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terça-feira, outubro 02, 2012

DIANA KRALL VOLTA À ALVORADA DO GREAT AMERICAN SONGBOOK EM SEU NOVO LP


Ninguém pode acusar Diana Krall de ser uma artista previsível.

Em vinte gloriosos anos de carreira, essa loura canadense estonteante (em todos os sentidos) já se revelou uma excelente pianista de jazz, e também se afirmou como uma cantora envolvente e versátil a ponto de conseguir cativar as mais sisudas platéias de jazzófilos.

Claro que, ao longo de todo esse tempo, nem tudo foram flores.

Nossa loura deu, sempre que pode, algumas puladas de cerca artísticas que, se por um lado lhe renderam alguns arranhões com setores mais ortodoxos da crítica, por outro lado foram deliciosamente aventurescas e divertidas.

Uma atitude positiva, bem na medida certa para quebrar com a obviedade que parecia estar reservada para sua carreira.


Pois bem: Diana Krall é não só surpreendente, mas também imensamente vaidosa.

Adora incorporar musas da canção de outras épocas

Se divertiu muito posando de Julie London no LP 'The Look Of Love" (2001).

Ficou muito à vontade brincando de Astrud Gilberto em "Quiet Nights", lançado no ano passado.

Até se deu ao luxo de cometer "The Girl In The Other Room", um belo disco de jazz com repertório contemporâneo de gente como Joni Mitchell, mesclado com 6 canções próprias inspiradas em Joni e compostas em parceria com o maridão Elvis Costello, com quem vive há quase 10 anos.

Diana topa qualquer parada para não cair prisioneira do formato que a consagrou em seu início de carreira.

Não que ela não goste de comandar um quarteto de jazz. Gosta, e muito. Mas não esconde de ninguém que almeja um público muito maior.



Seu novo LP, "Glad Rag Doll", é mais um ítem ousado em sua discografia.

Produzido por T-Bone Burnett a partir de um repertório de 35 canções meio obscuras dos anos 20, 30 e 40, que ela conhecia dos discos 78 rotações da coleção pessoal de seu pai, foi gravado utilizando pela primeiríssima vez um piano honky-tonk de armário, ao invés dos Steinways habituais.

Sua banda é composta por colaboradores contumazes de Burnett, como o multiinstrumentista Marc Ribot, o baterista Jay Bellerose e o baixista Dennis Crouch, mesclando sonoridades de ragtime com boogie woogie e, pasmem, até rock and roll.

Nossa loura certamente ficou impressionada com a multiplicidade musical dos últimos discos de seu marido produzidos por T-Bone, e quis tentar uma experiência semelhante, mesclando tradição e modernidade e subvertendo alguns padrões de mercado que devem irritar muito artistas criativos e desalinhados como ela.

Todas as canções de "Glad Rag Doll" são ótimas. Ela está cada vez mais arrojada como intérprete. A faixa título, por exemplo, apresentada em duas versões diametralmente diferentes, dá o tom exato dessas suas qualificações.

Isso para não mencionar as gravações soberbas e muito originais que ela fez para dois clássicos dos anos 50: "I'm A Little Mixed Up" -- um número de rock and roll rasgado -- e "Lonely Avenue" -- composta por Doc Pomus para seu amigo Ray Charles, aqui num arranjo todo climático e levemente atonal.


Verdade seja dita: Diana Krall está mais arrebatadora do que nunca na capa de "Rag Baby Doll".

Como ela consegue, aos 48 anos de idade -- que ela completa no dia 18 de Novembro --, isso só ela sabe.

Nossa loura abusa de seus atributos físicos na capa do disco, vestida como uma honky tonk girl dos tempos do ragtime e do vaudeville -- se bem que com alguns detalhes em couro liso que indicam uma atitude um pouco mais barra pesada,

Em outras palavras: Diana Krall continua uma artista e uma mulher fascinantes -- dois conceitos que não costumam ser complementares, mas que nossa lora sabe mesclar numa mesma persona artística como poucas outras divas da canção americana conseguiram.

"Glad Rag Doll" é, indiscutivelmente, desde seu conceito até o resultado final, um grande disco.

Traz Diana Krall bem do jeito que o diabo gosta -- e nós aqui também.



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sexta-feira, abril 20, 2012

O GUITARRISTA ANTHONY WILSON VIRA UM JAZZISTA BRASILIANISTA EM "CAMPO BELO"!


Anthony Wilson é filho de peixe. Peixe grande. Seu pai é Gerald Wilson, grande pianista, arranjador e compositor da cena jazzística de Los Angeles, Califórnia.

Anthony não quis ser pianista como ele. Optou por tocar guitarra, e se escolou seguindo os passos de Wes Montgomery, Grant Green e Kenny Burrell. Mas estudou composição e arranjos, e, quando pensa como arranjador, seus heróis musicais passam a ser Duke Ellington, Gil Evans, Marty Paich, etc.

Hoje, aos 44 anos de idade, Anthony Wilson já é um veterano. Tocou com praticamente todo mundo da cena da Califórnia. Tem mais horas de vôo como músico de estúdio do que a maioria de seus companheiros de geração.

Começou a gravar como artista solo em 1997, e de lá para cá já lançou oito discos, sempre usando o bebop como ponto de partida para alcançar as mais diversas manifestações musicais -- tem inclusive um em duo com o violonista brasileiro Chico Pinheiro..

(sem esquecer que, paralelamente à sua carreira solo, ele integra a banda regular da loiraça belzebu Diana Krall, onde trabalha sempre num registro bem cool jazz)


Pois bem, Anthony Wilson lançou seu nono disco solo no finalzinho do ano passado, e surpreendeu a todos com uma virada musical bastante radical -- mas extremamente bem vinda.

Seu nome é “Campo Belo”, e foi gravado em São Paulo com um trio de músicos de jazz brasileiros de primeira: André Mehmari no piano e no acordeon, Guto Wirtti no contrabaixo e Edu Ribeiro na bateria.

Quase todas as canções do disco possuem títulos em português e, à primeira audição, até lembram certas investidas na nossa música promovidas não muito tempo atrás por forasteiros esforçados como Pat Metheny e Bill Frisell.

Mas o mergulho de Anthony Wilson vai bem mais fundo.

Tem mais a ver com aquela série de discos espetaculares que Egberto Gismonti gravou para o selo ECM, de “Sol Do Meio Dia” para cá. E, em outros momentos, segue numa sintonia semelhante à da viagem musical de John McLaughlin por Minas Gerais no seu LP clássico “Belo Horizonte”.

“Campo Belo” possui um único número de hard-bop, “After The Flood”, em que seu time de músicos brasileiros faz o movimento contrário do resto do disco e cai no jazz rasgado em grande estilo, e com muita maestria.

Portanto, se enganou quem acha que Anthony Wilson é apenas aquele guitarrista de cool jazz pacato e careteiro que está sempre de smoking ao lado do piano da Sra. Elvis Costello. Ele já é uma das forças musicais mais intensas da atual cena jazzística americana, e uma grande promessa para um futuro próximo.

O único problema é que, com discos como “Campo Belo”, ele está correndo o sério risco de ser festejado primeiro aqui, e depois lá.


INFO:
 http://www.allmusic.com/artist/anthony-wilson-p215551/biography

DISCOGRAFIA:
 http://www.allmusic.com/artist/anthony-wilson-p215551/discography

WEBSITE OFICIAL: 
http://www.anthonywilsonmusic.com/

AMOSTRAS GRÁTIS: