quarta-feira, maio 09, 2012

O RETORNO SEMPRE BEM-VINDO DE CRIS BRAUN NUM DISCO TERNO, DENSO E TURBULENTO



Sempre que alguém faz menção ao rock carioca dos anos 80 e 90, o assunto é invariavelmente Cazuza, Lobão, Barão Vermelho, Paralamas ou Kid Abelha.

Todo mundo parece ter esquecido que a cena roqueira carioca tinha um segundo time espetacular, que infelizmente passou batido do grande público na época -- o que condenou bandas brilhantes como Picassos Falsos e Sex Beatles a ficar restritos apenas ao circuito alternativo.

A gauchinha espevitada Cris Braun apareceu justamente como vocalista nos Sex Beatles, uma banda tão divertida quanto difícil de classificar -- parecia um cruzamento dos Mutantes com o Concrete Blonde, como algo assim fosse possível.

Ela dividia a cena com Alvin L, compositor e tecladista de gênio, e com o produtor e guitarrista Dado Villa-Lobos, dono do selo Rockit!.

Não duvidem: eles não só faziam música de primeira, como frequentemente passavam a impressão de estarem se divertindo no palco muito mais do que quem estava na platéia.
 

Talvez por isso mesmo, nenhum dos dois discos brilhantes que a banda gravou – “Automobilia” (1994) e “Mondo Passionale” (1996) -- tenha conseguido vingar, deixando a banda cheia de dívidas e com um futuro incerto demais pela frente.

Com o fim dos Sex Beatles, Alvin L saiu por aí e Cris Braun começou a flertar com uma possível carreira solo.

Deu no que deu: em 1997, com a ajuda de um time de amigos estelares, Cris Braun gravou e lançou seu primeiro disco solo, “Cuidado Com Pessoas Como Eu”, pelo selo Fullgás da amiga Marina Lima.

Apesar de muito bem recebido pela crítica, “Cuidado Com Pessoas Como Eu” falhou ao não conseguir amenizar um certo estranhamento que existia -- e talvez ainda exista até hoje, num grau bem inferior -- em relação à figura de Cris Braun. Como explicar sua atitude roqueira naquele repertório de MPB com arranjos bem pop e com um pé na música eletrônica?

Por essas e outras, “Cuidado Com Pessoas Como Eu” foi considerado MPB demais pelas rádios rock e roqueiro demais pelas rádios adulto-contemporâneo -- e acabou não sendo executado como merecia em nenhuma das duas modalidades de emissora.

Já no seu segundo disco, "Atemporal", gravado em 2004, Cris Braun, ao invés de tentar corrigir esse estranhamento, o incorporou às composições que fez em parceria com Gustavo Corsi e Billy Brandão, resultando num disco climático, nada afoito, repleto de convidados e com uma atitude roqueira bem relaxada, mas jamais adormecida.


E eis que, oito anos depois, Cris Braun volta com “Fábula”, uma nova coleção de canções estranhamente pontuais, onde promove um mix de rock and roll com ritmos nordestinos e baladas pop sem igual na música brasileira moderna.

Gravado parte com músicos de Alagoas, onde vive atualmente, e parte no Rio de Janeiro, "Fábula" é uma espécie de crônica roqueira da chegada à maturidade inevitável.

É um disco cheio de solavancos, onde Cris canta de forma serena o tempo todo, apesar das canções se alternarem com muita turbulencia, além de um viés existencial sempre muito envolvente e arranjos extremamente originais.

“Tão Feliz”, por exemplo, lembra um pouco Edu Lobo e Antonio Adolfo, mas ostenta um coro de vozes sintetizadas que Edu, por exemplo, jamais aprovaria – o que dá o diferencial nessa explosão bem dosada de melancolia.

Outro exemplo curioso é “Oscilante”, só com voz e batucada baiana -- uma brincadeira deliciosa que mescla imaginário pop com raízes africanas, como nunca alguém ousou fazer por aqui. 

E o que dizer do reggae “O Amor Calou”, todo levado no órgão, na sítara e na harmônica, e com referências a “Carinhoso”, de Pixinguinha, na letra? No mínimo, genial.

Tem ainda, entre outras coisas, releituras impecáveis de “Tanto Faz Para O Amor”, de Lucas Santana, e de “Deve Ser Assim”, de Marina Lima e Alvin L, que revelam em Cris Braun uma intérprete sofisticada e de uma sensibilidade ímpar.


“Fábula” é um daqueles discos aparentemente tortos que a gente deixa tocando o dia inteiro e ele -- assim, como quem não quer nada -- sai preenchendo todas as nossas horas com emoções genuínas dos mais diversos tipos.

É um trabalho envolvente, carinhoso, incômodo, cativante, delicado, truculento, ameaçador... Nada ao mesmo tempo agora. Mas tudo a seu tempo...

Cris Braun diz que “Fábula” não é pacato como o anterior “Atemporal” porque não foi concebido na paz da Serra Carioca, e sim à beira-mar, em Maceió, onde mora atualmente e convive com as turbulências que vêm do oceano.

Faz sentido.

Seja como for, “Fábula” é desde já um dos melhores discos desse ano, e afirma Cris Braun como uma cantora e compositora de primeiro time da música brasileira moderna -- que conseguiu, a duras penas, se ver livre do estigma de "artista esquecida e não-reconhecida dos anos 90".

Confiram os números musicais de Cris Braun nas janelas do YouTube logo abaixo.

Mas respirem fundo antes de cada um deles.



WEBSITE OFICIAL:
http://www.crisbraun.com.br/

AMOSTRAS GRÁTIS:

Um comentário:

cris braun disse...

!!!!!! grande Chico !