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terça-feira, agosto 12, 2014

JOHN HIATT VOLTA MAIS DESPOJADO DO QUE NUNCA EM "TERMS OF MY SURRENDER"


O público de classic rock dos anos 70 costuma abusar do direito de ser conservador.

Quem já trabalhou com emissoras de rádio dedicadas a esse segmento de público sabe bem o quanto é difícil apresentar a eles qualquer coisa que não seja o PF nostálgico que sempre os remete de volta aos "bons e velhos tempos".

Felizmente, vários artistas que podem ser enquadrados nessa categoria, e que permanecem na ativa até hoje, adoram remar contra a maré do "saudosismo confortável". E trazem de tempos em tempos discos repletos de novidades, onde deixam claro que não querem ser prisioneiros dos seus passados gloriosos.


John Hiatt é um que viveu grandes momentos e chegou a flertar com o estrelato nos anos 80.

Hoje ele é um sobrevivente de alma.

Jamais encostou o boi na sombra.

Continua produtivo aos sessenta anos com a mesma verve que tinham aos trinta, somada à sabedoria de estrada que acumulou com o passar dos anos.


Quando estreou em 1974 com "Hangin' Around The Observatory", ele era apenas mais um candidato ao cargo de "novo Bob Dylan" -- que estava em aberto desde que Dylan subiu as montanhas e sumiu da vista de todos no final dos anos 60.

Hiatt tentou de tudo, quebrou a cara em 7 discos que, apesar de bons, não deram em nada, e só foi dar certo como artista solo em 1987, quando aparou as arestas e reduziu suas idéias musicais a um mínimo no disco "Bring The Family", onde contracenou com Ry Cooder, Nick Lowe e Jim Keltner.

Desde então, desistiu de apostar no "aim high, hit big" e vem mantendo seu "low profile" desfilando seus rocks, seus blues e suas baladas em discos às vezes elétricos, outras vezes acústicos, às vezes urgentes, outras vezes perenes.


Como é o caso deste seu novo trabalho, "Terms Of My Surrender", predominantemente acústico, gravado com sua banda de estrada e produzido pelo seu guitarrista Doug Lancio.

Se você é daqueles que reclamaram que o padrão de produção de Kevin Shirley havia afogado os discos anteriores de Hiatt num padrão sonoro roqueiro demais, sorria: esse disco é para você.

Aqui, Hiatt brinca à vontade com sua voz e com sua banda numa sequência deliciosa de números totalmente "laid back".

Talvez falte um single, alguém vai dizer.

Talvez, mas será que isso faz alguma diferença em 2014?

Gostaria de destacar duas canções: a magnífica balada dylaniana "Long Time Comin'", que abre o disco e já nasce clássica, e a adorável faixa título, "Terms Of My Surrender", que lembra aquelas velhas baladas de Hoagy Carmichael dos anos 30 e 40.


Há 40 anos, John Hiatt conquistou um público fiel, sempre ansioso por conhecer as novas canções que ele compôs ao longo do ano.

Mesmo assim, isso não foi o suficiente para a Indústria Fonográfica, que, no início dos Anos 90, rebaixou John Hiatt do mainstream para a cena alternativa, já que a vendagem de seus discos permanecia estática ao longo dos anos. Hoje, depois da crise da Indústria, esse público fiel e essas vendagens estáticas de John Hiatt passaram a valer ouro. Na verdade, sempre valeram, a Indústria é que não se dava conta disso.

A cada dois anos, John Hiatt sempre nos brinda com um disco muito especial.

Mas dessa vez ele caprichou pra valer.




WEBSITE OFICIAL
http://www.johnhiatt.com/

DISCOGRAFIA 
http://www.allmusic.com/artist/john-hiatt-mn0000812046/discography

AMOSTRAS GRÁTIS

sexta-feira, agosto 24, 2012

JOHN HIATT FAZ 60 ANOS E PRESENTEIA A TODOS NÓS COM UM DISCO MAGNÍFICO.


John Hiatt é um dos grandes compositores americanos vivos.

Bob Dylan, Neil Young, Paul Simon, Randy Newman e ele mereciam estar esculpidos em algum Monte Rushmore qualquer.

Hiatt é craque em criar personagens para incorporar canções que alternam um bom humor impecável com reflexões contundentes sobre meia idade, amor e vida na estrada.

Canções que, diga-se de passagem, são disputadas a tapa por artistas dos mais diversos gêneros.

Como artista solo, John Hiatt é dono de uma carreira riquíssima, que começou em meados dos anos 70 em discos não muito afirmativos gravados na Columbia e na MCA, para então estrear em grande estilo na A&M Records no hoje clássico LP “Bring The Family”, de 1987 -- onde dividiu a cena com seus comparsas Ry Cooder, Nick Lowe e Jim Keltner pela primeira vez, antes de formar o genial grupo Little Village. 

De lá para cá, Hiatt vem gravando discos excelentes. Alguns elétricos e truculentos como "Perfectly Good Guitar", "Beneath This Gruff Exterior" e "Master Of Disaster". Outros acústicos e climáticos como "Walk On" e "Crossing Muddy Waters".

Infelizmente, nenhum deles conseguiu ser um grande sucesso de vendas, o que dificultou bastante a permanência de Hiatt na cena mainstream.

Seu público não crescia e nem encolhia, daí o interesse das gravadoras grandes nele começou a oscilar.



Mas, curiosamente, Hiatt nunca se deixou abalar com isso.

Assim que seu contrato com a Capitol encerrou, logo depois do disco "Little Head", ele simplesmente assinou com o selo independente Vanguard, que o recebeu de braços abertos, e fez a transição de uma cena para outra sem nenhum trauma.

Dois discos mais tarde, assinou com a New West Records e foi fazer companhia para gente como Lucinda Williams, Delbert McClinton, Lyle Lovett, Kris Kristofferson, The Flatlanders e vários outros grandes artistas que também estavam cansados de ser esnobados pelo mercadão musical.

Hoje, aparentemente, Hiatt está feliz e satisfeito, e continua abastecendo artistas com canções magníficas.


Pois bem: "Mystic Pinball", seu vigésimo primeiro álbum em quase 40 anos como artista solo, acaba de sair do forno.

É mais uma bela coleção de canções, que alterna rocks fulminantes (“Bite Marks", "My Business", "You´re The Reason I Need"), números de rhythm and blues rasgados ("I Know How To Lose You", "One Of Them Damn Days", "Give It Up") e baladas contundentes ("No Wicked Grin", "I Just Don´t Know What To Say").   Chega a ser impressionante como Hiatt consegue produzir no espaço curto de um ano um repertório novo tão variado e tão gabaritado como esse.

Eu confesso que fiquei encantado tanto com a faixa de encerramento do disco, "The Blues Can´t Even Find Me" -- fortemente influenciada por Bob Dylan e simplesmente perfeita. Gostei muito também do punch roqueiro truculento de "We´re Alright Now", um número da mesma família de sua "Thing Called Love", que já nasce clássico.

Hiatt, sabiamente, chamou Kevin "Caveman" Shirley para assumir a produção do disco, pois gostou muito do que ele realizou em “Dirty Jeans and Mudslide Hymns”, seu trabalho anterior, lançado no ano passado. Shirley tornou os arranjos das canções mais teatrais e climáticos, pôs a banda para tocar de uma maneira bem aberta e ainda insistiu para que Hiatt escolhessee com um repertório bem eclético para tentar atingir diversas faixas de público. Deu tão certo que ele decidiu repetir a dose.

A banda que trabalha com ele aqui em "Mystic Pinball" é a sua banda de estrada: Doug Lancio (guitarras, mansolin, dobro), Kenneth Blevins (bateria) e Patrick O´Hearn (baixo). Uma opção segura para um repertório "road tested".



Para alguém que já cometeu muitas ousadias ao longo de sua carreira, John Hiatt tem todo o direito de apostar agora num público mais amplo para seu trabalho.

Seu conjunto de obra é vigoroso demais para ser privilégio de apenas alguns iniciados.

Além do mais, "Mystic Pinball" celebra o aniversário de sessenta anos de John Hiatt -- que está não só em excelente forma, como não quer mais saber de perder tempo com experimentos duvidosos daqui por diante.

Ou seja: preparem-se, pois Hiatt não deve dar sossego nos próximos anos com discos anuais, tournées  longas e canções novas na voz de meio mundo por aí.

Sejam bem vindos a essa nova fase na vida de John Hiatt.


BIO-DISCOGRAFIA

WEBSITE PESSOAL

AMOSTRAS GRÁTIS

domingo, julho 29, 2012

THE PHANTOM BLUES BAND REAFIRMA SUA ALMA AMERICANA EM "INSIDE OUT"


Quando Henry Saint Clair Fredericks Jr. -- ele mesmo, o fabuloso bluesman do Harlem, Nova York, conhecido por Taj Mahal -- montou uma banda só com craques para acompanhá-lo no disco e na tournée "Dancing The Blues" (1993), num momento particularmente incerto de sua longa carreira, mal ele sabia que estava apadrinhando o surgimento do melhor, mais criativo e mais eclético grupo de blues atualmente em atividade.

Desde então, a Phantom Blues Band tem sido uma combinação curiosa de talentos de vários músicos de estúdio muito tarimbados da região de Memphis, Tennessee, requisitadíssima por artistas como Bonnie Raitt, Joe Cocker e até B B King.

Comandada pelo organista Mike Finnigan -- que participou das bandas de Stephen Stills e Dave Mason nos anos 70 -- e pelo guitarrista Johnny Lee Schell -- colaborador de longa data de artistas como Bonnie Raitt e John Hiatt --, a Phantom Blues Band conta com uma cozinha impecável -- Larry Fulcher no contrabaixo e Tony Braunagel na bateria -- e ainda o sopro suingado do trumpetista Darrell Leonard e do saxofonista Joe Sublett, ambos texanos de Austin.

Juntos, eles trabalham um repertório que usa o blues e o rhythm & blues como ponto de partida para aventuras musicais as mais diversas pelo gospel, pelo jazz, por ritmos latinos, pela country music e, claro, também pelo rock and roll. Detalhe importante: sempre alternando 3 vozes diferentes na linha de frente do repertório  do grupo.

Se esse tipo de formação lembra um certo qunteto canadense que ficou famoso depois de ter sido banda de apoio de Bob Dylan no final dos anos 60, acredite: a semelhança com The Band não é mera coincidência.



Ninguém pode acusar o pessoal da Phantom Blues Band de imediatismo.

Seu primeiro disco, "Out In The Shadows" (2006), foi gravado quando a banda completou 13 anos de atividades, depois de participar de vários discos e tournées de Taj Mahal, e foi concebido com muita cautela, trazendo apenas duas composições dos integrantes e muitos covers de clássicos do rhythm & blues.

O segundo disco, "Footsteps", gravado no ano seguinte, já traz metade do repertório de autoria da banda, revelando o alto gabarito das composições de Finnigan e Schell e a pluralidade musical que torna o som da Phantom Blues band absolutamente inclassificável, mas completamente cativante.

Mas então, cinco anos se passaram sem nenhum disco novo da Phantom Blues Band, deixando no ar a pergunta: o que terá sido feito daquela banda espetacular, que estava indo tão bem?



Pois bem, a resposta a essa e outras perguntas está em "Inside Out", o muito aguardado terceiro disco ds Phantom Blues Band.

São 13 números -- metade de autoria deles próprios -- tão envolventes e tão agradáveis que fazem com que os 52 minutos de duração do disco passem voando.

Não é para menos: a combinação Hammond B3 mais uma guitarra limpa na linha de frente, com uma cozinha bem suingada e dois hornmen cuspindo fogo logo atrás, raras vezes funcionou tão bem quanto com esses experientes rapazes, e, particularmente, no contexto desse disco.

Entre as saídas musicais mais inusitadas estão alguns números soul rasgados como "So Far From Heaven", que conta com Joe Sample, dos Cruzaders, no piano, e "Change", um upbeat irresistível que lembra os áureos tempos da Muscle Shoals Rhythm Section.

Tem também uma releitura contagiante de "Shame, Shame", de Jimmy McCracklin, que resgata em grande estilo a essência do beat pedestre de Memphis, uma das instituições musicais americanas mais relevantes dos Século XX.

E, claro, não podemos esquecer da belíssima valsinha "It´s All Right", que lembra algumas das melhores contribuições de Robbie Robertson para o repertório de The Band.

Acreditem, não é pouca coisa o que temos aqui. É música de primeira grandeza.





A Phantom Blues Band pode não ser ainda uma grande instituição musical americana, mas caminha a passos largos para chegar lá em breve.

Basta mais um ou dois discos ousados e no mesmo padrão de excelência de "Inside Out", e pronto.

Quer um conselho? Não deixe para descobrir isso daqui a 4 ou 5 anos o que você pode descobrir hoje.

Siga a trilha gloriosa da Phantom Blues Band rumo à alma musical da América.



BIO-DISCOGRAFIA
http://www.allmusic.com/artist/phantom-blues-band-mn0000844831

WEBSITE OFICIAL 
http://www.phantombluesband.com/

AMOSTRAS GRÁTIS

quarta-feira, julho 11, 2012

O BLUESMAN SONNY LANDRETH RETORNA NUM ÁLBUM INTEIRAMENTE INSTRUMENTAL


A essa altura do campeonato, é pouco provável que algum aficcionado em blues ainda não conheça -- e não admire muito -- o trabalho do fabuloso guitarrista de Lafayette, Louisiana,

Landreth é uma unanimidade no meio musical.

Como sideman, é o guitarrista que sempre providencia o toque que faltava nos trabalhos de artistas de primeiro time -- como seus amigos John Hiatt, Mark Knopfler e Jimmy Buffett, além do pessoal do grupo Little Feat.

Como artista solo, é um guitarrista dono de um estilo absolutamente único, que mescla o fingerpickin´ do rockabilly com técnicas de slide guitar dos bluesman clássicos. Só que, assim como Knopfler, ele usa sempre todos os dedos de sua mão direita, o que dá um toque jazzístico a seu blend musical de blues, zydeco, cajun, e tudo mais que quiser mergulhar em seu cozido musical à moda da Lousiana.

Como compositor, Sonny é muito bom.

Como cantor, ele até que dá para o gasto.

Já como band-leader, Sonny Landreth é um craque absoluto.

Prova irrefutável disso é a consistência impressionante de seu trabalho solo, em 10 LPs prestigiados por crítica e público que vem gravando de 1973 para cá -- primeiro para selos obscuros da Louisiana e depois para selos independentes prestigiados como Zoo Records, Sugar Hill Records, e agora para a Land Fall Records.


"Elemental Journey" é seu décimo-primeiro LP, e o seu primeiro totalmente instrumental.

Não é um disco de blues.

É um daqueles trabalhos que desafiam classificações mercadológicas.

E é tão eloquente e elegante que deve deixar mesmo fãs de blues mais ortodoxos sem saber como fazer para torcer o nariz para uma aventura musical tão ensolarada e tão delicada.

Tem de tudo um pouco em "Elemental Journey". Desde guitarradas relativamente comedidas ao lado de amigos escandalosos, como Joe Satriani e Eric Johnson, até arranjos muito melódicos -- do trio Steve Cann (teclados), Brian Brignac (bateria) e David Ranson (baixo) -- que ganham texturas musicais densas com o apoio luxuoso da Acadian Symphony Orchestra, prata da casa lá de Lafayette, Louisiana.

E funciona.

Ao longo de seus quarenta e cinco minutos de duração, em momento algum "Elemental Journey" soa arrastado ou tedioso.

É um disco de banda. Conciso. Bem focado musicalmente. Nem parece trabalho solo de guitarrista. Às vezes lembra um pouco certos temas instrumentais de Joe Walsh em seus discos solo nos anos 70 e 80, o que não deixa de ser uma referência um tanto quanto curiosa..


Quem gosta de exageros na guitarra, talvez não se sinta muito à vontade com "Elemental Journey".

É um trabalho muito diferente do habitual de Sonny Landreth.

Mas um trabalho que só o engrandesce em termos musicais.

Eu, pessoalmente, sempre vou preferir Sonny mergulhando de cabeça no blues centenário de seus mestres com sua abordagem musical única e seu tempero bem apimentado -- até porque não existe hoje guitarrista branco de blues mais gabaritado do que ele nos Estados Unidos.

Mas imagino que para Sonny Landreth seja interessante manter portas abertas para os mais diversos segmentos de público, e abraçar desde os aficcionados em Robert Johnson e Skip James, passando por Chet Atkins e Scotty Moore, até chegar nos devotos de Joe Satriani e Eric Johnson.

Está no ramo há 40 anos, deve saber bem onde está pisando.


BIO-DISCOGRAFIA
http://www.allmusic.com/artist/sonny-landreth-mn0000044994

WEBSITE PESSOAL
 http://www.sonnylandreth.com/

AMOSTRAS GRÁTIS

sexta-feira, agosto 05, 2011

DO CONFORTO DA CENA MAINSTREAM ÀS TRINCHEIRAS MUSICAIS DA AMÉRICA (por Chico Marques)

A cada ano que passa, a crise da Indústria Fonográfica "promove" mais e mais artistas da cena mainstream para a cena musical independente.

Para quem não é do meio musical, isso equivale a ser rebaixado para a Segunda Divisão em um Campeonato de Futebol.

Artistas com maior jogo de cintura preferem encarar essa mudança como um rito de passagem. Como uma chance ficar mais próximos do seu público. Mas muitos deles se sentem abandonados e perdem o rumo de suas carreiras. Às vezes até mudam de ramo.

No entanto, não é justo pintar a Indústria Fonográfica como única vilã dessa história. Ela apenas esqueceu de se preparar para tempos bicudos como os atuais, canibalizou as "medias" físicas de que dispunha e sucumbiu pouco a pouco depois que os arquivos musicais começaram a passear livres, leves e soltos pela internet.

Bem ou mal, a Indústria sempre ofereceu a seus artistas um padrão de trabalho invejável, com adiantamentos sobre vendas futuras, financiamentos para produções, etc, etc, etc. Um disco que eventualmente vendesse pouco podia ser compensado com um outro disco, mais acessível ao grande público, no ano seguinte. E daí por diante.

Ou seja: a Indústria Fonográfica sempre tentou ser parceira do artista, tanto no sucesso quanto no fiasco.

Algumas vezes, até conseguiu.

O problema é que ser independente é muito trabalhoso. Exige, entre outras coisas, que o artista se estruture de forma minuciosa antes de colocar seu disco no mercado por conta própria. Ele não tem mais a opção de não ligar muito para os negócios, nem de errar o timing do lançamento do disco, e muito menos de se atrapalhar ao longo do processo. Qualquer pequeno erro de cálculo pode desencadear um desastre de proporções terríveis.

Que o digam John Hiatt e Matthew Sweet, que sempre pertenceram à cena mainstream, mas agora gravam para selos pequenos por contingências de mercado, mantendo o controle criativo e orçamentário de seus trabalhos.

Que o digam também Randall Bramblett e Richard Buckner, que sempre viveram inseridos na cena mainstream indiretamente, por envolvimento com outros artistas. Eles agora gravam para selos independentes por opção, apostando sempre no “menos é mais” e no "não se meta no que estou fazendo".

Além desses quatro grandes artistas -- que não desistem jamais, e chegam agora com novos discos vigorosos --, temos também no cardápio dessa semana de Alto&Claro o ator hollywoodiano Jeff Bridges, que acaba de se reinventar artisticamente como cantor, guitarrista e compositor num disco alt country surpreendente, para a Blue Note Records.

Vamos a eles:


















JOHN HIATT

DIRTY JEANS & MUDSLIDE HYMNS
(New West Records)
John Hiatt é um dos grandes compositores americanos vivos. Bob Dylan, Neil Young, Paul Simon, Randy Newman e ele mereciam estar esculpidos numa espécie de Monte Rushmore. Este é seu vigésimo álbum em 37 anos como artista solo. Hiatt é dono de uma carreira riquíssima, que passou por inúmeros altos e baixos até que ele encontrasse o Norte no hoje clássico LP “Bring The Family”, de 1987 -- onde dividiu a cena com seus amigos Ry Cooder, Nick Lowe e Jim Keltner pela primeira vez. De lá para cá, vem gravando discos impecáveis, tanto para gravadoras grandes quanto para selos menores. “Dirty Jeans & Mudlide Hymns”, que acaba de sair do forno, não foge à regra. É mais uma bela coleção de canções, que alterna rocks fulminantes (“Damn This Town”, “Detroit Made”), baladas country delicadíssimas (“Til I Get My Lovin' Back”, “Adios To Califórnia”) e números com um leve toque soul (“I Love That Girl”, “I Don´t Wanna Leave You Now”). Alguns críticos torceram o nariz para a produção de Kevin Shirley, alegando que essas canções, por serem muito intensas, mereciam um approach mais contundente da parte dele. Eu, pessoalmente, não vejo nada de inadequado no tom sereno do disco. Para alguém que já cometeu muitas ousadias ao longo de sua carreira, John Hiatt tem todo o direito de apostar agora num público mais amplo para seu trabalho, até porque seu conjunto de obra é vigoroso demais para ser privilégio apenas de alguns iniciados. E por falar em vigor, o número de encerramento do disco, “When New York Had Her Heart Broke”, sobre o 11 de Setembro, é uma pequena obra prima do folk urbano, que reafirma John Hiatt como um compositor de primeira grandeza. “Dirty Jeans & Mudslide Hymns” serve para atestar isso mais uma vez.


















MATTHEW SWEET
MODERN ART
(Missing Piece Records)
Há exatos 20 anos, Matthew Sweet sacodia a cena musical com “Girlfriend”, um LP brilhante onde mesclava o power pop clássico do Badfinger e do Big Star com as guitarras dissonantes dos discípulos do Velvet Underground Richard Hell e Richard Quine. O resultado foi tão expressivo que, além de fazer de “Girlfriend” um dos 10 discos mais influentes da década de 1990, virou um “hard act to follow” para Matthew Sweet. Seus discos seguintes, por melhores que fossem, acabavam sempre ofuscados quando comparados à excelência de “Girlfriend”. É pouco provável que “Modern Art” consiga reverter esse quadro, apesar de ser, na minha opinião, seu melhor disco desde “In Reverse”, de 1999. Aqui, Matthew passeia por diversas sonoridades familiares em uma ótima coleção de canções novas – algumas bem grudentas, outras mais climáticas. Tem um pouco de tudo or aqui: blues (“Ladyfingers”), harmonias vocais à moda dos Byrds (“She Walks The Night”) e até uma homenagem muito inspirada, com um belíssimo trabalho de guitarra, a seu mentor Alex Chilton, falecido dois anos atrás (“A Little Death”). É um disco extremamente coeso e consistente, que ressalta mais uma vez o amadurecimento musical de Matthew Sweet como compositor, performer e band leader. “Modern Art” pode não tem o frescor quase juvenil de “Girlfriend”, mas vale por uma balzaquiana bem sarada. Um disco apetitoso e sem contra indicações.




















RICHARD BUCKNER
OUR BLOOD
(Merge Records)
Sejam bem vindos à primeira coleção de canções de Richard Buckner em seis anos. Aconteceu de tudo ao longo da gravação desse disco: primeiro um problema grave com o equipamento analógico em que Buckner gravou as bases, depois o roubo do laptop com as canções ainda não masterizadas, e, para completar, um indiciamento por suspeita de assassinato (que acabou dando em nada) pela polícia da cidadezinha onde mora, perto de Buffalo, NY. As encrencas parecem perseguir Richard Buckner. Seu universo sombrio resiste bravamente ao passar dos anos, sempre em flerte aberto com o trágico e o sublime. Os títulos das canções são curtos e grossos: “Traitor”, “Confession”, “Thief”, “Escape”, ‘Witness”. Como de hábito, Buckner toca todos os instrumentos, exceto o pedal steel (a cargo de Buddy Cage) e as maracas (por Steve Shelley, do Sonic Youth). Não há muito mais o que dizer, a não ser que “Our Blood” é um trabalho muito intenso e consistente, mas não deve conseguir ampliar o espectro de público de Richard Buckner. Seus velhos admiradores, no entanto, devem estar muito satisfeitos com seu retorno. Mas não felizes. Felicidade, definitivamente, é um tema inimaginável para o soturno Richard Buckner -- o Raymond Carver do rock and roll.




















RANDALL BRAMBLETT

THE MEANTIME
(New West Records)
Randall Bramblett é um dos artistas americanos mais completos dos últimos 35 anos. Músico de estúdio disputadíssimo, guitarrista, tecladista, saxofonista, compositor de mão cheia, dono de uma bela voz... são tantos os seus atributos que fica difícil entender o porquê de sua carreira solo ainda não ter decolado. O caso é que Randall não aparenta estar muito disposto a fazer concessões ao mercado -- apesar de seu trabalho estar longe de ser considerado “difícil”. Seus dois belos LPs solo gravados em meados dos anos 70 foram fiascos de vendas, mas forneceram as credenciais necessárias para que, entre uma sessão de estúdio e outra, ele fosse convidado para integrar bandas do porte do Sea Level e do Traffic, além de participar de jams com os Allman Brothers e o Grateful Dead. Sua carreira solo hibernou quase vinte anos, mas foi retomada em 2001 numa série impecável de discos para a New West Records, onde desfila seu blend de jazz, blues e pop classudo em canções delicadas, porém intensas, que fazem bonito no repertório de qualquer cantor ou cantora da cena atual. Nesse novo trabalho ele optou por comandar tudo no piano com o suporte do baixista Chris Englauser e do baterista Gerry Hansen, mais Amy Carlson no violino e na viola clássica. O resultado é extremamente climático, num padrão semelhante ao do trabalho atual de Ronnie Robertson, ex-The Band, que ganha uma dimensão de grande arte em números como “The Great Scheme Of Things” e “Disconnected”, ambos magníficos. Quer conhecer um grande artista, do mesmo porte de Donald Fagen e Bruce Hornsby? Anote aí, o nome dele é Randall Bramblett.




















JEFF BRIDGES
JEFF BRIDGES
(Blue Note Records)
Quem viu (e aprovou) Jeff Bridges interpretando o cantor country texano Bad Blake no filme “Crazy Heart”, e cantando canções de seu amigo e produtor T-Bone Burnett, com certeza vai vibrar com isso aqui. Apesar da Imprensa Musical estar saudando esse LP como o trabalho de estréia de Jeff Bridges, é na verdade seu terceiro disco – existe um outro gravado em 2000, não tão bom quanto este, que passou despercebido na época, além, é claro, da trilha sonora de “Crazy Heart”. A orientação musical desse álbum, no entanto, não segue a cartilha musical de cantores-compositores como Townes Van Zandt e Kris Kristofferson, como em “Crazy Heart”. Aqui as referências são mais roqueiras, e as canções mais encorpadas e sombrias. Jeff Bridges viaja bem num repertório parte autoral, parte escolhido por T-Bone Burnett, que chuta para vários lados, e tanto nos remete aos Everly Brothers (“What A Little Bit Of Love Can Do”) quanto ao Eric Clapton mais baladeiro (“Nothing Yet”) e ao country rasgado de Hank Williams Jr. (“How I Missed The Point”). É um disco admirável e muito envolvente, onde a voz pequena de Bridges passeia com segurança por uma paisagem musical esboçada sob medida para ele. É comum atores enveredarem por carreiras musicais por mera vaidade, ou então apenas para faturar uns trocados a mais. Não é o caso de Jeff Bridges. Sua carreira musical não só funciona, como é de uma dignidade artística à toda prova.

DISCOGRAFIAS

LPs JOHN HIATT
Hangin’ Around the Observatory (1974)
Overcoats (1975)
Slug Line (1979)
Tow Bit Monsters (1980)
All Of A Sudden (1982)
Riding With The King (1983)
Warming Up The Ice Age (1985)
Bring The Family (1987)
Slow Turning (1988)
Stolen Moments (1990)
Perfectly Good Guitar (1993)
Live At Budokan (1994)
Walk On (1995)
Little Head (1997)
Crossing Muddy Waters (2000)
The Tiki Bar Is Open (2001)
Beneath This Gruff Exterior (2003)
Master Of Disaster (2005)
Live From Austin TX (2006)
Same Old Man (2008)
The Open Road (2010)
Dirty Jeans & Mudslide Hymns (2011)

LPs MATTHEW SWEET
Inside (1986)
Earth (1989)
Girlfriend (1991)
Altered Beast (1993)
100% Fun (1995)
Blue Sky On Mars (1997)
In Reverse (1999)
Kimi Ga Suki (2001)
The Thorns (2003)
Living Things (2004)
Under The Covers Vol.1 (2006)
Sunshine Lies (2008)
Under The Covers Vol.2 (2009)
Modern Art (2011)

LPs RICHARD BUCKNER
Bloomed (1994)
Unreleased (1995)
Devotion + Doubt (1997)
Since (1998)
Richard Buckner (2000)
The Hill (2000)
Impasse (2002)
Dents & Shells (2004)
Sir Dark Invader vs The Fanglord (2005)
Meadow (2006)
Our Blood (2011)

LPs RANDALL BRAMBLETT
That Other Mile (1975)
Light Of The Night (1976)
See Through Me (1998)
Thin Places (2004)
Rich Someday (2006)
Now It's Tomorrow (2008)
The Meantime (2011)

LPs JEFF BRIDGES
Be Here Soon (2000)
Crazy Heart OST (2009)
Jeff Bridges (2011)


PORTA-RETRATOS

“Normalmente, não costumo compor quando estou na estrada. Fico muito tenso, são muitas preocupações para que nada dê errado, e é complicado ser criativo em momentos assim. Gosto mesmo é de compor relaxado em casa. Mas, de vez em quando, o songwriting angel me visita durante uma tournée e aí não tem jeito.” (John Hiatt)

“As canções do meu disco anterior foram compostas muito rapidamente. Levei mais tempo para gravá-las do que para compô-las. Já nesse disco novo aconteceu o oposto. Cada disco que fiz tem uma história própria. São padrões que nunca se repetem. (Matthew Sweet)

“Steve Earle, Kelly Willis e eu tivemos momentos terríveis na MCA Records. Aquilo lá é um verdadeiro depósito de idiotas com funções executivas. Que ironia: foi a única gravadora grande que me quis, e é a última no mundo com a qual desejo trabalhar no futuro.” (Richard Buckner)

“Às vezes dou Graças a Deus por não vender muitos discos. Assim, a gravadora não se mete no processo criativo e me deixa fazer o que quero. Quando trabalhava ao lado de Steve Winwood, eu via a pressão em torno dele para repetir o sucesso do disco anterior. Nunca quis passar por aquele sufoco. É muito desagradável. (Randall Bramblett)

“Estou com 61 anos. Não consigo imaginar uma idade melhor do que essa para iniciar uma nova carreira” (Jeff Bridges)

“Dois caras que me agradam muito na cena atual?
Ron Sexsmith e Jay Farrar (do grupo Son Volt).
Duas mulheres? P J Harvey e Liz Phair.
(John Hiatt)


“Essa coisa de ser um artista totalmente independente ainda me assusta um pouco. Dá uma sensação de desamparo. Fico com medo de não conseguir faturar o suficiente para conseguir bancar a hipoteca da minha casa, em Los Angeles, ou de arcar sozinho com um disco que venha a ser fiasco de vendas. Mas, apesar de todas essas pequenas fobias, até que estou me saindo bem, não posso reclamar. (Matthew Sweet)

“Meus álbuns quase sempre atraem confusões, e demoram para ficar prontos. Verdade seja dita: eu não sou uma pessoa fácil de se lidar. Mas sempre sei onde quero chegar. Só me atrapalho um pouco no como chegar” (Richard Buckner)

“Gosto de trabalhar na Geórgia, onde morei quase minha vida inteira. Já tentei viver em Los Angeles e em Nova York. Não me acertei nesses lugares. Tentei morar em Nashville e quase enlouqueci. Meu lugar é em Atlanta, mesmo. (Randall Bramblett)

“Se alguma idéia maluca fica parada na minha cabeça por algum tempo, não tem jeito: tenho que colocá-la em prática de alguma maneira. Foi assim com esse disco. Por sorte, tive o apoio integral de T-Bone Burnett nessa empreitada.” (Jeff Bridges)


AMOSTRAS GRÁTIS
JOHN HIATT


AMOSTRAS GRÁTIS
MATTHEW SWEET




AMOSTRAS GRÁTIS
RICHARD BUCKNER



AMOSTRAS GRÁTIS
RANDALL BRAMBLETT



AMOSTRAS GRÁTIS
JEFF BRIDGES


quarta-feira, maio 04, 2011

SENHORAS E SENHORES... STEVE EARLE


“Meu herói musical sempre foi Townes Van Zant. Fugi para Houston, Texas, aos 16 anos para vê-lo tocar. Depois de 2 anos assistindo a todos os shows que ele fazia na cidade -- sem ter coragem de tentar conhecê-lo pessoalmente --, tive o prazer de tê-lo na platéia de um dos meus primeiros shows. Só então nos falamos pela primeira vez. Nos tornamos grandes amigos.”


“É engraçado virar novaiorquino depois de tantos anos circulando pela América. Sempre encerrei minhas tournées aqui, e nunca entendi porque. Agora tudo faz sentido.”


“Tive o prazer de conviver bastante com meus compositores favoritos: Townes, Bob Dylan, John Prine, Guy Clark, John Hiatt... Só lamento não ter idade para ter convivido com Lightnin´ Hopkins e Mance Lipscomb.”


“Allison Moorer é talentosíssima. Nunca imaginei que conviver 24 horas por dia com uma compositora e cantora pudesse ser tão legal e tão divertido.”


‘Eu adoro country music. Mesmo meus discos mais roqueiros tem aquele jeitão “fingerpickin´” de tocar violão. É algo que eu simplesmente não consigo evitar. Aliás, nem quero.”



LPS STEVE EARLE

Guitar Town (1986)
Exit O (1987)
Copperhead Road (1988)
The Hard Way (1990)
Shut Up And Die Like An Aviator (1992)
BBC Radio 1 Live In Concert (1992)
Train A Comin´(1995)
I Feel Alright (1996)
El Corazón (1997)
The Mountain (1999)
Transcendental Blues (2000)
Together At Bluebird Cafe (2001)
Jerusalem (2002)
Just An American Boy (2003)
The Revolution Starts Now (2004)
Live From Austin TX (2004)
Live At Montreux (2005)
Washington Square Serenade (2007)
Townes (2009)
I´ll Never Get Out Of This World Alive (2011)

WEBSITE OFICIAL

http://steveearle.com/