segunda-feira, julho 18, 2011

CINCO ERRANTES ROQUEIROS NAVEGANTES (por Chico Marques)

Nos cinco anos que antecederam “Thriller”, o clássico de Michael Jackson e Quincy Jones, reinava uma pluralidade musical notável nas cenas musicais pop do mundo inteiro. Podia qualquer coisa nas cenas pós-punk e no wave. Bastava ter talento e a bênção de algum produtor musical, e pronto: todos os caminhos estavam abertos.

Mas então veio 'Thriller", o LP que instituiu uma espécie de Idade Média na Indústria Fonográfica americana. E então, a partir dele, a própria Indústria começou a escantear qualquer manifestação artística que não fosse 100% integrada ao que então se considerava “mainstream”.

Hoje, temos uma cena musical bastante semelhante à que havia antes de "Thriller". Só que com uma variedade muito maior de manifestações, uma cena independente que não pára de crescer cada vez, facilidades antes inpensáveis para gravar e mixar um disco e novas “medias” que conseguem entregar o “produto” certo ao cliente certo.

Pouco a pouco, o ideal de mercado musical que existia naquela época – “um mar que não rejeita rio algum”, imagem forjada por Pete Townshend, do The Who, nos anos 1980 – virou realidade.

Sendo assim, nada mais justo que artistas que deram os primeiros passos em suas carreiras naquela momento já meio distante, possam desfrutar de uma situação confortável hoje.

É o caso dos nossos cinco errantes roqueiros navegantes desta semana:

Garland Jeffreys – mulato do Brooklyn apaixonado por blues e soul music, que descobriu o reggae acidentalmente numa academia de ginástica do bairro em 1969.

Willy DeVille – criatura bastante estranha dos subúrbios de Nova York, falecido recentemente, que mesclava a urgência do punk rock com serenatas soul com sotaque latino.

Alejandro Escovedo – punk rocker e poeta das ruas de San Francisco, Califórnia, que aos poucos se tornou um dos compositores mais contundentes da América.

Raul Malo – country-rocker de Miami, Florida, filho de cubanos e um dos artistas mais multifacetados que a cena musical americana já teve o prazer de conhecer.

Luka Bloom – folk singer irlandês nada ortodoxo, que ficou famoso por pegar um número do rapper L L Cool J. e transformá-lo numa bela balada folk.

Todos eles tem em comum o mesmo espírito aventureiro e a mesma atitude desalinhada

Pois estes são os mais novos trabalhos desses bravos desbravadores musicais.

Vamos a eles:



















GARLAND JEFFREYS

THE KING OF IN BETWEEN
A primeira vez que o mundo tomou conhecimento da existência de Garland Jeffreys foi no disco “Vintage Violence”, que John Cale gravou logo que saiu do Velvet Underground, em 1969. Jeffreys estava lá, cantando ao lado dele, e logo foi saudado como “the best next thing” e um dos tesouros musicais escondidos mais preciosos da Costa Leste americana. Demorou a ser contratado, pela Atlantic. E então, gravou um belo disco em 1972 com uma banda que trazia Dr. John e outros grande músicos, onde mapeava musicalmente a região do Brooklyn e do Queens, mesclando soul, rock and roll, reggae, canções hispânicas e outras sonoridades trazidas pelos novos habitantes desses bairros, que vinham de todos os cantos do mundo. Podia ter sido um triunfo. Mas, infelizmente, ninguém tomou o menor conhecimento, e o LP foi um fiasco de vendas. Jeffreys passou quatro anos no estaleiro tentando avaliar o que saiu errado, e então voltou à carga com um segundo disco certeiro, excelente, chamado “Ghost Writer”, onde retomava o mesmo projeto musical anterior, mas agora com o suporte jazzy da banda do guitarrista David Spinozza e alguns singles em potencial escondidos na cartola e nas mangas. Aí sim, funcionou. E o sucesso finalemente chegou. Mas infelizmente não durou muito -- apenas 3 ou 4 anos. Em meados dos anos 1980 – sem dúvida o períodos menos tenebroso da história da música pop -- , Jeffreys cansou de correr atrás de contratos e passou a gravar discos independentes, que vendiam muito pouco, e, por conta disso, ficaram cada vez mais espaçados. Para se ter uma idéia, “The King Of In Between” é seu primeiro trabalho em nada menos que 13 anos, e é excelente, vigoroso, repleto de composições que grudam no ouvido logo após a primeira audição e perfeito em todos os sentidos. Tem um dos boogies mais deliciosos que ouvi nos últimos anos – “Til John Lee Hooker Calls Me” --, a melhor homenagem à cidade de Nova York que ouvi neste novo Século – “Roller Coaster Town” – e também seqüências temáticas a seus números clássicos dos anos 70 ‘Wild In the Streets” -- “Streetwise”, malandra até dizer chega – e “”Ghost Writer” -- “The Contortionist”, quase uma autobiografia dos últimos 30 anos --, ambas magníficas. A não ser que Mr. Jeffreys seja um compositor muito pouco prolífico, não há justificativa para gravar assim tão pouco, e tão espaçado. Garland Jeffreys: por favor, não suma novamente. E agora chega, pois meus adjetivos acabaram.




















WILLY DEVILLE

COME A LITTLE BIT CLOSER – LIVE!
Por mais questionável que tenha sido o legado musical do punk rock nos Estados Unidos, não se pode negar que foi graças à efervescência da cena pós-punk que muitos artistas inclassificáveis ou difíceis de classificar conseguiram um merecido lugar ao sol na Indústria Fonográfica. Willy DeVille era uma deles. No comando do grupo Mink DeVille nos anos 1970 e 1980, ele mesclou um rock and roll pedestre e urgente com a soul music com sotaques latinos dos subúrbios de Nova York e Newark numa combinação que lembrava tanto Phil Spector quanto os emergentes conterrâneos Bruce Springsteen & The E Street Band e Southside Johnny & The Asbury Jukes. Mas Willy DeVille tinha um projeto de carreira bem mais complexo que isso. Depois de 10 anos à frente do Mink deVille, dissolveu a banda e seguiu para New Orleans para fazer investigações musicais no rhythm & blues do Deep South, em discos magníficos como “Loup Garou” -- que foram extremamente bem recebidos na Europa mas solenemente ignorados nos EUA. Mas isso não o desanimou. Mudou-se para Paris, passou a administrar sua carreira de lá, e tocou seu trabalho em frente, fazendo tournées memoráveis e gravando discos estranhos, difíceis, mas sempre inusitados e de altíssimo gabarito artístico. Desde sua morte ano retrasado, circulam rumores de que um grande número de gravações inéditas estaria sendo organizada para lançamento em discos futuros. Esse aqui, pelo visto, é o primeiro deles. É quase um The Best Of Willy DeVille gravado ao vivo, com releituras magníficas tanto para canções de todas as fases de sua carreira, como ‘Venus Of Avenue D”, ‘Spanish Stroll”, “Mixed Up Shook Up Girl” e “Just To Walk That Little Girl Home”. De surpreendente, uma releitura à moda de Phil Spector para “Slave To Love”, de Brian Ferry, e outra, estranhíssima -- em tom de salsa, simplesmente genial --, para a imortal “Hey Joe”. Quem não conhece Willy deVille, temem “Come A Little Bit Closer – Live!” um excelente ponto de partida para uma das figuras mais loucas e idiossincráticas da cena musical pop americana em todos os tempos. Para quem o conhece de longa data, é uma excelente oportunidade para matar a saudade. Da minha parte, não é pouca.




















