quarta-feira, junho 01, 2011

BENVINDOS DE VOLTA À INVASÃO BRITÂNICA, COM SEUS ANFITRIÕES: THE KINKS E THE ZOMBIES (por Chico Marques)


A tournée mundial de Paul McCartney, que passou recentemente por São Paulo e pelo Rio de Janeiro, serviu para revelar uma faceta bastante irritante no comportamento de seus admiradores mais fervorosos.

Ao longo dessas quatro décadas que nos separam do momento fatídico em que os Beatles anunciaram que iriam pendurar as chuteiras, a beatlemania vem-se transformando pouco a pouco numa modalidade de idolatria muito semelhante ao lulismo, na medida em que, segundo seus adeptos mais fundamentalistas, ela inicia e encerra em si mesma, desprezando um fenômeno musical muito maior no qual está historicamente inserida: a British Invasion.

A British Invasion foi, na verdade, a mais eloqüente resposta dos ingleses aos americanos desde que foram postos para correr de volta ao Velho Continente durante a Revolução Americana de 1776. Obviamente, não ficou restrita aos Beatles. Junto com eles, vieram os Rolling Stones, o Who, os Yardbirds, os Small Faces, o Them, os Animals, e – entre muitos outros – os Kinks e os Zombies. Uma explosão de talentos que ajudou a mudar a cara da música popular e da Indústria Fonográfica – e que, sintomaticamente, inexistem no imaginário e nos iPods de mais de noventa por cento dos beatlemaníacos mais febris.
Cá entre nós: qualquer um que vá a um show de Paul McCartney nos dias de hoje segurando uma plaquinha com a sílaba NA -- isso quase 50 anos após a explosão da British Invasion nos Estados Unidos --, com certeza não faz a menor idéia do cataclisma que aquilo tudo causou no início dos anos 1960. Havia então uma cena musical dominada por produtores-compositores, como Burt Bacharach e Phil Spector, que moldavam os artistas que lançavam ao material e às tendências que criavam para o mercado. Tanto que, para conseguir ter acesso a ele, tanto os Beatles quanto os Rolling Stones, malandramente, aportaram na América em 1964 para suas primeiras tournées jogando pelas regras dele – ou seja: apresentando repertórios de covers com sotaque britânico de composições americanas bem conhecidas. Enquanto os Beatles passeavam pelo repertórios de Buddy Holly, Carl Perkins e de girl bands como as Shirelles e as Ronettes, os Stones preferiam rever sucessos de artistas de rhythm & blues como Solomon Burke, Marvin Gaye, Chuck Berry e Muddy Waters, dando a eles roupagens musicais inusitadas.

A princípio, a Indústria Fonográfica Americana não se assustou muito com a chegada dos ingleses. Acharam que seria uma moda passageira, como tantas outras. Mas, na segunda tournée dos Beatles e dos Rolling Stones pelos Estados Unidos no ano seguinte, as duplas de compositores Lennon & McCartney e Jagger & Richards já estavam devidamente estabelecidas no mercado, com vários singles nos primeiros postos das paradas. Chegava ao fim a era dos produtores-compositores e começava a era dos cantores-compositores. De uma hora para outra, toda a estrutura da produção musical estava de ponta cabeça, e nada mais foi como era antes.
Claro que os Beatles e os Rolling Stones tinham a vantagem de ser mais universais que as outras bandas que vieram no tsunami da British Invasion. O Who e os Small Faces, por exemplo, faziam a apologia do estilo de vida mod, um fenômeno tipicamente inglês que o resto do mundo não compreendia bem. Os Animals e o Them imprimiam no rhythm & blues deles toda a fúria e o inconformismo das classes operárias inglesas e irlandesas. Já os Zombies se pautavam por melodias pop envolventes que incorporavam elementos jazzísticos e música erudita, antecipando tendências que seriam melhor digeridas anos adiante, com o surgimento do rock psicodélico. E os Kinks... bem, os Kinks se divertiam muito satirizando os costumes ingleses e esculhambando com a Família Real Britânica – assuntos em princípio pouco atraentes para quem não vivia no Reino Unido.


O motivo de estarmos falando disso é que não é só Paul McCartney que continua com tudo em cima, com essa vitalidade invejável que demonstrou no Morumbi e no Engenhão. Os Rolling Stones também estão muito bem, vão sair em tournée mundial novamente no ano que vem comemorando 50 anos de carreira com direito a disco novo e tudo mais. O Who é outro que se prepara para uma tournée ano que vem – talvez com disco novo, mas, certamente, com a tão aguardada autobiografia que Pete Townshend finalmente nas vitrines das livrarias. Já os Kinks estão entrando em estúdio nos próximos meses para gravar seu primeiro LP com material inédito desde “To The Boné”, de 1994. E, para completar o quadro, os Zombies acabam de sair do estúdio, e estão lançando “Breathe Out Breathe In”, o primeiro disco de inéditas da banda desde “Odessey & Oracle”, seu épico pop de 1968.

