segunda-feira, maio 01, 2006

O dia em que a música rachou (por Ana Maria Bahiana para Digestivo Cultural)


Uma pessoa considerando uma publicação de música, hoje não um site, portal ou blog, mas um produto de banca deve pensar em alguns fatores essenciais:

* Música não existe num vácuo. Os melhores momentos para publicações do gênero vieram quando um ou vários estilos de música tinham suas velas infladas por poderosos ventos sociais, culturais e econômicos - o que hoje os marketeiros chamariam de "estilo de vida". Isso era verdadeiro para a Crawdaddy!, avózinha de todas; e é verdadeiro para a Uncut, a Vibe ou a Blender.

* Consumir música e consumir publicações que falem sobre música são duas coisas inteiramente diferentes. Já eram diferentes nos tempos da Crawdaddy!, mas hoje são radicalmente opostas.

Detenho-me aqui sobre este último elemento. A digitalização da música e a expansão da internet provocaram, na última década, uma rachadura de proporções épicas.

Em linhas gerais, já temos hoje parafraseando um dos debatedores num ótimo programa recente da série To the Point, na National Public Radio americana, uma geração inteira que não tem a menor noção de que música é um produto que se compre. Ingressos para shows, ou clubes, sim. Canções, não.

Por extensão, esta é uma geração que não consome discos ou os consome marginal e ocasionalmente. Que não se interessa por (aliás, não tem o menor interesse pelo conceito em si) coleções coerentes de canções, numa única embalagem, a noção de "álbum", essencial à maior parte da produção musical de massa pós-1965. Que não dá grande valor a autoria, griffe, identidade.

Que não tem o hábito de leitura musical das gerações anteriores e aí me refiro tanto a ler a música em si, como um "trabalho" assinado/criado por alguém com uma história pessoal e referências coletivas quanto a ler sobre a música algo que só pode interessar a quem reconhece valores intrínsecos em conceitos como "álbum", "história", "autoria" e "criador".

Muito em breve teremos duas gerações inteiras com este perfil.

Quem consome discos, hoje, tem mais de 30 anos. Não tirei isto da minha cabeça. Um estudo recente publicado nos Estados Unidos (e me perdoem por não citar os detalhes, mas estou trabalhando no meu computador-da-estrada, em cujos arquivos não está o tal texto) disse, sem meias palavras, que a tentativa da indústria do disco em correr atrás do chamado "público jovem" era uma ilusão que poderia se tornar fatal se não fosse revertida. Entre muitos exemplos e estatísticas, o estudo apontava o maior sucesso recente em vendagem de CDs: a antologia "One", dos Beatles.

Indústria de música, hoje, é uma coisa - uma coisa em formação, que exige modelos novos e, a julgar pelo estado de pânico das gravadoras, ainda longe de serem desenhados.

Mediaticamente (vocês me relevam o francesismo?) suspeito que a internet seja o veículo mais adequado a este admirável mundo novo.

Indústria de discos é outra coisa, completamente diferente.

Ao imaginar uma publicação de banca com inclinações musicais, com quem e de quem estaríamos falando?

Estatisticamente, o tempo está a favor dos coroas. A geração nascida entre 1945 e 1965, os chamados "baby boomers" é, ainda, a maior fatia demográfica do mundo. E, graças aos avanços da medicina e da higiene, vai viver muito, mas muito além de seus antepassados. Além e melhor.

A ela se somam os nascidos entre 1965 e 1975, que ainda tiveram seus anos decisivos, adolescência e juventude, marcados por coleções identificáveis de canções, assinadas e interpretadas por personalidades distintas, com referências históricas precisas, e contidas em objetos chamados "discos", produtos tão únicos e nobres que merecem ser adquiridos e pagos em moeda corrente no país.

Suspeito que quem não entender o racha da música vai, como se dizia antigamente, dançar.

Um comentário:

Wagner Parra disse...

O Racha da música.

Desde que comecei a me interessar por música, Ana Maria Bahiana foi uma das minhas principais referências. No começo dos anos 80, com Rafael Borges na sala de programação do Heavy Metal, ele com ela na linha, ela tentando convencê-lo a programar Paralamas do Sucesso, uma bandinha nova que tinha uma música que a princípio parecia "insuportável" "Vital e sua moto" que , não sei porque tocava na TV Record e chamava atenção pela "esquisitisse" prá época.Eu que naquele momento estava enfiado por inteiro no Lira Paulistana, fazia sinais com a mão para o Rafael que não deveria programar, preferia Arrigo Barnabé, Itamar Assunpção, Rumo, Paranga,Premê, Língua e outros artistas ligados ao teatro Lira que eu frequentava todos os fins de semana e distribuia seus discos aqui em Santos (assim que eu comecei meu negócio que tenho até hoje)
Ela tinha razão na época, eles, os Paralamas ,me convenceram logo em seguida, virei fã.Lamento que os artistas do Lira não alcançaram o sucesso dos Paralamas.
Só para não perder o hábito de concordar, aprender e discordar dela,tenho notado na minha loja de discos, ouvintes nascidos entre 1986 e 1990 tem demonstrado características parecidas com os "da antiga".Herdando aparelhos de som velhos, encostados pelos pais. Preferem Lps, preferem álbuns ao invés de coletâneas, não gostam do som do Mp3 e compram CD apenas por não ter a opção do Vinil, meio a contragosto.
São poucos, mas será que não teremos mais um racha da música no futuro.

Wagner Parra
disqueria@uol.com.br