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sexta-feira, agosto 24, 2012

JOHN HIATT FAZ 60 ANOS E PRESENTEIA A TODOS NÓS COM UM DISCO MAGNÍFICO.


John Hiatt é um dos grandes compositores americanos vivos.

Bob Dylan, Neil Young, Paul Simon, Randy Newman e ele mereciam estar esculpidos em algum Monte Rushmore qualquer.

Hiatt é craque em criar personagens para incorporar canções que alternam um bom humor impecável com reflexões contundentes sobre meia idade, amor e vida na estrada.

Canções que, diga-se de passagem, são disputadas a tapa por artistas dos mais diversos gêneros.

Como artista solo, John Hiatt é dono de uma carreira riquíssima, que começou em meados dos anos 70 em discos não muito afirmativos gravados na Columbia e na MCA, para então estrear em grande estilo na A&M Records no hoje clássico LP “Bring The Family”, de 1987 -- onde dividiu a cena com seus comparsas Ry Cooder, Nick Lowe e Jim Keltner pela primeira vez, antes de formar o genial grupo Little Village. 

De lá para cá, Hiatt vem gravando discos excelentes. Alguns elétricos e truculentos como "Perfectly Good Guitar", "Beneath This Gruff Exterior" e "Master Of Disaster". Outros acústicos e climáticos como "Walk On" e "Crossing Muddy Waters".

Infelizmente, nenhum deles conseguiu ser um grande sucesso de vendas, o que dificultou bastante a permanência de Hiatt na cena mainstream.

Seu público não crescia e nem encolhia, daí o interesse das gravadoras grandes nele começou a oscilar.



Mas, curiosamente, Hiatt nunca se deixou abalar com isso.

Assim que seu contrato com a Capitol encerrou, logo depois do disco "Little Head", ele simplesmente assinou com o selo independente Vanguard, que o recebeu de braços abertos, e fez a transição de uma cena para outra sem nenhum trauma.

Dois discos mais tarde, assinou com a New West Records e foi fazer companhia para gente como Lucinda Williams, Delbert McClinton, Lyle Lovett, Kris Kristofferson, The Flatlanders e vários outros grandes artistas que também estavam cansados de ser esnobados pelo mercadão musical.

Hoje, aparentemente, Hiatt está feliz e satisfeito, e continua abastecendo artistas com canções magníficas.


Pois bem: "Mystic Pinball", seu vigésimo primeiro álbum em quase 40 anos como artista solo, acaba de sair do forno.

É mais uma bela coleção de canções, que alterna rocks fulminantes (“Bite Marks", "My Business", "You´re The Reason I Need"), números de rhythm and blues rasgados ("I Know How To Lose You", "One Of Them Damn Days", "Give It Up") e baladas contundentes ("No Wicked Grin", "I Just Don´t Know What To Say").   Chega a ser impressionante como Hiatt consegue produzir no espaço curto de um ano um repertório novo tão variado e tão gabaritado como esse.

Eu confesso que fiquei encantado tanto com a faixa de encerramento do disco, "The Blues Can´t Even Find Me" -- fortemente influenciada por Bob Dylan e simplesmente perfeita. Gostei muito também do punch roqueiro truculento de "We´re Alright Now", um número da mesma família de sua "Thing Called Love", que já nasce clássico.

Hiatt, sabiamente, chamou Kevin "Caveman" Shirley para assumir a produção do disco, pois gostou muito do que ele realizou em “Dirty Jeans and Mudslide Hymns”, seu trabalho anterior, lançado no ano passado. Shirley tornou os arranjos das canções mais teatrais e climáticos, pôs a banda para tocar de uma maneira bem aberta e ainda insistiu para que Hiatt escolhessee com um repertório bem eclético para tentar atingir diversas faixas de público. Deu tão certo que ele decidiu repetir a dose.

A banda que trabalha com ele aqui em "Mystic Pinball" é a sua banda de estrada: Doug Lancio (guitarras, mansolin, dobro), Kenneth Blevins (bateria) e Patrick O´Hearn (baixo). Uma opção segura para um repertório "road tested".



Para alguém que já cometeu muitas ousadias ao longo de sua carreira, John Hiatt tem todo o direito de apostar agora num público mais amplo para seu trabalho.

Seu conjunto de obra é vigoroso demais para ser privilégio de apenas alguns iniciados.

Além do mais, "Mystic Pinball" celebra o aniversário de sessenta anos de John Hiatt -- que está não só em excelente forma, como não quer mais saber de perder tempo com experimentos duvidosos daqui por diante.

Ou seja: preparem-se, pois Hiatt não deve dar sossego nos próximos anos com discos anuais, tournées  longas e canções novas na voz de meio mundo por aí.

Sejam bem vindos a essa nova fase na vida de John Hiatt.


BIO-DISCOGRAFIA

WEBSITE PESSOAL

AMOSTRAS GRÁTIS

quarta-feira, abril 25, 2012

NANCY VIEIRA: A GRANDE REVELAÇÃO MUSICAL DE CABO VERDE, PRONTA PARA GANHAR O MUNDO



Ano passado, quando Cesária Évora morreu, muita gente deve ter-se perguntado:

“E agora, o que vai ser da Música de Cabo Verde?”

A ignorância dos brasileiros em relação à música produzida no Continente Africano é tão grande e tão assustadora que deve fazer sentido para muita gente a hipótese maluca de que Cesária Évora fosse a única representante musical daquele país.

E que, depois dela, a música tivesse se calado por lá.


Pois bem: basta visitar o Rio Grande do Norte e perguntar a qualquer um que acompanhe a cena musical de Natal sobre a música de Cabo Verde, e muitos vão citar o nome de uma cantora muito bonita e extremamente talentosa que já cantou duas vezes por lá.

Que, curiosamente, até hoje não circulou pelo resto do Brasil, por absoluta falta de convite. 

Seu nome: Nancy Vieira.

 

Nancy Vieira tem 37 anos de idade, 18 anos de carreira, 4 discos gravados e uma bela reputação por todos os países da Europa, onde se apresenta regularmente.

Sua atitude musical é cosmopolita, e foge das armadilhas do folk de Cabo Verde que limitariam o alcance de sua música no exterior, utilizando o folk africano apenas como ponto de partida para poder levar sua música para onde quiser.

Já dividiu o palco com alguns dos mais emblemáticos nomes da música de Cabo Verde, como Cesária Évora, Bana, Tito Paris, Ildo Lobo, Boy Gê Mendes, entre outros.

Compará-la a Cesária Évora -- como muitos desavisados fazem com frequência -- é quase um absurdo. Equivale a comparar Clementina de Jesus a Margareth Menezes. Não tem o menor cabimento.

Nancy Vieira é fascinada pela música da América do Sul, já gravou com músicos brasileiros e antilhanos, e vive em Lisboa há 23 anos -- desde quando seu pai, Herculano Vieira, assumiu como Embaixador de Cabo Verde em Portugal.

É considerada motivo de muito orgulho, tanto da parte dos caboverdeanos quanto dos portugueses.


“No Amá” é o quarto disco de Nancy Vieira -- o primeiro pelo selo lisboense Lusáfrica --, e é de uma beleza ímpar.

Aqui, a "princesa da voz de oiro", como é conhecida por lá, optou por deixar seu lado compositora de lado e gravar as canções de andou ganhando de presente de alguns dos compositores mais conceituados de Cabo Verde. 

Abre com uma canção adorável chamada “Maylen”, escrita pelo poeta e compositor Mario Lucio, atual Ministro da Cultura de Portugal – uma oportuna introdução a esse ótimo compositor, pela voz privilegiada de sua intérprete favorita.

Ao longo do disco, Nancy flerta com uma variedade enorme de saídas musicais que seguem em direção à África do Sul, para depois apontar para o Atlântico, estabelecendo pontes com a música da vários cantos da América do Sul – em particular, o Rio de Janeiro clássico, de Pixinguinha e de Nelson Cavaquinho, e o Nordeste brasileiro, que ela aparentemente conhece muito bem.

Como a atitude de Nancy é iconoclasta e sua postura musical sempre moderna, ela conduz tranqüilamente esse passeio musical a um porto seguro em números como “Brasil”, um sambinha em tom menor simplesmente encantador, para mais adiante voltar a brincar suavemente com os ritmos africanos em números como “Cigana de Curpin Ligante”.


Fãs mais ardorosos de Cesária Évora talvez considerem Nancy Vieira pop demais.

Talvez argumentem que ela está mais preocupada em agradar ao público europeu do que em resgatar os valores musicais de sua terra.

Tudo bem, cada um pensa o que quiser.