ALEJANDRO ESCOVEDO

STREET SONGS OF LOVE
Há mais de 35 anos na cena musical da Costa Oeste americana à frente de bandas ótimas que nunca emplacaram direito -- Rank & File, True Belivers – ou apostando numa carreira solo que nunca decolou como merecia, tudo indica que Alejandro Escovedo finalmente achou seu Norte. “Street Songs Of Love” é seu segundo LP produzido pelo lendário Tony Visconti, ex-parceiro de David Bowie nos anos 1970, e mixado por Bob Clearmountain -- que souberam adequar aquela urgência roqueira “glam” dos discos clássicos de Bowie ao trabalho intenso e multifacetado de Escovedo, O resultado é vigoroso, sem dúvida um dos discos mais contundentes deste ano. O isso é surpreendente vindo de Escovedo, já que ele esteve à beira da morte dez anos atrás, por conta de uma hepatite C dignosticada e não tratada ao longo de 4 anos. Escovedo teve um colapso em pleno palco, em Phoenix, e teve sua carreira interrompida por um tratamento demorado, que foi totalmente bancado pelos amigos e admiradores, e que durou mais de dois anos – mas, felizmente, teve bons resultados. Desde que voltou à ativa, a temática habitual das canções de Escovedo ficou mais serena -- como “After The Meteor Showers” e “Shelling Rain” –, apesar de sua musicalidade estar mais turbulenta e agressiva do que jamais esteve – como comprovam “This Bed Is Getting Crowded” e “Anchor”. Enfim, Alejandro Escovedo é um grande talento. Está no melhor momento de sua carreira. Só nos resta torcer para que essa sua lua de mel com Tony Visconti e Bob Clearmountain emplaque outros discos tão superlativos quanto estes recentes “Real Animal” e “Street Songs Of Love”.




















RAUL MALO

SINNERS AND SAINTS
Se tem alguém hoje em dia na cena musical americana capaz de aglutinar gêneros musicais tão conflitantes quanto rockabilly, honky tonk, surf music, polka, tex-mex, salsa e country... esse alguém é Raul Malo. Ex-líder dos Mavericks, dono de um timbre vocal que lembra eventualmente Roy Orbison, e herdeiro do legado musical do “maestro” Doug Sahm – conhecido como o Count Basie do Tex-Mex --. Raul Malo nasceu em Miami, Florida, filho de pais cubanos, e tocou em tantas bandas de tantos gêneros diferentes que aprendeu a ver a música popular por uma ótica plural e totalmente pessoal. Esse seu sexto LP solo começou a ser gravado dois anos atrás em um estúdio caseiro em Nashville, Conforme as canções foram evoluindo, Malo sentiu que aquelas novas canções estavam brotando na cidade errada, e mudou de mala e cuia para Austin, Texas, onde uniu forças a craques como o lendário organista Augie Myers, o guitarrista Shawn Sahm (filho de Doug) e o grupo vocal feminino The Trishas. Foi aí que “Sinners and Saints” ganhou esse sotaque fronteiriço delicioso e esse colorido musical que ostenta. Não é exagero algum dizer que este é o melhor de todos os discos de Malo, incluindo os que fez com os Mavericks. E não há muito mais o que dizer. Escutem esse novo trabalho de Raul Malo e entendam porque não existem fronteiras musicais entre Estados Unidos, México e as sonoridades caribenhas. “Sinners and Saints” é tão bem resolvido que merecia tocar o dia inteiro como música ambiente na ONU. Quem sabe aquela gente aprende alguma coisa com esses músicos eternamente sorridentes.















LUKA BLOOM

2 METER SESSIONS
Luka Bloom nasceu na Irlanda e começou sua carreira em meados dos anos 1970 com seu nome verdadeiro, Barry Moore -- incentivado pelo irmão Christy Moore, que já era na ocasião um dos artistas folk mais respeitados da cena irlandesa. Mas, por algum motivo que nada tinha a ver com seu talento como cantor e compositor – provavelmente a sombra protetora e, ao mesmo tempo, incômoda de seu irmão mais famoso – sua carreira nunca sensibilizou muito os irlandeses. Então, a reboque do sucesso internacional do U2, ele deixou a Irlanda em 1987 e mudou seu nome artístico para Luka Bloom, para tentar a sorte na América. Gravou 3 discos para a Reprise Records que o projetaram como artista folk, mas acabou prisioneiro de um contrato leonino que o deixou 5 anos sem poder gravar. Curiosamente, do início dos anos 1990 em diante sua carreira finalmente decolou. Seus últimos discos -- “Tribe”, ‘Eleven Songs” e “Lost In America” – são triunfos artísticos inquestionáveis, bem recebidos por crítica e público no mundo inteiro. Esse novo “2 Meter Sessions” é um EP com 8 de suas canções gravadas ao vivo, sem banda, para um projeto da TV Dinamarquesa , que acaba de ser lançado somente para o mercado europeu. Para quem ainda não conhece o trabalho de Luka Bloom, serve como uma bela introdução aos múltiplos talentos desse eloqüente folk Singer irlandês. Para quem já conhece, vale como aperitivo até que ele nos brinde com seu próximo disco, quem sabe até o final deste ano.


DISCOGRAFIAS

LPs GARLAND JEFFREYS
Garland Jeffreys & Grinders Switch (1970)
Garland Jeffreys (1973)
Ghost Writer (1977)
American Boy & Girl (1978)
Escape Artist (1980)
Rock & Roll Adult (1981)
Guts For Love (1983)
Don´t Call me Buckwheat (1992)
Wildlife Dictionary (1997)
The King Of In Between (2011)

LPs WILLY DEVILLE
Cabretta (com Mink DeVille 1977)
Return To Magenta (com Mink DeVille 1978)
Le Chat Bleu (com Mink DeVille 1980)
Coup De Grace (com Mink DeVille 1981)
Where Angels Feat To Tread (com Mink DeVille 1983)
Sportin´ Life (com Mink DeVille 1985)
Miracle (com Mink DeVille 1987)
Victory Mixture (1990)
Willy DeVille Live (1993)
Backstreets Of Desire (1994)
Loup Garou (1996)
Live (1991)
Horse Of A Different Color (1991)
Acoustic Trio In Berlin (1993)
Crow Jane Alley (1994)
Pistola (2008)
Come A Little Bit Closer – Live! (2011)

