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domingo, janeiro 02, 2022

(06JAN2022) SAUDAMOS A MARAVILHOSA (E SAUDOSA) ANIVERSARIANTE DO DIA: SANDY DENNY

 





Chico Marques é um iconoclasta
desde a mais tenra idade.
Nascido em Santos em 1960,
estudou Literatura Inglesa
na Universidade de Brasília,
atuou como publicitário
e foi produtor musical
em emissoras de rádio e TV.
Vive na Polinésia Francesa,
onde trabalha como editor
de THE BORA BORA REVIEW
e de ALTO&CLARO.

segunda-feira, agosto 03, 2015

RICHARD THOMPSON MERGULHA FUNDO NO LADO ESCURO DA ALMA, E CONTA O QUE VIU

por Chico Marques


Richard Thompson é um artista que dispensa apresentações em qualquer canto do mundo -- menos aqui no Brasil, onde nunca teve um disco sequer lançado. 

Membro fundador do seminal grupo de folk-rock britânico Fairport Convention, Mr. Thompson desenvolve há 46 anos um trabalho que desafia convenções e rótulos, mesclando em sua guitarra toques de jazz e de música erudita com influências de rock, blues, folk e música oriental.

Nunca deixou de ser um “cult artist”, até porque nunca aceitou se "adequar" aos requisitos do mercado. Bem que tentaram promovê-lo perante um público mais amplo no final dos Anos 80, mas não funcionou direito. O caso é que Mr. Thompson já tinha um público cativo extenso a essa altura do campeonato. Sua integridade artística e sua liberdade criativa sempre foram fatores inegociáveis. Estava satisfeito com o que havia conquistado, e não fazia sentido o menor abrir mão disso.   

Graças a essa teimosia, Mr. Thompson produziu alguns dos discos mais festejados pela crítica nos últimos 46 anos, como “I Want To See The Bright Lights Tonight” (1974) e “Shoot Out The Lights” (1982), ambos com sua ex-mulher Linda Thompson –, ou os trabalhos solo "Hand Of Kindness" (1983), "Across A Crowded Room" (1985) e "Daring Adventures" (1986), todos dignos de figurar em qualquer antologia de melhores LPs desse período.

Aos 66 anos de idade -- época da vida em que a maioria dos artistas prefere trabalhar tranquilamente dentro de Zonas de Conforto artísticas, dispensado desafios -- Richard Thompson mergulha em mais uma "daring adventure", gravando seu novo disco em Chicago, no The Loft Studio do grupo Wilco -- com Jeff Tweedy, guitarrista do Wilco, como produtor e parceiro musical.


Para surpresa geral, "Still", seu novo disco (um lançamento Fantasy), não é um trabalho alegre e festivo. O encontro entre ele e Jeff Tweedy acabou resultando num disco reflexivo, onde temas como repressão, emoções contidas e vidas sem rumo dão o tom. Não são temas novos no universo thompsoniano -- muito pelo contrário, são temas recorrentes até demais. Mas, cá entre nós, algumas das histórias que ele conta nessas novas canções são de arrepiar.

O disco abre com “She Never Could Resist A Winding Road”, que tenta vender a idéia de que chegou a hora de se aventurar menos na vida e buscar um pouco de paz e tranquilidade. Logo a seguir, "Beatnick Walking" relata uma aventura nada moderada pela Holanda no início dos Anos 70. Dá a entender que de lá para cá ele sossegou. e que finalmente deixou de lado o "look back in anger" dos tempos de juventude. Mas é ilusório. O que vem a seguir segue justamente na contramão disso tudo, com medos e desejos se contrapondo de forma incessante, e razão e instinto dando as cartas ao mesmo tempo.

É um disco surpreendente em termos musicais. A guitarra de Mr. Thompson sempre foi pródiga em pontuar com intervenções dramáticas algumas de suas canções mais assustadoras, e sua banda composta basicamente pelo baixista Taras Prodaniuk e pelo baterista Micheal Jerome é precisa e inusitada. O que esse time conseguiu realizar em "Still" com certeza deve ter deixado o produtor Jeff Tweedy arrepiado. No bom sentido, é claro.

Os personagens das canções de Richard Thompson sempre podem ser anjos ou monstros, dependendo do momento. Um exemplo perfeito disso é a assustadora “Dungeons For Eyes“, que mostra um assassino que vira um político, e que banaliza o mal em seu dia a dia. Não é a única canção contundente do disco. Existem outras. Todas implacáveis.  

"Still" encerra com um número chamado “Guitar Heroes”, onde Richard Thompson viaja ao passado e reencontra a si próprio menino, apaixonado por sua guitarra e encantado ao descobrir os guitarristas que seriam vitais em sua formação musical: Django Reinhardt, Les Paul, Chuck Berry, James Burton, Scotty Moore e The Shadows. Seu perfeccionismo obsessivo está claro nos versos: 

“Well I played and played until my fingers bled,
 I shut out all the voices but the voice in my head, now I stand on the stage and I do my stuff,
 and maybe it’s good but it’s never good enough.”


Richard Thompson nunca teve medo de puxar os temas de suas canções para o lado confessional. 

E nunca se importou em incluir canções doloridas de seu repertório de anos passados nos set-lists de seus shows atuais. 

Sempre mergulhou de cabeça tanto no lado brilhanteo quanto no lado escuro de sua mente. Poeta de mão cheia, nunca hesita em deixar seus ouvintes constrangidos com toda a sua franqueza existencial. 

E continua fazendo tudo isso com uma maestria artística única neste belo e estranho "Still".



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quarta-feira, novembro 05, 2014

NATALIE MERCHANT RETOMA SUA CARREIRA COMO CANTORA-COMPOSITORA NUM BELO LP


Já se vão quase 20 anos desde que a adorável cantora e compositora de origem amish Natalie Merchant deixou o grupo Ten Thousand Maniacs para seguir uma carreira solo extremamente promissora.

Sua sensualidade frágil e a maneira delicada e às vezes enigmática com que se expunha em suas canções haviam se transformado na marca registrada da banda, que enfrentou sérias dificuldades ao tentar seguir em frente sem ela.

E lá foi Natalie, em busca de sua carreira solo.

Seu primeiro disco solo, "Tigerlily" (1995), era simplesmente perfeito, melhor que qualquer coisa que ela tivesse realizado antes.

Seu segundo disco, "Ophelia" (1998), deu sequência dentro do mesmo padrão de excelência do disco anterior.

E então, "Motherland" (2001) fechou uma trinca de álbuns magníficos, que colocavam Natalie não só como uma grande cantora-compositora, mas talvez como a maior expressão pop feminina de toda a sua geração.

(algo que o produtor Peter Asher, responsável pelos melhores LPs do Ten Thousand Maniacs, já havia previsto muitos anos atrás)



Bom, o caso é que depois desses 3 discos de primeira grandeza artística e de grande apelo popular, Natalie estranhamente se negou a renovar seu contrato com a Elektra Records.

Para surpresa geral, interrompeu o rumo vitorioso de sua carreira e decidiu que dalí para a frente partiria para projetos mais descompromissados, e trabalharia apenas com selos independentes.

O primeiro projeto foi um álbum duplo só com canções folclõricas reinterpretadas por ela.

E o segundo projeto, um disco com canções para crianças.

Só agora Natalie Merchant retoma o que havia interrompido em "Motherland".

"Natalie Merchant", lançado em Agosto deste ano, é sua primeira coleção de novas canções em 13 anos, e valeu a espera.

São 10 canções estranhamente intercaladas, todas de uma densidade emocional comovente, e todas bem diferentes das que ela costumava compor antes.

Se 30 anos atrás, aos vinte anos de idade, Natalie se esforçava para soar madura nas reflexões que permeavam suas letras para as canções do Ten Thousand Maniacs, agora, aos cinquenta, ela sai em busca de uma leveza quase impossível em meio a um oceano de melancolia.

E encontra essa leveza de forma catártica e -- porque não dizer? -- quase mágica..

Aqui, canções relativamente despachadas como "Giving Up Everything", "Black Sheep" e "It's A-Coming" contracenam como canções com um registro mais soturno, como  as canções finais: "Lulu" e "The End".

O que emerge disso tudo é a mesma excelência musical de seus três primeiros álbuns solo, com um novo olhar bastante diferenciado.

Banda impecável, arranjos nada ostensivos, produção precisa: tudo conspira a favor de um resultado final altamente positivo para essa bela e intensa empreitada musical.

"Natalie Merchant" é uma retomada cativante do imaginário dessa artista adorável que, aos 51 anos de idade, conseguiu alcançar um status artístico tão alto quanto o de heroína musical e maior influência: a saudosa cantora Sandy Denny, do grupo inglês Fairport Convention.

Prepare-se para ouvir um disco maduro, denso e cativante.

De uma artista idem.





WEBSITE OFICIAL
http://www.nataliemerchant.com/

DISCOGRAFIA
http://www.allmusic.com/artist/natalie-merchant-mn0000372322/discography

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