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sexta-feira, setembro 29, 2017

DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE OS NOVOS DISCOS SOLO DE RAY DAVIES E DAVE DAVIES, DOS KINKS.

por Chico Marques


Muita gente não consegue entender porque Ray Davies e Dave Davies, os irmãos que formavam a grande dupla de compositores e a linha de frente do grupo londrino The Kinks, não conseguem se entender mais. Se os dois sempre tiveram uma relação turbulenta, e se essa turbulência sempre serviu para alimentar a banda em termos criativos, o que foi que aconteceu? Porque a química deixou de funcionar entre eles?

Se engana quem pensa que Ray e Dave Davies estão rompidos. Não estão. Só não querem mais trabalhar juntos. Quando aposentaram a banda 1994 com o disco "To The Bone", uma espécie de "Unplugged" com seu repertório clássico, Ray chegou a comentar que eles não tinham mais o que dizer, e que não fazia sentido seguir gravando coisas simplesmente por gravar. Vindo de um artista pop que sempre se preocupou em ser relevante e fazer a diferença, acreditem: não são palavras vãs.  



Desde que começaram a trabalhar juntos em 1964, The Kinks emplacou uma sequência demolidora de singles na Pye Records, como “You Really Got Me” (1965), cujo sucesso na Europa forneceu o aval necessário para que a Reprise Records negociasse com a Pye a exclusividade de lançamento de seus LPs e singles no mercado americano.

Infelizmente, The Kinks se meteram numa confusão diplomática até hoje mal explicada, e por conta disso a banda perdeu o direito a tirar vistos de trabalho para tocar nos Estados Unidos entre 1965 e 1969, o que atrapalhou sensivelmente os esforços da Reprise em promover melhor seus discos, levando os irmãos Ray e Dave Davies a fazer tournées apenas no Continente Europeu e no Japão, onde sempre foram muito populares.

Mas eles queriam mesmo é emplacar na América. Mesmo sem tocar por lá, os discos dos Kinks vendiam bem por lá. “The Village Green Preservation Society” e “Arthur” tiveram uma acolhida calorosa no Top 40 da Billboard, e Ray Davies passou a ser visto como um uma espécie de Noel Coward da Era Psicodélica. Howard Kaylan e Mark Volman, do grupo californiano The Turtles, por exemplo, não sossegaram enquanto não gravaram um dos discos da banda em Londres, pois faziam questão que fosse produzido por Ray Davies.



Os Kinks voltaram a fazer tournées pelos Estados Unidos só em 1970, a reboque do sucesso internacional de “Lola” -- sobre um inglês insuspeito que se sente muito melhor vestido como mulher, mais ou menos como acontece com o cartunista Laerte --, e finalmente emplacaram nos primeiros postos das paradas e ganharam discos de ouros e projeção mundial através de um contrato com a RCA International. Na medida em que chegavam na América no exato momento em que os Beatles saíam de cena, não hesitaram em tirar proveito disso para ganhar espaço na imprensa.   

Viraram estrelas, passaram a viver metade no ano de cada lado do Atlântico e seguiram pelos anos 1970 produzindo LPs conceituais sempre muito bem humorados, como os festejados "Preservation Act #1 & #2", "Soup Opera" e "Schooboys In Disgrace". Em 1976, já em plena Era Punk, assinaram com a Arista Records e deixaram os projetos conceituais de lado para apostar em discos bem urgentes. A ideia era evitar ao máximo que a banda fosse estigmatizada pelos punks, que faziam campanhas declaradas contra superbandas veteranas como o Yes e o Pink Floyd.



  Foram apagando pouco a pouco ao longo dos anos 1980, com as vendas de seus discos caindo a cada novo lançamento, apesar dos shows da banda continuarem com um público excepcional.

Mas era um público com motivações nostálgicas, sem o menor interesse em qualquer coisa nova que a banda quisesse apresentar.

Então Ray chegou à conclusão que os Kinks já tinham cumprido sua missão e que encerrar as atividades da banda e partir para algo diferente eram as coisas certas a fazer.



E Ray e Dave Davies seguiram em frente.

Ray dirigiu e escreveu para o cinema, ajudou o produtor musical Bill Flanagan a esboçar a série de TV “VH1 Storytellers”, lançou dois LPs solo muito festejados com canções inéditas de primeira grandeza, e ainda achou tempo para escrever "X-Ray", sua divertidíssima "autobiografia não-autorizada", e "Americana", um livro de memórias sobre seus anos recentes vivendo na America.

Já Dave focou mais na música, montou uma banda com seu filho Russ e já gravou 15 discos solo -- 12 desde o fim dos Kinks. Seu website é uma verdadeira central musical, e distribui os audios de vários concertos de sua banda. Seu trabalho é extremamente bem divulgado em várias plataformas pela web. 

Do início de 2017 para cá, tanto Ray quando Dave surgiram com novos trabalhos solo tão bons, tão vitais, e ao mesmo tempo tão distantes um do outro, que parece não fazer o menor sentido bater na velha tecla de que eles precisam voltar a trabalhar juntos.Ainda mais ao vê-los seguindo caminhos artísticos tão diferentes.



"Americana" é o primeiro álbum de material inédito de Ray Davies em uma década, e é baseado em trechos de suas memórias, só que está longe de ser uma "sentimental journey". Pelo contrário: as canções, todas autobiográficas, falam sobre suas aventuras e desventuras do lado de cá do Atlântico. Tem momentos assustadores, como "The Invaders", que lembra a recepção hostil à banda em sua primeira visita à América em 1965. Mas na maior parte das canções o cinismo habitual de Ray Davies dá o tom, e a excelente e veterana banda The Jayhawks se encarrega das texturas musicais que oscilam entre o country rock, o pop rasgado e até um pouco de blues e jazz. As canções estão encadeadas de uma maneira extremamente envolvente, mas dá para destacar um belo dueto com Karen Grotberg em "A Place in Your Heart" e ainda "Silent Movie" sobre conversas que ele tinha com seu vizinho, o saudoso roqueiro errante Alex Chilton, quando ambos moraram em New Orleans. Que venha um "Americana II" com outras histórias pinçadas de suas memórias, pois o olhar estrangeiro de Davies para as idiossincrasias da América pode até ser generoso, mas está longe de ser carinhoso. 



Já seu irmão mais novo, o prolífico e incansável guitarrista Dave Davies, uniu forças (pela terceira vez) com seu talentoso filho Russ e juntos prepararam esse delicioso "Open Road", onde números elétricos mais climáticos convivem pacificamente com números acústicos e temas com uma levada mais ambiental. Ecos musicais dos Kinks são inevitáveis, já que Dave sempre foi o maestro da banda e seu filho foi escolado musicialmente nos "pet sounds" esboçados pelo pai. Sem contar que Dave está cantando melhor do que nunca, tocando melhor do que nunca e se divertindo um bocado fazendo o que mais gosta de fazer. Os arranjos e o
excelente trabalho de produção de Russ são nada menos que impecáveis, e sequenciam essas novas canções (que falam tanto do passado quanto do futuro) como uma espécie de disco conceitual sobre amadurecer, envelhecer e aprender a conviver com a fragilidade da vida. É sempre bom lembrar que Dave teve um AVC dose anos atrás, que por pouco não o tirou de cena em definitivo. As primeiras três canções — “Path Is Long”, “Open Road” e “I Don’t Want To Grow Up” -- já mostram claramente que Dave Davies ainda tem muito fogo para queimar.

Ou seja: mesmo separados, falando-se muito pouco e seguindo por trilhas musicais quase diametralmente opostas, os irmãos Ray e Dave Davies seguem em frente unidos por um "labour of love" que foi lapidado ao longo de mais de 50 anos de trabalho contínuo. Diante disso, só me ocorre dizer uma frase que já virou clichê:

"Long Live The Kinks"






















CHICO MARQUES
é comentarista,
produtor musical
e radialista
há mais de 30 anos,
e edita a revista cultural
LEVA UM CASAQUINHO
e o blog musical
ALTO & CLARO 



quinta-feira, junho 22, 2017

NOSSO ANIVERSARIANTE DESTA QUARTA FEIRA É O MAIS IRREVERENTE SIR DO IMPÉRIO BRITÂNICO EM TODOS OS TEMPOS.


NOSSO ANIVERSARIANTE DE HOJE,
RAYMOND DOUGLAS DAVIES,
LIDEROU AO LADO DE SEU IRMÃO
DAVID RUSSELL GORDON DAVIES
(OU SIMPLESMENTE DAVE DAVIES)
A BANDA DE ROCK INGLESA
MAIS "INGLESA" DE TODOS OS TEMPOS:
THE KINKS (1964-1996)

EM CARREIRA SOLO NOS ÚLTIMOS 21 ANOS,
RAY DAVIES PERMANECE ATIVO
E AOS 73 ANOS DE IDADE
E ACABA DE LANÇAR
UM NOVO DISCO ELOGIADÍSSIMO,
QUE COMENTAREMOS AQUI
EM ALTO&CLARO
AO LONGO DA PRÓXIMA SEMANA.

FIQUEM COM UM SHOW CLÁSSICO DOS KINKS
GRAVADO NA TOURNÉE AMERICANA DE 1979
E COM UMA DELICIOSA PERFORMANCE SOLO
EM GLASTONBURY SETE ANOS ATRÁS.

ENJOY...













segunda-feira, maio 04, 2015

RON SEXSMITH VOLTA COM UM NOVO LP DELICADO, ACOLHEDOR E INSPIRADÍSSIMO.


É muito difícil tentar entender como um artista do quilate de Ron Sexsmith permanece atrelado à cena independente.

Mais difícil ainda é conseguir explicar.

Ron é um gênio pop, mestre absoluto em criar melodias marcantes, mais ou menos do mesmo naipe de Paul McCartney, Brian Wilson e Elton John.

Canadense de Toronto, já era para ele ter-se tranformado em cidadão do mundo.

Mas, misteriosamente, ele continua sendo "o cantor e compositor canadense Ron Sexsmith" para os formadores de opinião, que insistem em não ressaltar suas inúmeras virtudes artísticas, sabe-se lá porque. 

De nada adiantou Elvis Costello espalhar aos quatro ventos, no início dos Anos 1990, que não havia melhor "tunesmith" no ramo do que Ron. 

O fato é que, aos 30 anos de carreira, Ron permanece um ilustre desconhecido perante o grande público.


Pois Ron Sexmith está de volta com mais um disco impecável -- o 14° de sua carreira.

"Carousel One", um lançamento Compass Records, traz 16 novas canções desse mestre pop, e, acredite ou não, pelo menos metade delas ficam grudadas na nossa cabeça logo após a primeira audição.

Chega a ser impressionante que Ron consiga ser tão melódico compondo da guitarra, e não no piano -- suas canções são quentes, acolhedoras, delicadas e, ao mesmo tempo, intensas e emocionalmente inteligentes.

Ron é um storyteller que consegue combinar em suas canções influências tão diversas quanto Harry Nilsson, Tim Hardin e Ray Davies, e ainda assim soar absolutamente pessoal.

Chamar seu repertório de "silly love songs", como faziam com Paul McCartney, é quase um absurdo, tamanha a densidade de suas canções. Alguns críticos andaram fazendo isso nos últimos anos. Injustamente.

Algumas dessas novas canções de Ron Sexsmith são alegres, outras melancólicas, e outras apenas reflexivas -- sem contar que "Carousel One" traz pelo menos dois rocks bem interessantes. 

O importante é que, no conjunto, essas 16 canções formam mais uma coleção de canções excepcional de Ron Sexsmith, que não vai desagradar a nenhum iniciado em sua obra e deve certamente conquistar novos aficcionados.


A produção é do especialista Jim Scott, que mantém a sonoridade de "Carousel One" despojada o suficiente para poder ressaltar todas as virtudes das canções sem recorrer a excessos nos arranjos. 

Provavelmente, ainda não será ainda dessa vez que Ron Sexsmith será descoberto pelo grande público.

Mas talvez seja melhor assim.

Ron zela por seu público, não tem mais paciência para dar murros em ponta de faca e é bem-sucedido à sua maneira.

