quarta-feira, julho 06, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "STRANGE LITTLE BIRDS", NOVO LP DO GARBAGE


Lembro como se fosse ontem quando recebi na Enseada FM o disco de estréia do Garbage, por volta de 1996.

O release sinalizava um provável embuste: banda americana com cantora escocesa -- ex-junkie e ex-prostituta -- produzida pelo baterista da banda Butch Vig – responsável pela produção do clássico instantâneo “Nevermind”, do Nirvana –, que faz um mix de pop eletrônico com rock and roll rasgado.

Para não perder tempo, fui direto nas duas faixas recomendadas no release.

A primeira, “Only Happy When It Rains”, grudou e nunca mais saiu da minha cabeça, até hoje.

A segunda, “Stupid Girl”, me impressionou quase tanto quanto a primeira.

Depois disso, minha objetividade foi por água abaixo e parei tudo o que estava fazendo para ouvir o disco inteiro na íntegra.

Fiquei completamente boquiaberto não só com o vigor da banda estreante, mas também com a expertise de Butch Vig em conseguir repetir com outra banda o mesmo padrão poderoso de produção utilizado em “Nevermind”.

Desse dia em diante, nunca mais deixei de aguardar um novo disco do Garbage com alguma ansiedade.


O Garbage é uma banda complicada e de muito difícil trato.

Não é à toa que, em 18 anos de carreira, eles conseguiram lançar apenas 6 discos.

Escolheram o nome “Garbage” depois de  de um comentário que ouviram de um executivo de uma gravadora, que achou que o trabalho deles tinha “jeito de lixo”                          .

No início, eram apenas o baterista Butch Vig, o baixista Duke Erickson e o guitarrista Steve Marker, todos tarimbados como compositores e também como produtores. Vig era o cantor da banda em princípio, mas a coisa não funcionava direito, e todos concordaram que o ideal seria tentar achar uma cantora para o posto.

Um dia, assistindo a um clip do grupo inglês Angelfish na MTV, Steve Marker começou a gritar: “Essa é a cantora que precisamos!”.


Era Shirley Manson, que foi localizada rapidamente em Londres pelo telefone, e que custou a acreditar que estava sendo procurada pelo produtor de “Nevermind” do Nirvana.

Manson largou o Angelfish e veio para Wisconsin, base do Garbage, e todos começaram a trabalhar juntos nos primeiros demos da banda, que eram enviados para as gravadoras sempre omitindo o nome – muito conhecido, então -- de Butch Vig como baterista.

Assinaram com dois selos: um europeu e outro americano, e lançaram seu primeiro LP  -- que foi um sucesso estrondoso, ganhando disco de platina tanto nos EUA quanto na Inglaterra e na Austrália.

Garbage veio seguido do igualmente ótimo Version 2.0 em 1998.

Em 2001, lançaram Beautiful Garbage no mês dos ataques às torres do World Trade Center, e a promoção do disco meio que se perdeu em meio aos acontecimentos.Era um disco leve e descompromissado num momento da história que de leve e descompromissado não tinha absolutamente nada.

Foi o primeiro fiasco comercial da banda nos EUA e na Inglaterra – e, mesmo assim, um fiasco relativo, já que conseguiu vender quase 4 milhões de cópias nos EUA, Inglaterra e Austrália, e entrou na listas dos 10 Melhores Discos de 2011 da Rolling Stone.

Depois veio Bleed Like Me, muito bom, mas meio confuso e mal resolvido, perdido em meio às doses cavalares de "psicagem” que rolavam entre os integrantes da banda, e que acabaram levando o Garbage a um colapso.


E agora, eis que eles ressurgem nesse atmosférico e meditativo Strange Little Birds (um lançamento StunVolume Records), um LP bem diferente do trabalho anterior da banda: o vigoroso e truculento Not Your Kind Of People (2012).

É o disco menos urgente do Garbage até o presente momento, e vem repleto de texturas densas de guitarras e sintetizadores somadas ao jeito de cantar sempre performático de Shirley Manson -- cuja voz está soando bem diferente neste disco, mixada muito acima da massa sonora produzida pelos rapazes da banda.

É o segundo disco totalmente independente do Garbage, sem o apoio de distribuição de nenhum selo grande. Está saindo pela Stunvolume Records, da própria banda, e sendo oferecido em vários formatos através do website garbage.com 

Se eu tiver que destacar dois números de  Strange Little Birds que me agradaram em especial, eu escolheria um rockão chamado Empty e uma balada que lembra alguns experimentos de Robert Smith à frente do Cure nos Anos 90, intitulada Blackout” e a delicadíssima “Sugar”. As duas -- cada uma à sua maneira -- são excessões à regra num disco que é pouco caraterístico do som da banda. Mas que faz sentido na medida em que o Garbage nunca aceitou fazer concessões ao mercado e sempre fez questão de manter sua independência criativa como ponto inegociável.

Um belo e estranho disco, de uma banda que não cansa de surpreender.



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domingo, julho 03, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "A CURE FOR LONELINESS", NOVO LP DE PETER WOLF

por Chico Marques


Pode ser difícil de acreditar para os mais jovens, mas, ao longo de toda a primeira metade da década de 70, Peter Wolf brilhava na linha de frente de uma banda sensacional -- hoje meio esquecida -- que promovia performances ao vivo tão vigorosas a ponto de rivalizar diretamente com os Rolling Stones.

A J. Geils Band era implacável em todos sentidos: tinha um repertório demolidor focado no rhythm and blues dos Anos 60 mas com uma velocidade típica dos Anos 70, quase todo assinado pelo engraçadíssimo cantor Peter Wolf e pelo endiabrado tecladista Seth Justman.

Claro que a harmonica anfetaminada de Magic Dick, o suingue acelerado da guitarra de Jay Geils e a cozinha rapidíssima de Stephen Jo Bladd e Daniel Klein sempre fizeram toda a diferença.



Mas diferenças artísticas e pessoais fizeram com que Peter Wolf deixasse a banda no início dos Anos 80 para seguir carreira solo, justo no momento em que a banda vendia milhões de discos.

Eles bem que tentaram seguir em frente sem Wolf, mas não teve jeito:

Ele não era apenas a voz da banda, era também a cara dela. 



Não se pode dizer que a carreira solo de Peter Wolf nunca tenha prosperado como merecia.

Mas o fato é que ela nunca decolou para valer rumo ao estrelato, até porque Wolf nunca facilitou muito as coisas para agradar ao grande público.

Fiel ao rhythm and blues praticado desde os tempos da J Geils Band, Wolf começou a experimentar novas saídas musicais como compositor, trabalhando com diversos parceiros e mudando de mala e cuia para a cena independente para poder trabalhar em paz, sem interferências de executivos de gravadoras.



Agora, Peter Wolf está de volta com solo em 32 anos: A Cure for Loneliness (um lançamento Concord Records), um disco leve e descompromissado onde assume seus 70 anos de idade sem olhar muito para trás e não permitindo em momento algum que isso pese nas suas costas.

A mistura musical que permeia o disco é tão curiosa que chega a ser risível. Vai do folk urbano classudo ao country dor de corno sem a menor cerimônia, passando por números de rock and roll, soul music, cajun e até gospel, quase todos compostas em parceria com e especialista Will Jennings.  

As excessões são It Was Always So Easy (To Find an Unhappy Woman), uma balada country de Moe Bandy que fez algum sucesso em 1974, Tragedy, um número clássico do grupo de doo-wop DeLons e Love Stinks, número de rock clássico do repertório de sua própria J Geils Band, que aqui recebe um arranjo bluegrass engraçadíssimo.



Tem um número musical em A Cure For Loneliness que foge um pouco ao tom do desencanado que predomina no disco.

Trata-se de It’s Raining, composta em parceria com o amigo soulman Don Covay, falecido ano passado.

Wolf propôs ao também amigo e soulman Bobby Womack gravar a canção em dueto, numa homenagem a Don Covay.

Mas então, pouco antes de entrarem em estúdio, para surpresa geral, Bobby Womack faleceu.

O jeito foi gravá-la sozinho, num arranjo bem pedestre, à moda de Memphis, e dedicá-la a esses dois grandes mestres e parceiros musicais.

Como um tributo à longevidade e à teimosia em seguir em frente, sempre.



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sexta-feira, abril 15, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "THIS PATH TONIGHT", NOVO LP DE GRAHAM NASH

por Chico Marques


Ninguém pode acusar Graham Nash de ser um compositor prolífico.

Seu último álbum solo, Songs For Survivors, foi lançado 14 anos atrás.

Seu último trabalho de estúdio ao lado de seu parceiro contumaz David Crosby -- o álbum duplo Crosby Nash -- está completando nada menos que 12 anos de lançamento.

E seu último disco de estúdio com o Crosby Stills & Nash, After The Storm, foi lançado em 1994 -- ou seja: 22 anos atrás.
 

Quem conhece bem o temperamento artístico de Nash sabe que ele gosta de olhar sempre para a frente, e só olha para trás quando estritamente necesssário.

Nesses últimos anos, no entanto, por conta de sua autobiografia Wild Tales - Memoirs Of A Rock & Roll Life e de diversos relançamentos em boxes de CDs envolvendo tanto o Crosby Stills Nash & Young quanto os Hollies, para os quais foi contratado para acompanhar e participar daa produção, Nash andou olhando muito para o passado.

Mais do que deveria, ou gostaria, talvez.


Para piorar, tanto ele quanto Stephen Stills andaram se cansando das psicagens de David Crosby na tournée mundial que o Crosby Stills & Nash realizou em 2012, e desde então parece que o clima entre eles azedou em definitivo.

O caso é que Stephen Stills se afastou do trio em 2013, indo cuidar de seu trabalho na banda The Rides, da qual ele faz parte ao lado do jovem guitarrista Kenny Wayne Shepard e do veterano tecladista Barry Goldberg, e que está anunciando seu segundo LP já para os próximos meses. 


Daí, sempre que anunciam a chegada de um novo disco de Graham Nash, a expectativa é inevitável, até porque o histórico artístico de Nash justifica isso sem nenhuma cerimônia.

Pois ele acaba de lançar This Path Tonight, seu sexto disco solo num período de 46 anos, um lançamento Blue Castle Records, sem previsão de lançamento no Brasil.

Gravado em parceria com Shane Fontayne, ex-sideman de Bruce Springsteen e Maria McKee, é um trabalho delicado e primoroso.

Todas as canções do disco são assinadas pelos dois, e logo de cara podemos sentir claramente o quanto a musicalidade de Nash rejuveneceu ao longo deste processo.

A motivação por trás disso tudo foi a separação de Nash de sua companheira de longa data, Susan Sennett, e de seu parceiro musical David Crosby, que fizeram com que ele voltasse a ter vontade de retomar sua carreira solo.

Obviamente, tudo isso acabou trazendo a algumas canções um inevitável sabor agridoce, mas, na maior parte do tempo, Nash fala de si mesmo nas canções, que oscilam entre o confessional e o prosaico.

A busca por um novo amor aos 74 anos de vida é outro tema recorrente no disco -- que é agradabilíssimo, e às vezes, chega a soar surpreendente, em faixas como "Target" e "Mississipi Burning".

Sem contar que "Encore", que encerra o disco, é disparado a canção mais linda que ele já compôs em toda a sua vida. 


Nada pesa demais em This Path Tonight.

"De pesado, já basta a vida", diz o velho ditado.

Trocando em miúdos, é isso que Graham Nash quer dizer nessa nova leva de canções que compõem este novo disco, onde ele vem acompanhado por músicos jovens como Todd Caldwell ao órgão Hammond, Patrick Warren ao piano, Jay Bellerose na bateria, Jennifer Condos no baixo e o produtor Shane Fontayne nas guitarras.

Preparem-se para um disco agradabilíssimo, familiar de ponta a ponta, mas com um frescor juvenil delicioso típico de alguém que está de bem com a vida, ou com o que ainda resta dela a essa altura do campeonato.


PS: A propósito, nunca gostei muito dos discos solo de Graham Nash. Sempre os achei insipientes em termos artísticos, fragmentados demais. Sempre tive a idéia de que fora de algum contexto grupal Nash não funciona direito. E então chega esse This Path Tonight para eu engolir minha língua e para de falar bobagens. Bem feito para mim.



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terça-feira, março 01, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "RAINBOW ENDS", LP DE RETORNO DE EMITT RHODES APÓS 43 ANOS DE SUMIÇO

por Chico Marques


Tem artistas que compoem com facilidade, e artistas que compoem pouco -- e, com isso, acabam gravando seus discos com intervalos mais prolongados que aqueles que possuem uma produção mais abundante.

Mas o que dizer de um artista pop muito conceituado, que era extremamente prolífico no final dos Anos 60 e início dos Anos 70, e, de uma hora para outra, decidiu parar e ficar sem gravar um novo disco por nada menos que... 43 anos?

Senhoras e Senhores, este é Emmit Rhodes, que brilhou à frente do grupo pop The Merry Go Round no final dos Anos 60, e que teve logo a seguir uma carreira solo reconhecidamente brilhante em quatro discos hoje considerados antológicos, fortemente influenciados por Paul McCartney tanto na maneira de compor e de cantar quanto na de elaborar seus arranjos e se autoproduzir.


Mr. Rhodes não sabe explicar ao certo porque ficou tanto tempo sem gravar -- até porque, ao longo desse tempo, nunca deixou de compor e prosseguiu trabalhando como engenheiro de som para vários artistas diferentes. Mas lembra que, na ocasião, tinha como obrigação contratual entregar um disco a cada seis meses para a ABC-Dunhill, e não conseguia cumprir os prazos, pois além de cantar e tocar todos os instrumentos nesses discos discos solo do início dos Anos 70, ele era também produtor. E um produtor do tipo perfeccionista.

No final das contas, o que Mr. Rhodes queria mesmo era seguir as pegadas de Paul McCartney em seu primeiro disco solo, onde tocou todos os instrumentos. Mas esqueceu do detalhe que McCartney trabalhou neste disco despreocupadamente, sem ter que cumprir prazos apertados. Ele não. Era constantemente obrigado a pagar multas contratuais para sua gravadora, e mal conseguia ver os royalties que lhe eram devidos pela vendagem dos discos.

Um belo dia ele cansou de perder dinheiro tentando ter uma carreira no showbiz, e se recolheu. Em suas próprias palavras: "a impressão era de que eu nunca estava trabalhando o suficiente para me manter viável como artista."


Incentivado por amigos mais próximos, que mantiveram contato com sua produção musical não-gravada nesses anos todos e nunca deixaram de estimulá-lo a retomar sua carreira, agora parece que Emitt Rhodes voltou finalmente, quebrando um hiato de 43 anos, com esse "Rainbow Ends" (Omnivore Records), um disco arrebatador, de uma simplicidade impressionante, deliciosamente atemporal.

Apesar da barba branca e dos muitos quilos a mais, Mr. Rhodes ressurge com sua voz delicada e quase juvenil praticamente intacta em meio a 11 canções curtas tão intensas e memoráveis que grudam nos ouvidos logo após a primeira audição.

Dessa vez ele não quis se autoproduzir, e entregou a produção a seu amigo Chris Price, e ao invés de tocar todos os instrumentos contou com um time de músicos (admiradores seus) vindos de bandas conhecidas: gente do quilate de Roger Joseph Manning, Jason Faulkner, Nels Cline, Taylor Locke, Joe Seiders, Susanna Hofts e Pat Sansone. E com isso, realizou um disco extremamente orgânico e desencanado. Tão bom que nem vale a pena destacar uma canção ou outra, pois todas são de primeira grandeza.

Consta que, além dessas onze canções, Mr. Rhodes gravou mais uma penca delas, em número suficiente para compor outros dois discos como esse. Se isso é verdade ou não, só poderemos confirmar ao longo dos próximos anos, caso surjam novos discos dele com registros dessa mesma sessão de gravação.


Se Emitt Rhodes tivesse sido menos teimoso e idealista naqueles tempos da ABC-Dunhill e trabalhado nos moldes atuais, com certeza não teria tido tantos problemas em sua carreira.

Mas não adianta colocar as coisas nesses termos. Tem coisas que só o passar do tempo ensina para a gente. A não-necessidade de precisar provar algo para nós mesmos a uma determinada altura da vida é uma delas.

Enfim, "Rainbow Ends" é um retorno vigoroso de um grande artista que fazia muita falta na cena pop americana.

Tomara que o público tenha a grandeza de recebê-lo de volta com a dignidade que ele merece.



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sexta-feira, fevereiro 26, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "NEW YORK IS MY HOME", NOVO LP DO PEQUENO GRANDE DION DIMUCCI

por Chico Marques


Bruce Springsteen costuma dizer que Dion DiMucci é o elo perdido entre Frank Sinatra e o Rock & Roll. E ele está corretíssimo.

Quando Dion & The Belmonts gravaram "I Wonder Why" em 1958, misturando num mesmo caldeirão elementos de doo-wop, rock and roll e rhythm & blues, sem querer estavam provocaram um turbilhão na cena musical pop sem precedentes, impondo um DNA étnico, com temperos latinos, no que veio a primeira grande contibuição da música da cidade de Nova York ao rock and roll.

Foi Dion DiMucci que, ao abrir as portas e as janelas da música americana para o skyline de Nova York, deixou tudo escancarado para que manifestações musicais locais como o Velvet Underground, Simon & Garfunkel, Al Kooper, Patti Smith e Bruce Springsteen surgissem e emplacassem no país inteiro nos anos seguintes. Não é à toa que todos esses artistas tem uma gratidão enorme para com ele.


O único problema quanto à enorme longevidade da carreira de Dion é que, por alguma razão difícil de explicar, sempre que ele assina com alguma gravadora é sempre contrato por um, no máximo dois discos -- e todas as gravadoras por onde ele passa estranhamente promovem esses discos como "o retorno de Dion".

É um contrassenso, pois Dion nunca gravou discos nostálgicos, e nunca se dispôs a regravar seus grandes sucessos do passado. Pelo contrário, são quase sempre trabalhos com sonoridade bem atualizada, trazendo canções novas de sua autoria, e acompanhado por músicos que não conseguem disfarçar o orgulho de estar contracenando com uma lenda musical viva.



Mas não adianta. Dion DiMucci, apesar de permanecer ativo e sem sair de férias jamais, seus discos quase anuais continuam sendo saudados como "comebacks". Dion nem liga mais para issso. Dá risadas. Para ele, o que realmente importa é estar vivo e ativo como artista aos quase 77 anos de idade.

E pensar que era para Dion DiMucci ter embarcado naquele vôo fatídico onde morreram Buddy Holly, Richie Valens e Big Bopper em 1959, e, por conta de algum contratempo, ele não embarcou...


De alguns dez anos para cá, quase todos os discos gravados por Dion passaram a ostentar um sotaque blueseiro bem forte, e "New York Is My Home" (Instant Records) não é excessão.

Quase todas as canções originais, além dos dois covers que ele escolheu gravar -- um de Lightning Hopkins e outro de Hudson Whitaker -- são números de blues, e a produção e os arranjos estão a cargo do veterano guitarrista e multinstrumentista Jimmy Vivino, que comanda a houseband do programa de Conan O'Brien na TBS.

“Visionary Heart” e “All Rocked Up” são números deliciosos, com a cara das calçadas da cidade de Nova York. "New York Is My Home", por sua vez, é uma das melhores canções que Dion compôs em quase 60 anos de carreira, e a participação vocal de Paul Simon na gravação só serve para torná-la ainda mais relevante. Proto-rocks como “The Apollo King” e “Ride With You” mostram claramente o quão jovial a música de Dion ainda consegue ser, e “Can’t Go Back to Memphis” é tão boa que parece ter fugido do repertório de Jimmy Reed.



Ao longo de sua vida, Dion nunca parou de produzir boa música e experimentar novos estilos, brilhando intensamente em grandes discos como "Born To Be With You" (1975, produzido por Phil Spector) e "King Of The New York Streets" (1990, produzido por Dave Edmunds), até chegar nesses seus trabalhos mais blueseiros dos últimos 15 anos.

"New York Is My Home" pode ser curtinho, e ter apenas 40 minutos de duração, mas é do tamanho ideal para as intenções de Dion nesse momento de sua carreira.

É um disco grudento à moda antiga, em que a última faixa do Lado B dá saudades da primeira faixa do Lado A, e daí a gente resolve ouvir o disco inteiro de novo.

Convenhamos: produzir 40 minutos de grande música num LP como "New  York Is My Home" não é para quem quer, é para quem pode.

E acreditem: esse italianinho do Bronx ainda tem esse poder depois de todos esses anos.



segunda-feira, fevereiro 22, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "DIG IN DEEP", NOVO LP DA RUIVA BLUESEIRA BONNIE RAITT

por Chico Marques


Bonnie Raitt passou por uns maus bocados nesses últimos anos. Perdeu seu pai, o ator e cantor da Broadway John Raitt, em 2004. Logo a seguir, em 2005, perdeu sua mãe, a pianista Marjorie Haydock.

E então, em 2009, perdeu o irmão mais velho, com quem tinha mais afinidade: Steve Raitt, cantor, guitarrista e engenheiro de som na cena de Minneapolis

(Steve morreu de um câncer no cérebro que o castigou por um período bem prolongado, e foi Bonnie quem cuidou dele nos seus últimos anos de vida)


Em meio a todo esse turbilhão emocional, Bonnie Raitt gravou o disco "Slipstream" em 2012, com sua banda de estrada e com a produção do craque Joe Henry – também um excelente artista solo e um arranjador muito criativo --, que soube explorar muito bem as possibilidades dela como artista já bem conhecidas de todos nós, além de outras um tanto quanto inusitadas.

Com "Slipstream", Bonnie retornou aos estúdios com um repertório fortíssimo e não só deu o pontapé inicial em seu próprio selo independente, Redwing Records, como ainda rompeu um silêncio de sete anos da cena fonográfica.

Esse retorno foi devidamente valorizado na Festa dos Grammies daquele ano, quando Bonnie venceu na categoria Best Americana Album, o que ajudou a revigorar sua carreira.

Ela chegou a declarar à Rolling Stone Magazine na ocasião: "essas sessões de gravação foram tão inspiradoras e tão saudáveis que restauraram minha fé na música a ponto de redespertar meu apetite para seguir em frente fazendo o que sei fazer melhor".



Convenhamos: não foi nada fácil ficarmos privados durante sete anos de uma das vozes mais lindas da história do pop mundial, capaz de transitar livremente por todos os gêneros musicais genuinamente americanos.

Sem contar que seu timbre na slide guitar é um dos mais marcantes que o blues e o rock and roll já tiveram o prazer de conhecer.



Pois dessa vez não foi necessário esperar tanto.

Bonnie Raitt está de volta com "Dig In Deep" (Redwing Records), seu vigésimo disco em 45 anos de carreira.

"Dig In Deep" é uma sequência à altura de "Slipstream". O tom dos dois discos é bastante semelhante. As diferenças estão basicamente no repertório e na produção.

Se em "Slipstream" Bonnie trabalhou prioritariamente com canções de amigos como Bob Dylan, Al Anderson e Randall Bramblett, aqui ele privilegia mais seu lado compositora, trazendo nada menos que cinco (ótimas) canções próprias que ela (felizmente) julgou dignas de ser gravadas. E apesar de Bonnie brilhar à frente de covers inusitados para "I Need You Tonight" (do INXS) e "Shakin' Shakin' Shakes" (do Los Lobos), os destaques aqui vão justamente para essas canções próprias -- em particular para "The Coming Round Is Going Through", "The Ones We Couldn't Be" (dedicada a seus pais e a seu irmão) e a adorável faixa título, em que ela homenageia todos os que acompanham sua carreira há quase meio século.  

Detalhe: dessa vez Bonnie dispensou o amigo Joe Henry e assumiu a produção do disco sozinha, o que indica claramente que ela está em busca de desafios -- apesar de sua experiência anterior com antoprodução, no LP "Souls Alike" (2005), não ter sido lá muito feliz. Mas considerando que Bonnie acaba de sair de uma tournée longa, onde teve a oportunidade de amadurecer e testar ao vivo várias dessas novas canções, podemos presumir que não tenha sido complicado para ela encarar a autoprodução do disco com boa parte das novas canções já devidamente azeitadas na estrada. Se ao se autoproduzir em "Dig In Deep" a intenção de Bonnie era se redimir de algum eventual trauma resultante de críticas pouco favoráveis a sua primeira experiência como produtora, eu diria que ela conseguiu seu intuito, pois deu tudo certo dessa vez.  
  

Enfim, Bonnie Raitt está de volta aos 66 anos de idade, madura e intrépida, com mais um belo disco a tiracolo, e à frente de uma banda impecável, pronta para cair na estrada pelo mundo afora, composta por veteranos tarimbadíssimos como Mike Finnigan (teclados), George Marinelli (guitarra), James "Hutch" Hutchinson (Baixo) e Ricky Fattar (bateria).

Na medida em que existe a possibilidade dessa tournée mundial passar aqui pelo Brasil no segundo semestre deste ano, só nos resta torcer para que nossa adorável Ruiva da Statocaster, legítima herdeira musical de Lowell George, inspire a imensa maioria de nossos "guitarristas de blues", espalhafatosos como eles só, a concluir que para alcançar um acorde verdadeiramente bluesy na slide guitar, menos é sempre mais.

Quem viu Bonnie homenageando B B King de forma magnífica na Festa dos Grammies deste ano, sabe bem do que estou falando.


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