Comecemos pelos Kinks. Logo que surgiram em 1964, emplacaram uma série de singles vitoriosos na Pye Records, como “You Really Got Me” (1965), que forneceu o aval para que a Reprise Records adquirisse a exclusividade de seus LPs e singles para lançar nos Estados Unidos. Infelizmwnte, num golpe de azar deflagrado por uma confusão até hoje mal explicada nos vistos de trabalho dos integrantes da banda em sua primeira tournée americana, os Kinks ficaram impedidos de pisar em solo americano por quatro anos. Isso afetou o desempenho de vendas dos LPs da banda na América, levando os irmãos Ray e Dave Davies a focar seu trabalho no público europeu, ainda que a contragosto. Mas mesmo sem tournées, álbuns como “The Village Green Preservation Society” e “Arthur” tiveram uma acolhida calorosa na América, e Ray Davies passou a ser visto como um gênio pop, uma espécie de Noel Coward da Era Psicodélica. Howard Kaylan e Mark Volman, do grupo californiano The Turtles, por exemplo, não sossegaram enquanto não gravaram um de seus discos em Londres, pois faziam questão que fosse produzido por Ray Davies.

Os Kinks voltaram a fazer tournées pelos Estados Unidos só em 1970, a reboque do sucesso internacional de “Lola” -- sobre um inglês insuspeito que se sente muito melhor vestido como mulher, mais ou menos como o cartunista Laerte --, e finalmente emplacaram nos primeiros postos das paradas de lá. Viraram fregueses, e passaram a voltar por lá todo ano, enquanto seguiam pelos anos 1970 produzindo LPs conceituais sempre muito bem humorados para a RCA, e depois, já na Era Punk, apostando em projetos mais urgentes e pesados para a Arista Records. Foram apagando aos poucos ao longo dos anos 1980, até decidirem encerrar atividades como banda em 1996. Mas Ray Davies continuou em frente. Dirigiu e escreveu para o cinema, casou-se com Chryssie Hynde e ajudou o produtor musical Bill Flanagan a esboçar a série de TV “VH1 Storytellers”, sendo o primeiro a se apresentar por lá. Recentemente, lançou dois LPs solo muito festejados com material inédito de primeira, mantendo seu prestígio criativo intacto.




Enquanto prepara novas novas canções para o tão aguardado LP de retorno dos Kinks, Ray Davies dedicou-se a dois projetos de ocasião extremamente simpáticos, onde recicla com muita dignidade o velho repertório dos Kinks. O primeiro deles é espetacular: “The Kinks Choral Collection”, onde regrava clássicos da banda com coral, banda e uma orquestra de câmara. Já o segundo projeto pretende ser, antes de mais nada, simpático e divertiodo: “See My Friends” também resgata o repertório clássico nos Kinks, mas em outro contexto -- vem repleto de duetos com amigos como Bruce Springsteen, Jackson Browne, Alex Chilton, Billy Corgan, Lucinda Williams e vários outros. Esses dois songbooks dos Kinks servem como introduções ao trabalho brilhante de uma banda que demorou a cair no gosto do grande público porque nunca facilitou as coisas além do limite do artisticamente aceitável.


Quanto aos Zombies, dizer que a música deles sempre esteve muito além do seu tempo equivale a chover no molhado. Quando o grupo surgiu num subúrbio londrino em 1961, não havia nada remotamente semelhante a eles em toda a Inglaterra. O piano e o órgão Hammond B-3 bem jazzísticos de Rod Argent pareciam ter sido feitos sob medida para emoldurar a voz delicada e cristalina de Colin Blunstone. E a alquimia resultante disso gerou logo de cara singles curiosos como “She´s Not There” e “Tell Her No” – que, por mais estranhos que fossem para a época, conseguiram pegar carona na British Invasion e acabaram emplacando nas paradas americanas, mesmo tendo passado quase despercebidos nas paradas inglesas. A maldição dos Zombies é que eles não conseguiam ser uma banda de singles. Eram arrojados demais para o hit parade britânico. Deram o azar de surgir numa época em que havia a obrigação de emplacar singles nas paradas para poder realizar um LP.

Depois de uma série de singles que infelizmente não emplacaram nas paradas, os Zombies foram descartados pela Decca Records. gravadora. Rod Argent e Colin Blunstone, desanimados, reuniram os membros da banda e decidiram que gravariam só mais um LP. Assinaram um contrato bem xinfrim com a Columbia, que repassou para eles uma verba quase ridícula, que os impedia até de contratar músicos adicionais para o projeto -- tanto que Argent teve que emular os arranjos da orquestra num mellotron, algo inédito na época. O descaso da Columbia para com eles era tamanho que ninguém se preocupou em enviar alguém para supervisionar o trabalho dos rapazes. Resultado: sem qualquer compromisso em emplacar um LP de sucesso, os Zombies produziram “Odessey & Oracle” (1967), uma pequena obra prima pop psicodélica, que acabou lançada sem publicidade na Inglaterra e por pouco não teve uma edição americana. Se Al Kooper, fã de banda e também contratado da Columbia, insistindo tanto, "Odessey & Oracle" nunca teria cruzado o Atlântico.


Então, o inusitado ACONTECE: quase dois anos após o lançamento do LP, com todos os membros da banda já trabalhando em outros projetos, alguém na Columbia americana decide lançar “Time Of The Season”, uma das canções de “Odessey & Oracle”, no formato single, e a música explode misteriosamente nas paradas do mundo todo. A saia justa dos integrantes dos Zombies foi terrível, pois nenhuma dos integrantes originais dos Zombies pretendia voltar atrás na decisão de aposentar a banda. Rod Argent já tinha montado o Argent, banda progressiva de muito sucesso nos anos 70, e Colin Blunstone estava gravando seu primeiro disco solo. Pela primeira vez na história da música popular, uma banda chegava ao seu apogeu dois anos depois de ter saído de cena.

Nos anos 1980 e 1990, Rod Argent e Colin Blunstone voltaram a contracenar em diversas ocasiões. Argent firmou-se como produtor de sucesso, ajudando a viabilizar as carreiras de vários artistas ascendentes, como Tanita Tikaram e Jules Shear, enquanto Blunstone seguiu com LPs solo sempre muito bem recebidos por crítica e público. Até que, em 2000, inventaram de gravar um disco juntos. E esse disco fluiu tão bem que os dois, saudosos dos velhos tempos, decidiram ressucitar os Zombies para uma pequena tournée de 6 datas. Que acabou durando mais de 10 anos, num sinal claro de que a velha sintonia entre os dois velhos parceiros permanecera inabalada depois de tantos anos.


Só agora Rod Argent e Colin Blunstone tomaram coragem para lançar um LP repleto de canções inéditas. “Breathe Out, Breath In” é impecável, composto inteiramente de canções deliciosas que eles andaram testando ao vivo nos shows. Não pretende em momento algum atualizar a sonoridade dos Zombies e muito menos recomeçar de onde “Odessey & Oracle” parou. Na verdade, funciona como um registro de como Argent e Blumstone pensam e agem musicalmente nos dias de hoje. “Breathe Out, Breath In” traz baladas pop lindíssimas, como a homenagem aos Beach Boys “Shine On Sunshine” e a barroca “Let It Go”, àmoda do Procol Harum. Que se contrapõem a números mais suingados como “Play It For Real” e “Any Other Way”, além da faixa título, simplesmente magnífica. Não é nenhum exagero afirmar que desde “Before We Were So Rudely Interrupted” (1977), dos Animals, não se via um LP de retorno de uma banda clássica tão honesto e íntegro quanto este. “Breathe Out, Breath In” é tudo isso, podem ter certeza. Isso para não dizer que é um prazer ver uma banda tão vital quanto os Zombies – que influenciou bandas seminais como The Doors e Steely Dan – voltando à cena com tamanha leveza e galhardia.


Diante de toda a vitalidade e criatividade demonstrada nesses novos trabalhos desses veteranos da cena inglesa dos anos 1960, é totalmente inaceitável que a beatlemania queira agora se afirmar através dos fan-clubs como um fenômeno isolado e desconectado dos diversos outros fenômenos artísticos da British Invasion.

Verdade seja dita: bandas como os Zombies e os Kinks só não tiveram o mesmo apelo de público dos Beatles porque uma série de circunstâncias adversas não permitiram.

Queiram ou não, gostem ou não, os Beatles pertencem a um contexto histórico e artístico muito bem definido, histórica e artisticamente. E nunca estiveram sozinhos. Sempre estiveram em ótima companhia.

Querer negar isso é tão inócuo e tão ridículo quanto ir a um show de Paul McCartney segurando uma placa com a sílaba NA para participar de uma coreografia idiota para “Hey Jude” digna de um desenho do Gasparzinho. Pronto, falei.





HIGHLIGHTS - Ray Davies
The Kinks Choral Collection - See My Friends






HIGHLIGHTS - The Zombies
Breathe Out, Breathe In




2 comentários:

Anônimo disse...

paul mac cartney é um roberto carlos de plantao so que melhor mas é chato tambem nao faz uma musica boa desde 1976 a ultima foi silling love song silling deve escrever de outro jeito
os stones tambem ta ruim de achar musica nova boa, dificil fazer musica guiando bentley ou aston martin e sem drogas e sem comer a mulher dos amigos ja que todo mundo parou e as mulheres ficaram velhas tambem

Chico Marques disse...

É, meu caro anônimo, você está coberto de razão em algumas de suas colocações. Mas para tudo isso existe explicação e, consequentemente, perdão. O que não dá para engolir é a atitude cretina dessa legião de fãs tardios dos Beatles com essa babaquice de Na Na Na Na Na Na Na usando plaquinhas semelhantes às dos game-shows que o Sílvio Santos "cria" sempre que viaja para Miami. Definitivamente, rock and roll NÃO é isso.