Quem precisa mais do que isso?





quarta-feira, junho 01, 2011

BENVINDOS DE VOLTA À INVASÃO BRITÂNICA, COM SEUS ANFITRIÕES: THE KINKS E THE ZOMBIES (por Chico Marques)


A tournée mundial de Paul McCartney, que passou recentemente por São Paulo e pelo Rio de Janeiro, serviu para revelar uma faceta bastante irritante no comportamento de seus admiradores mais fervorosos.

Ao longo dessas quatro décadas que nos separam do momento fatídico em que os Beatles anunciaram que iriam pendurar as chuteiras, a beatlemania vem-se transformando pouco a pouco numa modalidade de idolatria muito semelhante ao lulismo, na medida em que, segundo seus adeptos mais fundamentalistas, ela inicia e encerra em si mesma, desprezando um fenômeno musical muito maior no qual está historicamente inserida: a British Invasion.

A British Invasion foi, na verdade, a mais eloqüente resposta dos ingleses aos americanos desde que foram postos para correr de volta ao Velho Continente durante a Revolução Americana de 1776. Obviamente, não ficou restrita aos Beatles. Junto com eles, vieram os Rolling Stones, o Who, os Yardbirds, os Small Faces, o Them, os Animals, e – entre muitos outros – os Kinks e os Zombies. Uma explosão de talentos que ajudou a mudar a cara da música popular e da Indústria Fonográfica – e que, sintomaticamente, inexistem no imaginário e nos iPods de mais de noventa por cento dos beatlemaníacos mais febris.
Cá entre nós: qualquer um que vá a um show de Paul McCartney nos dias de hoje segurando uma plaquinha com a sílaba NA -- isso quase 50 anos após a explosão da British Invasion nos Estados Unidos --, com certeza não faz a menor idéia do cataclisma que aquilo tudo causou no início dos anos 1960. Havia então uma cena musical dominada por produtores-compositores, como Burt Bacharach e Phil Spector, que moldavam os artistas que lançavam ao material e às tendências que criavam para o mercado. Tanto que, para conseguir ter acesso a ele, tanto os Beatles quanto os Rolling Stones, malandramente, aportaram na América em 1964 para suas primeiras tournées jogando pelas regras dele – ou seja: apresentando repertórios de covers com sotaque britânico de composições americanas bem conhecidas. Enquanto os Beatles passeavam pelo repertórios de Buddy Holly, Carl Perkins e de girl bands como as Shirelles e as Ronettes, os Stones preferiam rever sucessos de artistas de rhythm & blues como Solomon Burke, Marvin Gaye, Chuck Berry e Muddy Waters, dando a eles roupagens musicais inusitadas.

A princípio, a Indústria Fonográfica Americana não se assustou muito com a chegada dos ingleses. Acharam que seria uma moda passageira, como tantas outras. Mas, na segunda tournée dos Beatles e dos Rolling Stones pelos Estados Unidos no ano seguinte, as duplas de compositores Lennon & McCartney e Jagger & Richards já estavam devidamente estabelecidas no mercado, com vários singles nos primeiros postos das paradas. Chegava ao fim a era dos produtores-compositores e começava a era dos cantores-compositores. De uma hora para outra, toda a estrutura da produção musical estava de ponta cabeça, e nada mais foi como era antes.
Claro que os Beatles e os Rolling Stones tinham a vantagem de ser mais universais que as outras bandas que vieram no tsunami da British Invasion. O Who e os Small Faces, por exemplo, faziam a apologia do estilo de vida mod, um fenômeno tipicamente inglês que o resto do mundo não compreendia bem. Os Animals e o Them imprimiam no rhythm & blues deles toda a fúria e o inconformismo das classes operárias inglesas e irlandesas. Já os Zombies se pautavam por melodias pop envolventes que incorporavam elementos jazzísticos e música erudita, antecipando tendências que seriam melhor digeridas anos adiante, com o surgimento do rock psicodélico. E os Kinks... bem, os Kinks se divertiam muito satirizando os costumes ingleses e esculhambando com a Família Real Britânica – assuntos em princípio pouco atraentes para quem não vivia no Reino Unido.