LPs ALEJANDRO ESCOVEDO
Sundown (com Rank & File 1982)
Long Gone Dead (com Rank & File 1984)
Rank & File (com Rank & File 1985)
True Believers (com True Believers 1987)
Hard Road (com True Believers 1989)
Gravity (1992)
The End-Losing Your Touch (1994)
Thirteen Years (1994)
With These Hands (1996)
More Miles Than Money-Live! (1998)
Bourbonitis Blues (1999)
A Man Under The Influence (2001)
By The Hand Of the Father (2002)
Por Vida: A Tribute to Alejandro Escovedo (2004)
Room Of Songs (2005)
The Boxing Mirror (2006)
Real Animal (2008)
An Introduction To Alejandro Escovedo (2009)
Street Songs Of Love (2011)

LPs RAUL MALO
Mavericks (com Mavericks 1991)
From Hell To Paradise (com Mavericks 1992)
Cryin´ Shame (com Mavericks 1994)
Music For All Occasions (com Mavericks 1995)
Trampoline (com Mavericks 1998)
It´s Now! It´s Live! (com Mavericks 1998)
Live In Austin Texas (com Mavericks 2000)
Today (2001)
The Nashville Acoustic Sessions (2004)
You´re Only Lonely (2006)
After Hours (2007)
Marshmallow World & Holiday Favorites (2007)
Lucky One (2009)
Sinner & Saints (2011)

LPs LUKA BLOOM
The Barry Moore Years (1987)
Luka Bloom (1988)
Riverside (1990)
The Acoustic Motorbike (1992)
Turf (1994)
Salty Heaven (1999)
Keeper Of The Flame (2000)
Between The Mountain & The Moon (2002)
Amsterdam Live! (2003)
Before Sleep Comes (2004)
Innocence (2006)
Tribe (2007)
Eleven Songs (2008)
Dreams In America (2010)
2 Meter Sessions (2011)


PORTA-RETRATOS

“Não sou o tipo de compositor que escreva canções sobre garotas e carros. Meu tema é sempre como e onde eu fui criado, e como vivo hoje. Meu desafio é sempre achar uma maneira nova de traduzir isso em canções.” (Garland Jeffreys)

“O grande segredo na hora de gravar é saber a hora de parar. Tem momentos em que, se você entra na cabine novamente para refazer alguma passagem, ou para acrescentar alguma coisa, você mata a canção. Daí, é importante ter segurança e acreditar no que você fez. E tomar coragem para dar o assunto por encerrado.” (Willy DeVille)

“Bruce Springsteen sempre foi um grande amigo e um grande incentivador do meu trabalho. Há já uns bons anos, enquanto seu show não começa, ele sempre manda colocar meus cds para tocar para o público dele. Esse tipo de camaradagem é a cara dele.” (Alejandro Escovedo)

“Ouço de tudo desde pequeno. Adoro Elvis e Johnny Cash. Gosto muito de Luciano Pavarotti. Sempre ouço Etta James e James Brown. É muito raro eu calhar de não gostar de algum tipo de música.” (Raul Malo)

“É um grande privilégio poder compor canções e cantá-las para as pessoas. Tenho uma gratidão imensa por qualquer um que compre meus discos ou vá a meus shows. Nunca achei que merecesse receber mais crédito do público do que os que já tenho. O desafio agora é zelar pelos admiradores que já conquistei, e mantê-los interessados no que faço.” (Luka Bloom)

“Fico feliz quando acerto na mosca com minhas composições. Tempos atrás, conversando com meu amigo Graham Parker, ele disse: Puxa, Garland, aquela sua canção, “Matador”, é demais, simplesmente perfeita, talhada para o sucesso. Como eu queria ter escrito uma canção poderosa como essa. O diabo é que tem gente como Paul Simon que tem umas vinte dessas em seu curriculum.” (Garland Jeffreys)

“Adoro a música que faço e adoro sair em tournée. Quando sinto que consegui entrar na mesma sintonia da platéia, o prazer que sinto é indescritível. Eu me considero um cara de sorte. Faço só o que gosto. Pouca gente no mundo inteiro conta com esse privilégio.” (Willy DeVille)

“Meus pais contribuiram bastante para a cena musical americana. Meus irmãos Coke e Pete são muito conhecidos por terem participado das melhores formações da banda de Carlos Santana. Eu, que sou o mais novo, já estou na cena há 35 anos. Somos quase um clã musical. Para mim, é motivo de muito orgulho carregar o nome Escovedo.” (Alejandro Escovedo)

“Música é um negócio muito incerto. É preciso gostar muito de fazer música para poder encarar o meio musical. Ou você ama muito o que você está fazendo, e confia no seu taco -- torcendo para que dê tudo certo no final e o público responda positivamente ao que você realizou --, ou então é melhor mudar de ramo.” (Raul Malo)

“Luka eu tirei da canção de minha amiga Suzanne Vega. Bloom, eu tirei do personagem de James Joyce. Como eu estava vindo de Dublin para Nova York para recomeçar minha carreira, achei que seria boa idéia adotar um novo nome artístico que fizesse a ponte entre essas duas cidades.” (Luka Bloom)


AMOSTRAS GRÁTIS














MONTEREY POP FAZ 44 ANOS (Videocrônica para o Jornal da Orla - 14 Julho 2011)

terça-feira, julho 12, 2011

CINCO VOZES E O SENTIMENTO DO MUNDO (por Chico Marques)

É curioso como todas as grandes transformações musicais da música negra americana aconteceram sempre que algum gaiato transportou os spirituals e gospels cantados nas Igrejas Batistas para ambientes pouco ou nada abençoados pelo Senhor.

Isso aconteceu tanto com o jazz – que surgiu do encontro da música dos negros com os instrumentos vindos da Europa na velha New Orleans --, quanto com o blues – que saiu das plantações que cercavam os Vales do Mississipi e ganhou ares cosmopolitas em cidades como Chicago, Memphis, Saint Louis e Kansas City --, e também com a soul music -- que não difere em praticamente nada dos gospels, a não ser pelas temáticas bem mundanas das canções, que jamais caberiam no ambiente “de elevação” das Igrejas.

Para os artistas de todos esses gêneros musicais, cantar e comunicar andavam sempre lado a lado. Até porque as melhores referências que tinham tanto do ato de cantar quanto do ato de comunicar não vinham do rádio, e sim da Igreja mais próxima. Certos pastores eram verdadeiras estrelas pop nos anos 1950 e 1960. James Franklin – pai de Aretha – era um desses que atraíam verdadeiras multidões por onde passava.

Mas então surgiu Ray Charles, com seus gospels incendiários que falavam de sexo e de relações amorosas turbulentas com uma franqueza assustadora para quem não estava habituado a ouvir aquilo. Foi a partir daí que muitos cantores dos coros das Igrejas constataram que existia vida artística fora dalí, e então largavam tudo e seguiam para Memphis, Tennessee -- o epicentro dessa nova tendência musical.

Foi assim com o ex-Reverendo Solomon Burke -- a primeira estrela soul a surgir depois de Ray Charles --. com o showman absoluto James Brown -- que explodiu nas paradas quase ao mesmo tempo que Burke – e com diversos outros artistas tão seminais quanto eles -- Sam Cooke, Otis Redding, Wilson Pickett, Don Covay, Joe Tex, Arthur Alexander, Bobby Womack, etc. Todos brilharam intensamente na primeira metade dos anos 1960, correndo lado a lado com a explosão do Movimento pelos Direitos Civis na América.

Sintomaticamente, não haviam pastoras nas igrejas freqüentadas por negros. Por conta disso, também não havia uma única mulher de destaque na cena da soul music.

Foi quando Jerry Wexler trouxe para a Atlantic Records uma grande cantora negra que estava perdida no elenco da Columbia há anos, gravando repertório inadequado e indo rápido a lugar algum.

Bastou Aretha Franklin chegar à cena da soul music em 1966 já soltando a voz, e o tradicionalíssimo machismo dos negros foi colocado em xeque. Manifestos musicais como “Think” e “Respect” acabaram se revelando mais contundentes e eficazes para as mulheres da Comunidade Negra do que a obra completa de feministas como Betty Friedan e Gloria Steinem.

Aretha chegou chutando a porta e gritando "Qual é o problema".

Ninguém se atreveu a peitá-la.

Mas, com a morte de Martin Luther King, tudo isso foi meio que deixado de lado de uma hora para outra. E a soul music, de luto, deixou os temas mundanos um pouco de lado para buscar uma espécie de elevação, se aproximando novamente dos gospels -- e, de certa forma, encerrando um ciclo.

Nos anos 1970, o panorama soul ficou disperso, mais voltado para o pop e mais integrado às platéias brancas. E, consequentemente, menos comprometido com mudanças sociais.

Os artistas clássicos do gênero que sobreviveram na cena mantiveram, da meneira que foi possível, a da soul music acesa. Ganharam o reforço dos artistas de blues, que, ao longo dos anos, se deixaram contaminar pela musicalidade e pelas vocalizações soul. Todos eles, de certa forma, passaram a compor uma mesma cena de quarenta anos para cá.

Conheçam agora um pouco dos novos trabalhos de veteranos como Aretha Franklin e Aaron Neville, quase veteranos como Ruthie Foster e Eric Bibb, e também de uma cantora e guitarrista branca, ruiva e surpreendente chamada E G Kight.

Todos os cinco -- cada um à sua maneira -- abraçam o mundo com suas vozes e definem bem a palavra SOUL.




















ARETHA FRANKLIN
A WOMAN FALLING OUT OF LOVE
Às vésperas de completar 70 anos, a Primeiríssima Dama da Soul Music está de volta com um disco que é excepcional pelo simples fato de existir. Explico melhor. Aretha esteve muito mal de saúde nos últimos anos – ela aparenta estar melhor agora. Esteve também numa batalha judicial bastante desgastante com sua ex-gravadora Arista Records -- assunto encerrado de uns meses para cá, desde que ganhou na justiça o direito de lançar este disco, que já está pronto há quase dois anos, por seu selo próprio, Aretha Records. Se por um lado “A Woman Falling Out Of Love” está distante do altíssimo gabarito de seus melhores LPs gravados nos anos 1960 e 1970, por outro lado funciona como uma seqüência bastante digna para seus últimos trabalhos “A Rose Is Still A Rose” (1997) e “So Damn Happy” (2002). É um disco bastante envolvente, onde Aretha solta a voz em duetos com expoentes de várias fronts musicais, mesclando números de r&b bem modernosos com gospels, blues e standards do cancioneiro americano. Aretha tem uma peculiaridade que sempre deixou as outras cantoras profundamente irritadas: quanto mais solta a voz, mais facilmente acerta o ponto. Economia de recursos vocais, definitivamente, nunca foi seu forte. A maneira como descontrói e reinventa números batidos como “A Summer Place” e “The Way We Were” – essa última em dueto com o fabuloso Ron Isley, dos Isley Brothers -- é prova clara disso, e é o que faz de Aretha única e absoluta. Confesso que só não gostei da gravação que ela fez para “My Country Tis Of Thee” -- apoteótica demais para um gospel, mas justificável como hino da Era Obama, de quem Aretha é fiel apoiadora. Agora, é torcer para que Aretha Franklin, com seu selo próprio, consiga administrar melhor sua carreira e manter uma regularidade de lançamentos para os próximos anos. Nós, seus súditos, merecemos.




















AARON NEVILLE

I KNOW I´VE BEEN CHANGED
Aaron Neville é outro que está batendo às portas dos 70 anos de idade com uma vitalidade artística assombrosa. Voz principal dos Neville Brothers e um dos patrimônios mais valiosos da música de New Orleans, Aaron resgatou em 1990 uma carreira solo que estava adormecida desde a segunda metade dos anos 1960, quando, ao lado de Allen Toussaint, emplacou compactos clássicos como “Tell Me Like It Is”. Só que ele exagerou um pouco no direcionamento crossover desses discos de retorno, e, em vez de ampliar seu público, acabou virando prisioneiro de um padrão de produção muito meloso e pouco arrojado – bem na contramão de seu trabalho que desenvolve com seus irmãos. Mas aqui, em “I Know I´ve Been Changed” -- só de gospels tradicionais, com arranjos eloquentes de Allen Toussaint e a sonoridade moderníssima do produtor Joe Henry -- ele finalmente vira o jogo a seu favor . Além de ser um triunfo artístico retumbante, funciona também como um apelo para que alguma coisa seja feita em prol do povo pobre de New Orleans, que teve a vida devastada pelo Furacão Katrina, e até hoje ainda briga para conseguir retomar seu padrão de vida anterior. A delicadeza com que os gospels de “I Know I´ve Been Changed” se encadeiam, receitando fé como remédio para suportar as adversidades, deixam claro que – nas palavras de um crítico americano – “está mais do que na hora de Deus voltar a morar em New Orleans”. Com uma trilha sonora magnífica como essa proporcionada pelo triunvirato Aaron Neville, Allen Toussaint e Joe Henry, duvido muito que Ele não se sinta em casa logo de cara.




















RUTHIE FOSTER

LIVE AT ANTONE´S
Mesmo quem não acompanha a cena musical texana, já deve ter ouvido falar de Ruthie Foster a essa altura do campeonato. Excelente compositora, ela é dona de um tremendo vozeirão que lhe permite passear com muita desenvoltura por gêneros tão diversos quanto blues, jazz, rock and roll e country music, Sempre criticada por não conseguir imprimir em seus (até agora) 7 LPs de estúdio o mesmo vigor e a mesma pegada fulminante de suas performances ao vivo, Ruthie decidiu que estava mais do que na hora de dar um cala-boca nesse pessoal. E acaba de lançar esse cd e dvd “Live At Antone's, gravado no inferninho número um de Austin, Texas. É uma dose cavalar de rhythm & blues e americana, onde abre espaço para apenas 3 canções suas, desfilando covers magníficos de canções de compositores amigos, como Patti Griffin ("When It Don't Come Easy"), Lucinda Williams ("Fruits of My Labor") e Sista Rosetta Tharpe ("Up Above My Head [I Hear Music in the Air]). É uma jovem artista excepcional, aqui num momento precioso de sua carreira. Quem ainda não conhece Ruthie Foster, pode começar a se iniciar por aqui. Não há contra indicações.


















ERIC BIBB WITH STAFFAN ASTNER

TROUBADOUR LIVE!
Quando surgiu com seus primeiros discos no início dos anos 1980, Eric Bibb foi rapidamente aclamado como o príncipe herdeiro do folk-blues e a grande esperança branca para a renovação do gênero numa cena onde havia cada vez menos espaço para ele. As razões disso não eram poucas. Eric vem de uma família musical até demais. Seu pai é o grande cantor e guitarrista Leon Bibb. Seu tio, o notável pianista John Lewis, do Modern Jazz Quartet. E seu padrinho musical, nada menos que o lendário cantor negro da Broadway, Paul Robeson, Depois de se escolar musicalmente na casa de seu pai, por onde circulavam os músicos mais influentes da cena novaiorquina, Eric seguiu para Paris, onde estudou música e permaneceu mais de 15 anos trabalhando como músico profissional. Voltou para a América só quando sentiu que havia finalmente mercado para seu trabalho. De lá para cá, já gravou mais de 20 discos – alguns na tradição do folk-blues, outros musicalmente mais variados e com instrumentação eletrificada. Nesse mais recente, gravado ao vivo num nightclub na Suécia, ele trabalha com um combo básico, toca guitarra acústica e divide a cena com o ótimo guitarrista elétrico Staffan Astner e com o trio vocal gospel Psalm4, num repertório que trafega por diversos gêneros, e que culmina com uma releitura muito original para “People Get Ready”, de Curtis Mayfield. Quem prefere Eric Bibb tocando apenas blues talvez torça o nariz para o ecletismo musical desse LP. Mas todos os que não acreditam em fronteiras nos terrenos musicais com certeza vão ficar extasiados com mais essa aventura musical desse artista notável.


















E G KIGHT

LIP SERVICE
Eugenia Gail Kight nasceu há 45 anos em Dublin, Georgia. É uma ótima guitarrista, uma compositora extremamente simpática e uma cantora com um frescor vocal que lembra tanto Bonnie Bramlett quanto Rita Coolidge em seus inícios de carreira. Trabalhou como sidewoman para muitos artistas de blues e country music até conhecer Koko Taylor em 1995, quando decidiu que seu lugar era na cena do blues e do rhythm & blues. De lá para cá já gravou 6 discos solo e ganhou uma penca de prêmios, mas infelizmente continua uma ilustre desconhecida para o grande público. Quem sabe esse novo “Lip Service” consiga reverter esse status. Com o suporte luxuoso de grandes músicos da cena de Atlanta, como Randall Bramlett, Paul Hornsby e Tommy Talton, ela voa alto numa seqüência impecável de faixas, onde as mais lentas – como “That´s How A Woman Loves”, “Somewhere Down Deep” e “It´s Gonna Rain All Night” – se sobressaem aos números rápidos. Assim como Bonnie Raitt e Susan Tedeschi, E G Kight é mais uma guitarrista ruiva com alma negra e um futuro brilhante pela frente que -- a julgar pela excelência deste “Lip Service” -- não deve tardar a chegar.

DISCOGRAFIA

LPs ARETHA FRANKLIN
Take A Look: Complete Aretha on Columbia (1962-1966)
I Never Loved A Man (1967)
Aretha Arrives (1967)
Aretha In Paris (1967)
Lady Soul (1968)
Aretha Now (1968)
I Say A Little Prayer (1969)
Soul 69 (1969)
Don´t Play That Song (1970)
Spirit In The Dark (1970)
This Girl´s In Love With You (1970)
Live At Fillmore West (1971)
Young, Gifted & Black (1971)
Amazing Grace (1972)
Hey Now Hey (1973)
Let Me In Your Life (1974)
With Everything I Feel In Me (1974)
You (1975)
Sparkle (1976)
Sweet Passion (1977)
Almighty Fire (1978)
La Diva (1979)
Aretha (1980)
Love All The Hurt Away (1981)
Jump To It (1982)
Get It Right (1983)
Who´s Zoomin´ Who (1985)
Aretha (1986)
One Lord, One Faith, One Baptism (1987)
Through The Storm (1989)
What You See Is What You Sweat (1991)
A Rose Is Still A Rose (1998)
Duets (2001)
So Damn Happy (2003)
This Christmas (2008)
A Woman falling Out Of Love (2011)
http://www.aretha-franklin.com/

LPs AARON NEVILLE
Tell It Like Is It (1967)
Mickey Mouse March (1986)
Warm Your Heart (1991)
The Grand Tour (1993)
Soulful Christmas (1993)
The Tattoed Heart (1995)
To Make Me Who I Am (1997)
Devotion (2000)
Believe (2003)
Nature Boy: The Standards Album (2003)
Christmas Prayer (2005)
Bring It On Home (2006)
I Know I´ve Been Changed (2010)
http://aaronneville.com/


LPs RUTHIE FOSTER
Crossover (1999)
Full Circle (2001)
Runaway Soul (2002)
Stages (2004)
The Phenomenal Rothie Foster (2007)
The Truth According To Ruthie Foster (2009)
Live At Antone's (2011)
http://www.ruthiefoster.com/

LPs ERIC BIBB
Rainbow People (1977)
River Road (1980)
Good Stuff (1997)
Me To You (1998)
Home To Me (1999)
Spirit & The Blues (1999)
Painting Signs (2001)
Just Like Love (2002)
Natural Light (2003)
Roadworks (2004)
Sisters And Brothers (2004)
Friends (2004)
A Ship Called Love (2005)
Diamond Days (2006)
Praising Peache: A Tribute To Paul Robeson (2006)
An Evening With Eric Bibb (2007)
Spirit That I Am (2008)
Get On Board (2008)
Rainbow People (2009)
Booker´s Guitar (2010)
Troubadour Live (2011)
http://www.ericbibb.com/

LPs E G KIGHT
Come Into The Blues (1997)
Trouble (2002)http://www.blogger.com/img/blank.gif
Southern Comfort (2003)
Takin’ It Easy (2004)
EG Live & Naked (2007)
It´s Not In Here (2008)
Lip Service (2011)
http://www.egkight.com/

PORTA RETRATOS

“Fui operada de câncer no pâncreas ano passado e achei que não iria sobreviver. Mas então, ao acordar da anestesia, vi ninguém menos que Stevie Wonder ao lado da cama, junto com minha família. Foi quando tive certeza de que iria conseguir dar a volta por cima.” (Aretha Franklin)

“Trabalhava no Porto de New Orleans quando meu compacto Tell It Like It Is explodiu nacionalmente em 1967. Logo imaginei: Estou Rico! Quando fui tentar receber meus royalties, a gravadora tinha acabado de pedir falência. Ou seja: alguém ficou rico no meu lugar. Não há nada mais frustrante que isso.” (Aaron Neville)

“Meu estilo musical é basicamente gospel, apesar de não cantar música religiosa, mas a música que eu toco trafega entre blues, soul, reggae e rock and roll. Espero que isso sirva como definição do meu trabalho. Se não, que sirva como uma carta de intenções.” (Ruthie Foster)

“Acho que os ingleses tem um papel vital nessa ressurreição do blues. Eles mantiveram a coisa viva quando ninguém se importava mais nos Estados Unidos. Então, de repente, tudo voltou. E muito forte. Hoje, blues é quase mainstream.” (Eric Bibb)

“Quando Koko Taylor escolheu uma das minhas canções para gravar em seu disco Royal Blue, eu quase enlouqueci de tanta felicidade” (E G Kight)

“Mesmo sem conseguir encarar uma tournée, confesso que estou muito feliz em voltar a cantar em Festivais como o de Montreal e o de New Orleans. Se der, quero poder voltar a trabalhar a todo vapor. Se não der, quero poder fazer um show aqui, outro acolá, de tempos em tempos. O que não quero é ficar parada.” (Aretha Franklin)

“As pessoas até hoje estranham o contraste entre a delicadeza da minha voz e esse meu jeitão de ex-estivador. Meu jeito de cantar é uma tentativa de trazer para a música negra o yodel que Roy Rogers e Gene Autry faziam em suas canções nos filmes que eu via quando era menino. Acabou saindo meio estranho, e deu no que deu.” (Aaron Neville)

“Sempre combino um set list com a banda, que é para não ser seguido. Serve apenas um porto seguro, caso não consigamos sentir a platéia da maneira certa. Mas felizmente nunca aconteceu da platéia não responder bem, ou de não conseguirmos estabelecer comunicação com ela.” (Ruthie Foster)

“Gosto de trabalhar com músicos estrangeiros. Tenho um guitarrista sueco e cantores sulafricanos em minha banda. Acho que, se saí de Nova York e ganhei o mundo apresentando minha música, nada mais coerente de que receber influências do mundo afora através de músicos. Tem uma comunidade fantástica deles em qualquer canto do mundo onde você vá.” (Eric Bibb)

“Eu não faço como muitos artistas amigos meus, que evitam ler críticas a seus trabalhos. Eu leio tudo. Acho importante. Tenho confiança na qualidade do meu trabalho, mas não posso abrir mão do feedback da crítica.” (E G Kight)

AMOSTRA GRÁTIS















TOCA RAUL! ( Videocrônica para o Jornal da Orla - 7 Julho 2011)

segunda-feira, julho 04, 2011

A VOLTA TRIUNFAL DE UM ALTO SACERDOTE DA GUITARRA E QUATRO DE SEUS APÓSTOLOS MAIS APLICADOS (por Chico Marques)


De todos os formatos que o rock and roll vem experimentando desde 1955, o mais menosprezado deles é, sem dúvida alguma, o rock instrumental.

Ele surgiu numa grande febre musical que durou entre 1958 e 1963, bem no momento de entressafra entre a primeira e a segunda gerações do rock and roll, quando as figuras mais lascivas da cena roqueira americana foram retiradas da cena uma por uma pelas forças conservadoras.

Como todos devem lembrar, só Elvis Presley foi preservado – e mandado para a Coréia, para fazer de conta que estava lutando pela pátria.

Chuck Berry foi em cana por fraude no Imposto de Renda. Jerry Lee Lewis, execrado pela opinião pública por pedofilia depois de casar-se com sua prima de 13 anos de idade. E Little Richard... bem, Little Richard foi “convidado” a parar de dar “mau exemplo” às novas gerações com sua conduta escancaradamente afeminada, e virou o pastor batista mais bipolar e escandaloso da história na cena musical gospel.

Apesar de tudo isso, esse breve período entre 1958 e 1963, em que números instrumentais conseguiam emplacar nos primeiros postos da Billboard, foi de uma riqueza musical ímpar, apesar de pouco lembrado pelos historiadores do rock and roll.

Bandas instrumentais que até então eram comandadas por pianistas ou saxofonistas, de uma hora para outra passaram a ter guitarras na linha de frente e viraram febre nacional. De repente, toda cidade em qualquer canto do país tinha a sua, e elas serviam tanto como “bandas cavalo” para cantores de diversos gêneros diferentes que se apresentassem pela cidade quanto como bandas para animar festas dos mais diversos tipos.

Foi nessa onda que surgiram em cena grupos de destaque nacional como Johnny & The Hurricanes e The Ventures e músicos geniais como Link Wray e Duane Eddy, que influenciaram todos os guitarristas daquela época – vide os discos instrumentais de artistas de blues insuspeitos como Freddie King e Albert Collins do início dos anos 1960 – e desencadearam a febre da surf music instrumental através de grandes bandas como Dick Dale & The Del-Tones e The Surfaris.

De todos esses pioneiros do rock instrumental, o mais bem sucedido foi, sem dúvida, Duane Eddy, que emplacou quase 20 singles no Top 40 da Billboard popularizando o “twang” – jeito de tocar guitarra muito peculiar, usando o “tremolo” no uso contínuo das três cordas superiores para assim criar um som envolvente e hipnótico.

Apesar de ter sido engolido pelo advento dos Beatles, dos Rolling Stones e de tudo mais que veio na segunda metade dos anos 60, a verdade é que o rock instrumental nunca morreu.

Seu legado permanece vivo nas palhetas da maioria dos guitarristas do sul dos Estados Unidos -- particularmente dos que vivem nos estados que fazem fronteira com o México.

Vamos trazer hoje para vocês cinco guitarristas especialistas em twang.

Dois – Jimmie Vaughan e Jimmy Thackery – com uma ligação muito intensa com esse formato musical, apesar de serem músicos extremamente versáteis e difíceis de classificar.

Outros dois – Tab Benoit e Tommy Castro – com uma relação menos estreita, mas com uma afinidade muito respeitosa por todo esse legado musical.

E, para completar o quadro, temos também o disco de retorno do lendário Duane Eddy. O primeiro depois de mais de duas décadas sem entrar num estúdio de gravação.

Vamos a eles:




















JIMMIE VAUGHAN
PLAYS MORE BLUES, BALLADS AND FAVORITES
Como guitarrista, Jimmie Vaughan é a delicadeza em pessoa – o extremo oposto de seu turbulento irmão, Stevie Ray. Econômico nos ataques, craque no “twang” e sempre contundente no stacatto em sua Telecaster, ele se destacou, juntamente com o cantor e gaitista Kim Wilson, à frente dos Fabulous Thuderbirds em 4 discos espetaculares para o selo inglês Chrysalis gravados entre 1979 e 1982 – que não venderam quase nada fora do Texas e da Inglaterra, mas fizeram da banda os queridinhos da crítica dos dois lados do Atlântico. Sobreviveram na míngua, sem contrato com nenhuma gravadora, entre 1983 e 1986 – justamente o período em que Stevie Ray explodiu nacionalmente com 3 discos de blues rock de altíssima combustão. Resultado: Stevie Ray acabou fornecendo o passaporte para o retorno de Jimmie e dos TBirds num disco explosivo chamado “Tuff Enuff”, produzido pelo guitarrista inglês Dave Edmunds, que, para surpresa geral, vendeu mais de um milhão de cópias e levou a banda finalmente ao estrelato. Pena que, com o estrelato, tenha vindo junto a obrigação de fazer discos que vendessem mais ainda que "Tuff Enuff", e que fossem cada vez menos aventurescos musicalmente. Então, em 1989, logo após a morte do irmão Stevie Ray num acidente de helicóptero, Jimmie decidiu cair fora da banda e tentar uma carreira solo. E que carreira solo! Gravou apenas 6 discos desde então, um melhor que o outro, mesclando blues, rock and roll e country music à moda do Texas em projetos aparentemente descompromissados – como esse “Jimmie Vaughan Plays More Blues, Ballads and Favorites” --, onde se revela um excelente band leader em uma banda que lembra uma versão extendida dos Fabulous Thunderbirds, só que com muitos metais. Não é o tipo de disco que vá agradar aos fãs do beat desgovernado de Stevie Ray, com o Double Trouble correndo atrás dele o tempo todo. Mas vai agradar em cheio aos que gostam de rock and roll tocado com muita malandragem e com uma sintonia muito fina entre todos os músicos envolvidos. Ouçam Jimmie Vaughan e entendam porque o Texas produz a melhor música de beira de estrada do mundo.




















JIMMY THACKERY & THE DRIVERS

FEEL THE HEAT
Jimmy Thackery é um velho conhecido de todos nós. Depois de passar os anos 1970 e 1980 defendendo o posto do guitarrista do grupo de roadhouse blues The Nighthawks em exatos 20 LPs, ele decidiu se aventurar à frente de seu próprio power trio, The Drivers -- que sempre teve uma ótima acolhida de público mas nunca conseguiu entusiasmar a crítica, que o achava um guitarrista exagerado e um cantor deficiente. Pois essas críticas parecem ter incomodado Thackery a ponto dele rever algumas de suas posturas musicais. Começou a compor canções que exigissem mais dele como cantor e tratou de reduzir o tempo dos números para poder contracenar melhor com os músicos de sua banda. Desde então, Thackery produziu dois LPs muito bons, “Solid Ice” (2007) e “Inside Tracks” (2008), com os quais esse “Feel the Heat” forma uma trinca impecável. Claro que isso não o impede de, vez ou outra, atacar com números instrumentais deliciosos como “Hang Up & Drive”, que lembra um pouco “Scuttle Bootin´”, de Stevie Ray Vaughan com o Doublé Trouble, e também nos remete de volta aos anos de ouro dos Nighthawks. "Feel The Heat" traz também momentos acústicos bem aventurescos como “Take My Blues” e números repletos de twang, à moda de seu herói musical Duane Eddy, como “Bluephoria”. Trocando em miúdos: é mais uma bela demonstração de música americana de beira de estrada de primeira, onde blues, rockabilly, jazz, bebop, and surf music se misturam sem fazer a menor cerimônia.




















TAB BENOIT

MEDICINE
Quando Tab Benoit lançou seu primeiro LP, “Nice & Warm, quase 20 anos atrás pelo selo independente texano Justice Records, todo mundo que ouviu percebeu logo de cara que estava diante de um artista original, e não apenas mais um guitarrista espalhafatoso brigando pela vaga de guitarrista mais rápido do Oeste deixada em aberto com a morte prematura de Stevie Ray Vaughan. Seu mix de blues, rock and roll e cajun music era de uma intensidade incomum, e sua atitude como músico era incansável, tocando 300 noites por ano tanto em cidades grandes quanto cidades pequenas, e sempre se colocando à disposição de qualquer pequena emissora de rádio que se dispusesse a abrir algum espaço para ele. Com isso, seu discos começaram a alcançar facilmente a marca de 50 mil cópias vendidas -- nada mal para um artista independente -- e os grandes selos começaram a crescer o olho nele. Mas Tab Benoit preferiu permanecer independente. Gravou LPs ótimos para a Vanguard, Rykodisc e agora para a Telarc Blues, sempre com controle artístico completo sobre seu trabalho. “Medicine” é seu primeiro disco de estúdio em quatro anos, depois de se dedicar intensamente à sua ONG “Voice Of The Wetlands”, criada para angariar fundos para as regiões da Louisiana mais afetadas pelo Furacão Katrina e ajudar a recuperá-las sem desfigurar suas feições originais – Benoit é da cidade de Houma, a 50 kilômetros de New Orleans. Pois aqui em "Medicine" ele une forças ao guitarrista e também compositor Anders Osborn, e os dois convocam músicos de primeira como o tecladista Ivan Neville (dos Neville Brothers), o violinista Michael Doucet (do Beausoleil) e o baterista Brady Blade, desfilando um repertório que comporta praticamente todas as variantes musicais do Deep South americano -- do soul rasgado de “Next To Me” e “Sunrise”, passando pelo cajun impecável de “Can´t You See” e “Mudboat Melissa” para desaguar na hendrixiana faixa título. Sempre esbanjando toneladas de swing, tanto nos vocais quando na guitarra. Para quem ainda não conhece Tab Benoit, “Medicine”, é tanto um excelente ponto de partida quanto um destino sem a menor contra indicação.




















TOMMY CASTRO

PRESENTS THE LEGENDARY RHYTHM & BLUES REVUE LIVE!

Quando o ótimo cantor e guitarrista Tommy Castro comemorou seus 10 anos de carreira solo com o disco “Live At The Fillmore” (2000), muita gente se impressionou com sua destreza em combinar o heavy blues acelerado de seu quarteto com intervenções intensas de uma sessão de metais totalmente endiabrada, com quatro honkers de primeira. O motivo desse estranhamento é que nem mestres como Philip Walker e Albert King ousavam trabalhar em uptempo com uma banda tão extensa, já que a chance de alguma coisa dar errado num improviso ou outro é sempre muito alta. Mas isso, pelo visto, nunca intimidou Tommy Castro, nascido há 55 anos em San José, Califórnia, e escolado musicalmente na gloriosa San Francisco, onde vive há mais de 30 anos. Depois de construir sua carreira na Blind Pig Records, Castro agora é uma das estrelas do elenco da Alligator Records, que decidiu que estava mais do que na hora dele repetir a dose daquele clássico disco ao vivo, só que agora com convidados ilustres que seguiram pipocando nos palcos de vários shows de sua última tournée – entre eles, Janiva Magness, Sista Mônica Parker, Debbie Davies, Rick Estrin e Joe Louis Walker. Deu nesse triunfal e irremediavelmente festivo “Tommy Castro Presents...”, uma dose cavalar de soul e blues acelerado de tirar o fôlego de qualquer um. Seu mentor artístico, o saudoso guitarrista Mike Bloomfield, deve estar orgulhoso de seu pupilo. Onde quer que esteja.




















