sábado, abril 30, 2011

ROBBIE ROBERTSON E FELICE BROTHERS EVOCAM O LEGADO MUSICAL DO THE BAND EM SEUS NOVOS LPs (por Chico Marques)


Sempre que algum ícone pop sai de cena, é comum o jornalismo musical apelar para uma manchete bombástica e meio ridícula: “O Dia Em Que A Música Morreu”. Foi assim quando Buddy Holly morreu, e também com Elvis Presley, John Lennon e mesmo Michael Jackson.

Mas quando o cantor, compositor e guitarrista Robbie Robertson anunciou em 1976, no documentário “The Last Waltz” de Martin Scorsese, que The Band -- a grande banda canadense-naturalizada-americana da qual fez parte -- estava encerrando atividades de forma consensual e pacífica depois de mais de 15 anos de carreira em uma festa com jantar de gala e tudo mais no Estádio Winterland, em San Francisco, nenhum jornalista ousou recorrer a esse clichê.


The Band – que tinha esse nome por ser “a banda” que ajudou Bob Dylan a cunhar (a ferro e fogo) sua persona roqueira depois de anos como um artista folk muito bem sucedido -- era considerada por crítica e público o que havia de mais arrojado e criativo na cena musical dos anos 60 e 70, e se despediu com uma frase lapidar de Robbie: “A estrada se tornou um meio de vida impossível”. A alegação era que tanto ele quanto seus parceiros Garth Hudson, Rick Danko, Levon Helm e Richard Manuel estavam esgotados, e ansiosos por experimentar aventuras musicais diferentes de tudo o que The Band havia realizado até então.


Ma, infelizmente, as carreiras solo dos integrantes de The Band saíram pela culatra e resultaram em fiascos artísticos e comerciais. Para pagar as dívidas desses fiascos, Levon Helm aventou a hipótese de trazer The Band de volta à ativa no início dos anos 1980. Todos toparam na hora, menos Robbie Robertson, que estava satisfeito produzindo discos para amigos como Eric Clapton e trilhas sonoras para os filmes de Martin Scorsese. Além do mais, Robbie se recuperava de muitos anos de uso constante de cocaína e destilados, e – como já havia declarado antes -- queria distancia das rotinas nada saudáveis da estrada.

Então, The Band voltou. Sem Robbie Robertson. Gravaram 3 discos bonitos, mas nada memoráveis. Fizeram tournées irrelevantes, que em nada lembravam os anos de glória do grupo. Nesse meio tempo, em uma crise de depressão aguda, o pianista Richard Manuel cometeu suicídio. No final dos anos 1990, o baixista Rick Danko morreu dormindo depois de uma festa de aniversário repleta de excessos. Foi quando a ficha caiu para Levon Helm: The Band acabara em “The Last Waltz”. O que veio depois disso foi apenas a prorrogação e a disputa de penaltys de um jogo terminado 15 anos atrás.


Mas o legado musical de The Band permanece. O termo “Americana” tão em voga atualmente foi criado a partir da dificuldade em classificar a música deles – que mesclava country, folk, gospel, rock and roll, jazz e blues sem jamais perder sua personalidade musical. Tudo o que eles gravaram entre 1967 e 1975 – incluíndo os discos com Bob Dylan e Muddy Waters -- é fundamental, e pode ser ouvido ainda hoje com muito prazer, pois não ficou datado como a maioria da música produzida na época. Além do mais, as canções de Robbie Robertson sempre tiveram uma grandeza literária e musical indiscutíveis. Seu amigo e parceiro musical Bob Dylan era sempre o primeiro a ressaltar as virtudes de canções lindíssimas como “Unfaithful Servant”, “The Weight”, “Acadian Driftwood” e “The Night They Drove Old Dixie Down”. Não é pouca coisa.



Robbie Robertson custou a embarcar numa carreira solo, até porque nunca achou que sua voz fosse boa o suficiente para segurar um LP inteiro. Sua estréia solo em 1987 -- um projeto caríssimo que David Geffen pagou para ver -- é uma ótima coleção de canções que caberiam em qualquer disco do The Band, mas que vinham embaladas em arranjos estranhamente orgânicos como os que Brian Eno e Daniel Lanois criavam para os discos de Bob Dylan e do U2. Seu segundo LP, “Storyville”, já veio bem diferente, com investigações musicais sobre a música moderna de New Orleans. Em seguida, Robbie – que tem sangue Mohawk – reuniu numa mesma banda artistas com antepassados em várias tribos indígenas e criou o belíssimo “Music For The Native Americans”, uma viagem modernosa inspirada pela música de seus ancestrais, que proseguiu em “Contract From The Underworld With Red Boy”, dessa vez utilizando música eletrônica e uma série de elementos musicais cada vez mais distantes de seu trabalho com The Band e dos fãs mais ferrenhos da banda.


O fiasco comercial desses dois últimos discos fez com que Robbie Robertson ficasse mais de dez anos sem pensar em retomar sua carreira solo. Já que não podia fazer o que queria como artista solo, tratou de continuar como produtor e compositor de trilhas sonoras para o cinema. Mas então, dois anos atrás, numa visita do amigo Eric Clapton a Los Angeles, os dois se reencontraram e fizeram algo que há muito não faziam: tocar juntos num estúdio. Esboçaram algumas canções novas nesses dois ou três dias, e daí seguiram para outros compromissos. Meses mais tarde, ouvindo essas gravações, Robbie ficou assombrado com a qualidade do que haviam feito de forma tão descompromissada. Combinaram um reencontro em Londres e retomaram os trabalhos com o suporte de Steve Winwood. A idéia inicial era fazer um disco assinado pelos dois, como os que Eric havia feito com B B King e J J Cale, mas Eric, generoso como sempre, descartou a idéia. Fez questão que elas seguissem para um disco assinado unicamente por Robbie Robertson, para reativar sua carreira solo com chave de ouro. Então Robbie voltou para Los Angeles, acrescentou mais algumas canções àquelas sessões de gravação, e finalizou esse explêndido “How To Become Clairvoyant” -- que, na essência, lembra um pouco seu LP de 1987, mas ostenta uma leveza musical que inexiste em seus trabalhos solo anteriores, e que era constante nos discos do The Band.

Falando em The Band, e na influência que eles ainda exercem na cena musical americana, é um prazer ver uma banda como The Felice Brothers crescendo disco após disco dentro daquela mesma tradição musical. Se The Band desabrochou no ambiente descontraído da casa cor de rosa de Woodstock em que Bob Dylan e amigos se esconderam entre 1966 e 1968, os Felice Brothers surgiram não muito longe dali, no alto das Montanhas Catskill, no norte do Estado de Nova York.



Filhos de um carpinteiro, os irmãos Ian, James e Simone Felice recebiam em casa todo fim de semana os amigos Greg Farley, Christmas Clapton e David Turberville e saíam pela cidade tocando country, folk, rock and roll e até jazz de forma muito bem humorada em calçadas e lugares abertos. Como eram músicos muito bons e divertidos, começaram a ser convidados para tocar um cidades vizinhas. Não muito tempo depois, já estavam todos morando num pequeno apartamento no Brooklyn e tocando nas ruas de Manhattan, entre as estações do metrô da Rua 42, Union Square e Greenwich Village. O ano era 2005, e os Felice Brothers rapidamente conseguiram um contrato de gravação com um selo independente, Team Love Records, ganhando pouco a pouco projeção na cena independente do país inteiro.


Os Felice Brothers são absolutamente incansáveis. Acabam de lançar seu oitavo LP em seis anos, “Celebration, Florida”, e estão finalmente estreando num selo maior, o Fat Possum, que possui muitos artistas de blues e de punk hardcore. É o trabalho mais experimental da banda até agora. Os acordeons e violinos habituais foram acrescidos de arranjos de metais e um piano bem jazzístico, e as canções falam sobre coisas triviais (“Honda Civic”, “Container Ship”), momentos felizes (“Oliver Stone”, “Best I Ever Had”) e a vida desencanada que levavam em Catskill (“Cus's Catskill Gym”, “Back To The Dancehalls”). Praticamente impossível tentar definir a música dos Felice Brothers em palavras. O jeito é ouvir a banda com atenção e tirar suas próprias conclusões. A música deles é ousada e corajosa, e se você se habituar com ela com certeza vai acabar virando admirador incondicional do trabalho que eles desenvolvem. Comigo, ao menos, foi assim que aconteceu.


É engraçado como essa coisa de viver na estrada tocando cada dia numa cidade afeta cada banda de uma maneira diferente. Para Robbie Robertson, nos tempos do The Band, foi uma experiência terrível. Seu novo disco traz uma canção, “This Is Where I Get Off”, que fala justamente disso, e de como ele teve que deixar seus velhos companheiros de lado por não conseguir seguir em frente. Os Felice Brothers, por sua vez, vivem o extremo oposto disso. Encaram a estrada de forma saudável e não conseguem esconder o prazer de estar cada dia num lugar diferente. Basta dizer que eles até hoje eles promovem seus shows tocando horas antes na calçada em frente aos teatros em que se apresentam à noite.

Alguém aí conhece alguma banda que tope fazer esse tipo de coisa hoje em dia?



HIGHLIGHTS
ROBBIE ROBERTSON - "HOW TO BECOME CLAIRVOYANT"






ENTREVISTA
ROBBIE ROBERTSON



HIGHLIGHTS
FELICE BROTHERS - "CELEBRATION, FLORIDA"




3 comentários:

Filipe Trielli disse...

Sou fãzasso. Vou procurar na minha loja virtual preferrida (xtorrent).

O Blog tá muito bom. Parabéns.

Chico Marques disse...

Valeu, Filipe. Vindo de você, é sempre uma honra. Obrigado pela divulgação.

Anônimo disse...

parabéns pelo texto sobre The Band, R R... e me apresentar a Felice

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