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segunda-feira, fevereiro 22, 2016

2 OU 3 COISAS SOBRE "DIG IN DEEP", NOVO LP DA RUIVA BLUESEIRA BONNIE RAITT

por Chico Marques


Bonnie Raitt passou por uns maus bocados nesses últimos anos. Perdeu seu pai, o ator e cantor da Broadway John Raitt, em 2004. Logo a seguir, em 2005, perdeu sua mãe, a pianista Marjorie Haydock.

E então, em 2009, perdeu o irmão mais velho, com quem tinha mais afinidade: Steve Raitt, cantor, guitarrista e engenheiro de som na cena de Minneapolis

(Steve morreu de um câncer no cérebro que o castigou por um período bem prolongado, e foi Bonnie quem cuidou dele nos seus últimos anos de vida)


Em meio a todo esse turbilhão emocional, Bonnie Raitt gravou o disco "Slipstream" em 2012, com sua banda de estrada e com a produção do craque Joe Henry – também um excelente artista solo e um arranjador muito criativo --, que soube explorar muito bem as possibilidades dela como artista já bem conhecidas de todos nós, além de outras um tanto quanto inusitadas.

Com "Slipstream", Bonnie retornou aos estúdios com um repertório fortíssimo e não só deu o pontapé inicial em seu próprio selo independente, Redwing Records, como ainda rompeu um silêncio de sete anos da cena fonográfica.

Esse retorno foi devidamente valorizado na Festa dos Grammies daquele ano, quando Bonnie venceu na categoria Best Americana Album, o que ajudou a revigorar sua carreira.

Ela chegou a declarar à Rolling Stone Magazine na ocasião: "essas sessões de gravação foram tão inspiradoras e tão saudáveis que restauraram minha fé na música a ponto de redespertar meu apetite para seguir em frente fazendo o que sei fazer melhor".



Convenhamos: não foi nada fácil ficarmos privados durante sete anos de uma das vozes mais lindas da história do pop mundial, capaz de transitar livremente por todos os gêneros musicais genuinamente americanos.

Sem contar que seu timbre na slide guitar é um dos mais marcantes que o blues e o rock and roll já tiveram o prazer de conhecer.



Pois dessa vez não foi necessário esperar tanto.

Bonnie Raitt está de volta com "Dig In Deep" (Redwing Records), seu vigésimo disco em 45 anos de carreira.

"Dig In Deep" é uma sequência à altura de "Slipstream". O tom dos dois discos é bastante semelhante. As diferenças estão basicamente no repertório e na produção.

Se em "Slipstream" Bonnie trabalhou prioritariamente com canções de amigos como Bob Dylan, Al Anderson e Randall Bramblett, aqui ele privilegia mais seu lado compositora, trazendo nada menos que cinco (ótimas) canções próprias que ela (felizmente) julgou dignas de ser gravadas. E apesar de Bonnie brilhar à frente de covers inusitados para "I Need You Tonight" (do INXS) e "Shakin' Shakin' Shakes" (do Los Lobos), os destaques aqui vão justamente para essas canções próprias -- em particular para "The Coming Round Is Going Through", "The Ones We Couldn't Be" (dedicada a seus pais e a seu irmão) e a adorável faixa título, em que ela homenageia todos os que acompanham sua carreira há quase meio século.  

Detalhe: dessa vez Bonnie dispensou o amigo Joe Henry e assumiu a produção do disco sozinha, o que indica claramente que ela está em busca de desafios -- apesar de sua experiência anterior com antoprodução, no LP "Souls Alike" (2005), não ter sido lá muito feliz. Mas considerando que Bonnie acaba de sair de uma tournée longa, onde teve a oportunidade de amadurecer e testar ao vivo várias dessas novas canções, podemos presumir que não tenha sido complicado para ela encarar a autoprodução do disco com boa parte das novas canções já devidamente azeitadas na estrada. Se ao se autoproduzir em "Dig In Deep" a intenção de Bonnie era se redimir de algum eventual trauma resultante de críticas pouco favoráveis a sua primeira experiência como produtora, eu diria que ela conseguiu seu intuito, pois deu tudo certo dessa vez.  
  

Enfim, Bonnie Raitt está de volta aos 66 anos de idade, madura e intrépida, com mais um belo disco a tiracolo, e à frente de uma banda impecável, pronta para cair na estrada pelo mundo afora, composta por veteranos tarimbadíssimos como Mike Finnigan (teclados), George Marinelli (guitarra), James "Hutch" Hutchinson (Baixo) e Ricky Fattar (bateria).

Na medida em que existe a possibilidade dessa tournée mundial passar aqui pelo Brasil no segundo semestre deste ano, só nos resta torcer para que nossa adorável Ruiva da Statocaster, legítima herdeira musical de Lowell George, inspire a imensa maioria de nossos "guitarristas de blues", espalhafatosos como eles só, a concluir que para alcançar um acorde verdadeiramente bluesy na slide guitar, menos é sempre mais.

Quem viu Bonnie homenageando B B King de forma magnífica na Festa dos Grammies deste ano, sabe bem do que estou falando.


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domingo, março 01, 2015

JOSEPH ARTHUR CELEBRA LOU REED COMUNGANDO DA MESMA ATITUDE ICONOCLASTA PERANTE VIDA E ARTE


A carreira musical de Lou Reed foi uma carreira plena.

Em quase 50 anos desde o surgimento do Velvet Underground até "Lulu", seu último suspiro artístico ao lado do Metalllica, Lou experimentou praticamente tudo o que lhe veio à cabeça, muitas vezes arrumando encrencas monumentais tanto com seu público quanto com as gravadoras RCA, Arista e Sire, que nem sempre aprovavam seus projetos mais diletantes.

Se ficou faltando fazer alguma coisa em sua carreira, talvez tenha sido um álbum acústico com releituras de seus grandes sucessos -- se bem que em "Perfect Night Live In London" (1997) ele chegou perto desse conceito, só que optou por trabalhar um repertório mais obscuro.


O novo álbum de Joseph Arthur, "Lou" (um lançamento Vanguard), pretende ser um tributo carinhoso e pouco reverente a Lou Reed, de quem era amigo pessoal.

Mas o caso é que a falta de reverência foi tamanha que o projeto acabou ganhando contornos amplos e se transformando em muito mais que um mero tributo.

"Lou", da maneira como foi gravado, é um mergulho criativo na obra de um grande artista.

Totalmente acústico, e repleto de releituras que, vez ou outra, tornam números muito conhecidos do repertório de Mr. Reed irreconhecíveis, "Lou" dispensa bateria, baixo e instrumentos adicionais para recriar apenas com voz, violão e piano algumas das canções mais marcantes de duas, três ou quatro gerações.

São doze canções no total.

Abre com uma versão minimalista de "Walk on the Wild Side", sem o cinismo habitual e com uma ternura para com os personagens da canção jamais antes imaginada por Lou. 

"Stephanie Says" traz vocalizações em reverb que transformam os versos da canção quase num diálogo.

"Heroin" vira um blues rasgado, como Lou jamais imaginou gravá-la antes.

"Wild Child" e "Sattelite Of Love" transformam-se em baladas hipnotizantes, 

"NYC Man" e "Coney Island Baby" ganham contornos inusitados na voz gutural de Joseph Arthur.

E "Pale Blue Eyes" e "Magic and Loss" deixam de ser flertes com a morte para transformarem-se em celebrações à vida em tom menor.




Joseph Arthur nasceu em Akron, Ohio, 40 anos atrás, mas caiu fora de lá assim que pôde.

Foi tentar a sorte no circuito folk da Califórnia, e em 1997 deu a sorte -- e também o azar -- de ser descoberto por Peter Gabriel, que o contratou para seu selo New World, voltado prioritariamente para artistas de world music.

Seu primeiro disco para o selo, “Big City Secrets”, serviu para tirá-lo do ghetto folk e projetá-lo para o público de Peter Gabriel. 

Só no seu terceiro trabalho, “Come To Where I'm From” (2000), com produção de T-Bone Burnett e uma levada mais country rock, Joseph Arthur conseguiu atingir um público mais amplo.

Devidamente amparado pela Virgin Records, ele começou a desenvolver projetos mais ambiciosos, sempre influenciado por Gabriel e seguindo conselhos de amigos como Joe Henry e T-Bone Burnett.

Levou alguns anos até a Virgin finalmente se desinteressar dele, mas quando isso aconteceu, ele já era uma força emergente na cena independente.

De lá para cá, gravou uma série de Lps e EPs impeacáveis com sua banda The Lonely Astronauts para seu selo próprio, mesclando folk com pop em contextos sonoros no mínimo inusitados e firmando-se como um dos compositores mais solicitados da cena atual.


Joseph Arthur é um compositor prolífico, e nunca pensou em gravar um disco de covers antes de "Lou".

Talvez por isso mesmo, e também por admirar Lou Reed tão profundamente, essa homenagem ganhou contornos tão especiais e tão pessoais.

O que se pode concluir depois de ouvir "Lou" é que Lou Reed e Joseph Arthur compartilham da mesma atitude iconoclasta perante suas vidas e sua arte.

Da mesma forma que Lou não via nenhuma barreira entre seu trabalho como cantor-compositor e fotógrafo, Joseph adora dizer que sua obra musical e suas pinturas são uma coisa só, que ele chama carinhosamente de “Museum Of Modern Arthur”.

Ou seja: existem mais afinidades entre o autor da homenagem e o homenageado do que pode supor nossa vã filosofia.

Essas afinidades estão todas presentes em "Lou", um disco a ser descoberto.







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quarta-feira, abril 17, 2013

BETTYE LAVETTE COMEMORA 50 ANOS DE CARREIRA E BRILHA ABSOLUTA, FINALMENTE.


A cena do Northern Soul -- a soul music produzida em Detroit, Philadelphia e Nova York -- sempre foi particularmente cruel com seus cantores e cantoras.

A maioria desses artistas surgia em compactos sob a tutela de algum produtor linha dura, também compositor, ou ligado a alguma editora musical que provia seus associados com canções de encomenda providenciadas por compositores de aluguel.

Não era fácil conseguir crescer neste meio selvagem.

Nenhum produtor fazia apostas de médio e longo prazo.

Um único compacto que não emplacasse nas paradas já dava motivo para que devolvessem ao anonimato um cantor ou cantora recém-anunciado como "the next best thing in showbiz".

Capitalismo selvagem, mesmo.

Uma situação diametralmente diferente da que acontecia com a soul music produzida no Sul dos Estados Unidos, em Memphis e New Orleans, onde artistas não eram tratados de forma descartável, não eram tão subjulgados a produtores quanto no Norte, e até podiam eventualmente participar do processo criativo de seus próprios discos -- o que sempre resultava num produto final mais autêntico e menos empacotado de acordo com as regras das Paradas de Sucesso.



Pois bem: Bettye LaVette surgiu com sua voz ríspida e encorpada na área de Detroit no início dos anos 60.

Curiosamente, foi descartada logo de cara por Berry Gordy, da Motown, que era praticamente dono da cena musical soul da cidade.

Mas -- ora, ora, vejam só! -- chamou a atenção dos irmãos Nesuhi e Ahmet Ertegun, da Atlantic Records em Nova York, que viram nela uma possível sucessora para Ruth Gordon e um futuro promissor.

Só que Bettye, no entanto, não se entusiasmou muito com a possibilidade de se perder em meio ao extenso elenco de rhythm and blues da Atlantic, e achou por bem não ficar muito tempo por lá, seguindo em frente e testando outras possibilidades em selos independentes como Scepter, Calla, Roulette e Silver Fox -- que, infelizmente, só proporcionaram a ela sucessos efêmeros com compactos de sucesso regional.

Assim, ela viu os anos 60 passarem, e nada de muito substancial acontecer em sua carreira, enquanto Aretha Franklin, Tina Turner e Dionne Warwick reinavam quase absolutas na cena soul nacional.

Saiu atrás do prejuízo nos início dos anos 70, e aceitou um convite de Arif Mardin para retornar à Atlantic Records. Era uma empreitada que tinha tudo para dar certo: contaria com o apoio de um produtor brilhante, condições de trabalho perfeitas, e alguma liberdade na escolha de repertório. Mas depois de dois compactos mal sucedidos comercialmente, que deveriam servir de escada para um LP que já estava pronto para ser lançado, a Atlantic declinou, não lançou o Lp e a dispensou de seu contrato.

Para Bettye foi o inferno. Ela ficou tão decepcionada com esse malogro que praticamente desistiu de sua carreira fonográfica. mudou de mala e cuia para a Broadway, e tratou de ficar quietinha por lá, trabalhando como cantora em musicais e tocando a vida em frente, sem decepções, durante quase 30 anos.

Perto da virada do século, Bettye decidiu retomar sua carreira de cantora, e conseguiu algumas datas pela Europa. Uma gravadora alemã se interessou em lançar um disco dela gravado ao vivo por lá, "Let Me Down Easy", que acabou sendo lançado também nos Estados Unidos por um selo independente.

Foi aí que os americanos finalmente a "descobriram".

Não eram poucos seus predicados artísticos seus predicados. Ela lembrava Mavis Staples na escolha de repertório, se aproximava de Etta James e Tina Turner no timbre vocal, e tinha um domínio de cena que lembrava Marlena Shaw e Cissy Houston. Só faltava cair nas mãos do produtor certo.

Foi quando conheceu Joe Henry, iniciando uma parceria que começou brilhantemente em "I've Got My Own Hell To Raise", presença em praticamente todas as listas de melhores discos do ano de 2005.

De lá para cá, ela não parou mais de gravar, surgindo a cada dois anos com mais uma pequena obra-prima, sempre mais marcante que a anterior.



'Thankful n'Thoughtful" é seu mais recente trabalho.

Saiu no finalzinho do ano passado, foi incluído na minha lista de Melhores de 2012 para o Jornal da Orla, mas não chegou a ser comentado aqui, por escrito. Uma falha imperdoável da minha parte, da qual tento me redimir agora, por conta das comemorações de 50 anos de carreira desta cantora magnífica.

'Thankful n'Thoughtful" é um disco bem mais orgânico e menos temático que seus trabalhos anteriores. Aqui não há mais nenhuma preocupação em criar um projeto de alto gabarito para servir de veículo para o talento de Bettye. O talento e o bom senso artístico de Bettye é que comandam o show. E tudo funciona às mil maravilhas.

Não há muito mais o que dizer sobre ela e o disco a título de apresentação -- e não vou ficar comentando canção por canção, até porque todas as escolhas que ela fez são perfeitas, e os arranjos providenciados por Joe Henry e os músicos envolvidos no projeto estão impecáveis, sempre privilegiando um toque de country-soul sulista que é deliciosamente atemporal.

Ainda assim, não vou resistir à tentação de destacar a releitura soul que ela fez para "Everybody Knows This Is Nowhere", de Neil Young.

É uma pequena obra-prima.

E dá a dimensão exata da grandeza artística de Bettye Lavette.

Vai entender porque deixaram que uma artista do porte dela sumisse do mapa por tanto tempo.

Por sorte, de agora em diante, isso não vai mais acontecer.




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sábado, abril 13, 2013

BILLY BRAGG CHEGA À MATURIDADE AINDA MAIS INCONFORMADO EM "TOOTH & NAIL"


Um dos maiores desafios para qualquer artista popular é, e sempre será, permanecer relevante depois de se estabelecer no mercado.

Neil Young abordou esse dilema em canções como “Thrasher”, talvez a mais contundente delas, falando de amigos perdidos em canyons de cristal, absorvidos pela vaidade e encastelados no estrelato, incapazes de perceber que seu métier só faz sentido enquanto eles conseguirem se reinventar a cada nova estação.

Billy Bragg sabe disso melhor do que ninguém.

Desde que surgiu, 30 anos atrás, em meio à efervecência pós-punk, em discos contundentes como “Talking With The Taxman About Poetry” e “Workers Playtime” ele personifica uma versão pós-moderna de Woody Guthrie. Isso em plena Era Margareth Thatcher, No início, foi acusado de ser apenas um "poser" curioso. Mas, com os anos, foi-se revelando um ótimo compositor, extremamente hábil tanto com letras quanto com melodias, e um artista muito peculiar.

De lá para cá já se reinventou algumas vezes, unindo forças aos americanos do Wilco e, mais recentemente, integrando a banda The Blokes, sempre alternando seu discurso político com um discurso amoroso denso e intenso, trafegando pelos mais diversos gêneros musicais com sua guitarra na mão e uma atitude nunca menos que contundente.


E não é que em seu mais novo trabalho, “Tooth & Nail”, ele se reinventa mais uma vez?

Gravado em Santa Mônica, Califórnia, com o suporte precioso do produtor Joe Henry e dos amigos The Blokes, Bragg deixa seus temas politizados um pouco de lado e investe numa mensagem mais universal, expandindo sua retórica -- sempre incisiva, diga-se de passagem -- a assuntos ainda não devidamente explorados em seu trabalho -- às vezes num tom de crônica, outras vezes num tom mais confessional..

O resultado disso são canções desconcertantes como “Your Name On My Tongue”, ‘Swallow My Pride” e “No One Knows Nothing Anymore”. Ou então canções delicadas e assováveis, como “January Song” e “Tomorrow’s Gonna Be A Better Day”, que abrem e fecham o disco, respectivamente.

Em meio a tudo isso, temos como termômetro do "estado de coisas atual de Billy Bragg" uma bela e sintomática releitura de “I Ain’t Got No Home Anymore”, de Woody Guthrie. Que, de certa forma, indica que nosso herói está nos dias de hoje mais propenso a conjugar seu ativismo político com sua condição de cidadão do mundo do que ficar restrito à cena trabalhista inglesa que sempre defendeu.

(não vou me espantar se, a essa altura do campeonato, já tiver alguns velhos colegas folkies esquerdofrênicos acusando Bragg de seu um traidor da causa. Bob "Judas" Dylan conhece bem os métodos dessa gente.)



Enfim, Billy Bragg esá comemorando 30 anos de carreira questionando se seu trabalho ainda faz sentido no mundo de hoje.

30 anos que não pesam na bagagem, e que, de quebra, fornecem um diferencial artístico que poucos artistas mais jovens conseguem ostentar.

Além, é claro, de mais perplexidade do que conforto, mais angústia que alívio, e as habituais doses cavalares de som e fúria -- como ele demonstra em “No One Knows Nothing Anymore”, a canção mais truculenta deste disco:

"Let's stop pretending / We can manage our way out of here / Let's stop defending the indefensible / Let's stop relying on / The lecturing of the experts / Whose spin just makes our plight incomprehensible/ High up on a mountain top, somebody with a skinhead crop / Is thinking deep thoughts for us all / Serenity is all around, but if you listen /You can hear the sound / Of one head being banged against the wall"




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terça-feira, maio 22, 2012

LADIES AND GENTLEMEN, THIS IS TOM JONES!


Eu admiro Tom Jones desde menino.

Adorava seu programa de TV “This Is Tom Jones”, cheio de convidados muito especiais, que ia ao ar pela TV Record por volta de 1970. Não perdia um. Lembro bem do dia em que vi Ray Charles cantando lá. Se bem que lembro também de uns cantores bem cafonas -- como Engelbert Humperdinck e Caterina Valente -- que batiam o ponto por lá.

Os anos foram passando e, conforme fui crescendo, fui percebendo que, apesar de seu talento, Tom Jones era quase tão cafona quanto a maioria dos seus convidados, e que os arranjos da orquestra que o acompanhava eram de gosto altamente dicutível.

Custei a entender como alguém com uma voz tão espetacular quanto a dele podia escolher tão mal seu repertório, alternando verdadeiras aberrações como “Delilah” e “Help Yourself” com números espetaculares como “She´s a Lady” e “It´s Not Unusual”.

Mais alguns anos se passaram, e vi Tom Jones indo direto para o fundo do poço, virando cantor country em discos deploráveis e cada vez mais prisioneiro da cena artística decadente de Las Vegas.


A partir dos anos 90, no entanto, Tom Jones cansou daquilo tudo, voltou para a Inglaterra e começou a flertar com o pop mais modernoso feito por lá, saindo em em busca do lugar ao sol na cena musical que, até palavra em contrário, era seu por direito. 

Primeiro com aquela gravação espetacular de "Kiss", de Prince, com o pessoal do Art Of Noise, que sacodiu as pistas de dança do mundo inteiro. 

E depois, com o magnífico álbum de duetos "Reload!", onde desfila um repertório bem moderno e contracena com grandes estrelas do rock e do pop, num verdadeiro triunfo artístico.

De lá para cá, ele vem gravando um disco melhor que o outro, sempre agradando crítica e público, e resgatando a dignidade de sua carreira a olhos vistos.


“Spirit In the Room”, recém-lançado, é o disco mais despojado de Tom Jones em toda a sua carreira.

Produzido por Ethan Johns, oscila entre o folk e o gospel em números sempre levados no violão ou na guitarra com uma base rítmica bem simplificada.

É curioso constatar o quanto Tom Jones demonstra estar à vontade nesse contexto -- justo ele, habituado a disparar seu vozeirão sobre instrumentações exageradas.

“Spirit In the Room” abre com uma versão delicadíssima para “Tower Of Song”, de Leonard Cohen, simplesmente de arrepiar, 

E o que vem a seguir é impressionante: canções nada óbvias -- e escolhidas a dedo -- dos songbooks de Paul McCartney, Paul Simon, Richard Thompson, Joe Henry e Tom Waits, uma mais linda e sob medida para sua voz que a outra.

Tom Jones está atualmente com 72 anos de idade, e a 2 anos de completar 50 anos de carreira. Continua cantando muito bem, e sua voz não parece dar sinais de cansaço -- se bem que muito do exibicionismo vocal que ele ostentava em sua juventude parece estar totalmente fora de questão no seu trabalho atual, sempre pautado com muita sensatez pelo "menos é mais".

"Spirit In The Room" faz para a carreira de Tom Jones algo semelhante ao que a série "American Recordings" -- produzida "no osso" por Rick Rubin -- fez por Johnny Cash. Não é um projeto tão radical -- mas é tão intenso quanto, e fornece a dimensão real da sua grandeza artística.

Escutem a gravação que ele fez para o blues "Soul Of A Man", de Blind Willie Johnson, e me digam se esse bravo senhor galês de um metro e meio de altura não canta como um gigante?

Vida longa a Mr. Tom Jones!



INFO:
http://www.allmusic.com/artist/tom-jones-p13357/biography

DISCOGRAFIA:
http://www.allmusic.com/artist/tom-jones-p13357/discography

WEBSITE OFICIAL:
http://www.tomjones.com/

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quinta-feira, abril 05, 2012

A INTRÉPIDA BONNIE RAITT ESTÁ DE VOLTA NUM LP DE TIRAR O FÔLEGO


Há exatos sete anos, Bonnie Raitt não gravava um disco.

Ou seja: há sete anos estávamos privados de uma das vozes mais lindas da história do pop mundial -- capaz de transitar livremente por todos os gêneros musicais genuinamente americanos -- e também de uma das guitarras slide mais marcantes que o blues e o rock and roll já tiveram o prazer de conhecer.

Seu disco anterior, “Souls Alike” (2005), tinha aspectos curiosos. Era bem mais despojado e bem menos apelativo que os trabalhos que o antecederam. Além do mais, foi a primeira vez em que Bonnie se autoproduziu, com resultados bastante satisfatórios.

Só que, infelizmente, algo saiu errado e "Souls Alike" não só foi um fiasco comercial, como também não conseguiu se afirmar entre os melhores discos gravados por Bonnie Raitt ao longo de seus mais de 40 anos de carreira.


Bom... esse certamente não vai ser o destino desse novo LP cheio de atitude chamado “Slipstream”, que chega às lojas americanas no próximo dia 10 de Abril.

Aqui, Bonnie está estreando numa nova gravadora. Por cautela, entregou a produção para o especialista Joe Henry – também um excelente artista solo e um arranjador muito criativo --, que soube explorar bem todas as possibilidades dela como artista já bem conhecidas do seu público, e outras um tanto quanto inusitadas.

Por exemplo: a idéia dele em transformar num reggae “Right Down The Line”, número clássico de Gerry Rafferty, é de uma ousadia impressionante. E o mais legal de tudo é que Bonnie encara desafios assim com uma jovialidade e uma galhardia impressionantes, mesmo aos 63 anos de idade.

Mas “Slipstream” tem muito mais a oferecer.

Tem duas canções de Bob Dylan: “Standing In The Doorway” -- inédita, que ela acaba de ganhar de presente dele -- e uma releitura de arrepiar do bluesaço “Million Miles” -- um clássico do repertório recente de Mr. Zimmerman, que está no LP "Time Out Of Mind" (1997).

Tem também várias canções dos amigos Al Anderson (ex-guitarrista do NRBQ) e Randall Bramblett (ex-guitarrista do Traffic), todas impecáveis e facilmente assovioáveis.

Se bem que as canções mais bonitas do disco são “Not Cause I Wanted To”, da jovem cantora-campositora Bonnie Bishop, e “You Can't Fail Me Now”, parceria do produtor Joe Henry com Loudon Wainwright III (hoje mais conhecido como o pai do Rufus Wainwright).

Tanto uma quanto a outra são parentes distantes daquelas baladas tristes de Eric Kaz – como a clássica “Love Has No Pride” --, que Bonnie Raitt costumava gravar -- melhor do que ninguém, diga-se de passagem -- em seus discos no início dos anos 70.

Desnecessário dizer que ambas são absolutamente desconcertantes. Para ouvir de joelhos.

Enfim, Bonnie Raitt está de volta, madura e intrépida, nesse turbilhão de novas emoções chamado “Slipstream” -- um disco para ouvir muitas e muitas vezes, pelo simples prazer de estar vivo.


INFO:
http://www.allmusic.com/artist/bonnie-raitt-p5222/biography

DISCOGRAFIA:
http://www.allmusic.com/artist/bonnie-raitt-p5222/discography

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