críticos o melhor LP de rock and roll de todos os tempos, ele estava fora de circulação há muito tempo, e nunca havia sido relançado em CD pela Chess nos Estados Unidos em sua versão mono original -- existia apenas numa "versão frankestein" com stereo fajutado eletronicamente, que circulou pela Europa numa edição da Charly Records.

Totalmente gravado ao vivo numa praia na Carolina do Sul diante de uma platéia bem festiva -- com recursos técnicos limitados e uma banda de apoio sob medida para seus devaneios selvagens naquela charmosíssima guitarra quadradinha e em suas vocalizações divertidas e inusitadas.--, “Bo Diddley´s Beach Party” traz nosso herói Elias McDaniel, vulgo Bo Diddley, desfilando um número explosivo atrás do outro, numa seqüência de altíssima voltagem que tem um único defeito: dura apenas 33 minutos.

Esse disco, para quem não sabe, era um dos favoritos de Mick Jagger & Keith Richards, e serviu de modelo por uns bons anos para as peripécias no palco dos jovens Rolling Stones. Basta ouvir as gravações dos Stones ao vivo em 1964 para sentir como eles tocam parecido com a banda de Bo Diddley nesse “Beach Party”. A semelhança é tamanha que tem gente maldosa por aí que diz que esse LP merece ser guardado na estante junto com a discografia dos Stones...

O que mais impressiona ao ouvir “Beach Party” após todos esses anos é constatar que Bo Diddley conseguiu manter, a um custo altíssimo, a essência do seu blend de rock and roll e rhythm & blues viva e selvagem num momento, 1963, em que todos os artistas seminais do gênero tentavam amenizar e diluir seus trabalhos para não sofrer represálias dos setores conservadores da sociedade americana.

Afinal, esses mesmos setores já haviam crucificado artistas negros como Chuck Berry e Little Richard pelo pecado portal de terem virado ídolos da juventude branca.


É questão de ouvir, vibrar e depois tirar o chapéu para "Bo Diddley´s Beach Party". Um disco espetacular, que permanece impávido em seu mix original em mono mesmo quase 50 anos depois de ter sido gravado.

Infelizmente, foi o último grande sopro de popularidade de Bo Diddley.

Ele foi sumindo das paradas paulatinamente, enquanto a Invasão Britânica (dos Beatles, Animals, Kinks e Rolling Stones) tomava conta da cena musical americana, isso de 1964 em diante.Bo Diddley só iria conseguir ressurgir com material novo a partir do início dos anos 70, em gravações geniais feitas em Londres com aquela rapaziada de lá.

Eu assumo: faço parte dos fãs incondicionais de "Bo Diddley´s Beach Party".Nenhum outro herói da primeira geração do roll conseguiu produzir um disco ao vivo tão bom quanto esse. Nem Jerry Lee Lewis em seu espetacular "Live At The Star Club" consegue brilhar e ferver tanto quando o velho Bo.

Fico feliz de ter tido a chance de ver Bo Diddley ao vivo num Festival de Blues no Ginásio do Ibirapuera em 1990, onde desfilou todos os seus grandes sucessos de forma vigorosa para uma platéia lamentavelmente desinteressada, que estava lá apenas para ver e ouvir ícones do blues de Chicago como Koko Taylor e Magic Slim & The Teardrops.

Bem... o azar é todo deles.

Para mim, naquela noite de 1990, era 1963 novamente numa praia na Carolina do Sul, em plena Era de Ouro do Rock & Roll.


BIO-DISCOGRAFIA:
http://www.allmusic.com/artist/bo-diddley-mn0000055128

WEBSITE OFICIAL:
http://www.bodiddley.com/

AMOSTRAS GRÁTIS:

quinta-feira, maio 26, 2011

SENHORAS E SENHORES... MARIANNE FAITHFULL


“Meu pai foi um espião inglês na Segunda Guerra e nunca foi pego pelos alemães. Eu o vi pela última vez aos 6 anos de idade. Depois disso, nunca mais tive notícias dele, mudou de identidade e desapareceu pelo mundo. Dizem que meu filho é muito parecido com ele. Mesmo não tendo podido conviver muito com meu pai, torço para que tenha tido uma vida boa.”


“Viver com Mick Jagger era muito movimentado. Ele costumava dirigir um Bentley comigo ao lado e levava o fotógrafo Michael Cooper no banco de trás. Michael era uma espécie de fotógrafo da corte dos Rolling Stones. Tenho muitas fotos desses passeios. Mick e eu não éramos pessoas muito divertidas um com o outro, mas até que tivemos momentos bem legais. Foi uma parceria bastante criativa.”


“É verdade que Keith Richards e eu passamos uma noite juntos quando soubemos que Mick Jagger e Anita Pallenberg estavam tendo um romance às escondidas. Foi uma atitude de retaliação. Mais adiante, descobrimos que estávamos apaixonados e aí tivemos um romance de verdade, mas não durou muito, éramos todos muito selvagens naquela época. Eu amo muito Keith até hoje e fiquei feliz em ler na sua autobiografia as coisas carinhosas que disse a meu respeito. Somos grandes amigos.”


“Minha vida mudou completamente desde que deixei de beber e usar drogas. Felizmente meu instinto de auto-sabotagem parece estar desativado há já uns bons anos.”


“Eu consegui chegar a bons termos com meu passado turbulento. Tudo o que acontecia ao meu redor eu levava de forma pessoal, e acabava me machucando com isso. Era muito insegura. Vivia na defensiva. Hoje eu não me importo mais com nada disso. Depois de ter ficado face a face com a morte, descobri que a vida é uma dádiva.”



LPS MARIANNE FAITHFULL
Come My Way (1964)
Marianne Faithfull (1965)
Go Away From My World (1965)
North Country Maid (1966)
Faithfull Forever (1966)
Love In A Mist (1967)
Dreaming My Dreams (1969)
Faithless (1978)
Broken English (1979)
Dangerous Acquaintances (1981)
A Child´s Adventure (1983)
Summer Nights (1984)
Music For The Millions (1985)
Strange Weather (1987)
Blazing Away (1990)
A Secret Life (1995)
20th Century Blues (1997)
Weill: The Seven Deadly Sins (1998)
Vagabond Ways (1999)
Kissin' Time (2002)
Before The Poison (2005)
Easy Come Easy Go (2008)
Horses and High Heels (2011)

WEBSITE OFICIAL
http://www.mariannefaithfull.org.uk/