O motivo de estarmos falando disso é que não é só Paul McCartney que continua com tudo em cima, com essa vitalidade invejável que demonstrou no Morumbi e no Engenhão. Os Rolling Stones também estão muito bem, vão sair em tournée mundial novamente no ano que vem comemorando 50 anos de carreira com direito a disco novo e tudo mais. O Who é outro que se prepara para uma tournée ano que vem – talvez com disco novo, mas, certamente, com a tão aguardada autobiografia que Pete Townshend finalmente nas vitrines das livrarias. Já os Kinks estão entrando em estúdio nos próximos meses para gravar seu primeiro LP com material inédito desde “To The Boné”, de 1994. E, para completar o quadro, os Zombies acabam de sair do estúdio, e estão lançando “Breathe Out Breathe In”, o primeiro disco de inéditas da banda desde “Odessey & Oracle”, seu épico pop de 1968.

Comecemos pelos Kinks. Logo que surgiram em 1964, emplacaram uma série de singles vitoriosos na Pye Records, como “You Really Got Me” (1965), que forneceu o aval para que a Reprise Records adquirisse a exclusividade de seus LPs e singles para lançar nos Estados Unidos. Infelizmwnte, num golpe de azar deflagrado por uma confusão até hoje mal explicada nos vistos de trabalho dos integrantes da banda em sua primeira tournée americana, os Kinks ficaram impedidos de pisar em solo americano por quatro anos. Isso afetou o desempenho de vendas dos LPs da banda na América, levando os irmãos Ray e Dave Davies a focar seu trabalho no público europeu, ainda que a contragosto. Mas mesmo sem tournées, álbuns como “The Village Green Preservation Society” e “Arthur” tiveram uma acolhida calorosa na América, e Ray Davies passou a ser visto como um gênio pop, uma espécie de Noel Coward da Era Psicodélica. Howard Kaylan e Mark Volman, do grupo californiano The Turtles, por exemplo, não sossegaram enquanto não gravaram um de seus discos em Londres, pois faziam questão que fosse produzido por Ray Davies.

Os Kinks voltaram a fazer tournées pelos Estados Unidos só em 1970, a reboque do sucesso internacional de “Lola” -- sobre um inglês insuspeito que se sente muito melhor vestido como mulher, mais ou menos como o cartunista Laerte --, e finalmente emplacaram nos primeiros postos das paradas de lá. Viraram fregueses, e passaram a voltar por lá todo ano, enquanto seguiam pelos anos 1970 produzindo LPs conceituais sempre muito bem humorados para a RCA, e depois, já na Era Punk, apostando em projetos mais urgentes e pesados para a Arista Records. Foram apagando aos poucos ao longo dos anos 1980, até decidirem encerrar atividades como banda em 1996. Mas Ray Davies continuou em frente. Dirigiu e escreveu para o cinema, casou-se com Chryssie Hynde e ajudou o produtor musical Bill Flanagan a esboçar a série de TV “VH1 Storytellers”, sendo o primeiro a se apresentar por lá. Recentemente, lançou dois LPs solo muito festejados com material inédito de primeira, mantendo seu prestígio criativo intacto.




Enquanto prepara novas novas canções para o tão aguardado LP de retorno dos Kinks, Ray Davies dedicou-se a dois projetos de ocasião extremamente simpáticos, onde recicla com muita dignidade o velho repertório dos Kinks. O primeiro deles é espetacular: “The Kinks Choral Collection”, onde regrava clássicos da banda com coral, banda e uma orquestra de câmara. Já o segundo projeto pretende ser, antes de mais nada, simpático e divertiodo: “See My Friends” também resgata o repertório clássico nos Kinks, mas em outro contexto -- vem repleto de duetos com amigos como Bruce Springsteen, Jackson Browne, Alex Chilton, Billy Corgan, Lucinda Williams e vários outros. Esses dois songbooks dos Kinks servem como introduções ao trabalho brilhante de uma banda que demorou a cair no gosto do grande público porque nunca facilitou as coisas além do limite do artisticamente aceitável.


Quanto aos Zombies, dizer que a música deles sempre esteve muito além do seu tempo equivale a chover no molhado. Quando o grupo surgiu num subúrbio londrino em 1961, não havia nada remotamente semelhante a eles em toda a Inglaterra. O piano e o órgão Hammond B-3 bem jazzísticos de Rod Argent pareciam ter sido feitos sob medida para emoldurar a voz delicada e cristalina de Colin Blunstone. E a alquimia resultante disso gerou logo de cara singles curiosos como “She´s Not There” e “Tell Her No” – que, por mais estranhos que fossem para a época, conseguiram pegar carona na British Invasion e acabaram emplacando nas paradas americanas, mesmo tendo passado quase despercebidos nas paradas inglesas. A maldição dos Zombies é que eles não conseguiam ser uma banda de singles. Eram arrojados demais para o hit parade britânico. Deram o azar de surgir numa época em que havia a obrigação de emplacar singles nas paradas para poder realizar um LP.

Depois de uma série de singles que infelizmente não emplacaram nas paradas, os Zombies foram descartados pela Decca Records. gravadora. Rod Argent e Colin Blunstone, desanimados, reuniram os membros da banda e decidiram que gravariam só mais um LP. Assinaram um contrato bem xinfrim com a Columbia, que repassou para eles uma verba quase ridícula, que os impedia até de contratar músicos adicionais para o projeto -- tanto que Argent teve que emular os arranjos da orquestra num mellotron, algo inédito na época. O descaso da Columbia para com eles era tamanho que ninguém se preocupou em enviar alguém para supervisionar o trabalho dos rapazes. Resultado: sem qualquer compromisso em emplacar um LP de sucesso, os Zombies produziram “Odessey & Oracle” (1967), uma pequena obra prima pop psicodélica, que acabou lançada sem publicidade na Inglaterra e por pouco não teve uma edição americana. Se Al Kooper, fã de banda e também contratado da Columbia, insistindo tanto, "Odessey & Oracle" nunca teria cruzado o Atlântico.


Então, o inusitado ACONTECE: quase dois anos após o lançamento do LP, com todos os membros da banda já trabalhando em outros projetos, alguém na Columbia americana decide lançar “Time Of The Season”, uma das canções de “Odessey & Oracle”, no formato single, e a música explode misteriosamente nas paradas do mundo todo. A saia justa dos integrantes dos Zombies foi terrível, pois nenhuma dos integrantes originais dos Zombies pretendia voltar atrás na decisão de aposentar a banda. Rod Argent já tinha montado o Argent, banda progressiva de muito sucesso nos anos 70, e Colin Blunstone estava gravando seu primeiro disco solo. Pela primeira vez na história da música popular, uma banda chegava ao seu apogeu dois anos depois de ter saído de cena.

Nos anos 1980 e 1990, Rod Argent e Colin Blunstone voltaram a contracenar em diversas ocasiões. Argent firmou-se como produtor de sucesso, ajudando a viabilizar as carreiras de vários artistas ascendentes, como Tanita Tikaram e Jules Shear, enquanto Blunstone seguiu com LPs solo sempre muito bem recebidos por crítica e público. Até que, em 2000, inventaram de gravar um disco juntos. E esse disco fluiu tão bem que os dois, saudosos dos velhos tempos, decidiram ressucitar os Zombies para uma pequena tournée de 6 datas. Que acabou durando mais de 10 anos, num sinal claro de que a velha sintonia entre os dois velhos parceiros permanecera inabalada depois de tantos anos.


Só agora Rod Argent e Colin Blunstone tomaram coragem para lançar um LP repleto de canções inéditas. “Breathe Out, Breath In” é impecável, composto inteiramente de canções deliciosas que eles andaram testando ao vivo nos shows. Não pretende em momento algum atualizar a sonoridade dos Zombies e muito menos recomeçar de onde “Odessey & Oracle” parou. Na verdade, funciona como um registro de como Argent e Blumstone pensam e agem musicalmente nos dias de hoje. “Breathe Out, Breath In” traz baladas pop lindíssimas, como a homenagem aos Beach Boys “Shine On Sunshine” e a barroca “Let It Go”, àmoda do Procol Harum. Que se contrapõem a números mais suingados como “Play It For Real” e “Any Other Way”, além da faixa título, simplesmente magnífica. Não é nenhum exagero afirmar que desde “Before We Were So Rudely Interrupted” (1977), dos Animals, não se via um LP de retorno de uma banda clássica tão honesto e íntegro quanto este. “Breathe Out, Breath In” é tudo isso, podem ter certeza. Isso para não dizer que é um prazer ver uma banda tão vital quanto os Zombies – que influenciou bandas seminais como The Doors e Steely Dan – voltando à cena com tamanha leveza e galhardia.


Diante de toda a vitalidade e criatividade demonstrada nesses novos trabalhos desses veteranos da cena inglesa dos anos 1960, é totalmente inaceitável que a beatlemania queira agora se afirmar através dos fan-clubs como um fenômeno isolado e desconectado dos diversos outros fenômenos artísticos da British Invasion.

Verdade seja dita: bandas como os Zombies e os Kinks só não tiveram o mesmo apelo de público dos Beatles porque uma série de circunstâncias adversas não permitiram.

Queiram ou não, gostem ou não, os Beatles pertencem a um contexto histórico e artístico muito bem definido, histórica e artisticamente. E nunca estiveram sozinhos. Sempre estiveram em ótima companhia.

Querer negar isso é tão inócuo e tão ridículo quanto ir a um show de Paul McCartney segurando uma placa com a sílaba NA para participar de uma coreografia idiota para “Hey Jude” digna de um desenho do Gasparzinho. Pronto, falei.





HIGHLIGHTS - Ray Davies
The Kinks Choral Collection - See My Friends






HIGHLIGHTS - The Zombies
Breathe Out, Breathe In




SENHORAS E SENHORES... THE KINKS


“Eu gosto de contar histórias. Se não gostasse, não teria virado compositor. É o que sei fazer melhor na vida.” (Ray Davies)


“Eu adoro quando gravam minhas canções e dão a elas um toque que eu não soube ou não pude dar quando as gravei frente dos Kinks. Eu fico arrepiado sempre que escuto Tom Jones cantando “Sunny Afternoon”, por exemplo. Aquilo é simplesmente estupendo.” (Ray Davies)



“É complicado gravar um LP como See My Friends. Você vira uma espécie de Buda e todo mundo envolvido no projeto quer saber como você acha que deve ser isso ou aquilo. Demora até relaxar. Mas quando isso finalmente acontece, o prazer de contracenar com grandes artistas como esses é indescritível.” (Ray Davies)


“Minha parceria com meu irmão Dave Davies sempre fluiu perfeitamente bem. É engraçado, sempre que eu vejo um filme muito bom, como esses últimos dos Irmãos Coen, eu penso: Puxa, que pena que Dave não está aqui! Quando ouço alguma coisa surpreendente, e ele não está por perto, ligo imediatamente e aviso para que ele também ouça. É assim que nós funcionamos.” (Ray Davies)


“É engraçado como minhas primeiras canções tinham letras curtas e grossas e as canções dos meus dois discos solo são extensas. Quem diria que, com a idade, o texto das minhas canções iria ficar novelístico.” (Ray Davies)


LPS THE KINKS
Kinks (1964)
Kinda Kinks (1965)
The Kink Kontroversy (1965)
Kinkdom (1965)
Kinks-Size (1965)
You Really Got Me (1965)
United Kinksdom (1966)
Face To Face (1966)
Something Else By The Kinks (1967)
Live At Kelvin Hall (1968)
The Village Green Preservation Society (1968)
Arthur (1969)
Lola Vs The Powerman & The Money-Go-Around (1970)
Muswell Hillbillies (1971)
Percy (1971)
Everybody´s In Showbiz (1972)
The Great Lost Kinks Album (1973)
Preservation Act #1 (1973)
Preservation Act #2 (1974)
A Soap Opera (1975)
Schooboys In Disgrace (1975)
Sleepwalker (1977)
Misfits (1978)
Low Budget (1979)
One For The Road (1980)
Give The People What They Want (1981)
State Of Confusion (1983)
Word Of Mouth (1984)
Think Visual (1986)
Road (1988)
UK Jive (1989)
Phobia (1993)
To The Bone (1994)

LPS RAY DAVIES SOLO
Return To Waterloo (1985)
The Storyteller (1998)
Opther People´s Lives (2006)
Working Man´s Café (2007)
The Kinks Choral Collection (2010)
See My Friends (2011)
WEBSITE OFICIAL
http://www.raydavies.info/www/main.php?content=news