DUANE EDDY
ROAD TRIP
O que dizer quando uma das figuras mais emblemáticas da era de ouro do rock and roll resolve gravar um disco depois de 24 anos de silêncio? Aos 72 anos de idade, Duane Eddy, grande herói da twang guitar da virada dos anos 1950 para os 1960, aceitou o convite do produtor inglês Richard Hawley e voou de Phoenix, Arizona, para Sheffield, Inglaterra, para gravar essa pequena obra prima chamada “Road Trip”. Totalmente instrumental, atemporalmente pop, é um disco tão delicado e adorável que vai despertar lágrimas na maioria dos guitarristas da cena atual – e isso inclui, claro, os quatro mencionados nos comentários anteriores. As canções do disco são novas. Mas são tão familiares que é como se as conhecêssemos a vida inteira. “Road Trip” é um seríssimo candidato a disco mais agradável do ano. Para quem não tem idéia da importância de Duane Eddy, ele foi, juntamente com Chuck Berry, o grande responsável pela popularização da guitarra elétrica no mundo inteiro no final dos anos 50. E é – e sempre vai ser – o grande mestre do twang – por mais que os fãs dos guitarristas rivais Link Wray e Al Casey insistam que não. Guardadas as devidas proporções, Duane Eddy está para o rock and roll assim como João Gilberto está para o samba. Tanto um quanto o outro operam no útero dos gêneros musicais que escolheram. Um privilégio que, definitivamente, não é para qualquer um.



DISCOGRAFIAS

LPs JIMMIE VAUGHAN
Strange Pleasure (1994)
Out There (1998)
Do You Get The Blues (2001)
Play Jimmy Reed (With Omar Kent Dykes 2007)
Plays Blues, Ballads & Favorites (with Lou Ann Barton 2010)
Plays More Blues, Ballads & Favorites (with Lou Ann Barton 2011)


LPs JIMMY THACKERY
Empty Arms Hotel (1992)
Sideways In Paradise (1993)
Trouble Man (1994)
Wild Night Out (1995)
Switching Gears (1998)
Partners In Crime (1999)
Sinner Street (2000)
We Got It (2002)
True Stories (2003)
Live (2004)
Healin´ Ground (2005)
In the Natural State (2006)
Solid Ice (2007)
Inside Tracks (2008)
Gotta Mind To Travel (2010)
Live In Detroit (2010)
Feel The Heat (2011)


LPs TAB BENOIT
Nice & Warm (1992)
What I Live For (1994)
Standing In the Bank (1995)
Live Swampland Jam (1997)
Homesick For The Road (1999)
These Blues Are All Mine (1999)
Wetlands (2002)
Whiskey Store (2002)
The Sea Saint Sessions (2003)
Whiskey Store Live (2004)
Fever For The Bayou (2005)
Voice Of The Wetlands (2005)
Brother To The Blues (2006)
Power Of the Pontchartrain (2007)
Night Train To Nashville (2008)
Medicine (2011)


LPs TOMMY CASTRO
No Footin´ (1994)
Exception To The Rule (1995)
Can´t Keep A Good Man Down (1997)
Right As Rain (1999)
Live At The Fillmore (2000)
Guilty Of Love (2001)
Gratitude (2003)
Triple Trouble (2003)
Soul Shaker (2005)
Painkiller (2007)
Hard Believer (2009)
Legendary Rhythm & Blues Revue Live! (2011)


LPs DUANE EDDY
Have Twangy Guitar Will Travel (1958)
Especially For You (1959)
The Twang´s The Thang (1959)
Songs Of Our Heritage (1960)
Girls! Girls! Girls! (1961)
Twangy Guitar, Silky Strings (1962)
Twistin´ & Twangin´ (1962)
Twistin´ With Duane Eddy (1962)
Duane Eddy In Person (1963)
Surfin´ (1963)
Twang A Country Song (1963)
Twangin´ Up A Storm (1964)
Lonely Guitar (1964)
Water Skiing (1964)
Duane A Go-Go (1965)
Duane Goes Dylan (1965)
Twangin´ The Golden Hits (1965)
Twangsville (1965)
The Biggest Twang Of All (1966)
The Roaring Twangies (1967)
Duane Eddy (1987)
Road Trip (2011)


PORTA-RETRATOS


“Fiquei muito tempo sem gravar porque tenho composto pouco nos últimos anos e ficava meio acanhado de sair gravando covers. Até que um amigo meu disse: Toque o tipo de música que você quer ouvir. Comecei a fazer isso e este já é meu terceiro disco em 3 anos.” (Jimmie Vaughan)


“De uns tempos para cá, sempre que chega o Inverno, me tranco em casa e saio compondo no Pro-Tools. Tenho conseguido fazer canções bem mais climáticas desde então, e meu repertório está mais aberto musicalmente. Compor no violão termina deixando tudo monocórdico demais. Estou evitando um pouco isso, e acho que está funcionando bem.” (Jimmy Thackery)


“Gosto de gravar ao vivo no estúdio, sem overdubs, sem frescuras, em no máximo 3 takes. Era assim que Lightning Hopkins e John Lee Hooker faziam, e funcionava às mil maravilhas. Como quem manda na minha carreira sou eu, é assim que eu vou pretendo seguir gravando meus discos.” (Tab Benoit)


“Comecei a entender o que era realmente o blues por volta de 1973 quando vi Mike Bloomfield falando de seu aprendizado como músico em Chicago e do prazer que sentiu quando tocou com B B King pela primeira vez. Comprei vários discos de B B King, comecei a ouvi-los sem parar e passei uns bons anos tentando imitá-lo. Nunca mais quis saber de ouvir guitarristas de rock.” (Tommy Castro)


“Ganhei meu primeiro violão quando tinha 5 anos de idade. Meu sonho de criança era ser Roy Rogers ou Gene Autry quando crescesse” (Duane Eddy)


“Eu devo ser um pesadelo para os empresários. Odeio viajar. Gosto de tocar aqui em Austin e redondezas. Gravo o que eu quero e lanço os discos por selos independentes. Além do mais, sou tímido e não tenho paciência para me autopromover. Eles devem me achar um chato”. (Jimmie Vaughan)


“Depois de muitos anos usando apenas a minha boa e velha Fender Stratocaster, decidi começar a usar também uma Gibson Firebird de 50 anos atrás. É uma guitarra admirável. Por muito tempo fiquei sem entender que prazer Johnny Winter tinha em tocar nela. Agora eu sei.” (Jimmy Thackery)


“Meu background musical é totalmente eclético. Sempre gostei de blues, soul, country music e cajun na mesma proporção. Acho que esse equilíbrio se reflete na música que eu faço.” (Tab Benoit)


“Fico feliz em ser reconhecido como um cantor e guitarrista na cena do blues, mas confesso que gostaria de ser um compositor capaz de fazer canções que muita gente quisesse gravar. Estou estudando composição, tentando me aperfeiçoar nisso, e juro que no diaem que isso acontecer – se isso acontecer – eu serei um artista realizado” (Tommy Castro)


“O dia mais feliz da minha vida foi quando, depois de um show, B B King, que eu não conhecia pessoalmente, apareceu no meu camarim e me deu um abraço.” (Duane Eddy)


AMOSTRAS GRÁTIS