Mas estarão certamente equivocados. Eu, pessoalmente, prefiro confiar nas palavras amigas do Ministro da Cultura de Portugal, Mário Lúcio:

“Dizer que Nancy Vieira é cabo-verdiana poderia ser uma forma de justificar a sua inata musicalidade, mas não ficaria tudo dito. Da sua forma de estar e de interpretar as coisas da vida, com doçura, subtileza, ritmo e firmeza, emerge um caudal de emoções que reflecte uma “melancolia feliz”, espelhando a alma cabo-verdiana. Cabo Verde é inspiração. É causa e efeito no seu canto. O mundo é o auditório e parte integrante de uma miscelânea cultural que a influencia.”


INFO:
 http://www.radioculturaangolana.com/noticias/biografias/393-biografia-nancy-vieira.html 

DISCOGRAFIA:
 http://www.melomusic.nl/artist/english_nancy_vieira.htm#disco224 

WEBSITE OFICIAL:
 http://www.nancyvieira.net/

AMOSTRAS GRÁTIS:

terça-feira, abril 10, 2012

IAN ANDERSON RESGATA O LP MAIS AMBICIOSO DO JETHRO TULL NUMA SEQUÊNCIA IMPECÁVEL


Ian Anderson é um velho conhecido de todos nós.

Líder do Jethro Tull -- a mais bem sucedida banda de folk rock inglesa em todos os tempos --, ele construiu uma carreira sólida com seus companheiros de banda do final dos anos 60 até a virada do século.

De lá para cá, o Jethro Tull parou de gravar discos com material inédito e passou a apenas excursionar pelo mundo. Paralelamente a isso, Anderson se envolveu em projetos solo prioritariamente instrumentais, bem diferentes dos que ele desenvolvia com o Tull, mas nada estranhos aos ouvidos dos velhos fãs da banda.

Até por conta disso, ninguém esperava que, a essa altura do campeonato, Ian Anderson resolvesse resgatar o Jethro Tull e revisitar "Thick As A Brick", o mais famoso dos dois discos conceituais que a banda cometeu na primeira metade dos anos 70, preparando uma sequência dele ambientada quarenta anos mais tarde, na mesma cidadezinha original e com os mesmos personagens do disco clássico.

Pois foi exatamente o que ele fez.

E o resultado, ainda que inferior ao original, é bem honesto e divertido.

"Thick As A Brick 2 - Whatever Happened To Gerald Bostock" é uma aventura musical bastante curiosa, que mostra o jovem poeta Gerald -- que tinha 10 anos de idade em 1972 -- completando 50 anos e revendo o que foi feito de sua vida ao longo de todo esse período de tempo.

Enquanto Gerald Bostock devaneia sobre as coisas que ele nunca teve coragem para realizar, Ian Anderson promove uma viagem musical riquíssima pelo imaginário musical inglês com sua flauta exuberante e sua voz inconfundivel.

Se você é fã de "Thick As A Brick" e do Jethro Tull, pode ficar tranquilo, pois essa sequência não só não deturpa absolutamente nada do espírito original do trabalho da banda, como amplia ainda mais o espectro musical dela.

Ao final da audição, no entanto, fica a pergunta: Será que essa sequência era realmente necessária?

Eu, que não sou purista nem tradicionalista "diehard", acho que não era necessária, realmente.

Mas se "Thick As A Brick 2 - Whatever Happened To Gerald Bostock" conseguir em algum momento arrancar um sorriso de algum velho admirador familiarizado com todo aquele universo, imagino que toda a empreitada de Mr. Anderson e as desventuras de Gerald Bostock já terão encontrado uma razão de ser.



Detalhe: Se a capa original de "Thick As A Brick", de 1972, era um jornal interiorano que se abria, revelando todas as peculiaridades daquela pequena comunidade, a capa de "Thick As A Brick 2 - Whatever Happened To Gerald Bostock" é uma página do website daquele mesmo jornal, ainda ativo depois de tcdo esse tempo, com comentários de leitores e tudo mais. Uma bela idéia, muito bem desenvolvolvida. Vale uma olhada.



INFO:
http://www.allmusic.com/artist/jethro-tull-p4610/biography

DISCOGRAFIA:
http://www.allmusic.com/artist/jethro-tull-p4610/discography

WEBSITE OFICIAL:
http://www.jethrotull.com/

AMOSTRAS GRÁTIS: