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sábado, junho 10, 2017

SE TIVÉSSEMOS UM MONTE RUSHMORE, ESSE BAIANO QUE FAZ 86 ANOS NESTE SÁBADO MERECERIA ESTAR LÁ, ESCULPIDO EM PEDRA, TAMANHA A SUA IMPORTÂNCIA.


SAUDAMOS O ANIVERSÁRIO DE 86 ANOS
DO MAGISTRAL JOÃO GILBERTO
TRAZENDO UM CONCERTO CLÁSSICO
GRAVADO NO TEATRO CASTRO ALVES
EM SALVADOR HÁ QUASE 40 ANOS,
INCLUINDO A PASSAGEM DE SOM,
LOGO DEPOIS DELE TER GRAVADO
SEU LP CLÁSSICO "AMOROSO"

FIQUEM COM AS PALAVRAS
DE JASPER AMARILHA
SOBRE ESSE BAIANO GENIAL:

João Gilberto tem domínio absoluto sobre o violão. Seus acordes são precisos, completos, perfeitos, fruto de estudos harmônicos que consomem horas de dedicação. É simplesmente um gênio da música brasileira. Antes dele, a harmonia do samba era simplória e limitada a poucos acordes. Ele simplesmente inverteu o samba. Criou um intervalo no samba que não existia, ampliou o leque de dissonantes, sétimas e diminutas. Feito isto, inventou um jeito simples e econômico de emitir a voz, sem aquele vozeirão derramado dos cantores da velha guarda. Quando gravou as músicas de Tom Jobim, o mundo percebeu que algo inovador surgia no samba. A batida desse baiano era algo revolucionário, único e nunca visto antes. Não só Tom Jobim, mas João Gilberto renovou os acordes criados pelos compositores da década de 40 e 50, com uma introdução harmônica sem precedentes na música brasileira. Nascia aí, a Bossa Nova que nada mais era do que a modernização do samba na época. João Gilberto sempre foi o mesmo. De personalidade marcante, exigente ao extremo, prima a qualidade do seu repertório, do som produzido em seus shows e da elaboração de seus discos. Ninguém toca o violão como ele. A cada apresentação, ele mostra um acorde diferente de uma mesma música. Além de versátil, tem uma legião de músicos de renome nacional internacional que o elegeram como o criador dessa nova vertente do samba conhecida como Bossa Nova. Depois dele, a música brasileira nunca mais foi a mesma. Que digam Diana Krall, Gal Costa, Leila Pinheiro, Os Cariocas, Leny Andrade, Stan Getz, João Donato, Nara Leão, Carlos Lyra, Roberto Menescal, John Pizzarelli, e tantos outros.


 


sexta-feira, outubro 31, 2014

BEN HARPER SURPREENDE E RETORNA AO ÚTERO MATERNO EM "CHILDHOOD HOME"


Ben Harper é um dos artistas mais ecléticos da cena musical anglo-americana.

Aos 44 anos de idade, já velho conhecido do público brasileiro, ele é um dos artistas mais intensos da cena musical americana e um compositor de talento raro, que a cada nova investida se revela ainda mais interessante.

Possui uma carreira extremamente sólida, tanto em termos artísticos quanto em vendagens, e pode se dar ao luxo de experimentar o que quiser que seu público endossa e prestigia.



Só isso pode explicar a virada radical que ele promoveu nesse "Childhood Home", um lindo disco country em parceria com ninguém menos que sua mãe, a cantora e musicista Ellen Harper.

Depois de trafegar pelo rock, pelo blues, e também pela soul music e por ritmos caribenhos, Ben decidiu resgatar a pureza country absoluta dos discos clássicos do saudoso cantor-compositor Gram Parsons nos delicados discos em dueto que gravou com Emmylou Harris entre 1972 e 1973, pouco antes de morrer.

E não é que Ben conseguiu? Sua voz casa perfeitamente com a de sua mãe, com quem alterna a primeira e a segunda voz em canções etéreas que irão surpreender até o purista country mais linha dura.

É um disco emocionante, atemporal, repleto de canções originais que, de tão familiares, parecem clássicos do gênero -- mas, surpreendentemente, não são.




Quem ainda hoje insiste em duvidar da grandeza artística de Ben Harper, precisa ouvir esse disco com urgência.

Tem que ser do primeiríssimo time para conseguir produzir algo dessa grandeza -- ainda mais depois de sua incursão vitoriosa pelo blues no disco que gravou com o gaitista Charlie Musselwhite no ano passado.

Guardadas as devidas proporções, Ben e Ellen Harper fazem com a country music o mesmo que João Gilberto faz com o samba.

Convenhamos: não é pouca coisa.
WEBSITE OFICIAL
http://www.benharper.com/

DISCOGRAFIA
http://www.allmusic.com/artist/ben-harper-mn0000792733/discography

AMOSTRAS GRÁTIS

segunda-feira, agosto 27, 2012

OS 4 SHOWS DE ADEUS DE STAN GETZ NO CAFÉ MONTMARTRE, KOPENHAGEN, 1991


Stan Getz foi uma dos maiores galãs da história do jazz. Poucas resistiram aos encantos de seu sax tenor em seus anos de glória. Ele passou o rodo impiedosamente nas mulheres mais interessantes de sua época -- todas elas presas fáceis do ataque manso de seu sopro.

Dono de um estilo sereno e introspectivo demais para a era do bebop, Getz foi um dos pioneiros do cool jazz e foi o maior incentivador da bossa nova nos Estados Unidos através do clássico (e milionário) LP "Getz Gilberto", gravado ao lado de João Gilberto e Tom Jobim, que explodiu nas paradas mundiais com Astrud Gilberto cantando "The Girl From Ipanema".

Mas de sereno e introspectivo, Getz só tinha o sopro. Sua vida era completamente caótica, desde os anos 40, quando se envolveu com heroína. Getz, pouco a pouco, foi virando um junkie pesado. E sempre que tentou controlar sua dependência química pela heroína caiu de cabeça no alcoolismo. Foi parar na cadeia diversas vezes. Sossegou um pouco em 1956, quando casou, virou pai e foi morar em Kopenhagen. Mas poucos anos depois lá estaria ele de volta à estrada, ao álcool, às drogas pesadas e à putaria que ele tanto amava.

O auge de sua carreira foi nos anos sessenta, nos discos impecáveis e nada óbvios que gravou para Norman Granz, da Verve Records, com suas clássicas aventuras bossanovísticas, os duos magistrais com o amigo Bill Evans, e experimentos mainstream com orquestras -- como o belo LP onde interpreta brilhantemente canções de Burt Bacharach, execrado por seus fãs na época, mas considerado hoje um pequeno clássico do jazz crossover.


Em Março de 1991, em Kopenhagen, Getz e seu amigo e pianista Kenny Barron decidiram fazer algumas apresentações em duo no Cafe Montmartre, de cujo palco Getz era habituée há mais de 20 anos.

Tocaram sem baixo e bateria, e se divertiram um bocado em 4 noites bem relaxadas, onde Getz saia completamente sem fôlego após cada número, pois -- só ele sabia disso, então -- estava sofrendo de cancer no fígado e tinha pouco tempo de vida pela frente.

Getz morreu naquele mesmo ano, e logo após sua morte alguns números dessas 4 sessões ao vivo com Kenny Barron foram lançados no álbum duplo "People Time", eleito recentemente pela revista JazzTimes um dos discos mais importantes da história do jazz, e uma despedida emocionante de um dos maiores sax tenores da história do jazz.
Pois bem, a Warner Bros Records decidiu reunir no ano passado a íntegra dessas quatro noites em que Getz e Barron tocaram em duo no Montmartre, e transformou o álbum duplo original de "People Time" em uma caixa com 7 cds, acrescentando às 14 faixas do disco original outras 37.

E essa caixinha preciosa, surpreendentemente, acaba de ser lançada no Brasil.

Além de takes alternativos para o repertório original de "People's Time" foram acrescentadas maravilhas como "Con Alma", "Bouncin' With Bird", "The End Of A Love Affair", "You Stepped Out Of A Dream" e ainda "The Autumn Leaves" and "Wish You Love", em versões nada menos que magníficas. Difícil achar adjetivos menos eloquentes que esses para definir esse grande momento da história do jazz.

Para alguns, essa versão expandida de "People's Time" pode parecer um exagero. E é, com toda a certeza. Mas faz parte das homenagens aos 20 anos de falecimento de Getz -- e, até onde se sabe, nenhum de seus admiradores reclamou desse exagero até agora, muito pelo contrário.


O pessoal da Bossa Nova é muito grato a Stan Getz pelas portas que ele abriu para músicos brasileiros. É sempre bom lembrar que Getz já era um artista consagrado quando aceitou contracenar com todos aqueles ilustres desconhecidos

E mesmo fazendo pequenas cachorradas -- como aumentar o sinal de seu tenor no mix final de "Getz Gilberto", e outros discos gravados em colaboração com outros artistas, sempre sem consultá-los --, Getz conseguiu separar bem o tumulto de sua vida pessoal de sua carreira musical, mantendo sempre um senso de profissionalismo raro no showbiz .

A paz absoluta que emana de "People's Time" é a evidência maior de que Getz estava feliz nessas quatro noites, celebrando a vida e se despedindo dela com galhardia.

E é por essas e outras que "People's Time" funciona como um testamento musical digno desse músico gigantesco e de seu talento assombroso.


BIO-DISCOGRAFIA

WEBSITE PESSOAL

AMOSTRAS GRÁTIS

quinta-feira, junho 28, 2012

ITHAMARA KOORAX SE REINVENTA MAIS UMA VEZ COMO INTÉRPRETE EM "GOT TO BE REAL"



Lembro bem da primeira vez que vi e ouvi Ithamara Koorax cantando.

Foi num programa da extinta TV Manchete, com Marcos Valle ao piano, cantando alguns de seus grandes sucessos dos anos 60 e 70.

Fiquei impressionado com sua vitalidade pop e sua atitude vocal bem jazzística – dois elementos que, bem combinados, sempre faltaram a 90 por cento de nossas cantoras.

Claro que também me impressionou sua beleza: Ithamara era uma gata, toda vestida em couro, linda, irremediavelmente sensual, e o velho beach boy de Ipanema sentado ao piano mal conseguia esconder o prazer de ter suas canções cantadas por uma cantora com tantos predicados.

Vinte anos e quinze discos mais tarde, Ithamara Koorax é -- ao lado de Joyce, Flora Purim e Leny Andrade – uma das cantoras mais bem sucedidas em carreiras internacionais que o Brasil já produziu.

Escolha o país que quiser: pode ter certeza que Ithamara já cantou lá, provavelmente com músicos de lá, já fez amigos por lá, e já deve estar com convites para voltar a cantar lá em breve.

 


Ao longo desse período, Ithamara se desdobrou um várias cantoras diferentes.

Tem a Ithamara embaixatriz da bossa nova , que brilha em discos aclamados pela DownBeat como “The Luiz Bonfá Songbook” e “Bim Bom – The Complete João Gilberto Songbook”.

Tem também a Ithamara mais experimental -- herdeira musical de Flora Purim -- dos belíssimos discos “Serenade In Blue” e “Love Dance”, ambos gravados para o selo Milestone, que a lançou com todas as honras no mercado americano no final dos anos 90.

E tem ainda a Ithamara pop jazz, que às vezes flerta com o drum & bass, e outras vezes pega mais leve, dividindo a cena com o pianista José Roberto Bertrami, do Azymuth, em aventuras musicais bem internacionais, mas sempre com um molho carioca delicioso e irresistível.



É o caso desse “Got To Be Real”, seu mais novo trabalho, gravado ao vivo num estúdio carioca no último verão de encomenda para a gravadora IRMA, com sua banda de apoio e o grande Bertrami criando os climas mais adequados à bela voz de Ithamara em seus teclados.

A primeira parte traz versões cover arrebatadoras para clássicos pop como “Got To Be Real”, “Never Can Say Goodbye”, “Can’t Take My Eyes Off Of You”, “Goin’ Out of My Head” e “Up, Up and Away”.

Arrebatadoras mesmo.

Climáticas ao extremo, envolventes de uma maneira extremamente perigosa, e nada óbvias.

Já as canções da segunda parte do disco demonstram que havia, aparentemente, um plano B para o caso da gravadora preferir trabalhar um trabalho com um foco mais carioca, e traz releituras bem interessantes para “Pigmalião”, de Marcos Valle e “Toque de Cuíca” do Azymuth.

Se bem que, no final das contas, vingou o repertório internacional mesmo, com um resultado muito superior a, por exemplo, o último disco de Eliane Elias, "Light My Fire", que veio mais ou menos nesse mesmo tom.


"Got To Be Real” começou bem sua carreira internacional e vem sendo bem recebido em vários cantos do mundo, com críticas muito efusivas para tudo o que tem de ousado e arrojado.

Falta ainda Ithamara conseguir ter aqui no Brasil um séquito semelhante ao que possui lá fora.

Não vai ser fácil -- ainda mais depois da diretoria do SESC-SP ter considerado sua música “elitista” e pouco atraente ao público paulista.

Mas tudo bem, Flora Purim passou exatamente pela mesma via crucis antes de explodir internacionalmente, e conseguiu sobreviver bravamente à obtusidade alheia. É só Ithamara ter um pouquinho de paciência que já já alguma coisa acontece.

Ouça "Got To Be Real" e fique indiferente ao talento implacável de Ithamara Koorax, se for capaz.


BIO-DISCOGRAFIA
 http://www.allmusic.com/artist/ithamara-koorax-mn0000093266

WEBSITE OFICIAL
http://www.ithamarakoorax.blogspot.com.br/

AMOSTRAS GRÁTIS