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quarta-feira, setembro 12, 2012

NOVOS TRIBUTOS ORIGINAIS E INCOMUNS AO GÊNIO MUSICAL DE THELONIOUS MONK


Desde que arriscou alguns dedilhados meio estranhos ao piano quando fazia parte do quinteto de Coleman Hawkins, no final dos anos 40, Thelonious Monk sempre foi visto como um sujeito exótico e imprevisível. Que só era tolerado pelos líderes de bandas onde quem trabalhou por ser absurdamente talentoso.

Ao longo de toda a década de 1950, seu toque inusitado, que combinava elementos de stride piano tradicional com revisões estruturais radicais de muitos conceitos formais do jazz, causou estranheza aos jazzistas mais conservadores. No entanto, alguns músicos mais descolados -- como Charles Mingus, Miles Davis e o jovem John Coltrane -- logo perceberam que ele iria ajudar a virar a cena jazzística de ponta cabeça mais cedo ou mais tarde, e trataram de ficar por perto dele.

Thelonious Monk só foi virar "o Thelonious Monk" para valer no início dos anos 1960, numa série de LPs para a Columbia  produzidos por Teo Macero que fizeram dele uma estrela e uma espécie de gênio musical adorado por todos.

Suas célebres idiossincrasias, no entanto, perderam muito de seu charme quando foram diagnisticadas como desordem mental.

Então, no início dos anos 70, Monk começou a ter dificuldades em comandar sua banda. Conseguia, se muito, participar de grupos grandes de músicos muito amigos, onde se sentia mais seguro. Até que,  por volta de 1973, decidiu se aposentar, e viveu recluso até morrer, em 1982, em seu apartamento em New Jersey, com vista privilegiadíssima para sua Nova York natal.



Pois bem: 30 anos após sua morte, grupos de vários cantos do mundo e várias procedências musicais rendem homenagens a Thelonious Monk.

Recentemente, comentamos aqui o belo e inusitado LP "The Monk Project" do veteraníssimo trombonista Jimmy Owens, lançado no início deste ano.

Hoje vamos comentar rapidamente outros dois:

Um, de um trio islandês muito divertido comandado por um organista, chamado Asa Trio.

E outro, de um pianista vindo da banda de Wynton Marsalis: o craque Eric Reed.



A música do Asa Trio não parece ter limites.

Eles misturam Wayne Shorter com Fiona Apple e John Coltrane com Red Hot Chili Peppers e Jimi Hendrix sem o menor constrangimento, e funcionam como um Medeski Martin & Wood de câmara, mesclando o som encorpado do Hammond B-3 de Agnar Magnussen (devoto declarado de Jimmy Smith) com a bateria de Scott Lemore (devoto de Tony Williams) e a guitarra de Anders Thor (devoto de Jimi Hendrix).

"Asa Tro Plays The Music Of Thelonious Monk" é o primeiro disco de estúdio deles, e é supreendente. Primeiro porque é difícil imaginar um organista fazendo uso dos conceitos musicais que Monk desenvolveu ao piano, baseado principalmente em desconstrução formal e utilização dos silêncios como parte integrante de sua música..Só ouvindo mesmo para sentir o que eles fizeram com o songbook de Monk, com releituras pouco reverentes e, até por isso mesmo, extremamente respeitosas ao espírito de sua música.

O website do Asa Trio http://www.asa-trio.com/ traz de lambuja, para quem quiser conhecer melhor o grupo, dois discos ao vivo que eles não lançaram comercialmente disponíveis para download: um com repertório variado e outro dedicado a John Coltrane.



Já o pianista e band leader Eric Reed vai na contramão disso tudo em "The Baddest Monk", seu segundo songbook dedicado às composições de Monk. Apesar disso, seria leviano afirmar que seu disco é reverente a Monk, até porque Eric comete algumas ousadias no mínimo curiosas.

Nas sete composições originais de Monk que escolheu para o disco, Reed promove abordagens muito pessoais, que às vezes se assemelham um pouco às de Monk pelo uso eventual de técnicas de stride piano, mas que quase sempre remetem a pianistas alunos de Monk, como McCoy Tyner e Herbie Hancock, que o influenciaram de forma mais intensa.

O disco, no entanto, traz dois números compostos em homenagem a Monk: "Monk Buerre Rouge" e "The Baddest Monk", ambos de autoria de Reed. Neles, para surpresa geral, sua banda soa quase exatamente como a de Monk. ,

E, com isso a homenagem ao grande mestre ganha um contorno extremamente diferente, nada sisudo, nitidamente bem humorado.








São discos muito simpáticos e nada óbvios.

Que reverenciam, cada um à sua maneira, a memória e o gênio musical de Thelonious Monk.

E que servem como termômetro para que possamos avaliar melhor qual foi exatamente o legado musical desse grande mestre, trinta anos depois de sua morte, e quarenta anos depois dele ter-se aposentado em definitivo.

Não há muito o que dizer depois de tudo isso, a não ser:

Vida Longa a Thelonious Monk!


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sexta-feira, abril 20, 2012

O GUITARRISTA ANTHONY WILSON VIRA UM JAZZISTA BRASILIANISTA EM "CAMPO BELO"!


Anthony Wilson é filho de peixe. Peixe grande. Seu pai é Gerald Wilson, grande pianista, arranjador e compositor da cena jazzística de Los Angeles, Califórnia.

Anthony não quis ser pianista como ele. Optou por tocar guitarra, e se escolou seguindo os passos de Wes Montgomery, Grant Green e Kenny Burrell. Mas estudou composição e arranjos, e, quando pensa como arranjador, seus heróis musicais passam a ser Duke Ellington, Gil Evans, Marty Paich, etc.

Hoje, aos 44 anos de idade, Anthony Wilson já é um veterano. Tocou com praticamente todo mundo da cena da Califórnia. Tem mais horas de vôo como músico de estúdio do que a maioria de seus companheiros de geração.

Começou a gravar como artista solo em 1997, e de lá para cá já lançou oito discos, sempre usando o bebop como ponto de partida para alcançar as mais diversas manifestações musicais -- tem inclusive um em duo com o violonista brasileiro Chico Pinheiro..

(sem esquecer que, paralelamente à sua carreira solo, ele integra a banda regular da loiraça belzebu Diana Krall, onde trabalha sempre num registro bem cool jazz)


Pois bem, Anthony Wilson lançou seu nono disco solo no finalzinho do ano passado, e surpreendeu a todos com uma virada musical bastante radical -- mas extremamente bem vinda.

Seu nome é “Campo Belo”, e foi gravado em São Paulo com um trio de músicos de jazz brasileiros de primeira: André Mehmari no piano e no acordeon, Guto Wirtti no contrabaixo e Edu Ribeiro na bateria.

Quase todas as canções do disco possuem títulos em português e, à primeira audição, até lembram certas investidas na nossa música promovidas não muito tempo atrás por forasteiros esforçados como Pat Metheny e Bill Frisell.

Mas o mergulho de Anthony Wilson vai bem mais fundo.

Tem mais a ver com aquela série de discos espetaculares que Egberto Gismonti gravou para o selo ECM, de “Sol Do Meio Dia” para cá. E, em outros momentos, segue numa sintonia semelhante à da viagem musical de John McLaughlin por Minas Gerais no seu LP clássico “Belo Horizonte”.

“Campo Belo” possui um único número de hard-bop, “After The Flood”, em que seu time de músicos brasileiros faz o movimento contrário do resto do disco e cai no jazz rasgado em grande estilo, e com muita maestria.

Portanto, se enganou quem acha que Anthony Wilson é apenas aquele guitarrista de cool jazz pacato e careteiro que está sempre de smoking ao lado do piano da Sra. Elvis Costello. Ele já é uma das forças musicais mais intensas da atual cena jazzística americana, e uma grande promessa para um futuro próximo.

O único problema é que, com discos como “Campo Belo”, ele está correndo o sério risco de ser festejado primeiro aqui, e depois lá.


INFO:
 http://www.allmusic.com/artist/anthony-wilson-p215551/biography

DISCOGRAFIA:
 http://www.allmusic.com/artist/anthony-wilson-p215551/discography

WEBSITE OFICIAL: 
http://www.anthonywilsonmusic.com/

AMOSTRAS GRÁTIS: